Os dois reis sob a montanha
8 Trolls...
Notas iniciais
A viagem estava durando mais do que Bilbo poderia imaginar. Não que estivesse desgostando dela, mas o pequeno hobbit não tinha costume de andar tanto, nem de ficar acampado ao relento. Hobbits são criaturas que prezam pelo conforto de uma boa toca, adoram comer boa comida e se dedicam à atividades como a leitura e jardinagem, para passarem o tempo. Acampar em terras ermas, comer aquilo que Dwalin erroneamente chamava de comida... Isso já estava o cansando! Quando eles iriam chegar a Erebor? Além disso, seu cabelo estava crescendo. Bilbo estava procurando, em suas possessões, sua tesoura e pelo o que parecia tinha desaparecido... Muito conveniente.
– Malditos anões! – Resmungou, tirando os cachos que caiam sobre os seus olhos – Eles podem ter o costume de não cortar os cabelos, mas isso não se aplica a mim!
Bilbo revirava a sua mochila, na busca de algum instrumento cortante.
– Você é o nosso segundo rei! – Disse Balin fazendo o pequeno Hobbit se sobressaltar, por pensar que estava sozinho até o momento – Você deverá seguir nossas tradições e, além disso... Agora podemos fazer tranças em seu cabelo! Finalmente!
– Mas... Hobbits normalmente cortam os cabelos! – Meio que choramingou. Não queria ficar com cabelos longos, como os anões; era algo que culturalmente não estava acostumado.
– Entretanto, agora você é rei dos anões... Deve respeitar nossa tradição!
– Porém eu não deixei de ser hobbit, unicamente, por ter me casado com Thorin!
– Olha... Não é tão ruim. Por que não me deixa fazer tranças, para assim não cair os cabelos sobre os seus olhos? Assim você avalia se gosta ou não! – Ofereceu, amistoso, o anão de barba branca.
– Certo... Contudo, eu quero minha tesoura de volta!
– Certamente, majestade! – Balin guiou Bilbo para um local no qual ele poderia se sentar. O velho anão rapidamente começou a trançar os cachos rebeldes do menor.
– Na verdade, sua família é que deveria ser responsável para cuidar disto. Mas eu não poderia deixar que Kíli ou Fíli o fizessem, levando em conta que eles nem tomam o devido cuidado com os próprios cabelos e barbas... O certo seria Thorin fazer isso.
– É só cabelo... Eu não ligo muito para quem irá tocá-lo ou não. — Resmungou Bilbo, ainda chateado com o sumiço de sua tesoura.
– Eu já te expliquei que o cabelo é algo importante. E ao deixar outro anão que não seja da confiança de seu marido tocá-lo significa traição!
– T-Traição!? Por tocar em meus cabelos? – Bilbo parecia horrorizado com aquilo. Os anões levavam os tratamentos capilares ao extremo.
– Exato. Por isso digo que deves tomar cuidado.
“Posso estar desejando chegar logo a Erebor, mas também temo... Não será como viver no Condado.” Pensou, deixando que Balin se ocupasse com seus cabelos. “Talvez permanecer viajando não seja tão ruim assim.”
~THEKINGANDTHECONSORT~
– Por que eu?! – Resmungou Bilbo, segurando as duas tigelas, contendo sopa, que deveria entregar aos seus “sobrinhos”. Segundo Dwalin, era o seu dever cuidar deles, já que agora era o “tio” deles e Thorin não estava presente para corrigi-los. – Eu não quero servir de babá! – Continuou a resmungar enquanto descia a encosta, em busca dos jovens anões, que tinham sido designados a tomar conta dos pôneis. Logo encontrou a dupla no meio de uma discussão. Bilbo já sentia que algo estava errado. Outra vez tinham se metido em confusão?
– O que está acontecendo? –Perguntou, quando finalmente alcançou os irmãos.
– Ah! Tia! – Falou Kili sorridente – Veio nos trazer comida!
