Os filhos do tigre

10 O amor - Anik


Depois de beijar Radha, eu tive a certeza de que estava apaixonado. Eu a queria e vi em seus olhos que ela também me queria. Nossos lábios se tocaram apenas por um instante, mas naquele breve momento, pela primeira vez, eu senti que todas as coisas faziam sentido. Eu senti paz pela primeira vez em muitos dias, desde que eu soubera da origem mística da minha família. Mas Radha fugiu de mim.

Ela correu de volta para o acampamento e eu corri atrás dela. Quando cheguei, meu pai estava de pé, em frente à sua tenda, segurando uma caneca. Ele encarava Radha, que o olhava assustada. Então, meu pai virou-se para mim.

— O que está acontecendo? Onde vocês dois estavam?

— Pai eu...

— Eu me afastei do acampamento para meditar na clareira e o senhor Anik ficou preocupado— Radha me interrompeu— Não é nada senhor. Eu só queria ficar sozinha.

— Radha!

Eu a chamei, mas Radha correu de volta para a sua clareira. Meu pai segurou meu braço e me olhou com carinho e firmeza.

— Meu filho, você quer me contar o que está acontecendo?

Suspirei e olhei nos olhos de meu pai.

— Eu tenho quase certeza de que a amo!

Meu pai me conduziu para o interior da tenda e eu me sentei. Ele me ofereceu uma caneca com água e sentou-se de frente para mim, com as pernas cruzadas.

— Você já se apaixonou antes Anik?

— Não pai. Eu nunca me interessei por nenhuma mulher antes. — Eu ri — uma vez, Kamala perguntou se eu era gay. Eu disse a ela que nunca me interessei por nenhum homem também.

Papai riu.

— A verdade pai, é que eu nunca me preocupei com isso. Eu sempre gostei de ler e de estudar, e achava que isto me bastava. Mas desde que eu olhei nos olhos de Radha pela primeira vez, eu senti que algo estava faltando, que eu precisava me encontrar. E quando eu a beijei na clareira, eu descobri o que era. Era Radha o que estava faltando. Mas ela fugiu de mim.

Meu pai me olhou nos olhos, sério, por alguns segundos, então colocou a caneca de lado e tocou meu ombro.

— Anik, eu amo a sua mãe desde a primeira vez que a vi, quando eu ainda era um tigre. Kelsey me ajudou a me lembrar de quem eu era e a ser livre outra vez. Apesar de tudo o que enfrentamos, eu nunca tive dúvidas de que ela pertencia a mim. E eu a ela. Se você sente isso por Radha, conquiste-a. As barreiras entre vocês não são místicas. Elas são muito mais complicadas do que isto. São barreiras culturais.

— Do que você está falando pai?

— Filho, você nasceu nos Estados unidos e sua mãe é americana. Mas eu sou indiano, assim como Radha. E aqui, nesse país, as pessoas ainda são muito ligadas aos costumes antigos. Radha é de uma casta inferior à nossa e isto pode impedir vocês de ficarem juntos.

— Mas pai, você se importa com isso? Você tentaria me impedir de ficar com Radha, mesmo sabendo que eu a amo?

— É claro que não meu filho! Mas Radha acredita nos Deuses. E ela acredita nas castas. Talvez ela queira se afastar de você por causa disso. Seja paciente Anik.

— Eu serei. Farei o que for preciso para ter Radha comigo. Eu quero que ela seja minha esposa.

— E bastou um beijo para você ter essa certeza Anik?

— Não pai. Bastou olhar nos olhos dela.

Na manhã seguinte, acordei cedo. Mamãe e Radha já estavam prontas e tomavam o café da manhã: barras de cereais e algum tipo de chá.

— Bom dia filho. Dormiu bem?

— Bom dia mãe — Eu lhe dei um beijo na bochecha.— Dormi mais ou menos.

Olhei para Radha, mas ela manteve os olhos em sua xícara.

