Os enteados
6 Mal entendido
Notas iniciais
Uma semana se passou desde que os cabelos de Sakura ficaram rosados, mas ela até que estava gostando e seus pacientes amaram a novidade, afinal, não é todo dia que você vai numa pediatra dos cabelos cor de rosa.
Saya continuava com sua implicância, mas Saito estava se dando muito bem com a madrasta, sem falar que passava a tarde toda brincando com a irmãzinha.
Era uma manhã de segunda feira, Sakura foi trabalhar mais cedo, portanto, Sasuke levaria as crianças para a escola. Se levantou quietinha para não acordar seu marido e foi tomar seu banho. Lavou os cabelos e passou o bendito creme com tinta rosa, afinal, ela não ia jogar fora um pote cheio de creme que foi caro pra caramba. E também, como Sakura estava gostando da cor, não custava nada mante-la.
Voltou para o quarto para se vestir e viu que seu marido já se mexia na cama procurando por ela. Não demorou muito para Sasuke finalmente despertar e ver sua esposa penteando os longos cabelos.
— Bom dia — Ele falou ainda sonolento.
— Bom dia — Sorriu docemente, encarando o moreno pelo espelho da penteadeira — Eu não queria te acordar.
— Não acordou — Bocejou e se sentou, ainda estava com uma tremenda cara de sono — Precisa ir trabalhar tão cedo hoje ?
— Sim — Soltou um suspiro alto — Tenho que fazer uma cirurgia agora de manhã. E você, já vai levantar ?
— Hum... — Olhou para o relógio digital em seu criado mudo e jogou-se sobre o travesseiro — Não, ainda tenho um tempinho pra ficar aqui curtindo preguiça... Sozinho, sem minha esposa — Dramatizou.
— Bobo — Riu e revirou os olhos, pegando o secador, uma vez que não queria ir trabalhar com os cabelos úmidos.
Mas, por obra do destino ou de uma certa ruiva, assim que Sakura ligou o secador, voou talco pra tudo quanto era lado.
— Que diabos foi isso ? — Sasuke arregalou os olhos negros, sem conseguir acreditar que sua esposa estava parecendo um fantasma.
— Merda, eu vou me atrasar ! — Berrou — Meu rosto... Meu cabelo... — Uniu as sobrancelhas e fez uma expressão de desânimo — Estou suja de talco...
— Isso é culpa da Saya — O homem falou furioso — Essa menina não toma jeito !
— Sasuke, esquece isso...
— Como ? — Sasuke se sentou novamente, encarando a rosada suja de talco — Sakura, eu vou falar com ela. A Saya não pode fazer isso com você.
— Querido, sequer temos provas de que foi ela. E outra, a Saya já não gosta de mim, ficar levando bronca por minha causa não vai ajudar em nada.
— Certeza ? — Arqueou a sobrancelha — Tem certeza de que não quer que eu fale com a Saya ?
— Tenho. Por enquanto não fala nada, se eu achar que deve, deixe que eu falo com ela.
— Ok, você venceu ! — Jogou-se novamente sobre o travesseiro — Mas se ela passar dos limites...
— Aí você fala com ela — Interrompeu — Mas não acho que será necessário, logo essa implicância dela passa... Isso é coisa de adolescente.
Sakura precisou tirar todo aquele talco e ainda foi trabalhar com os cabelos úmidos, mas pelo menos estava limpa.
[...]
Sasuke tomava café da manhã sozinho e Saya foi a primeira a aparecer e se sentar ao lado dele.
— Bom dia, pai.
— Bom dia — O moreno encarou a garota que se sentava e já pegava um pão — Saya, você colocou talco no secador da Sakura ?
Mesmo que Sakura tenha dito para Sasuke esquecer a história do talco, o Uchiha não podia deixar isso passar em branco, precisava repreender a filha.
— Não, pai — Respondeu normalmente — Até parece que eu vou perder meu tempo fazendo uma idiotice dessas — Mentiu.
— Hum... — Ele olhou desconfiado para a filha, embora não tivesse provas e não pudesse acusar a menina, também não estava convencido de que ela falava a verdade — Cadê a sua irmã ?
— Tá arrumando as bonecas... Tipo, ela foi brincar ontem à noite e esqueceu de guardar os brinquedos antes de dormir, aí tá arrumando agora — Explicou.
Saito apareceu caindo de sono, o garoto havia passado a noite ouvindo músicas e conversando com os amigos da antiga escola, acabou indo dormir tarde.
