Os dois reis sob a montanha
80 Uma inusitada aliança
O raiar do sol era deslumbrante, principalmente avistá-lo em uma das sacadas da montanha solitária. Dependendo do local aonde se posicione podia observar paisagens diferentes, paisagens essas que seriam espetáculos a parte. O Lago Comprido, onde em suas margens a Cidade do Lago ou Esgaroth se erguida, estava envolto em uma bruma gélida da noite, essa se dissipava conforme os raios solares a atingiam, parecia que cortinas de névoa estavam sendo erguidas para saudar a nova manhã. A copa das árvores esverdeadas de Mirkwood, sob o efeito do sol, faiscavam no horizonte tal como esmeraldas. A cidade de Dale, localizado quase aos pés de Erebor, emitia já os sons do despertar de sua população, o carcarejar de galinhas e galos, o choro de crianças que desejavam perpetuar em seu sono.
Gandalf contemplava essa paisagem com sentimentos conflitantes. Em parte, tentava saborear o momento de paz, mas as preocupações por eventos vindouros ainda assombravam a sua mente. Soltou um longo e cansado suspiro. Queria poder suavizar tais tensões internas, entretanto ao invés disso sentia que as mesmas só aumentavam.
O velho mago encostou a testa em seu cajado e fechou os olhos por alguns instantes, permaneceu assim por alguns segundos, contudo, quando os abriu não mais se encontrava na sacada em Erebor. Em seu entorno altas árvores, de grossos troncos platinados, que se sustentavam sacadas, plataformas e casas, envoltas por luzes bruxuleantes. Tais construções pareciam terem se originada da própria natureza conferindo uma perfeita harmonia com o ambiente natural e o edificado. As águas espelhadas de um rio, seu nome era Celebrant, passavam calmamente levando consigo folhas douradas que caiam das árvores ancestrais, ou melhor das mallyrn árvores originárias de Validor a terra dos deuses. Gandalf sabia aonde estava, ali era Caras Galadhon a capital do reino de Lothlórien.
— Bom dia, meu amigo. – Uma voz melodiosa fez o mago se virar da contemplação daquela nova paisagem. Atrás de si a mais bela elfa que já encontrara em sua prolongada existência. Cabelos dourados desciam como uma cascata de ouro sobre seu esguio corpo. Olhos cerúleo cintilantes. Usando um vestido pálido prateado com delicadas costuras em bronze. Uma luz parecia envolver seu corpo, podia-se pensar que o sol se erguia por trás dela ou mesmo que ela fosse a própria estrela celeste.
— Minha senhora. – Gandalf se curvou em sinal de total respeito. Estava diante de Lady Galadriel, o que ela tinha de beleza também esbanjava em sabedoria e poder. E foi esse formidável poder que materializou o mago ali, não em sua forma física, mas o seu espírito. Sabia que seu corpo ainda permanecera em Erebor, talvez cochilando ainda apoiado em seu cajado.
— Não precisamos dessas formalidades. – Sorriu a Lady da luz, como também era conhecida a senhora de Lothlórien – Na verdade, devo pedir perdão por tê-lo "sequestrado" dessa forma...
— Ser sequestrado por tão formosa dama? Acho que me sinto honrado. – Piscou Gandalf recebendo uma risada curta e calorosa de Galadriel.
— Sua mente estava perturbada por uma sombra... – Admitiu a elfa caminhando para perto do mago, seus passos eram silenciosos e delicados, na verdade parecia até que flutuava sobre a relva – Na verdade, esse não é uma ocorrência pontual...Há um certo tempo percebo essa sombra perseguir seus pensamentos. Ou melhor, você perseguir essa misteriosa sombra.
— Ela não tão misteriosa como pensas, lady Galadriel.
— Meu querido amigo, não reverbere as cinzas do passado.
— E se em meios dessas cinzas existir uma brasa pronta para reiniciar o incêndio?
Galadriel o mirou de relance e depois voltou seu olhar para o rio.
— Tudo parece tão calmo. – Disse com certo ressentimento – A paz não deveria ser efêmera. Parece que passamos mais tempo buscando por causas para perpetuar lutando ou cutucando as nossas cicatrizes do que realmente vivendo o momento de calmaria...
— Eu não busco a guerra, minha senhora. Mas ignorar os sinais não irá prologar o tempo de paz, talvez até acelere o seu término.
— Se o que dizes for verdade...Para tentar evitar um desastre futuro, cultivas instrumentos para que eles contenham essa sombra que nos espreita? – Havia malícia naquela pergunta.