— Nossa, eu achei que não ia conseguir dormir tão bem na selva sem um tigre. Mas eu dormi. E me sinto melhor do que nunca. Estou ansiosa para chegar. Vá acordar seu pai, Anik, por favor.

— Não precisa, eu já estou pronto!

Papai deu um tapinha em minhas costas e um beijo rápido em mamãe.

— Bom dia iadala. Bom dia Radha.

—Bom dia senhor Dirhen.

Papai pegou uma barra de cereais e começou a juntar as coisas para irmos. Em poucos minutos, estávamos de volta à estrada.

Caminhamos naquele dia silenciosamente. Notei que papai e mamãe seguiam atrás, mais devagar do que Radha e eu. Imaginei que estivessem falando sobre meus sentimentos recém descobertos. Papai deve ter contado à mamãe sobre nossa conversa na noite anterior. Eu não me importava. Não tinha nada a esconder e, se dependesse de mim, em breve todos saberiam que eu estava apaixonado.

Radha seguia apressada à nossa frente. Eu tentava acompanhá-la, mas ela acelerava sempre que eu me aproximava. Eu queria falar com ela sobre o beijo, mas ela estava me evitando. Eu resolvi dar algum tempo a ela e a deixei andar na frente.

No fim da tarde, chegamos à tal cabana de Phet. Radha entrou primeiro, atravessando o jardim e seguindo para dentro da pequena casa, seguida por mamãe e papai. Eu entrei por último.

Assim que entrei na pequena casa, senti-me estranho, uma sensação de que já estivera naquele lugar antes. Eu olhei ao redor e era como se eu reconhecesse cada centímetro daquele luga: o pequeno fogão à lenha e as panelas simples e brilhante, a pequena mesas com cadeiras e a cama. Havia uma banheira no canto. Mamãe emocionou-se ao olhar para ela, lembrando-se do primeiro banho que tomara ali. Ela comentou que tudo estava igual.

— Eu venho aqui às vezes e arrumo tudo. Eu cuido do jardim e das ervas de Phet. Se a senhora quiser tomar banho, eu posso encher a banheira.

— Claro que não Radha!— Falou meu pai — Eu mesmo vou preparar o banho da minha esposa.

Papai olhou para mamãe e os olhos de ambos brilharam. Eu pude finalmente reconhecer o que era a paixão dos dois naquele olhar. Radha respondeu:

— Sim senhor. Eu e o senhor Anik vamos cuidar do jardim, e depois que vocês terminarem, vou preparar o jantar.

Fiquei feliz por ficar sozinho com Radha. Eu a segui até o quintal e ela imediatamente começou a mexer nas plantas, arrancando as ervas daninhas e limpando as hortas. Eu me abaixei para ajudá-la e, surpreendentemente, soube imediatamente o que fazer.

Comecei a arrancar com as mãos, todo o mato que estava ao redor das ervas. Então, com uma tesoura, comecei a podar as plantas que precisavam ser podadas. Quando terminei, ergui a cabeça e vi Radha me olhando com um leve sorriso. Ela não parecia surpresa. Eu sorri para ela.

— Senhor Anik? O senhor poderia colher algumas plantas para o jantar? Preciso de mostarda, coentro, pimentas, folhas de caril e bananas.

Comecei a colher o que ela tinha me pedido. Foi tão natura, que só depois de ter terminado o trabalho, percebi que eu fiz tudo certo, mesmo sem nunca ter cuidado de uma horta antes. Radha notou minha confusão e me falou, enquanto recebia as folhas:

— O senhor está se lembrando!

— Estou me lembrando de quê Radha?

— De quem o senhor é.

Mais tarde, naquela mesma noite, depois que meus pais foram dormir, Radha veio até mim. Ela me chamou para meditar com ela. Eu nunca tinha meditado antes, mas eu não podia negar o pedido. Era uma forma de me aproximar da mulher que eu amava.