— Bom dia — Saito bocejou e puxou uma cadeira para se sentar — Odeio segundas feiras...
— Bom dia... — Sasuke encarou o filho, embora achasse pouco provável que Saito tenha aprontado, também não podia descartar essa hipótese — Filho, você colocou talco no secador da Sakura ?
— E por que eu faria isso ? — Questionou confuso antes de levar um pedaço de bolo à boca.
— Não sei, tô te perguntando — Retrucou o Uchida mais velho — Saito, você fez isso ?
— Lógico que não — Defendeu-se — A Sakura é legal comigo, eu gosto dela, por que faria isso ?
— É bom saber... — Sasuke falou não tão desconfiado, afinal, Saito realmente não faria tal coisa.
— Minhas bonecas já estão arrumadinhas ! — Sarada apareceu correndo e se sentou ao lado do pai — Eu fui organizada, papai, que nem a mamãe ensinou.
— Que bom, princesa — O homem deu um beijinho na testa de sua caçula.
O assunto do talco no secador se encerrou ali, quando todos terminaram de comer Sasuke levou as crianças para a escola e seguiu para a empresa.
[...]
— Você aprontou novamente, não foi ?! — Saito abordou a irmã na hora do intervalo, dando um belo susto nela.
— Será que nem aqui você esquece esse assunto ? — Ajeitou os olhos e se sentou num banco que ficava no jardim da escola, perto do pátio.
— Fala logo, Saya !
— Ah, moleque chato — Resmungou — Vai ficar com seus amigos e me deixa sozinha — Colocou os fones de ouvido, não queria ouvir o que seu irmãozinho tinha pra dizer.
— Você não era assim — Saito puxou os fones e os segurou, fazendo com que Saya o olhasse com desaprovação — Você tá ficando insuportável, sabia ?
— Não tô gostando de morar aqui, quais são os meus motivos para estar de bem com a vida ?
— Mas a Sakura não fez nada pra você, por que colocou talco no secador dela ?
— Quem disse que eu sou a culpada ? — Indagou indignada, fazendo-se de vítima.
— Eu não fiz nada, tenho certeza de que a Sarada também não fez... — Olhou furioso para a ruiva — Saya, para com isso, a Sakura não tem culpa de nada !
— Fica defendendo ela, Saito — Saya riu sarcástica — Eu vou adorar ver você quebrando a cara... Vou achar lindo ! Espera pra ver, ela tá só se fazendo de boazinha e não vai demorar pra dar um jeito de se livrar de nós.
A ruiva tomou seus fones das mãos de Saito e foi para o pátio, deixando o moreno sozinho e bufando de raiva.
Saito não se conformava com a infantilidade da irmã, nesses poucos dias que estava morando com o pai e a madrasta, o garoto percebeu que Sakura era uma pessoa boa, gentil e que estava se esforçando ao máximo para agradar e se dar bem com os enteados. Afinal, qual era a dificuldade que Saya tinha em perceber isso ?
[...]
Quando Sakura saiu do trabalho e chegou em casa, viu sua filha escondida atrás do sofá. Achou estranho e ouviu um "Shiiiii" por parte da menina. Logo Saito apareceu e sorriu vitorioso ao ver sua irmãzinha escondida.
— Achei ! — O garoto comemorou e pegou a menina que começou a gargalhar. Jogou a criaturinha com cuidado no sofá e começou com um ataque de cócegas.
— Saito... Saito, eu me... Ai... — Sarada chorava de rir e sacudia as perninhas enquanto seu irmão lhe fazia cócegas na barriga.
— Só paro quando você disser.
— Eu me rendo ! — A pequenina berrou em meio a gargalhadas e Saito parou. Ambos olharam para o lado e viram Sakura morrendo de rir da cena.
— Ai, Sakura, não me mata de susto ! — Saito colocou a mão sobre o peito e respirou fundo, realmente não esperava ver a rosada ali e tal reação por parte do garoto só a fez rir ainda mais.
— Desculpa, só achei engraçado — Ela falou risonha.
— Agora eu vou fazer ataque de cócegas no Saito ! — Sarada berrou e pulou sobre o moreno, mas ele a segurou e virou de cabeça para baixo, fazendo a pequenina gargalhar alto novamente.
— O tiro saiu pela culatra, Sarada ! — Ele falou e Sarada continuou rindo alto, o que fez com que Saya saísse do quarto e aparecesse furiosa na sala.