Bilbo afastou a tigela de comida para longe das mãos do jovem anão, que fez biquinho, tal como uma criança na qual foi retirado o seu doce.
– Primeiro, não sou “tia”. No máximo podem me chamar de tio! Segundo, o que estão fazendo? Não deviam estar guardando os pôneis?
– E nós estamos! – Falou Fili sorrindo meio nervoso. O hobbit arqueou as sobrancelhas com aquilo; aqueles dois realmente não sabiam mentir.
– Se estão escondendo algo sabem que, independente do esforço que tentam fazer, a verdade irá aparecer e vocês dois estarão encrencados da mesma maneira! – Repreendeu Bilbo.
Os irmãos se entreolharam, como se compartilhassem pensamentos secretos. Por fim, suspiraram, meio como estivessem se resignado.
– Então? – Bilbo batia o seu grande pé no chão, impaciente.
“Sinceramente... Drogo não me dava tanto trabalho! Esses dois anões parecem muito mais crianças do que meu jovem primo!” Pensou irritado.
– Bem... Existiam nove pôneis – Começou a falar Kili.
– Existiam?! – O jovem Bolseiro não gostou daquele tempo verbal utilizado. Algo realmente tinha acontecido.
– Er... Quando chegamos aqui tinham nove pôneis, sabe? Trabalhar tomando conta deles é meio tedioso — Agora era vez de Fili explicar.
– Sim! Não tem nada para fazer ao não ser ficar olhando para eles! – Completou Kili.
– Então... Nós resolvemos treinar um pouco!
Bilbo balançou a sua cabeça em uma forma negativa. Com aquelas semanas passadas, viajando com os herdeiros de Durin, o hobbit teve contanto com o que eles classificavam como “treinamento”. Na verdade, tratava-se de rolarem no chão, lutando. Pelo o que parecia, os anões gostavam muito de incentivar atividades relacionadas a armas e lutas. Balin ou, tampouco, Dwalin interrompia aqueles “treinamentos”; mesmo que às vezes tais lutas pudessem chegar ao ponto dos irmãos se ferirem.
“Anões são um povo esquisito!” Concluiu Bilbo “Se eu tiver filhos com Thorin eu não vou deixar que eles fiquem rolando no chão, tal como animais brutos e sedentos por sangue!” Logo sentiu suas bochechas ficarem rubras com aquele pensamento “ Não acredito que acabei de cogitar que terei filhos! Digo... Óbvio que terei e... Bem...”
– Tio Bilbo? Você está nos ouvindo? — Perguntou o jovem anão loiro, meio preocupado com a estranha reação do pequeno hobbit.
– Você está vermelho... Está com febre? – Disse Kili em um tom quase de desespero.
– Eu estou bem... Seus tolos! –Respondeu, tentando controlar suas emoções e pensamentos.
– Bem... Como eu estava dizendo, quando voltamos do treinamento percebemos que três pôneis tinham sumido! Eles não poderiam ter fugido! Eles estavam amarrados nos troncos! – Explicou Fili, apontando para os pôneis restantes, enfatizando as cordas que os amarravam.
– Pôneis não poderiam ter simplesmente desamarrado, não é? – Perguntou Kili meio descrente desta possibilidade.
– E o que poderia ter acontecido? –Bilbo olhou em sua volta buscando por uma possibilidade. Enquanto isso os dois irmãos jogam culpa um no outro pelo o ocorrido. Um aroma discrepante pairava pelo o ar. O cheiro de folhas secas e relva fresca estava sendo dominado por outro cheiro estranho. Bilbo cheirou as tigelas de alimento, pensando que advinha delas, mas não era... Havia cheiro de comida no ar!
– Tem um acampamento nestas matas, além do nosso! – Concluiu o hobbit, deixando as tigelas em cima de um tronco caído, perto dos pôneis remanescentes.
– Como tem certeza disso? – Perguntou Fili, meio incrédulo com relação àquela possibilidade.
