Os mesmos erros
1 Os mesmos erros... Em uma carta.
Notas iniciais
Talvez eu não seja o melhor em escrever esse tipo de coisa, assumo e tenho certeza disto, então quero que, ao ler esta carta, também saiba disso. Vou tentar melhor expressar-me aqui, que tal? Aceita essa proposta?
E se eu resolver contar-lhe tudo aquilo que lembro sobre você? Ou melhor, sobre nós? E se eu resolver lembrar-lhe de tudo que disse? Ficaria feliz? Ficaria chateado? Choraria? Provavelmente. Se eu o lembrasse de tudo acho que ficaria pasmo, porque me lembro de cada detalhe até hoje, e os escondo no fundo do meu coração. Sei o que pensa, se eu pudesse esquecer essas coisas, com certeza escolheria esquecer, mas simplesmente não posso. Por você e por mim. Acha que eu escolhi passar anos de minha vida a toa com você? Hunf... A toa não seria a melhor palavra, até porque estes tais anos nunca foram tão uteis. Desde que te conheci, passei a perceber que depois disso, nunca mais poderia te esquecer, afinal, é a pessoa mais inesquecível da qual literalmente consigo lembrar. De certa forma, esquecer de algum detalhe sobre você ainda me dói de um jeito incrível, então me esforço ao máximo para que isso não aconteça.
Certo, agora, pense comigo... O que provavelmente aconteceria se você nunca tivesse cruzado meu caminho? Poderia me responder? Porque eu realmente me veria perdido. Quer dizer, passei tanto tempo ao seu lado que mal poderia contar as tantas e diversas coisas que fizemos, ou melhor, mal poderia contar as inúmeras vezes que me salvou de tantas e que ficou ao meu lado como um bom amigo... Transformando-se muitas vezes em namorado sem minha percepção. Ah, que arrependimento cruel... Além de ignorar seu amor tantas vezes, o pior foi apenas poder retribuir depois de sua partida. Juro que quando soube... De seu suicídio, não pensei em mais nada além de me juntar a você o mais rápido o possível já que... Meu coração doía de um jeito incondicional, não como se eu apenas tivesse perdido um amigo, e sim... Bem. Isso não vem ao caso agora.
Sei que se eu lhe contar tudo que sei você não irá acreditar em mim. Irá achar que é tudo invenção da minha cabeça e que com certeza se lembraria se tivesse tido uma bela história comigo. O que de fato aconteceu, aconteceu, e não pode fazer nada para apagar o que está gravado na memória. Pelo menos não nas minhas memorias, as memórias de alguém que já se foi e voltou para corrigir os erros, não é mesmo? Um shinigami. Afinal, você também é um desses.
Digamos que eu resolva descrever em palavras todas as nossas noites em claro, bebendo, rindo e se divertindo antes de partirmos? Seria até engraçado, mas sinceramente, ainda não são as melhores memorias e não cheguei à melhor parte. Agora... Digamos que eu queira descrever em palavras o que foi para mim aquele “eu te amo” que você me disse no final de toda aquela bebedeira? Quem diria que estava falando a verdade... Quem diria que esse “eu te amo” estaria gravado em seus pulsos ensanguentados no dia em que te encontraram morto em seu apartamento. Quem diria que eu seria o culpado daquele “eu te amo”, que, de tão inocente mas sincero, foi mais uma palavra que ignorei. Quem diria que eu me culparia até hoje por isso...
Se soubesse o quanto repeti essas palavras com seu nome antes de partir...
Quando éramos apenas dois novatos em treinamento, sim, eu não me esforçava a lembrar de nada. Apenas borrões negros no lugar das memórias. Tudo era tão confuso naquela época. Você então, não lembrava de nada, e eu era grato a isso. Mesmo com esses borrões, algumas coisas ainda voltavam a me atormentar. Lembrava-me da cor do seu cabelo e do jeito que sorria torto, realmente as coisas mais adoráveis e marcantes sobre você. Não o reconhecia, mas tomava-te como amigo mesmo sendo chato e exibido com sua nota “AAA”. Tentava melhorar as coisas, sendo obediente com o trabalho, não dizendo uma se quer palavra durante seus falatórios sobre o quanto os humanos eram inúteis e nojentos. Queria fazer de tudo para não cometer os mesmos erros que cometi na vida passada. E não foi que... Eu consegui repetir as mesmas coisas? Após nosso primeiro trabalho, fiquei tão centrado na importância das outras almas que acabei por voltar a ignorar-te daquela mesma maneira de antes. É duro para eu também ter que assumir isso, mas é a verdade e você sabe muito bem. Realmente... Ainda é confuso para mim. E se você lembrar de tudo? Lembra? De tudo não... Não é possível. Mas de certas coisas, tenho certeza que sim. Acho... Melhor continuar guardando tudo que sei para não acabar por confundir-lhe também. Que tal... Continuar como está? Afinal, eu não posso ter certeza do que sente. Não posso ter certeza de que não se lembra de nada, ou melhor, que lembra de alguma coisa sobre nós. Mas... Continuar com a culpa?
É. Pelo visto você ainda tem que me esclarecer algumas coisas. Muitas coisas. Acho que poderia escrever outra carta apenas com as perguntas que tenho a fazer. E que... Ao ler esta, saiba que nunca vou conseguir me desculpar o suficiente. Seja o que for apenas peço para que não... Se esqueça de mim. De maneira alguma. Como eu acabei de dizer, não sei como se sente, realmente não sei, mas daria de tudo para que tudo voltasse a ser como antes. Daria de tudo para concertar o que fiz, ou o melhor, para evitar sua dor. Ignorar-te daquele jeito sim, foi cruel, tanto que te levou a tirar a própria vida por mim...
Espero... Que apenas possa apenas me perdoar.
–Do seu eterno “amado”, ou “amigo, ou apenas “conhecido”...
William T. Spears.
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