— Nunca os vi como instrumentos e sim como amigos, companheiros de jornada. Não os reduzo a peças a serem manipuladas em proveito próprio. – Respondeu cerrando os punhos– Quando a tormenta os atingir, estarei ao lado deles. Lutaremos juntos e se for a morte o nosso destino, morrei ao lado dos meus amigos.
— Hum... – Galadriel sorriu como estivesse se divertindo com a raiva contida do mago – De fato, não acredito que você os veria dessa forma. Ainda mais, entre esses seus companheiros estão meu ex-genro e meus netos. Eu te destroçaria em milhões de pedaços, Mithrandir, caso você se utilizasse deles como peões em um tabuleiro imaginário participando de um jogo sádico por poder.
E com aquelas palavras o semblante de Galadriel se transformou, o que era luz calma do amanhecer agora parecia relâmpagos que iluminam uma furiosa tempestade. Em meio a essa tormenta, uma guerreira implacável se erguia pronta para fazer cumprir as suas ameaças anteriores.
Gandalf desviou o olhar, seu coração acelerou. Medo e admiração eram os sentimentos que o dominavam. Lady Galadriel nunca cessou de surpreendê-lo.
— Eu desejo protegê-los e guiá-los para que alcancem o máximo de seu potencial. – Sussurrou.
— E quem é você para prever o papel que eles irão assumir no futuro? – Inqueriu a guerreira elfa.
— Sou apenas um velho que já vi muito deste mundo...Vi guerreiros valorosos caírem e homens maus se redimirem. Vi linhagens serem extintos e outras novas surgirem... Vi guerras e participei de algumas. Sim, tudo isso que vi não me dá respaldo para prever o que irá ocorrer. Contudo, minha intuição...
— Sua intuição?
— Sim. Eu sinto dentro do íntimo do meu ser que esses amigos que a tanto tempo acompanho, desde o nascimento em alguns casos, terão papeis essenciais a desempenhar na nova era que se inicia. A quarta era de nosso mundo irá começar com os feitos heroicos desses hobbits, anões, elfos e humanos.
Gandalf que até o momento detinha os olhos voltados para o chão, não tendo coragem de encarar sua companheira, sentiu que o ambiente se alterou. A calmaria tinha retornado. Com hesitação levantou o rosto e encontrou uma sorridente Galadriel. Ela o mirava com ternura e tristeza.
— Não desejo enterrar mais membros de minha família. O apagar da chama de minha filha, Celebrían, já foi um golpe perfurante em minha alma. E agora meus netos...Elladan...
— Eu nada irei impor a eles. Eles têm livre arbítrio de seguir a jornada que desejarem seguir. Eu apenas serei o guia a os apoiar nessa aventura...E quanto a Elladan, não o subestimes. Ele é seu neto, afinal de contas. Por acaso teve alguma premonição sobre o destino do filho de lord Elrond?
— Minhas visões estão se tornando cada vez mais confusas. – Admitiu Galadriel com evidente contragosto, pois isso era mais um sinal do que as coisas não estavam tão pacíficas quanto ela desejava. O poder dele podia afetá-la tal como uma pedra sendo lançada em um lago, perturbando a sua superfície, gerando ondas e mais ondas de desequilíbrio – Às vezes vejo dor e destruição...Morte... E outras vezes vejo alegria e até mesmo amor...Uma celebração diante da árvore branca...Nascimento de outra vida. Esperança.
— Árvore branca... – Murmurou Gandalf analisando a informação com cuidado – O que você vê são possibilidades, minha senhora...E por serem possibilidades não são resultados certos de ocorrem.
— Sim, o futuro é por demais maleável... O que vejo agora pode mudar unicamente pelo fato de eu o ter contado sobre minhas visões.
— Agradeço por ter compartilhado dessas informações.
— Você não está só, meu amigo. Tentarei ajuda-lo...Mas imagino que você deveria conversar com Saruman sobre esses sinais. – Sugeriu a elfa.
— Haverá uma reunião do conselho...Irei informar a ele meus temores – E com essa promessa feita, Galadriel se aproximou ainda mais do mago. Ela era alta, não só de estatura como também de grandeza. Gandalf novamente fez uma referência, mas sua ação foi interrompida pela a elfa que segurou sua face e beijou sua testa.
Vá, meu amigo...Retorne aos seus companheiros.
~**~
— A idade deve estar mesmo o afetando. A vovó Tük também tem a mesma mania de cochilar nos cantos mais estranhos. E até mesmo em meio de uma conversa, não é mesmo Ada?