– Cheiro! Nós hobbits temos um olfato apurado! – Apontou para o nariz com orgulho – Por que acha que somos tão bons cozinheiros e agricultores? Ao contrário de vocês, anões, que dão mais interesse a seus cabelos e barbas...
– Ei! – Kili fez meio que um biquinho, se sentindo ofendido.
– Você sente cheiro de algo? – Perguntou o irmão mais velho, curioso.
– Sim... Sinto cheiro de comida! – Farejou mais – E vem dali! – Apontou para uma direção na floresta.
– Então vamos lá! – Falaram os irmãos, avançando em direção ao local apontado.
– E-esperem! Não devíamos avisar Balin e os outros primeiro?
– Se recuperarmos os pôneis antes, não estaremos encrencados!
Bilbo suspirou. Algo em seu interior lhe dizia que aquilo era uma má ideia, mas simplesmente não podia deixar aqueles dois sozinhos... Eles eram seus novos “sobrinhos”, afinal de contas.
O trio adentrou na floresta. Havia uma trilha de árvores caídas; isso significava que algo grande tinha passado por ali? Aquilo só deixava Bilbo ainda mais preocupado, contudo, com relação aos anões, parecia incentivá-los a sua “caçada ao monstro misterioso”; até discutiam como iriam contar seus feitos ao grupo e como ficariam famosos.
“Crianças...” Pensou Bilbo, balançando a cabeça em desaprovação. Mas antes que pudesse falar alguma advertência sobre a situação, o cheiro de comida se tornou mais forte, fazendo com que o pequeno hobbit voltasse sua atenção para uma clareira a alguns metros de distância. Podia-se ver uma fogueira, contudo, não era só isso... Três figuras gigantes rodeavam o fogo e havia uma grande panela enferrujada que jazia na fogueira. Uma das criaturas parecia estar sendo responsável pelo o ato de “cozinhar”, enquanto os outros dois estavam ansiosos para comer.
– Os pôneis! – Sussurrou Kili, apontando para os animais que estavam amarrados nas árvores, logo atrás dos monstros.
– O que... O que são eles? – Perguntou Bilbo. Sua voz mal conseguia sair da boca, até ela parecia assustada. Aqueles seres disformes que usavam resto de peles de animais para se cobrir.
– São trolls... – Informou Kili.
– Trolls das montanhas, precisamente! – Completou Fili.
– Nós temos que chamar os outros! – Concluiu Bilbo. Aquilo era mais sério do que tinha imaginado. Na verdade, tinha pensado que outros viajantes pudessem ter pegado os animais para si próprios, afinal, os dois anões jovens tinham deixado os animais desprotegidos... Contudo, trolls?! Isso nunca tinha passado por sua mente.
– Não! Nós podemos com ele! – Falou sorridente Kili, já pronto para tirar sua espada.
– O que? Estão malucos? São três trolls! – O pequeno hobbit, para enfatizar sua observação, apontou para os mesmos trolls a poucos metros deles.
– E nós somos três também! – Agora era a vez de Fili falar, apontando para eles três.
– E-eu não sei lutar! – Choramingou Bilbo.
– Não? – Kili parecia surpreso com a observação.
– Sou um Breeder? Lembram? Não somos permitidos aprender a lutar! – Falou sem paciência ‒ Além disso, mesmo que eu soubesse lutar, isso não mudaria o fato de estarmos em desvantagem! Olha o tamanho deles e o nosso? Seremos esmagados!
– Anões são uma raça forte! Podemos levantar rochas 20 vezes o nosso tamanho e peso! – Disse o loiro, orgulhoso.
– Pedras não falam ou te atacam! Muito menos vão tentar te comer! – Argumentou Bilbo – Vamos voltar ao acampamento e pedir ajuda. Teremos os pôneis de volta!
– Tio Bilbo... Mas assim ficaremos encrencados! – Choramingou o moreno, quase fazendo biquinho, tal como uma criança.
