Os dois reis sob a montanha

50 Sorrateiros e Orgulhosos Anões


Notas iniciais
Lady: annyeonghaseyo! ~ Olar não tenho o que dizer Bjao Boa leitura ♥

Não houve nenhuma comitiva de anões para vê-los partir. As trombetas forjadas do mais resistente metal, sobreviventes do ataque do dragão, não foram tocadas, anunciando boa sorte aos viajantes. Nada. Fili não sentiu nenhum ressentimento quanto a isso. Ocultando o seu rosto por trás do capuz negro, se arrastava por um dos tuneis secretos de Erebor rumo a sua nova aventura, um novo resgate — entretanto, ao contrário das missões anteriores, essa era secreta. Sabia que tinha que ser ainda mais cuidadoso, para que nenhum anão o visse fugir. O conselho não devia nem sonhar sobre a existência daquela missão. Seu tio já estava em maus lençóis com toda a história do romance; se soubessem que o primeiro rei incentivou a ida dos sobrinhos ao resgate do inimigo elfo... O jovem príncipe não queria nem imaginar as consequências.
— Aqui fede a barba úmida e mofada de anão que deixou de tomar banho por um mês inteiro por trabalhar nas minas! — Alguém reclamou logo atrás do príncipe.
Bofur, com seu estupendo chapéu com abas, tapava o nariz com os dedos.
— Ou seja, você está descrevendo algo que ocorreu com você, não é? — Provocou Nori risonho.
— Eu nunca fiquei tanto tempo nas minas e sempre tratei muito bem a minha barba!
— Que barba? Você quase não tem barba! — Continuou evidenciar o outro anão.
— Acho que deve ter caído por causa do mofo... — Acrescentou Kili unindo na provocação.
— Olha quem fala? O filhote que ainda nem tem pelos o suficiente para tentar provocar um outro anão que por opção própria resolveu tratar de seus cabelos faciais de uma forma diferente!
Kili fechou a cara, quase fazendo um biquinho. Bifur, que estava ao seu lado, fez alguns gestos com a mão o que arrancou a risada do grupo — bem, não de todos: Bofur estava evidentemente irritado. Fili balançava a cabeça para os lados em um sinal de desaprovação do que ocorria e um pequeno hobbit observava tudo totalmente confuso.
— O que ele disse? — Ousou perguntar, timidamente, Drogo.
— Ele confirmou a história da barba mofada... — Respondeu Kili ainda ofegante pela a risada.
— Companheiros! Essa é uma missão secreta, se é que vocês se lembram o que secreto significa?! — Repreendeu o príncipe herdeiro. Aqueles anões tinham se oferecido para acompanha-lo e lógico que na hora pensou que tratava-se de uma boa ideia: os três eram exímios em trabalhos que envolviam destreza e não força. Bofur era um experiente minerador, sabia andar nos obscuros e por vezes instáveis túneis de Erebor; saber ser silencioso enquanto trabalhava era necessário para a sua sobrevivência, afinal, ninguém queria provocar um desmoronamento por tropeçar em suas barbas ou pés. Nori, por outro lado, tinha uma habilidade que foi desenvolvida durantes os anos que viveu com os humanos em suas cidades e vilas — a realidade daqueles tempos era dura, nem sempre um anão conseguia emprego, logo, surgiu outros meios de buscar a sobrevivência. No caso de Nori, o furto se tornou seu ganha pão. Aquele anão tinha as mãos rápidas, capazes de retirar sacos de moedas de dentro das calças de viajantes