Gandalf abriu os olhos e logo reconheceu o local familiar aonde se encontrava: Erebor. Ao seu lado, hobbits o observavam. Um deles era o segundo rei da montanha solitária.
— Primo Bilbo! Não fale assim... – Adalgrim Tük cochichou temoroso – Ele pode nos transformar em sapos ou pior...Lesmas gosmentas...Ou ainda pior um animal híbrido meio lesma e meio sapos.
— Ele não irá fazer isso. Acho que a magia dele está meio enferrujada, sabe? Só o vi fazendo fogos de artifícios e essas coisas. Como disse antes, é o negócio da idade.
— Ainda está insistindo nesse assunto? – Suspirou Gandalf, tentando não sorrir, não devia estimular Bilbo em suas provocações.
— Não precisa ficar tão sensível quanto a isso. Todos nós amadurecemos, o importante é não amadurecer demais ao ponto de apodrecer.
O mago rolou os olhos e soltou uma risada abafada tentando ocultar em uma tosse seca. Como poderia imaginar Bilbo como um instrumento ou um peão a ser manipulado? Aquele hobbit em especial já provou mais de uma vez o quão surpreendente ele era. Gandalf só precisou dar um empurrão inicial em relação ao casamento, todos os eventos que ocorreram posterior a isso foram consequências das próprias escolhas de Bilbo e também de Thorin. O mago não tinha como prever o resultado de sua influência inicial, mas estava satisfeito ao ver o quão maravilhoso aquela família tinha se tornado. Erebor formando aliança com outros reinos, a reconciliação entre elfos e anões sendo feita, o Condado se tornando um reino influente na Terra Média, casais inusitados sendo formados...Não, Gandalf não imaginou que quando entrou no Bolsão para tentar convencer o jovem Bilbo em retomar a aliança dos Bolseiros com os Durins que tais consequências iriam ocorrer...E tudo isso não foi conquistado em meio a batalhas sangrentas e demonstração de grande forças físicas ou mágicas. Não. Bilbo e seus companheiros conquistaram tais feitos de outro modo...
"Espero que ainda esteja me observando Galadriel... Saruman acredita que apenas um grande poder pode manter o mal sobre controle, mas não é o que descobri. Descobri que são as pequenas coisas, as tarefas diárias de pessoas comuns que mantém o mal afastado, simples ações de bondade e amor." Pensou orgulhoso. E era com base nessa crença que alimentava a esperança que mal seria por fim destruído.
— Belo e profundo conselho, majestade. – Respondeu depois de uma pausa não muito longa.
— Obrigado. Aliás, estava te procurando para convidá-lo para o café da manhã. E nem pense em dar alguma desculpa para sumir desse compromisso. – Declarou o pequeno rei.
— Hum... Eu não pretendo ser descortês, mas...Quiçá podemos atrasar a refeição para mais tarde.
— O que? Um hobbit nunca atrasa uma refeição! – Bilbo realmente parecia horrorizado com tal sugestão.
— Mesmo quando irá receber convidados? Imagino que a hospitalidade dos hobbits fosse algo famoso e até mesmo sagrado.
— Convidados? – O segundo rei franziu o cenho, pois devido ao noivado e casamento de seus sobrinhos e primo Erebor tinha aberto as portas para convidados dos reinos aliados, assim sendo, o reino anão estava lotado de visitantes. Logo, não estava esperando por mais convidados. Por outro lado, o mago cinzento estava certo quanto a hospitalidade, esta era uma virtude bendita para os hobbits respeitáveis. Afinal, compartilhar a comida de sua despesa com outros era uma forma de demonstrar sua opulência e abnegação. Seria uma afronta a todos os princípios básicos de um hobbit negar hospitalidade a um convidado, mesmo que esse não fosse esperado.
— Convidados? Que convidados? – Insistiu na pergunta, mas pelo visto o mago não precisou emitir uma resposta pois guardas anões já corriam pelos corredores adjacentes a sacada.
— O que está ocorrendo? – Exigiu saber.
— Majestade, foram avistadas criaturas no perímetro da montanha. – Informou o jovem guarda.
— Criaturas? Que tipo de criaturas? – A imagem dos orcs logo saltaram em sua mente, mas um anão não iria se referir a um orc como uma criatura. Havia uma lista de palavras (para não dizer palavrões) bem mais criativa para se referir a aqueles seres vis. E todo anão gosta de esbanjar o seu vocabulário de obscenidades.