– Vamos ficar mais encrencados se ficarmos a...
– Eu sinto cheiro... De outra comida... — Fungou um dos trolls, vindo na direção do trio – Acho que teremos mais... Carne para a nossa sopa...
O trio tentou se esconder, contudo o monstro fora muito mais rápido, pegando, de súbito, Bilbo.
– Vejam, amigos! Um esquilo gigante! – Informou orgulhoso, expondo o hobbit que tentava, em vão, se libertar.
– Ei! Solte nossa tia! – Atacou Kili, logo seguido por Fili, contudo os dois anões foram capturados pelos outros trolls, que sorrateiramente os cercaram.
~THEKINGANDTHECONSORT~
Um grande urso farejava o ar da noite. Finalmente tinha conseguido alcançar o rastro de seus pôneis que tinham sumido; não iria abandonar o seus animas queridos, que além do mais, eram tais como sua família. Sabia muito bem que eles não teriam fugido, e sim, roubados! Teria que salvá-los. Continuou a seguir o seu faro até alcançar as bordas de uma clareira. Três criaturas enormes ali estavam, tentando amarrar três criaturas menores.
“O que está acontecendo?” Pensou enquanto já abandonava a sua forma animal e assumia a forma humana. Teria que ser racional agora... Não podia se deixar dominar pelos desejos e o impulso de sua forma de urso.
– Como iremos comê-los? Melhor fritos? Ou cozidos? – Perguntou um dos trolls, que parecia lamber os lábios, imaginando.
– Acho melhor tirarmos a pele deles primeiro! Anões tem pele áspera! – Resmungou um deles.
– Precisa desossar? E a barba? Não gosto de comer barba! – Choramingou o terceiro Troll.
– V-vocês não sabem cozinhar anões? – Interveio um pequeno hobbit, amarrado.
O Homem-urso observou abismado aquilo; o que um hobbit estava fazendo ali? Já tinha visto aquelas pequenas criaturas, que no passado até tinham sido comparadas com coelhos. O reino dos pequeninos estava muito distante para que aquele jovem estivesse perdido! Além disso, acompanhando de dois anões?
– E você, esquilo, sabe cozinhar, por acaso? – Perguntou um dos trolls, meio irritado pela intromissão.
– E-eu sei, sim! De onde eu venho, sou considerado um grande chef! Eu sei diversos segredos culinários...
“O que ele está tentando fazer? Morrer?” Pensou o homem-urso temendo pela a segurança da pequena criatura. Não ligava para os anões, nunca gostou deles de verdade...
– Ora... Cala boca, esquilo! – Rosnou um troll.
– Se não fizerem de forma adequada... Não poderão saborear a carne, além de poderem ficar com dor de barriga!
– Tio Bilbo! O que está fazendo? – Sussurrou um dos anões que tinha cabelos negros.
– Está incentivando que eles nos comam?! – Falou o anão loiro.
– Shh... Quietos. — Resmungou o dito “tio Bilbo”.
– Eu digo para devorarmos o esquilo primeiro! Ele fala demais! – Rosnou o troll.
– Espera! Eu quero saber os segredos cu-culin... Os segredos de cozinhar! – Disse o troll que tinha uma espécie de avental sujo, deveria ser o “chef” do grupo – Eu não gosto do gosto dos anões! Ele falou que tinha uma forma de fazer a carne ficar boa!
– E tem... — Bilbo engoliu em seco ao ver os trolls o observando esperando que falasse — O melhor é cozinhar... Bem... Afinal eles são meio sujos!
– EI! Eu não sou sujo! –Resmungou o anão moreno.
– Isso é verdade... — Farejou um troll – Eles parecem podres!
– Certo. Então vamos cozinhá-los! – Concordou o troll cozinheiro.
– Esperem! Ainda não acabou!
– O que mais? – Rosnou.
– Vocês precisam tomar um cuidado especial... Porque... Porque... Esses dois anões estão com vermes!
