Eu fiquei muito surpresa quando Robert me falou sobre a discussão entre meu pai e Sohan. Eu nunca esperaria uma atitude assim de Sohan.

— Este ramo é muito competitivo Kamala. É provável que Sohan desejasse o cargo que era da mãe dele, afinal, vocês são família. Eu cheguei agora na empresa e ele talvez esteja com raiva.

— Não sei Robert, Sohan nunca foi assim, invejoso e ganancioso.

— As pessoas mudam.

— Talvez. Mas esta acusação deve ter deixado meu pai muito chateado. Sohan deveria saber que ele nunca daria este cargo a alguém que não fosse competente. E ele deveria saber o quão competente e brilhante você é.

— Ah, é? Então você me acha brilhante?

— E competente.

— Mas, competente em que áreas?

Eu sorri.

— Em todas as áreas que eu tive a oportunidade de conhecer. Tudo o que eu te vi fazer até agora, me deixou impressionada.

— Ah é?

A voz de Robert soou sussurrada e sensual. Ele me lançou um olhar sedutor, então levantou-se do sofá e caminhou em minha direção, alcançando-me na cozinha. Eu parei o que eu estava fazendo e me virei para ele, que me agarrou pela cintura, puxando-me para perto de si.

— É sim. — Minha voz falhou.

Robert me beijou ardentemente, levou a mão até o meu cabelo, que estava preso em um coque e o soltou.

— Acho que vou te mostrar uma ou outra coisinha que você ainda não conhece. Espero que ainda me ache competente.

Eu mordi o lábio e Robert me ergueu em seus braços, voltando a me beijar, e me carregou até o quarto.

Alguns dias depois, Robert recebeu um telefonema de Sohan, desculpando-se pelas "acusações infundadas" e reconhecendo sua competência para o cargo.

O meu relacionamento com Robert estava cada vez mais sério. Nós praticamente morávamos juntos, já que, quando ele não dormia em minha casa, eu dormia na dele. Nós fazíamos tudo juntos e era maravilhoso.

Eu estava quase me formando, então, ajudava Robert com o trabalho. Eu passei a conhecer mais profundamente as empresas e me sentia pronta para assumir meu lugar nos negócios.

Papai confiava muito em Robert e passou a delegar mais responsabilidades a ele, que praticamente havia tomado o seu lugar nas empresas. Eu sabia que meu pai queria se aposentar e compreendia sua confiança em Robert, eu também confiava nele. Mas me incomodava um pouco este papel que Robert vinha desempenhando. Eu esperava que papai confiasse a mim o papel de sua sucessora.

Então eu finalmente me formei.

Eu fui a oradora da minha turma e toda a família veio me prestigiar: meus pais, meu irmão e Radha, meus avós Sara e Mike, Rebecca e Samuel, tia Nilima e tio Sunil, Sohan e Robert. Meus pais deram uma grande festa para comemorar minha formatura. Papai fez questão de convidar os principais executivos da empresa e me apresentar formalmente a eles, dizendo-lhes que eu começaria a trabalhar imediatamente. Eu estava muito feliz e animada com a nova fase da minha vida, que estava prestes a iniciar-se. Então Robert me pegou de surpresa.

Em um determinado momento, quando todos estavam bem à vontade e interagindo entre si animadamente, Robert pediu para que todos prestassem atenção a ele. Então todos nos viramos e ele começou:

—Há cerca de dois anos, uma aluna me procurou em meu escritório para tirar-lhe algumas dúvidas. Ela chamou minha atenção por sua dedicação e interesse. Eu respondi a todas as suas perguntas e depois a levei para jantar. E então ela nunca mais saiu da minha vida. E minha vida nunca mais foi a mesma. Kamala trouxe luz à minha existência e me faz feliz a cada dia. É por isso que eu tenho a certeza de que a quero sempre comigo.

Robert desceu do pequeno palco onde se encontrava e caminhou em minha direção, então, parou diante de mim. Eu não conseguia desviar meus olhos dele. Robert pegou algo de seu bolso e falou:

— Você foi a melhor coisa que já me aconteceu.

