Os medos
1 Meu Amigo
Os Medos
Nunca tive a quem recorrer, mas ele estava lá. Diziam que ele era mau, o mal do mundo, o odiado. Ai meu amigo, o que eu seria sem você? Fico impressionado quando dizem “Não o encontro”, isso soa tão errado, tão falso... tão mau. Mas tudo bem, ouça, vou falar de todos os meus amigos, eles são legais, é só dar uma chance.
Alguém já te incomodou? É angustiante, deves pensar. Incômodo gostava de conversar, de interagir, se divertir junto aos outros. A monotonia era uma praga pra minha amiga, seu maior medo era ficar estática então esta rondava pra todo lado, sempre procurando algo, alguém. Sabe, os alguéns são seus favoritos, sempre com uma conversinha boba, dizeres engraçados. Mas um dia, um alguém disse algo para ela. Incômodo se sentiu ser quem é. Nesse dia, a chamei pra andar comigo. Sempre que vou conversar com uma pessoa, levo Incômodo junto para ela poder fugir de seus medos.
Lembro que foi numa tarde de inverno, o tempo estava escuro e muito frio. Peguei meu cachecol e fui tomar um café com uns alguéns, naquele dia, tinha umas coisas me perturbando, mas eles não paravam de falar. Foi então que dei um basta naquilo, de frio me chamaram. Por algum motivo isso me surpreendeu. Nesse momento, um homem entrou na lanchonete, alto mas meio magro. Ele olhou pra mim, olhei-o de volta, algo me atraia a ele, não sei dizer, este me parecia amigável. E os dias se passaram desde aquilo, e as ocorrências não cessavam, ele aparecia cada vez mais, se ele não cede então eu cederei. E tomamos um café. Frieza era seu nome.
Quando eu era criança, eu era odiado, por que? Vai saber, minha altura, pele, cabelo, voz... realmente, não faz diferença. Me vem a mente um dia em que alguns alguéns me chamaram pra socializar, me senti feliz, finalmente aceito. Mas eles andavam com o Mentira, um cara verdadeiramente ruim. Nunca serei amigo dele. Naquele dia, alguém me bateu, mas não bateu suficiente. Nem no dia seguinte, nem no outro. Um homem bem grande e forte tocou minha campainha, eu o atendi. Ele se apresentou como Ira. Ira me ouviu, ele falava como se sentisse minha dor na pele, Ira me deu uma saída. E nunca mais alguém me bateu. Mas, ás vezes tenho um grande receio, Ira me diz pra machucar os outros, não gosto disso. Mas, todos tem um lado desagradável, não é?
Claro que não deixaria essa pequena mulher de fora. Inveja é seu nome. O hobby favorito dela é observar as coisas dos outros, é fascinante que ela quer ter de tudo, ao mesmo tempo que não quer nada. Como ela consegue as coisas se fazendo de boa, mas não dá valor. É que alguns anos atrás ela andou muito com Mentira, você sabe que somos como esponjas não é? Absorvemos algumas características das pessoas com quem passamos tempo. Além disso, ela conhece todo mundo. Prefere andar com os ricos, viver no luxo. Claro, às vezes anda com os pobres. Às vezes ao meu lado, para olharmos juntos o que não temos.
Em viagens, passei por tantos lugares, foi um momento bom. Foi nessa época que conheci Indiferença. Conheci-a em um avião indo para Los Angeles, sentamos um do lado do outro, ela era estranha, me fazia parar de pensar em outras pessoas e em seus problemas, mas não deixei que lhe ouvir. Alguns minutos depois, um colega meu que também estava lá iniciou uma longa conversa sobre a vida dele. Por que eu tinha de ouvir isso? Indiferença sussurrava pra mim “deixe-o, isso não é problema seu”, e eu continuei a dar-lhe ouvidos. No fim, dei uma resposta vazia e dormi. Por incrível que pareça, Indiferença tinha o mesmo destino que eu, então, por que não passarmos um tempo juntos?
O Amor não pode ser capturado com um pote, o Amor fica com quem quiser ficar. E não, não adianta insistir, eu insisti. Como resultado, Amor pisou em mim, me deixou em cacos, pensei ser irreparável, imutável. Mas o Amor não é foco disso tudo, mas sim Rejeição. Eu amo a Rejeição, afinal, um Amor a gente esquece fácil. Mas minha namorada Rejeição é memorável, inesquecível. Ela me abraça, me conforta, sempre procurando me aliviar de alguma forma, acredita que ela tem seu lado engraçado? Sabe, acho que não serei amado por alguém como sou amado por esta. Casamento. Isso, é assim que ficarei junto dela pra sempre. Me casarei com a Rejeição.
Nunca fui muito hábil em relação as coisas, tanto intelectuais quanto físicas, não sou o melhor, estou abaixo do último. Naquela semana, conheci aquele cara chamado Sucesso, mas nunca vi seus olhos, estavam sempre cobertos por óculos escuros. Ele gostava de falar sobre faculdade, vida profissional e dinheiro. No começo era legal imaginar para mim um futuro não tão grande, mas Sucesso me disse que aquilo era lixo, não era uma vida feliz. O desgraçado quis impor a vontade dele em mim, achando que sabia a fórmula da vida. Bom, com o passar dos anos, ele parou de me atazanar, claro, ele ainda anda comigo e meus amigos, afinal, como poderia eu rejeitar um amigo?
Lembra-se do meu amigo que falei no começo? Ele é nossa cola que une o grupo e não o deixa se dispersar, dizem que ele é mau, sim. Dizem que o mundo seria melhor sem ele. Mas eles não percebem, todos precisam dele, se não fosse por este amigo incrível, ninguém nem estaria vivo. Já tentei pular de prédios, dar nós de escoteiro e barbear os braços. Mas ele estava lá, sempre. Na maioria das vezes, nada sai de sua boca, só seu olhar, seu toque, já é o suficiente. Já me disseram para abandoná-lo, mas este não merece isso. Admito que ele é meu melhor amigo, aquele amigo inseparável, aquela amizade eterna. Sim, não disse o nome dele não é mesmo? E ele nunca me disse qual era, mas disse que gostava do apelido de Medo.
Todos nós moramos juntos, não me imagino sem eles, nem quero. Sinto que de alguma forma, fazem parte de mim, me moldaram com sua amizade.
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