— Nós pensamos que eram ursos, mas logo um deles se transformou em um homem. Digo...Não um homem como o povo de Dale ou da cidade do lago. Era bem mais alto e robusto...Enfim, uma criatura desconhecida.— Tentou explicar o anão gesticulando excessivamente com as mãos.
— Espera...Acho que sei o que isso seja...A vovó Tük já tinha falado sobre isso... – Matutou Adalgrim, coçando o queixo imberbe.
— Ursos...Beorn? Eles não são criaturas...São trocadores de pele! – Exclamou animado o segundo rei – Mas...Eu pensei que Beorn fosse o último! Como é que existem outros?
Gandalf apenas deu os ombros.
— E por que não perguntemos a ele isso? – Sugeriu.
— Ótima ideia. – Assentiu Bilbo já se dirigindo pelo corredor sendo seguido por um hesitante Ada e um nervoso guarda.
~**~
— Eu não acredito que você saiu sem uma escolta para investigar uma fofoca da guarda... – Resmungava Thorin que por fim tinha alcançado o segundo rei "fugitivo". O Durin tinha desconfiado do atraso do seu esposo para coordenar o café da manhã que ocorreria na sala do trono, uma refeição que seria compartilhada com todos os seus amigos, aliados e familiares. Não, seu Bilbo nunca iria faltar um evento que envolvia comida e fofoca. Bard e Duil estavam ansiosos em colocar a "conversa" em dia e na falta de Bilbo estavam prontos em colocar Thorin como um substituto. Por isso o primeiro rei agradeceu a Mahal por receber a notícia da guarda sobre a presença de criaturas estranhas em sua fronteira (uma ótima desculpa para se livrar do reis de Mirkwood e de Dale), mas logo em seguida praguejou ao perceber que seu querido hobbit tinha tomado a iniciativa em receber tais invasores.
— Eu não estou sem escolta, Ada está aqui comigo. E Gandalf também. – Apontou para o primo que deu um sorriso nervoso ao rei anão. O velho mago também o saudou, mas Thorin soltou um rosnado nada cordial para o ancião.
— Além disso você me alcançou, não é mesmo? – Continuou a falar, Bilbo – Nem todos tem o privilégio de ter um rei como escolta pessoal. Ainda mais quando esse rei é tão lindo.
— Bilbo... – Thorin tentou permanecer contrariado, queria mesmo ficar bravo, mas aquele sorriso e o toque amoroso de Bilbo em seu braço...A frustração que sentia estava se dissipando com rapidez.
— Você não trouxe o Frerin?
— Como eu poderia trazer o nosso filho em uma situação como essa?
— Não seja tolo, Thorin. Temos convidados a receber e não inimigos.
— Convidados? Essas criaturas?
— Eles são nossos amigos. Digo, pelo menos um deles é.
Thorin iria questionar, mas logo os seus guardas empunharam seus machados, assumindo uma posição defensiva quanto um possível inimigo. Eles estavam sobre a ponte de pedra que interligava Erebor ao mundo exterior. Na outra extremidade da ponte, Thorin observou o aproximar das famosas criaturas. Eram ursos, não ursos comuns, já que seu tamanho era muito superior àquele animal. Era quatro ursos adultos e dois filhotes, dentre eles um homem vestindo o que parecia ser uma túnica feita de pele. Ele era alto, musculoso e apresentava ainda vestígios animalescos em sua aparência. Principalmente nos caninos avantajados que apresentava, ficando muito evidente isso quando ele sorriu.
— Beorn! – Exclamou Bilbo todo animado, já se dirigindo ao homem fera, Thorin o seguiu apressado.
— Bilbo. – Falou aquele que deveria ser Beorn, dando passos cautelosos em direção ao segundo rei. Thorin estava prestes a pegar a sua espada, mas Bilbo o deu um tapa no ombro.
— Querido, esqueceu que eu te falei sobre Beorn? Foi ele que salvou os seus sobrinhos daqueles trolls! Ou já esqueceu disso? Será que os anões não possuem o mínimo de gratidão?
— Oh... – Thorin voltou a encarar o troca peles, meio constrangido falou – Mestre Beorn, peço perdão por meus atos. Ainda mais tendo em vista que você salvou não só os meus travessos sobrinhos como também o meu maior tesouro, Bilbo Bolseiro-Durin.
Bilbo corou e Beorn deu mais um sorriso animalesco.
— Vejo que você está bem, meu amigo hobbit.