Ele ajoelhou-se diante de mim e abriu a pequena caixa que estava em sua mão, estendendo-a para mim:

— Meu amor, aceita casar-se comigo?

Houve murmúrios surpresos. Olhei rapidamente ao redor e vi olhos emocionados e sorrisos. Eu estava emocionada, porém um pouco constrangida.

Eu era feliz com Robert, nossa relação era maravilhosa. Não era como a dos meus pais, nem mesmo como a de Anik e Radha, mas eu sabia que um amor assim era raro. Olhei para minha mãe e ela parecia emocionada, talvez um pouco triste. Meu pai estava sério, assim como Anik e eu não consegui identificar os sentimentos deles. Voltei meus olhos para o belo homem que estava ajoelhado diante de mim e sorri.

— Sim. É claro que eu me caso com você.

Poucos dias após a formatura, comecei a trabalhar na empresa. Eu não tive nenhum problema para me adaptar. Eu conhecia a maior parte dos executivos americanos e também dos indianos e, em breve, iria com meu pai e Robert a uma reunião na sede japonesa, onde seria apresentada à diretoria.

Eu estava muito feliz e realizada.

Meu pai foi deixando os negócios aos poucos e apenas alguns meses depois que eu comecei a trabalhar, ele afastou-se definitivamente. Papai assinou um documento nomeando Robert como presidente da empresa por seis meses, sendo que depois deste período, a diretora deveria eleger um novo presidente entre Sohan, Robert e eu. Além disto, papai abriu mão de suas ações na empresa, assim como fez Nilima, passando-as para mim e para Anik.

Depois que Robert e eu ficamos noivos, as coisas ficaram diferente entre nós. Robert só falava sobre o casamento e queria que eu me dedicasse a este evento. Segundo ele, estava ansioso para dividir a vida comigo e não era mais tão jovem para ficar noivo por anos. Ele queria que nos casássemos em, no máximo, um ano.

Eu realmente queria me casar com Robert, eu o amava. E não me importaria de casar logo, este não era o problema. O problema era que o casamento não era minha prioridade. Eu precisava trabalhar muito e me preparar, antes de concorrer à presidência da empresa.

Eu achava importante que o controle das indústrias permanecessem em nossa família, afinal, este era o legado dos Rajaram. E este era o meu desejo, ser a presidente da empresa. Eu tinha muitos planos, mas sabia que seria difícil conseguir se eu não me dedicasse muito.

Eu pensava em tia Nilima. Ela trabalhou com o senhor Kadam por muitos anos, ela foi seu braço direito e sabia tudo sobre as empresas. Nilima era muito competente, forte e inteligente, ela tinha garra e dedicou sua vida àquela empresa. Mas no fim, meu pai, mesmo sendo mais jovem e inexperiente, mesmo sendo ainda um estudante universitário, foi quem assumiu a presidência. Eu pensava que, se Nilima fosse um homem, será que meu pai teria sido nomeado? Eu não deixaria que o que aconteceu com ela, acontecesse comigo. Eu não ficaria à sombra de um homem.

Por causa da minha dedicação ao trabalho, eu não tinha tempo para cuidar das coisas do casamento, então, Robert e eu começamos a ter alguns atritos. Ele pediu para que eu me afastasse um pouco do trabalho e voltasse quando estivéssemos casados, dali há alguns meses, mas eu me recusei, o que o deixou chateado.

Aos poucos, minha relação com Robert foi esfriando. Nós dois percebemos que um não era exatamente o que o outro esperava. Nós tínhamos expectativas diferentes um do outro. Nós ainda nos amávamos, mas estávamos nos afastando.

Como presidente da empresa, Robert era perfeito. Sohan havia assumido a vice presidência, o que me colocava em desvantagem diante dos dois. Robert sem dúvida era o mais cotado para continuar no cargo, já que ele havia duplicado nossas produções, trazido mais investidores e aumentado muito os lucros da empresa. Ele já tinha até mesmo o apoio de Sohan. Eu decidi pedir ajuda ao meu irmão para conseguir atingir meu objetivo.

