Os fantasmas em minha vida.
4 Pode ser reação química CAPÍTULO 03
– O que está acontecendo entre você e a Julie? – Pergunta Félix, colocando o baixo no suporte.
– Eu não sei do que você está falando. – Responde Daniel, enquanto dedilha algumas notas aleatórias em sua guitarra.
– Sim, claro que não sabe. – Ironiza Martim, trocando olhares com Félix. – Vocês estão se estranhando desde que ela marcou esse encontro.
– Vão começar com isso de novo? – Resmunga Daniel, colocando a guitarra de lado. – Eu não dou a mínima para o que a Julie faça, contanto que seus atos não atrapalhem a banda.
Os outros dois fantasmas olhavam preocupados para Daniel, notavam que o mesmo estava sofrendo um sério caso de ciúmes, que mal conseguia disfarçar seu desconforto. Suspiraram e deram leves tapinhas nas costas do amigo, deixando-o sozinho na edícula.
Daniel ficou parado no mesmo lugar, petrificado. Sabia que naquela noite Julie estaria novamente nos braços de outro e sentia calafrios de pensar nisso, sentia uma terrível vontade de trancá-la no quarto e jogar a chave fora.
– Droga. – Resmungou Daniel, sentando-se no sofá de vinil, sentindo-se inconsolável.
__________________________________________________________
– Então, o que você acha? – Pergunta Julie, parando na frente de Bia pela décima vez.
– Está ótima. – Responde Bia, olhando entediada para a amiga. – Mas já estava ótimo no sexto vestido.
– É que eu ainda não sei o que vestir. – Fala Julie, olhando-se no espelho. – E se eu disser alguma besteira? E se eu falar de boca cheia? E se eu não gostar do filme?
– E se ... E se ... E se ... – Fala Bia, imitando o gesto de Julie. – Você tem que relaxar! Vocês se gostam e vai dar tudo certo.
– Como você pode ter tanta certeza? – Pergunta Julie, sentindo-se cabisbaixa.
Bia sorriu. Conhecia Julie há muitos anos e sabia que ela sempre fora tímida e insegura, apenas agora começou a mudar de atitude, mas ainda havia um longo caminho a ser percorrido. Levantou-se da cama e ficou diante da amiga, colocou as mãos sobre os seus ombros e lhe ofereceu um sorriso franco.
– Eu não sei muito sobre relacionamentos, porém uma coisa eu aprendi: quando é a pessoa certa, as coisas fluem naturalmente. – Diz Bia, apertando levemente os ombros da amiga. – Tenha confiança no que vocês dois sentem.
– Quando foi que você cresceu tanto? – Brinca Julie, com um sorriso bobo nos lábios.
__________________________________________________________
Eram 19:25, Julie retocava seu batom pela milionésima vez na frente do espelho, quando uma leve batida na sua porta lhe tirou dos seus devaneios.
– Entra. – Grita Julie, guardando o batom dentro da bolsa.
Daniel materializou-se no meio de seu quarto. Estava diferente, com um olhar distante. Ainda não havia lhe encarado e Julie sentiu-se mal por isso. Haviam brigado durante toda a semana, tratavam-se severamente e a convivência estava insuportável.
– O que você quer? – Pergunta Julie, ficando na defensiva.
– Eu vim me desculpar... Mais uma vez. – Responde Daniel, ainda encarando o chão. – Ultimamente, parece que eu só faço isso .... Me desculpar.
Julie sentiu-se pior. A culpa não era toda dele, também estava se comportando imaturamente, querendo provar para ele que estava extremamente feliz, esfregando seu relacionamento no rosto dele mesmo sabendo que isso o machucava.
– Eu também tenho que me desculpar. – Diz Julie, suspirando.
– Não, não precisa. – Diz Daniel, exasperado. – Não precisa mesmo. – Fala, erguendo o olhar e segurando firmemente suas mãos. – Eu só quero que a gente pare de brigar e que possamos levar os assuntos da banda a sério. Eu não vou mais me meter na sua vida, não me importa o que você faça contanto que esteja presente nos ensaios e nos shows.
– Tudo bem, acho que dá para fazer isso. – Responde Julie, segurando as mãos dele.
Após essa breve conversa, a tensão de seus olhares preencheu o silêncio no quarto. Encaravam-se profundamente.
– Você está maravilhosa. – Diz Daniel, com a voz mais rouca que o normal.
A garota sentiu suas bochechas esquentarem. Não compreendia o que estava acontecendo, não conseguia parar de olhar para os profundos olhos de Daniel e como brilhavam naquele momento. Poderia ficar ali a noite inteira.
– JULIE! SEU NAMORADO CHEGOU! – Grita o seu pai, do andar debaixo.
Os dois se separaram como se tivessem levado um choque.
– JÁ ESTOU DESCENDO! – Grita Julie, sentindo-se nervosa.
– O pana... O Nicolas chegou. – Diz Daniel, com ar amargurado, ficando invisível logo em seguida. – Não se atrase para o show!
Julie pegou sua bolsa que estava sobre a cama e limpou o suor das mãos na saia de seu vestido. Deu uma última olhada no espelho e saiu, mal prevendo o quão longa seria aquela noite.
Fale com o autor