– Vermes? – Um dos trolls se assustou e até se afastou da dupla de anões.
– Sim! Vermes! Grandes e nojentos parasitas... Pegaram por não tomar banho! – Explicou Bilbo, adorando a cara de horror no rosto dos trolls.
– Eu não tenho nenhum ver... — Começou a falar o anão mais novo, contudo foi interrompido por um chute dado pelo o loiro –Oh... Eu tenho grandes vermes! Um deles é maior que o meu braço!
– Sim... Eu nem sei como ainda estou vivo! –Dramatizou o outro.
O homem-urso não pode conter uma leve risada, aquele pequeno estava tentando enganar os estúpidos trolls? E estava conseguindo... Mas até aonde ele conseguiria levar a sua “brincadeira”?
–Mas se cozinhar eles... Os vermes devem morrer! – Teve a ideia uma das criaturas.
– Tem razão. Podemos arrancar depois de cozidos... E depois assar... — Analisou o cozinheiro.
– Vocês estão demorando muito. Logo vai amanhecer! – Rosnou o terceiro, impaciente, pegando Bilbo – Eu acho que devemos cozinhar esse primeiro! Ele não parece ter verme e nem cheira mal!
– Não! Não! Deixe o tio Bilbo em paz! – Tentaram se libertar os anões.
– E-está tudo bem. — Disse o Hobbit – S-se me comerem... Vocês vão ficar satisfeitos... Mas os anões estão doentes e nem vão sobreviver muito tempo. Acho que devem libertá-los.
– Ele tem razão... Não quero ter verme! – Choramingou um troll.
– Que seja. Vamos cozinhá-lo! – Falou o troll “cozinheiro”.
– Não! Tio Bilbo! – Chorou um anão em desespero.
“Ele está se sacrificando pelos anões. Não posso ficar aqui olhando algo assim...” Rosnou. Sua forma animal começou a dominar a sua mente e logo todo o seu corpo.
– Ouviram algo? – Perguntou um dos trolls, olhando para os lados.
– Não temos tempo para isso! Estou com fome!
Um urro longo se fez ouvir; os trolls paralisaram. Bilbo foi largado no chão, a poucos centímetros da panela fervente. Tudo parecia ter ficado em silêncio à espera do que iria acontecer.
Novamente o urro. Desta vez veio acompanhado daquele que o produziu: um grande urso adentrou a clareira e atacou os trolls com ferocidade. Bilbo aproveitou o momento para engatinhar até aonde os trolls tinha deixado as suas armas. Logo cortou as cordas que o prendiam, utilizando uma das espadas dos anões. Rapidamente foi libertar os seus “sobrinhos”, tentando desviar da batalha que acontecia ali. Quase fora pisado por um dos monstros!
– Vamos embora... Antes que mais alguma coisa aconteça! – Disse nervoso, e de fato aconteceu. O urso, agora cercado pelos trolls da montanha, golpeou a pedra atrás de si com uma de suas imensas patas. A pedra se rachou, revelando os raios do sol. Era o amanhecer. Para a surpresa de Bilbo, as criaturas começaram a se transformar em pedra quando expostas a luminosidade. Em segundos, o que eram antes monstros famintos, agora eram simples rochas, tais como esculturas horrendas no meio da floresta.
– Tio Bilbo! — Os irmãos anões ficaram na frente do hobbit ao verem o grande urso se aproximar.
– Esperem! Ele nos ajudou. Se não fosse por ele estaríamos mortos! – Repreendeu o menor.
– Mas... O que garante que ele não irá nos comer também? – Argumentou o anão de cabelos loiros.
– Eu não como porcaria. – Rosnou a criatura, que agora assumia forma de homem, deixando o trio assombrado.
– Um troca-peles... – Balbuciou Bilbo – Eu li sobre você nos meus livros... Pensei que fosse uma lenda...