distraídos e entre outros furtos. Nunca fora pego. Lógico que essa habilidade não era bem vista pelos os anões, que exaltam o acumulo de tesouros frutos de seu próprio esforço e não do roubo. Nori ocultou seu dom, só o utilizando em casos de emergência, como por exemplo surripiar as cartas de amor de seu irmão mais novo ou mesmo, quem sabe, ajudar o jovem príncipe Fili em sua missão. Bifur já fora um grande guerreiro, podendo até mesmo fazer parte da guarda real, mas o acidente com um machado em sua cabeça o tornou inválido. Perdeu a capacidade de falar e as vezes sua mente lhe pregava peças, via vultos que não existiam e mesmo fantasmas de seu passado o que o tornava perigoso em batalha já que muitas vezes atacava coisas que não estavam ali ou mesmo acabava por ferir seus companheiros. Fora considerado louco, mas sua família (Bifur e Bombur) não o abandonou. Com o tempo, Bifur começou a reaprender a viver uma nova vida não como um guerreiro, e sim como um artesão. Agora o velho anão era conhecido por seus brinquedos, que constrói com tanto amor e dedicação. Por isso, ele seria útil na missão, seus olhos agora eram adaptados a notar detalhes que a maioria não perceberia. Galhos quebrados. Pegadas parcialmente cobertas. Objetos que foram levemente mudados de lugar. Essa habilidade seria muito útil, principalmente quando queria esconder os seus rastros.
— Se acalme, jovem príncipe, esqueceu que essa não é nossa primeira missão desse tipo? Acho que quando entramos escondidos na montanha para roubar Smaug e, devo enfatizar, sobrevivemos, creio que isso nos dá bastante crédito quanto as nossas experiências em situações delicadas! — Proclamou Bofur.
— Sim, sim, eu sei. Mas, Smaug só era um e estamos tentando passar despercebidos por centenas de anões logo acima de nossas cabeças. — Enquanto falava apontava para o teto. Se podia ouvir, mesmo que fracamente, o som das pisadas de vários pés, risadas e falas. Aquela passagem era logo abaixo do mercado de Erebor, nos níveis mais baixos da montanha.
Bifur sorriu e fez uns rápidos gestos nas mãos.
— Aye! Viu? O meu irmão está certo! — Continuou o anão mineiro.
Drogo mordera o lábio inferior, contendo a mesma pergunta que fizera anteriormente “O que ele tinha dito?”.
— Ele disse que ninguém irá perceber a nossa presença, ao menos que coloque o ouvido no chão e preste bastante atenção. — Informou Nori ao hobbit.
— Mesmo assim... — Continuou a reclamar Fili, mas foi interrompido por um leve batida em seu ombro dado por seu irmão.
— Sei que essa missão é importante para você, como o resgate de Drogo foi para mim... Sei ainda mais que não queres que nada dê errado. Mas, confie em nós, não iremos te decepcionar.
Fili sentiu um pouco das tensões contidas em seus ombros serem retiradas. Sim, aqueles eram seus companheiros, amigos mais fiéis. Mesmo sendo um pouco brincalhões ainda iriam cumprir o seu dever.
— E estou louco para roubar algumas coisas élficas! — Anunciou Nori — Serão como troféus já que nenhum anão irá aceitar comprar alguma coisa vinda dos orelhudos.
Os outros anões concordaram com a inciativa, dando tapas de incentivo nas costas do ladrão.
Fili suspirou. Sim... Tinha que confiar neles, apesar de tudo.