Radha me disse o que fazer e eu me sentei, seguindo suas orientações. Então ela começou a entoar uma canção doce e suave. Eu a ouvia e sentia meu corpo relaxar. Eu comecei a ouvir Radha repetir baixinho:

Om Namah Shivaya

Ela foi repetindo esse mantra e sua voz suave foi ficando mais baixa, mais distante, até eu quase não ouvi-la. Então eu comecei a visualizar algumas cenas: Um garoto de olhos escuros montado em um tigre negro. O mesmo garoto deitado entre um homem e uma mulher, todos com os olhos fechados. Esse garoto, agora mais velho, brincando com um bebê de olhos azuis, como os de meu pai. Então um homem, talvez da minha idade, sentado como eu estava, meditando ao lado de duas mulheres. Aquelas pessoas me eram familiares, mas eu não me lembrava de quem eram. Então eu vi um homem velho e magro, segurando a mão de uma garotinha magra e suja. Os olhos verdes da garotinha eram inconfundíveis: Radha. De repente eu despertei e já havia amanhecido. Olhei para Radha, surpreso.

— O senhor viu?— Radha perguntou.

— Eu vi. Aquele era eu?

Radha sorriu, mas não me respondeu. Ela levantou-se e estendeu a mão, apontando para a casa.

— É hora de vocês conhecerem a outra parte da história.

Radha e eu entramos na casa. Era bem cedo e meus pais ainda dormiam. Eu me sentei na cadeira enquanto Radha começou a pegar vários potes e misturar os ingredientes que estavam nele. Então ela misturou com água e colocou açúcar. Em seguida, Radha me entregou o copo com a bebida.

— O que é isso Radha?

— Este é o soma. A bebida dos deuses. Você precisa beber.

— Radha, o que é isso? — Minha mãe gritou apavorada.

Radha olhou calmamente para os meus pais, que levantaram-se imediatamente da cama, então começou a falar.

— Senhora Kelsey, a senhora se lembra, não é mesmo?

— Lembro-me de quê?

— Lembra-se da bebida que Phet deu a Kishan. O soma.

— Sim, eu me lembro.

— E a senhora sabe o porquê de Kishan ter tomado o soma? E porque só ele o tomou?

— Eu nunca soube a razão disso.

Radha caminhou até um pequeno armário e pegou uma caixa grande. Então ela abriu a caixa e tirou uma pequena bolsa de pano lá de dentro. Então ela puxou um cordão e o mostrou a meus pais.

— É o meu amuleto?— perguntou meu pai.

—Sim. Essa parte do amuleto de Damon que controla o tempo. Phet o usou para atravessar o tempo, até desenvolver essa capacidade sozinho. Então, antes de ir embora, ele o levou de volta e o entregou a seu bisavô, senhor Dirhen.

— Phet atravessava o tempo? Isso explica muita coisa.

— Sim senhora Kelsey. A senhora me disse que queria visitar o túmulo de Phet, mas eu temo que isto não será possível.

— Por que não? Onde Phet foi enterrado?

— Eu realmente não sei senhora Kelsey. Phet não morreu aqui. Ele não pertencia a este tempo. Quando Phet se foi, ele me disse que sua missão aqui havia terminado, por isso, ele voltaria a seu próprio tempo e assumiria seu lugar, ao lado de seus pais. Então Phet retirou seu disfarce e me mostrou sua verdadeira face.

— Radha, você está me dizendo que Phet não era um velho xamã da floresta?

— Não senhor Dirhen. O xamã era apenas um disfarce. Phet era um Deus, nascido há mais de dois mil anos. Seu nome é louvado em toda Índia. O verdadeiro nome de Phet é Ganesh, e sua verdadeira forma é gloriosa!

Mamãe e papai estavam boquiabertos. Eu por outro lado, ouvia o que Radha dizia, como se já conhecesse aquela história.

— Então, Phet é Ganesh? Ele tem uma cabeça de elefante?