– Vejo que conhece a minha raça... – Sorriu o homem-urso – E eu conheço a sua , pequeno hobbit. Estás distante de sua casa... Esses anões te fazem prisioneiro? – Rosnou para os dois anões, que ainda estavam tentando entender a situação.
– Não, não! – Negou Bilbo rapidamente – Eles são meus companheiros de viagem. No caso, esses dois encrenqueiros estão mais para meus novos “sobrinhos”. Oh! Que-que falta de decoro da minha parte... Eu nem me apresentei e tão pouco agradeci! Sou Bilbo Bolseiro, do Condado. Eu agradeço imensamente por sua ajuda! – O hobbit olhou para os irmãos anões, lhes lançando um olhar sério.
– S-sou Kili...
– E eu Fili. Príncipes de Erebor... – Os dois fizeram uma pequena reverência – Obrigado por nós salvar. Senhor... Urso.
– Fili! Ele tem um nome! – Resmungou Bilbo.
– Decerto tenho. Meu nome é Beorn. — Sorriu o troca-peles, expondo seus caninos avantajados.
Os gritos e resmungos vindos da floresta os fez interromper a conversa. Logo mais anões adentraram a clareira, armados com seus machados e espadas. Estavam prontos para atacar Beorn, que rosnou para eles. Parecia que um novo combate teria início.
– PAREM! – Gritou Bilbo ficando entre o homem-urso e os anões.
– Bilbo, majestade, saia da frente... Esse não é um local seguro! – Falou Balin, preocupado.
– Eu sou rei de Erebor, esposo de Thorin... E ordeno que abaixem essas armas agora! – Falou autoritário. Os anões ficaram surpresos com o comando; se entreolharam meio incertos se deviam obedecer – Estou esperando. Ou será que estavam mentindo com relação ao meu título? Ou vocês não têm lealdade a Erebor?
– N-nós temos! – Falou um deles.
– Então... Abaixem as armas agora!
Todos anões, até mesmo Dwalin, que parecia mais relutante com relação a isso, abaixaram suas armas.
– Que bom! – Sorriu Bilbo alegre – Esse é Beorn. Ele acabou de salvar a mim e os dois príncipes de uma morte certa. – Nisso apontou para as grandes estátuas de pedra dos trolls. Os anões soltaram expressões de surpresa.
– C-como? Espere... Primeiro, por que vocês estão aqui? Eu só pedi para que Bilbo levasse comida para os príncipes! Como um simples comando resultou nessa confusão? – Perguntou Dwalin, claramente irritado, olhando furioso para os príncipes, que desviaram os olhares, fitando a natureza a sua volta como se fosse algo realmente interessante.
– Bem... Eu contarei essa história. Mas antes... Café da manhã! – Disse o hobbit, apontando para a barriga – Eu nem consegui jantar. Muito menos tive a ceia! Tenho que tomar o primeiro café da manhã para restaurar as forças!
– Espera. Esse... “Ser”... Virá conosco? – Dwalin apontou para Beorn, que rosnou novamente.
– Sim, claro. É o mínimo que posso fazer por ele ter salvado as nossas vidas! – Falou, simplesmente, o jovem Bolseiro – E vamos logo. Essa noite foi uma das mais longas da minha vida. — Disse exausto. Queria esquecer tudo aquilo. Talvez tomando uma xícara de chá, que lavasse as lembranças da noite traumática.
– Por que nossos pôneis estão aqui no acampamento dos trolls? – Pergunto Balin, arqueando uma das sobrancelhas e encarando de relance Kili e Fili.
– Conversamos tudo no café-da-manhã! – Respondeu Kili correndo para acompanhar Bilbo.
– Sim! Estamos morrendo de fome! – Disse Fili sorrindo nervoso.
– Esses príncipes... Se Thorin estivesse aqui... — Resmungou Dwalin, os seguindo.
“Um hobbit sendo rei dos anões? Por isso eu não esperava...” Pensou Beorn, também seguindo o grupo.
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