Os enteados
12 Cinderela
Notas iniciais
– Essa louca tá procurando sarna pra se coçar — Saito comentou enquanto olhava de longe sua irmã mais velha conversar com três garotos do terceiro ano, provavelmente os que a convidaram para a tal festa.
— O que foi, Saito ? — Naomi questionou. A menina ficava grudada com Saito o tempo todo, principalmente na hora do intervalo.
— Nada não — Balançou a cabeça em sinal negativo — Eu só pensei alto. Não é nada.
Ele estava preocupado com Saya, sabia que ela podia quebrar a cara, mas também sabia que não adiantava de nada tentar abrir os olhos dela.
Deveria abrir o jogo com Sakura para que ela não deixasse a garota ir para a tal festa ?
— Saito, o que você tem ? — A loira perguntou assim que o rapazinho, que estava meio estranho desde a primeira aula, escorou a cabeça em seu ombro.
— Minha cabeça tá doendo muito — Resmungou.
Naomi levou a mão até a testa do garoto e se espantou ao perceber que sua temperatura estava muito alta.
— Saito, você tá com febre ! — Falou — Vem comigo — Ela se levantou do banco onde os dois estavam sentados e puxou o garoto pela mão — Vamos lá na coordenação pedir pra ligarem para a sua mãe.
— Madrasta — Corrigiu.
— Tá, vamos pedir pra ligarem para a sua madrasta do cabelo rosa.
Ambos foram juntos até a coordenação, onde ligaram para Sakura ir buscar o enteado, uma vez que o garoto estava ardendo em febre e não tinha condições de ficar na sala de aula.
[...]
— O Saito tá com febre — Sakura falou assim que desligou o celular — Putz, hoje de manhã ele estava tão bem.
— Mais essa agora — Ino comentou enquanto colocava uma colher com açúcar em seu café. Sakura e Ino estavam aproveitando o intervalo entre as consultas para tomarem um café juntas e baterem um papo — Você, definitivamente, ganhou dois filhos de brinde.
— O que eu posso fazer ? — Deu de ombros — Mas, sabe, às vezes eu preferia que os dois fossem pequenos.
De fato seria mais fácil, pois é melhor passar a criar duas crianças pequenas e educá-las do que passar a criar dois adolescentes cheios de manias e costumes.
— Tanto faz — Ino tomou um pouco do seu café — Eu não teria coragem de casar com um homem que já tem filhos justamente por isso.
— Ino, o que o Sasuke viveu com a Karin antes de me conhecer não me interessa.
— É, mas agora você está aguentando o resultado disso, afinal, os filhotinhos de cruz credo estão morando de baixo do mesmo teto que você.
— Eles não têm culpa de nada — Disse a rosada — E eu não vou me separar do Sasuke por causa deles !
— Amiga, não estou mandando você se separar do Sasuke por causa dos bebês de Rosimary — Explicou — Só estou expondo o meu ponto de vista. Euzinha, Ino Yamanaka, jamais me casaria com um homem que já tem filhos.
— Eu não me importo com isso, pois amo o Sasuke.
— Pois é, quis o galo, então queira os pintos — A loira começou a rir — Ah, Sakura, eu nem sei o que faria se estivesse no seu lugar tendo que lidar com esses dois monstrinhos.
— Eu vou conseguir domar eles, você vai ver só — Sakura pegou sua bolsa e se levantou — Agora eu preciso me ausentar por uns minutinhos, tenho um enteado doente pra buscar.
— Amiga, traz o monstrinho pra cá. Qualquer coisa a gente leva ele pra psiquiatria e manda colocar uma camisa de força ou dar um sossega leão pra ele dormir por uns três dias — Brincou, fazendo Sakura rir.
Sakura ainda tinha alguns minutos antes da próxima consulta, dava pra ir tranquilamente até a escola das crianças, buscar o garoto, levar em casa e voltar para o trabalho. Por sorte a escola ficava bem perto do hospital.