— Que gritaria é essa ? — A ruiva berrou, fazendo Sarada arregalar os olhinhos negros e ficar assustada — Mas que saco, vocês dois ficaram aí berrando o dia inteiro, será que ninguém pode ter um pouco de sossego ?
Antes que alguém dissesse alguma coisa, Saya saiu pisando forte no chão e voltou para o quarto. Sakura ficou incrédula, pensou em repreender a menina, mas acabou deixando pra lá, uma vez que isso poderia piorar o negócio. Sarada fez uma careta e Saito murmurou um "bruaca" assim que sua irmã saiu.
— A Saya é muito brava — Sarada uniu as sobrancelhas e fez um bico gigante, mas logo sorriu e olhou para o irmão antes de agarrar seu pescoço — Mas o meu irmãozão é muito legal !
— Sarada, eu preciso respirar... — O moreno falou com dificuldade e Sarada o soltou, rindo meio sem graça.
Sakura riu da cena mais uma vez. De fato, Saito e Sarada se deram muito bem e a rosada agradecia por isso, mas Saya ainda parecia ter uma barreira impenetrável.
— Não sei o que faço com a Saya — Sakura suspirou pesadamente e se sentou ao lado das crianças no sofá — Ela realmente não parece estar gostando daqui.
— Manda ela ir à merda ! — Saito falou irritado, não aguentava mais as picuinhas da irmã mais velha.
— Saito ! — Sakura arregalou os olhos, não gostava desse palavreado — Não fale essas coisas perto da Sarada.
— Foi mal — Ele se desculpou — Mas é que o atual comportamento da Saya vem me dando nos nervos e não é de hoje !
— Tudo bem, só não diga mais essas coisas — A rosada pediu e Saito assentiu — Enfim, mais cedo ou mais tarde sua irmã vai se acostumar... Eu espero.
— Mamãe, eu tô com fome ! — A pequena Sarada se manifestou e Saito arregalou os olhos, realmente surpreso.
— O que ?! Nós acabamos de comer — Disse ele.
— Mas eu ainda tô com fome... — Sarada falou risonha — Eu tô em fase de crescimento, sabia ?
— Tudo bem — Sakura levantou do sofá após se livrar dos saltos altos que tanto a incomodavam naquele momento — Também estou com um pouquinho de fome, vou preparar alguma coisa.
— Ah, se é assim, então eu acompanho vocês — Completou o garoto.
[...]
Após o jantar as crianças foram dormir, mas Sasuke e Sakura decidiram ficar acordados até mais tarde e foram assistir na sala, só que eles mais conversaram do que assistiram. Se duvidar, não sabiam nem qual era o filme que passava na televisão.
— Eu falei com a Saya hoje durante o café da manhã — Sasuke falou e Sakura arregalou os olhos, encarando o marido com desaprovação — Sei que você não queria que eu fizesse isso, mas essa travessura não poderia passar em branco, Sakura. Enfim, a Saya negou, mas eu sei que foi ela.
— Eu queria tanto me dar bem com ela — Suspirou e escorou a cabeça no ombro do marido — Pelo menos eu me dei bem com o Saito, ele é um amor comigo e com a Sarada.
— O Saito sempre foi assim, mas quando criança ele sempre ia pela cabeça da Saya — Explicou — Mas agora que cresceu e está mais maduro, Saito não é mais manipulado pela irmã.
— É, eu me lembro bem de quando eles eram crianças — Sakura comentou nostálgica, lembrando-se da época em que Saito, ainda pequeno, gostava dela mas, de uma hora pra outra, passou a ser tão implicante quanto Saya — Até mesmo quando a Sarada nasceu, o Saito só brincava com ela se a Saya não estivesse por perto — A rosada riu com a lembrança do garotinho que ficava todo desconfiado quando estava perto da irmã mais velha — Acho que ele tinha medo da Saya, devia temer que ela fizesse alguma coisa... Sei lá, crianças são tão bobas...
— Acho que a Saya se aproveitava bastante do fato de ser mais velha. Mas, apesar de tudo, Saya sempre foi muito cuidadosa com ele. Os dois eram bastante unidos na infância — Sasuke também riu, sentindo saudade da época em que os filhos eram pequenos e até mesmo da época em que ele e Itachi eram dois pirralhos — Mas agora ele cresceu e não vai mais pela cabeça dela.