— Não senhora. Ganesh tem o rosto muito bonito. Ele preferia não mostrá-lo ao mundo. Isto era parte de seu sacrifício. O Deus tinha como função, servir à Deusa mãe e guiar seus avatares, para que o destino de Durga se cumprisse.

— Então Phet não morreu?

— Ah, sim. Ele morreu. Não aqui, nem nesse tempo. Phet teve uma vida de missões e sacrifícios. Ele amou uma vez, mas teve que abrir mão da mulher que amava para cumprir seu destino. Mas ele prometeu à sua mãe que renasceria e então teria uma vida mais leve.

Mamãe olhou curiosa para a caixa que estava sobre a mesa.

— Posso ver o que mais tem nessa caixa Radha?

— Sim senhora. Tenho certeza que reconhecerá alguns objetos.

Mamãe abriu a caixa e seus olhos brilharam.

— Ren, você não vai acreditar.

Mamãe retirou uma espécie de concha e mostrou a meu pai.

— É o Kamandal?

— Sim. E olha o que mais eu encontrei. O colar de Durga.

Meus pais foram retirando outros objetos da caixa. Havia um lenço branco, um fruto dourado e uma corda. Segundo eles, cada um daqueles itens era um presente da Deusa Durga e conferiram poderes a eles na luta contra o demônio Mahishasur, ou Lokesh.

— Eles não possuem mais seus poderes mágicos?

— Não. Os poderes se perderam quando não se fizeram mais necessários.

— E Fanindra, o que houve com ela?

— Fanindra voltou a ser um animal comum. Ela vive nessas matas e, de vez em quando, vem me visitar aqui.

Mamãe sorriu. Papai a abraçou e beijou sua cabeça. Eu ainda tinha perguntas a fazer.

— O que é essa bebida e porque eu tenho que tomá-la, Radha?

Radha ficou séria.

— Antes de ir embora, Phet disse que nos reencontraríamos nesta vida. Ele me disse que eu o reconheceria e que seria a minha missão lembrá-lo de quem ele é. Através de uma vida de sacrifícios, Phet tornou-se muito sábio. Por isso, nessa vida, ele conseguirá se lembrar de sua missão. Basta ele tomar o soma.

— Você acha que meu filho é a reencarnação de Phet?

— Eu tenho certeza senhor Dirhen. Tenho certeza que se Phet pudesse escolher, ele seria filho de sua mãe também nesta vida.

— Hã? Não estou entendo nada.

Enquanto Radha e papai conversavam, minha mãe pegou algo na caixa e encarava o objeto, com a mão na boca e lágrimas nos olhos.

— Ren! Olha o que eu encontrei.

Meu pai aproximou-se de minha mãe e pegou o objeto de sua mão.

— Este é Kishan?

Radha respondeu sorrindo:

— Phet guardou esta pintura por muitos séculos. Foi feita por um homem que visitava a morada dos Deuses, onde seus pais viviam. Este é Kishan, o poderoso Deus Shiva, sua esposa e seus filhos Ganesh e Kartick.

Os olhos de papai se encheram de lágrimas.

— Então Phet era filho de Kishan? Meu sobrinho?

— Sim, senhor Dirhen.

Mamãe voltou a olhar a imagem e eu me aproximei para ver também.

— Mas ela não se parece com Anamika...

— Não.— Meu pai respondeu surpreso — Ela é Yesubai!

— Mas como? Yesubai não morreu?

Radha nos contou toda a história de meu tio Kishan e de como Anamika, a deusa Durga, sacrificou-se para trazer Yesubai de volta a vida. Ela também contou que mamãe era a reencarnação de Yesubai, que renasceu para cumprir seu destino e matar Lokesh. Então eu compreendi.

— Radha, eu desejo tomar o soma agora.

Meus pais me olharam emocionados. Mamãe tocou meu ombro.

— Tem certeza meu filho?

— Sim mãe. Eu preciso me lembrar e cumprir meu destino.

Então eu me sentei, segurei a xícara simples e encarei meu destino.