Chegando lá, a rosada foi até a coordenação, onde Saito estava deitado no sofá e com a cabeça no colo de Naomi enquanto a loira fazia carinho nos cabelos negros dele.
A rosada já ficou com uma pulga atrás da orelha. Primeiro ela vê os dois saindo juntinhos da sala de aula e agora os vê na maior intimidade, Saito deitado no colo da Naomi e ela fazendo carinho nele... Aí tem coisa...
— Saito — Sakura chamou e o garoto se sentou assim que a viu — Meu bem, o que você está sentindo ?
— Eu tô quente e minha cabeça tá doendo.
Ela tocou na testa do pequeno Uchiha e percebeu que a febre estava bem alta. Se bem que só de ver o garoto com as bochechas avermelhadas já dava pra perceber que ele estava com febre.
— Ele tá estranho desde a primeira aula, tia — Disse Naomi.
— Saito, você está passando mal desde que horas ? — Indagou a rosada.
— Eu já amanheci com dor de cabeça — Admitiu já com medo de levar uma bronca, pois o garoto sabia que deveria ter contado para Sakura logo de manhã que não estava se sentindo bem.
— Por que você não me disse isso ?
— Porque eu pensei que fosse passar — Ele abaixou a cabeça — Desculpa.
— Tudo bem — Passou a mão pelos cabelos do rapazinho — Pega a sua mochila, vamos embora.
— Não, Sakura ! — Protestou — Eu tenho duas aulas de ciências depois do intervalo e não posso faltar. Tá difícil pra acompanhar o conteúdo.
— Saito, você tá com muita febre, é melhor você melhorar, depois você corre atrás da matéria — Disse Naomi, visivelmente preocupada com o amigo.
— Sua amiga tem razão — Sakura pegou a mochila do garoto e a segurou pelas alças num braço só — Vamos esperar você melhorar pra poder voltar pra escola. Depois você pode pedir ajuda pra Saya, pro seu pai ou pra mim.
— Tá bom — Rendido, Saito concordou em ir embora, mesmo que estivesse com medo de ficar de recuperação.
Naomi acompanhou o garoto até o portão da escola, só voltou para dentro quando ele foi embora com Sakura. Estava óbvio que a amizade dos dois era bem forte.
Saito entrou no carro com a madrasta e ela deu partida para levá-lo em casa.
— Vou ter que voltar pro trabalho — Disse a rosada — Tudo bem se você ficar sozinho com a Guren ?
— Tudo bem — Respondeu após afivelar o cinto de segurança e escorou a cabeça no vidro.
Sakura subiu com Saito até a cobertura para lhe dar um remédio para febre e dor no corpo, o garoto ligaria para a madrasta caso piorasse.
Com o pequeno Uchiha devidamente medicado, Sakura voltou para o hospital mais tranquila. Claro que ela pediu para que Guren verificasse a febre dele, pois Sakura tinha certeza de que, se acontecesse alguma coisa, ele não ligaria como disse que faria, uma vez que estava passando mal na escola e não queria ir embora.
Saito tomou um banho, vestiu um pijama bem confortável e foi assistir um filme na sala; se jogou de bruços no sofá e não demorou para pegar no sono.
[...]
Sakura foi buscar as meninas na escola quando foi liberada para o almoço, Saya já estava pensando em como pediria para ir à festa que já seria no outro dia.
Chegaram no apartamento e almoçaram todos juntos após a rosada verificar a temperatura de Saito, ficando feliz ao ver que estava mais baixa, mas o garoto continuava febril.
— Sakura, preciso conversar com você — A ruiva entrou no quarto do casal assim que sua madrasta entrou para descansar após o almoço.
— Nossa, o que é ? — Questionou preocupada enquanto se sentava na beirada da cama, pois Saya parecia bem séria e não conversaria com Sakura à toa.
— Meus amigos vão numa festa amanhã, eu posso ir também ?
— Saya...
— Por favor — Uniu as mãos — Por favor, eu nunca te pedi nada.
— Vamos fazer o seguinte, liga para o seu pai, se ele deixar eu te levo — Sugeriu.