O hobbit correspondeu aquele sorriso com afeição. Na última vez que tinha encontrado Beorn, fora antes de conhecer Thorin. Naquela época, estava repleto de inseguranças quanto o seu futuro em Erebor, se sentia meio que perdido sobre a sua nova posição como rei dos anões e sobre os sacrifícios que fez em prol da aliança. Quantas coisas já tinha mudado...
— Estou muito bem, isso é verdade. – Bilbo segurou a mão de Thorin que correspondeu o gesto sem pensar muito a respeito – E você, meu amigo? Como está? Vejo que tens alguns novos companheiros.
Beorn assentiu.
— Eles vivam nas montanhas... Perto de Erebor. Viviam aqui desde que os anões foram expulsos de suas terras pelo Dragão. Escondidos em cavernas, os sobreviventes do meu povo viviam sobre a sombra da montanha solitária...Protegidos, de certa forma, pelo temor que todos tinham do dragão que ali habitava. Quando os anões vieram e reconquistaram seu reino, meu povo relutou a sair de seus esconderijos. Viviam mais na forma animal do que na forma humana. Praticamente esquecendo de sua racionalidade, se entregando aos instintos.
— Nós não sabíamos que outros seres habitavam nossas terras... – Falou Thorin – Digo, passamos meses tentando reconstruir o que Smaug tinha destruído que não prestamos muita atenção ao que vivia em nossas fronteiras. Alias, só agora estamos mesmo vasculhando para além da Montanha Solitária.
— Eu não os culpo, rei anão. Mas deve saber que meu povo teme a ambição de outros povos...E os anões são caracterizados por ter demasiada ambição.
Thorin queria negar tal crítica, mas sabia que estava sendo hipócrita. Alias, entendia o receio de Beorn e de seu povo, afinal, foi a ambição anã que atraiu o dragão. O reino de Moria também caiu devido a ambição.
— Não desejo repetir o mesmo erro de meus ancestrais. – Disse ganhando um assentir por parte de Beorn.
— Eu te observei, rei anão...Sim, tenho te vigiado. Acho que você está se esforçando para ser diferente. A mudança não ocorre tão facilmente, infelizmente. E isso não é uma crítica a você somente, também a mim. Meu povo não pode viver se isolando... Precisamos de ajuda...Precisamos de aliados...Não desejo ver minha raça morrer. Que nossa cultura despareça da história da Terra Média...Eu queria...Digo...Nós queríamos...
— Vocês são bem vindos! – Interpôs Bilbo antes mesmo que o troca peles continuasse a sua fala, podia ver que para Beorn era muito difícil admitir que precisava de ajuda – Na verdade, vocês chegaram na melhor hora do dia: o café da manhã! Acho que podemos trazer a comida para fora, fazer um grande piquenique, o que acha Thorin?
— Bem... – Thorin mirou Beorn agora com mais atenção. Começou a identificar naquela exótico ser vestígios de si mesmo. O orgulho e a responsabilidade de um povo sobre seus ombros. Um anão preso as ideias passadas do mercantilismo, sendo o lucro o seu maior guia, não aceitaria aquele tipo de aliança. O que Beorn tinha a oferecer? Seu povo estava praticamente extinto. Anões não faziam caridade. Sim, era isso que os anões do passado teriam dito, mas Thorin não mais acreditava em tal filosofia retrógrada. Prometera construir uma Erebor diferente e isso significava transpor preconceitos e estar aberto a novidades.
— Acho uma ótima ideia. – Falou por fim o primeiro rei.
Bilbo temeu que Beorn chorasse, quase viu lágrimas rolarem da face do homem fera.
— Obrigado... – Sussurrou, mas logo sentiu que sua grande mão estava sendo puxada por uma mão menor. Bilbo segurava a sua mão. O contraste entre a mão delicada do hobbit com a mão longa e suja de terra do troca pele.
— Venha, Beorn...Quero que conheça meus amigos e família. Sabe que eu tenho um filho? Gostaria que você o conhecesse.
E foi assim que uma aliança nada convencional se formou entre Erebor e os troca peles. Gandalf fora testemunha desse tão inusitado evento. Enquanto a sombra se propagava e ampliava o seu poder com base no medo, os povos da Terra Média se uniam com outro laço ainda mais forte...O amor.
Era isso que seria a queda dele. Pois Sauron nunca entendeu tais sentimentos. Não sabe o quão poderoso pode ser o amor. E é por meio de tão puro sentimento que as foças das trevas se destruirão. Pelo menos era essa a esperança de Gandalf.
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