***

Sair de Erebor sem ser notado.
Feito.
Tentar convencer os anões a entrarem em barris.
Essa estava se mostrando uma tarefa mais difícil do que a anterior. Fili sabia que os anões podiam ser teimosos. Antes, isso nunca o importunou de verdade, mas agora estava praticamente tendo um colapso nervoso.
— Por Mahal e seu martelo! O que tem de difícil nisso? Só precisam entrar nos barris! — Falou embravecido.
— Nós temos o nosso orgulho, jovem príncipe. Somos guerreiros e não devemos ser escondidos em um barril como... Como... — Argumentou Nori.
— Uma bagagem qualquer! Isso é um insulto! — Completou Bofur, prontamente.
— Uma bagagem faria menos escândalo, pelo menos... — Comentou um elfo que estava próximo ao grupo, sendo responsável pela carroça aonde transportaria os anões, escondidos nos mantimentos; isso se conseguissem colocar os ditos cujos nos barris.
— O que disse, orelhudo? — Bufou Nori já pegando sua espada e Bofur já estava ao seu lado para ajudá-lo no combate. O jovem elfo de longos cabelos negros e feições altivas, típicas de sua raça, nem fez questão de parecer interessado no confronto, apenas lançou seus cabelos negros para trás em uma postura de desdém.
— Acho que teríamos mais sucesso com o plano se não envolvêssemos esses energúmenos.
Isso foi como acender o pavio da pólvora. Drogo assistia a tudo aquilo com crescente receio, sem saber como impedir o quase inevitável confronto. Lançou um olhar suplicante a Kili, mas viu que este também já se preparava para brandir a espada.
“Perfeito... Minha tarefa de servir de mediador já está fadada ao fracasso!” Não sabia o que deveria fazer.
— Elladan! Pare de provocá-los! — Mandou Elrond se aproximando do bando em seu cavalo — Sinto muito, mestres anões, pelos hábitos de meu filho. — Falou isso lançando um olhar severo sob o jovem elfo — Às vezes, ele mesmo pode se comportar como... Qual foi mesmo a palavra que usou, Elladan? Oh! Sim... Um energúmeno!
Drogo notou as bochechas alvas do dito Elladan adquirirem uma tonalidade avermelhada. Entretanto era outro fato que lhe chamou a atenção: Elrond tinha filhos? Isso significava que ele era casado? Onde estaria a sua esposa? Se isso fosse verdade, então, como ele poderia fazer juras de amor ao Thranduil? Isso soava muito errado...
— Eu só estava tentando ajudar. — Se defendeu Elladan.
— O seu método de “ajuda” deve ser reavaliado, meu filho. — O lorde elfo deve ter notado o olhar crítico do hobbit, pois logo se voltou para ele com um sorriso amistoso — Devo pedir perdão novamente. O tempo que permaneceu em Valfenda não foi o suficiente para que apresentasse a minha família, tendo em vista que você, bem como todos os Bolseiros, também fazem parte da minha linhagem. Este é Elladan, irmão gêmeo de Elrohir, que no momento teve de permanecer em Valfenda, assumindo o meu posto junto com Arwen, minha filha mais nova.
Drogo mordeu o lábio inferior contendo uma pergunta. Seria indiscreto inquirir por mais. Um Bolseiro que se prezasse não fuçaria a vida dos outros desta maneira. Ao contrário de outros hobbits, que pareciam fazer da fofoca um hábito essencial em seu cotidiano.
— Espere! Você é casado! E como fica o orelhudo que trancafiou Legolas? Os elfos aceitam a poligamia? Tipo, se sim, eu não tenho nada contra... Afinal é a sua vida. Mas eu pensei que aquele negócio da “marca” significava que vocês eram mais sérios em relação ao compromisso... — Kili não foi nada sutil. Fili deu um forte tapa na nuca do irmão que, por sua vez, soltou um choramingo de dor.
— Eu sou viúvo. — Explicou, Elrond com paciência, desmontando de seu cavalo.
— Oh- Peço perdão, Lorde. — Interpôs Fili — Meu irmão... Ele... Às vezes fala o que pensa e não o que deve.
— Não me diga? Nem deu para notar. — Comentou Elladan com presunção e para a surpresa de todos, Elrond deu um leve tapa na nuca do filho.
— Acredite, eu sei... Príncipe Kili não é o único a ter esse costume. — Resmungou mas logo retornou o seu semblante controlado e continuou a falar — O que seu irmão falou, todos vocês devem estar se questionando agora. Somos companheiros nessa missão e não acho que o correto é manter segredos.
— Pai, não necessita se expor desde jeito. — Insistiu o elfo.