— Sakura... — Falou com desânimo — O papai não vai deixar.
— Ora, quem tem que deixar é ele — Falou como se fosse óbvio, pois ela não queria criar confusão com seu marido e nem ser responsável por alguma besteira que pudesse vir a acontecer.
— Você é esposa dele, não é ? — Arqueou a sobrancelha — Sakura, você já teve a minha idade e deve saber como os pais são.
— Sim, e é justamente por já ter tido a sua idade que eu sei muito bem o que rola nessas festas — Piscou um olho para Saya, o que a irritou mais ainda — Você só vai se o Sasuke deixar.
— Você já teve a minha idade, sabe o que rola nas festas e está viva até hoje — Bufou — Qual é, o pessoal vai e só eu vou ficar de fora... — O semblante da mocinha ficou triste, ela estava realmente chateada de não poder ia à festa — Agora que eu tô começando a me enturmar com eles...
Sakura tinha quase cem por cento de certeza de que aquilo não passava de um teatro, mas também podia não ser.
A rosada sabia como era mudar de escola e querer se enturmar com as pessoas; talvez ela devesse ajudar sua enteada, uma vez que Sasuke com certeza não a deixaria ir para a tal festa, mas que mal tem ? Saya é adolescente e tem que aproveitar essa fase gostosa, ir numa festa não iria matá-la.
— Você vai ser responsável, nada de gracinha, não vai voltar pra casa com o dia amanhecendo e seu pai não pode saber — Sakura falou seriamente, olhando nos olhos negros da menina — Essas são as condições, se você discordar não tem acordo.
— Obrigada — Empolgada, Saya abraçou a rosada, mas fez uma expressão de confusão quando afastou-se dela — Espera aí, até que horas eu posso ficar na festa ?
— Até meia noite, Cinderela, nada mais
que isso — Decretou — Depois da meia noite a magia cessará, e tudo que era antes voltará; ou seja, para todos os efeitos, você não foi para a festa.
— Que ótimo, fada madrinha — Ironizou cruzando os braços em frente ao corpo — Pelo menos é melhor do que nada.
— E outra, você não vai com nenhuma amiga, eu te levo e te busco.
— Sério que não rola transformar uma abóbora em carruagem ? — Bufou. Sakura não conseguiu conter a risada, de madrasta cruel ela virou fada madrinha.
— Claro, e o pó mágico vai ser o talco que você colocou no meu secador — A voz doce e ao mesmo tempo irônica de Sakura só fez com que Saya se irritasse mais ainda. Não há dúvidas de que a rosada estava com a vantagem nessa guerra, então era melhor concordar com tudo calada ao invés de contestar.
Quase mordendo a língua para não dar uma resposta grosseira, Saya se retirou do quarto e Sakura sorriu vitoriosa assim que a ruiva virou as costas. Pelos menos, até o dia da festa, Saya seria um doce de menina.
— Eu realmente me sinto a gata borralheira depois dessa humilhação — A mocinha murmurava enquanto ia andando a passos firmes para o quarto — Calma, é só até a festa... Só até a festa...
— Falando sozinha, Saya ? — Saito perguntou assim que sua irmã mais velha entrou no quarto. O garoto estava ajudando a pequena Sarada a montar um quebra cabeça.
— É, às vezes eu sinto a necessidade de conversar com uma pessoa inteligente — Respondeu de forma grosseira e só não bateu a porta com força porque Sakura estava em casa.
— Ué, então por que estava conversando consigo mesma ? — Saito questionou com a cara mais sonsa do mundo e Saya só ficou mais irritada ainda.
— Idiota ! — A ruiva jogou um urso de pelúcia em seu irmão após deitar-se na cama e pegar o celular.
— Saya, não faça isso com o Frederico — Sarada fez beicinho e, profundamente chateada com Saya, abraçou seu ursinho com todas as suas forças — Ele não fez nada pra você...
