Os dois reis sob a montanha
22 O Ínicio da Jornada dos Príncipes de Erebor
Notas iniciais
– Estão levando bastante suprimentos? E as roupas de baixo? Eu não quero que meus filhos andando pela Terra Média sem roupa de baixo limpa!
Fili sentiu suas bochechas corarem. Tentava se manter firme e não se deixar dominar pelo embaraço extremo que sentia. Afinal, a sua mãe parecia não notar que o que falava estava sendo ouvido por todos da companhia que ali estavam para os ver partir. O príncipe podia ver seus amigos tentando conter as risadas com a cena.
– Já está tudo arrumado, mãe... Esqueceu que essa não é a nossa primeira jornada? –Falou Kili, visivelmente ansioso olhando para o horizonte como se esperasse que o Condado viesse a ele ao invés que o oposto ocorresse. Fili suspirou longamente. Seu irmão realmente nem estava ligando para a situação em que se encontravam... Sua atenção se focava em um certo hobbit.
– Eu sei. Mas isso não significa que não irei me preocupar, afinal vocês são os meus filhinhos queridos! Parece que foi ontem quando Fili aprendeu a andar, me lembro muito bem dos seus primeiros passos como também da sua primeira queda, logo em seguida... — Dizia a princesa anã chorosa. Aquilo foi o limite, os outros anões que ali se encontravam começaram a gargalhar.
– Mãe... – O anão de cabelos loiros cobriu o rosto com as mãos; aquilo já era demais.
– Dís, não se preocupe, sei que os seus filhos são capazes de se cuidar. – Falou Bilbo, interrompendo a “humilhação” dos príncipes.
– Bilbo tem razão! Afinal, eu mesmo os treinei. – Lembrou Thorin, com um certo orgulho na voz.
– Por isso mesmo tenho medo por eles... — Resmungou a anã.
– O que disse? – Rosnou o primeiro rei.
– Acho que você ouviu muito bem, meu querido irmão! – O sarcasmo era evidente em sua fala, o que fez o outro anão rosnar ainda mais.
– Já chega! – Interveio o pequeno hobbit se pondo entre os dois irmãos. Aqueles dois sempre arrumavam alguma justificativa para brigarem – Todo esse estresse vai fazer mal para o bebê! – Não gostava de usar daquela tática, mas era surtia um efeito imediato nos irmãos anões.
– Desculpe-me, Bilbo... – Falou Thorin visivelmente preocupado.
– Oh, mil perdões querido! – Dís, tal como o irmão, compartilhava o semblante preocupado.
– Certo, certo... – Suspirou longamente o segundo rei – Acho que o mais importante, no momento, é os nossos jovens príncipes.
Fili sorriu meio nervoso ao ver que as atenções novamente se voltaram para eles. Kili não parecia ligar muito para o que estava ocorrendo, e isso deixou o seu irmão realmente irritado, pois significava que teria que arcar com toda aquela situação sozinho.
– Fili! – Começou a falar o primeiro rei, fazendo o jovem príncipe ficar ansioso com o que seria dito – Tal como foi discutido mais cedo, nessa jornada, o grupo será formado por apenas três anões: você, seu irmão Kili e Glóin. Com um número reduzido, acredito que poderão se mover mais rápido e assim chegarem logo ao reino do Condado.
Os dois príncipes assentiram com a cabeça, pois já sabiam disso; na verdade, Thorin só estava explicando novamente para que os outros anões que ali estavam entendessem a situação e também que não poderiam acompanhar naquela aventura.
– Além disso, Fili, serás responsável por guiar esse pequeno grupo ao seu destino.
– Hã!? – O loiro exclamou interrompendo o pequeno discurso do tio – E-eu?
– Acredito que tens a capacidade para tal... Você é o herdeiro direito ao trono, meu sucessor! – Falou o primeiro rei com um tom firme, que ressaltava o fato que não deveria ser questionado – Essa viagem, assumindo o papel de líder, será importante para a sua formação.