Cheguei à fazenda onde Anik vivia e fiquei impressionada com a quantidade de pessoas que viviam ali, era realmente uma comunidade. Já fazia muito tempo que eu não visitava meu irmão em sua casa. Na época em que o visitei, havia umas cinco casas além da dele por ali, agora eram dezenas.

O que também me impressionou, foi a sensação de paz que eu senti quando cheguei ali. As pessoas sorriam tão naturalmente, andando descalças, tocando a terra com as mãos, colhendo frutos das árvores. Tão diferente do que eu vivia nos últimos meses, sempre dentro de escritórios com ar condicionados, ou diante de linhas de produção modernas, automatizadas, pessoas apressadas, sérias, formalmente vestidas, sorridentemente formais. Pensei se Robert aceitaria que nossa cerimônia de casamento fosse naquele lugar.

Eu estava procurando pela casa de meu irmão, quando Radha me achou. Ela tinha as mãos sujas de terra e acenou para mim de longe, então, lavou as mãos e veio até mim. Radha me abraçou e eu retribuí com carinho.

— Que bom que você veio nos visitar! Anik vai ficar muito feliz.

— E onde está meu irmão?

— Ele foi até a cidade, mas já deve estar voltando. Venha, vamos entrar. Eu vou fazer um chá para nós.

Entrei na casa de Radha e fiquei impressionada, tanto pela simplicidade quanto pelo aconchego. A casa era pequena, mas confortável. Os móveis eram simples, artesanais e bonitos. A casa cheirava a flores e ervas. Havia um pequeno sofá e o chão era repleto de almofadas coloridas sobre um tapete macio. A cozinha e a sala eram separadas por uma pequena bancada, onde havia algumas cadeiras dos dois lados. Radha foi à cozinha para preparar o chá e eu me sentei no chão sobre as almofadas.

— Anik me disse que você tem trabalhado muito. Fico feliz que você tenha arranjado um tempo para nos visitar. Anik sente sua falta.

— Ah, na verdade, eu vim conversar com ele sobre o trabalho. Eu preciso da ajuda dele.

Radha me entregou a xícara e sentou-se diante de mim, segurando a outra xícara, Eu provei o chá e estava delicioso.

— Este chá vai te ajudar a relaxar. você parece tensa Kamala. É por causa do trabalho ou do casamento?

Eu ri.

— As duas coisas. É muito difícil conciliar, principalmente quando se trabalha com o noivo e discorda dele em alguns assuntos.

— Sobre os negócios ou sobre o casamento?

Eu ri novamente.

— Sobre ambos. Sabe o que é, Robert quer que eu me afaste do trabalho até o casamento, para que eu tenha tempo para cuidar de tudo. Por outro lado, a gestão dele na empresa é muito embasada no lucro. E ele é muito competente neste assunto, por isso tem o apoio de toda a diretoria das Indústrias Rajaram. Eu gostaria de algo diferente. Gostaria que a empresa continuasse um ambiente familiar, mesmo sendo tão grande e que continue priorizando o bem estar dos funcionários.

Radha me encarou por um tempo, como se estivesse me avaliando, então colocou a xícara no chão, segurou minha mão e sorriu para mim.

— Você precisa de um tempo. Um tempo para você. Faça uma viagem, vá conhecer o mundo! Mas não o mundo que você já conhece. Vá para a Índia!

Eu ri.

— Mas Radha, eu já conheço a Índia muito bem. Esqueceu que meu pai é indiano e minha mãe é professora especialista em Índia?

— Eu não me esqueci. Você não conhece toda a Índia Kamala. Vá ao meu vilarejo, vá visitar as casas dos funcionários da sua empresa, mas não dos diretores. Vá aos bairros onde vivem os faxineiros. Visite as cidades mais populosas, os bairros mais pobres, a vilas rurais. Vá aos países vizinhos. Vá à América Latina. Esqueça a Europa, os hotéis de luxo, os pontos turísticos. Faça uma viagem para conhecer o mundo de verdade, como ele é. Depois tome as decisões que você precisa tomar. Sobre o amor, e sobre os negócios.

Pensei no que Radha falou e ela tinha razão, eu precisava conhecer o mundo de verdade.