— E você, Saito, qual foi a desculpa pra fugir da aula ? — Perguntou, ignorando sua irmãzinha que só ficou mais furiosa. Depois dessa, Sarada nunca mais deixaria seu ursinho a mercê de Saya.
— Não foi desculpa — O moreno respondeu enquanto procurava uma peça específica no meio de quase trinta pecinhas daquele quebra cabeça — Eu passei mal e a Sakura precisou ir me buscar. Na verdade eu ainda estou meio febril, mas pelo menos a dor de cabeça passou.
— Nossa, como você é sensível... — Respondeu, sem sequer tirar os olhos da tela do celular.
— O que tem de tão interessante nesse celular ? — Ele ficou curioso após ver a ruiva rir feito uma boba apaixonada.
— Saito, vai chupar prego pra ver se vira parafuso — Respondeu enquanto digitava alguma coisa no seu iPhone — Não é da sua conta.
— Eu heim... — Falou desconfiado — Sei não, parece que está falando com um príncipe encantado ou alguma frescura do tipo.
— A Saya conhece um príncipe encantado ? — Os olhinhos de Sarada brilharam — Ele tem um cavalo branco ?
— Quem me dera se um príncipe encantado me tirasse desse lugar horrível como no filme da Cinderela... — Bloqueou a tela do celular antes de colocá-lo sobre o criado mudo e suspirou enquanto fitava o teto.
— Saya, do jeito que você é delicada, é bem capaz de quebrar o sapatinho na cabeça dele — Saito levou uma travesseirada após dizer isso — Qual é, eu tô doente ! Tenha mais consideração.
— Tanto faz — Deu de ombros — Pelo menos eu vou na festa ! — A ruiva não escondia sua empolgação e Saito balançou a cabeça negativamente, deixando clara sua desaprovação — Vou ficar só até meia noite, mas pelo menos eu vou.
— Quem deixou ? — Saito arqueou uma sobrancelha.
— Minha querida madrasta — Saya respondeu com um sorriso debochado nos lábios.
— Ou você é uma excelente atriz ou a Sakura não está com o juízo perfeito — Falou baixinho para que Sarada não ouvisse, pois ela não entenderia, faria milhões de perguntas e poderia ferrar com tudo como fez quando Saya fez aquela ameaça para Saito. Se bem que a pequenina estava tão concentrada no quebra cabeça que, mesmo se ele tivesse berrado para o mundo inteiro ouvir, ainda assim poderia ser que Sarada nem ouvisse.
— Não me importo, o importante é que eu vou, mas já vou avisando que o papai não pode saber — Alertou a ruiva.
— O que o papai não pode saber ? — Sarada entrou na conversa e Saya gelou.
— Explica pra ela agora — Saito sorriu de canto, o que só deixou sua irmã mais velha ainda mais furiosa.
— Não é nada, Sarada — Pela primeira vez na vida, Saya falava com a pequena Sarada de forma doce. A menina até estranhou — Esquece o que eu disse, tá ?!
— Você tá aprontando — A pequena Uchiha acusou e Saito não conteve o riso.
— Ora essa, nossa irmãzinha é esperta — Disse ele.
— O que você quer pra fechar o bico ? — Saya indagou com raiva.
— Muitos doces — Sarada sorriu vitoriosa — Me dá doces e eu não digo nada pro papai.
— Você nem sabe do que se trata, pirralha !
Saya estava incrivelmente furiosa, sem falar que não se conformava em ter que ceder às chantagens de uma pirralha de cinco anos que mal saiu das fraldas.
— Ouvi você falando de uma tal festa — Ela falou na maior inocência do mundo — É isso ?
— Parece que alguém te passou a perna, Saya — Saito estava amando assistir a discussão de camarote. Saya ser passada pra trás por Sarada, isso realmente não tem preço.
— Eu te dou os malditos doces, Sarada, mas você vai ficar quietinha !
— Fechado ! — Ela estendeu a mãozinha para Saya.
— Fechado.
Com um aperto de mãos, as irmãs fecharam um acordo com Saito como testemunha.
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