— Pelo contrário, Elladan, eles têm o total direito de saber. Ainda mais Fili, pois ele também está lutando por o seu amor, assim como eu. — Ao falar, se voltou novamente aos anões (e hobbit) — Infelizmente, não temos muito tempo para perdurar em uma extensa explanação; tentarei ser sucinto. Como disse momentos atrás, sou viúvo. Minha querida esposa deixou esse mundo já faz algumas centenas de anos, eu a respeito e a amo, mas não da forma que um amante ama o outro, mas sim como um amigo ou mesmo como irmãos. Sim, a marca, essa magia antiga que reside em nossa raça, poderia significar que pensamos mais sobre o nosso futuro, sobre os sentimentos, mas a verdade é que isso não serve de empecilho para hábitos mesquinhos voltados para benefícios políticos e econômicos ocorram... Conheci Celebrian quando ainda era jovem. Nossos pais tinham planejado uma aliança entre Lothlórien e Valfenda; na verdade, tinham a intensão de unificar a raça élfica já bastante espalhada pela a Terra Média. Deste modo, vários casamentos ocorreram entre os filhos dos grandes lordes e reis elfos, sendo assim, todos estariam interligados. Um clã ao outro. Uma linhagem a outra. Nessa premissa, me casei com Celebrian e meu primo, Laeroth, foi incumbido de se casar com Thranduil. — Uma sombra de dor passou pelos olhos do lorde elfo — Na época, não tinha forças de ir contra os desejos de meu pai, nem das ambições de meu povo... Acabei por deixar Thranduil ser tirado de mim. Mesmo sem a marca, senti que parte da minha alma tinha se fragmentado ao vê-lo partir nos braços de outro elfo. Os anos passaram, seguimos o que todos esperavam de nós. Me tornei Lorde de Valfenda e Thranduil rei de Mirkwood... Então, ocorreu a guerra. Tempos escuros e de muita dor e desespero. Sangue imortal e mortal, juntos, pintavam os campos de batalha, uma arte macabra da união das raças. Nessa guerra, não só ficamos com profundas cicatrizes, mas perdemos grandes amigos... Laeroth sucumbiu sob a lâmina de um goblin. Nesse momento, pensei que perderia também Thranduil. Então, a verdade sobre meus desejos me atingiu... Apesar do tempo, da distância, eu ainda o amava.
Fili sentiu um pesar ao ouvir aquele relato, imaginou se pondo no mesmo lugar de Elrond, se apaixonando e tendo que desistir de seu amor em prol dos deveres de seu título.
— Celebrian foi bastante compreensiva, na verdade. Ambos tínhamos desistido de nossos anseios pelo dever, então, ela pediu um favor a sua mãe, Galadriel, uma grande e poderá elfa — talvez a única com conhecimentos sobre a marca e como altera-la.
— A marca... Ela pode ser alterada? — Perguntou Drogo, fora ensinado que tal feitiço antigo esta impregnado no sangue elfo e Bolseiro de tal forma que não mais podia ser retirado.
— Galadriel... É especial. — Sorriu o lorde elfo — O que ela fez não foi retirada, e sim transferida. Celebrian tinha um amor, um elfo músico que tinha há muito tempo abandonado. Ela desejou que a marca fosse transferida de mim para ele. Não foi um processo fácil, desentrelaçar duas almas para depois interligar outras... Minha ex-sogra ficou exausta pelo processo, mas no fim conseguimos o que desejávamos... Celebrian teve a sua felicidade, mesmo que momentânea. — Soltou um suspiro triste, parecia prestes a chorar — Não... Ela foi feliz, faleceu ao lado daquele que amava. Era esse o seu desejo.
— Sinto muito... — Balbiciou o jovem Bolseiro.
— Não precisa se desculpar. — Sorriu novamente Elrond, mesmo que esse gesto fora forçado, era evidente que sentia dor ao contar aquela história — Agora vocês entendem o que sinto e como essa missão é importante para mim, assim como para você.
Fili sabia que aquelas palavras eram dirigidas a si. Era como um aviso; “não cometa os mesmos erros que eu cometi”. Não iria abandonar Legolas, não deixaria o seu amor escapar por obstáculos criado por homens, elfos ou anões.
— Ótimo! — Elladan exclamou, sobressaltando a todos — O momento de história acabou. Não temos tempo para trocarmos nossos pesares, esqueceram que temos um prazo a cumprir? O que quero saber é se esses nanicos vão ou não entrar nos barris?!
— Elladan... — O pai resmungou algo na língua elfa. Drogo podia não ser um expert naquele idioma, mas conseguiu entender muito bem algumas palavras como “Vai ficar de castigo quando chegarmos em Valfenda!”.
— Esses nanicos... — Começou a falar Bofur e Fili temeu o pior. Mesmo com a fala bruta do elfo, sabia que era a mais pura verdade, tinha que convencer seus companheiros a engolirem o seu orgulho e adentrarem nos barris — ...Vão entrar sim! Sabemos escolher muito bem as nossas batalhas... Por ora, aceitamos a humilhação.
Os outros anões soltaram resmungos e alguns palavrões em sua própria língua, mas acabaram por assentir e se direicionaram para os grandes barris sob a carroça.
— Graças a Mahal... — Suspirou aliviado o príncipe herdeiro ao trono.

Sair de Erebor sem ser notado.
Feito.
Tentar convencer os anões a entrarem em barris.
Feito.

Dali pra frente só faltava a segunda parte do plano: entrarem despercebidos em Mirkwood.

Notas finais
Lady: e aí? Ansiosos pra ver o Legolas voltar? ; ___ ; annyeoooong ~