— Achei que o Saito é um garoto bastante maduro para quem tem apenas doze anos. Eu percebo que não está sendo fácil para ele se acostumar a viver aqui, mas também percebo que ele se esforça para conviver bem comigo.
— Mas eu acho que você tá sendo muito boazinha — Sasuke alertou — Sakura, querendo ou não, você está assumindo um papel de mãe e não pode admitir que a Saya faça o que bem entender.
— Não quero que eles me vejam como alguém que quer assumir o lugar da Karin.
— Sakura, me escuta — O moreno respirou fundo, segurou nos ombros de Sakura, deixando-a de frente para ele, e olhou em seus olhos — A Karin morreu, eles não têm mais uma figura materna, você é minha esposa, portanto, querendo ou não, está assumindo esse papel. Também temos que levar em consideração que, por mais que Saya não te aceite, ela precisa te respeitar.
— Ah, Sasuke... — Ela levou a mão até a testa e depois passou pelos cabelos, bagunçando-os — Tá tudo tão recente, não quero que ela me odeie ainda mais.
— Você é uma madrasta muito boazinha — Sasuke balançou a cabeça em sinal negativo e riu.
— Eu ? — A rosada cruzou os braços e fingiu indignação — Pois saiba, Sasuke Uchiha, que eu sou a madrasta mais malvada que existe — Falou num tom de brincadeira — A madrasta da Cinderela perde feio pra mim...
— Sério ? — O moreno começou a rir e Sakura o encarou com os olhos semicerrados e um sorriso de canto nos lábios — Então me prova, madrasta malvada.
Nesse momento, Saito, que estava dormindo, acordou para ir ao banheiro e acabou ouvindo por alto uma parte da conversa do casal que estava na sala.
— Ora essa, não sei... — Ela levou o dedo indicador até o queixo e fez uma expressão pensativa — Você poderia mandar os dois para um colégio interno bem longe.
— Colégio interno ? — Sasuke arqueou a sobrancelha e o garoto que estava no corredor, voltando para o seu quarto, acabou ouvindo e arregalou os olhos incrédulo — É sério isso, Sakura ?
— Muito sério ! — Sua voz transmitia convicção, mas sua expressão era brincalhona — Ora essa, eu não quero eles perto da minha filha, trate de se livrar dos dois !
Saito não conseguia crer no que ouvia. Então quer dizer que Sakura fingiu o tempo todo ?! Ela jamais gostou deles ?! Bem, pelo que o garoto ouviu era exatamente isso, Saya tinha razão o tempo todo...
Entrou no quarto, foi direto para a cama e se enrolou no edredon. O garoto não se conformava com aquilo e definitivamente não queria ir para um colégio interno; já bastam os três anos que ficou longe do pai e a morte da mãe... Começou a derramar grossas lágrimas, rezando para que Sasuke não concordasse com tamanha loucura.
Entretanto, se Saito tivesse escutado a conversa inteira, ou visto a expressão divertida no rosto da madrasta, saberia que tudo não passava de uma brincadeira.
— Nossa, você é um exemplo de malvadeza — Sasuke sorriu irônico — Sua boba.
— É, não fui muito convincente — A rosada caiu na risada — Mas, eu não pretendo ser uma madrasta ruim, quero que eles me vejam como uma amiga.
— Você só não pode ser amiga demais, Sakura — O moreno falou sério — Você não tem mais a idade deles e precisa repreendê-los caso seja necessário.
— Ah, vamos esquecer esse assunto — Sakura abraçou o marido e lhe mordeu levemente o lóbulo da orelha, fazendo-o se arrepiar — Por que não vamos para o nosso quarto, ou melhor, para a nossa cama ? — Sussurrou sensualmente.
— Danadinha... — Com um sorriso malicioso nos lábios, Sasuke se levantou antes de pegar sua esposa nos braços e levá-la para o ninho de amor do casal.
Mas, enquanto Sasuke e Sakura se amavam, Saito chorava quietinho em seu quarto, lembrando das palavras que ouviu. Como sua madrasta, que ele carinhosamente chamava de "boadrasta" -visto que ela não tinha nada de má- podia dizer tais coisas ?
O que também o torturava era admitir que sua irmã estava coberta de razão, Sakura não os queria ali e estava dando um jeito de vê-los bem longe dali.
— Sakura... Você me paga... — Falou decidido e com lágrimas nos olhos enquanto apertava com força o edredon azul claro que o cobria — Você vai se arrepender de ter dito aquilo.
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