Fili engoliu em seco e olhou de relance para o seu irmão mais novo, que sorria.
– Há momentos atrás você estava se vangloriando por ter nascido primeiro... Por ter mais barba... Bem feito! – Riu divertido.
– Kili! – Rosnou, já pronto para iniciar um briga ali mesmo.
– Ora, já chega! – Bradou Glóin – Daqui a algumas horas irá anoitecer, não recomendo viajar na escuridão!
– Tens razão. – Concordou Thorin, que encarou seus sobrinhos – Eu confio na capacidade e maturidade de vocês!
– Obrigado, tio. – Falaram os dois ao mesmo tempo.
– Quando encontrarem Drogo... — Bilbo se aproximou dos príncipes e lhes entregou um pergaminho e uma carta – Peça para ele ler isso.
– O que é? – Perguntou Kili, já curioso.
– Algo que só Drogo pode saber e decidir. Nada de bisbilhotar!
– Certo... — O anão moreno fez biquinho.
– Acho que é o momento de irmos. — Fili pegou o pergaminho e a carta do hobbit e guardou na sua mochila, logo depois subiu em seu pônei. Kili seguiu o seu exemplo, como também Glóin.
– Boa sorte, herdeiros de Dúrin! Que Mahal os guie nessa jornada e que retornem ao seu lar na mesma condição que saíram! – Proferiu Thorin.
Dís segurava as lágrimas e Bilbo a abraçava, confortando-a.
Fili acenou. Estava nervoso e inseguro pela a responsabilidade, era a primeira vez que lideraria alguma coisa... Sentia seu estômago rodar. Será que a viagem realmente daria certo? Não era a primeira vez que saia de Erebor, contudo, nas vezes anteriores foram as escondidas, não havia uma missão e o peso do dever em suas costas.
– Vai dar tudo certo! Eu estarei ao seu lado lhe dando cobertura! – Sussurrou Kili ao seu lado.
– Sei... Só espero que não fique sonhando acordado com relação a um certo hobbit e me deixe em apuros. – Piscou divertido, já começando a cavalgar. O mais novo abriu e fechou a boca, tentando pensar em uma resposta à altura ao irmão. O rubor já dominava o seu rosto e Fili já se distanciava, rindo alto da reação do outro anão.
–E-eu não irei ficar sonhando acordado! – Falou, depois de alguns minutos. Para dissipar o seu embaraço atiçou o pônei, fazendo com que esse cavalgasse atrás de seu irmão.
Glóin balançou a cabeça, reprovativo. Realmente não estava animado em servir de babá dos príncipes, mas não podia negar a missão que lhe foi confiada pelo próprio rei.
“Essa viagem vai ser longa...” Pensou, soltando um suspiro longo e começou a acompanhar os príncipes a trotes lentos.
~TKATC~
As primeiras estrelas já surgiam no horizonte, sob o manto azul escuro que começava a dominar o céu; era o prelúdio do anoitecer. A pequena comitiva teria que buscar um local para acampar. Tinham conseguido avançar um grande terreno a trotes rápidos dos pôneis, e apesar de aqueles animais pertencerem a uma linhagem resistente e de corredores, não era sensato desgastá-los logo no início da jornada.
– Vamos acampar aqui? – O desprezo na voz de Glóin era evidente; estavam nos limites da floresta de Mirkwood, domínio dos elfos escuros.
– Ao menos que queira adentrar na floresta agora, acho melhor acamparmos em suas margens. Se dermos a volta perderemos muito tempo. – Explicou Fili, desmontando do seu cavalo e olhando de relance para as velhas árvores. Quase poderia crer que ouvia sussurros advindo das arvores centenárias, mas podia ser sua imaginação. Era um anão, entendia sobre rochas e pedras preciosas; plantas e vegetais eram um total mistério para ele.
– Eu não sei o que é pior... — Resmungou o anão mais velho – ...Dormir dentro da casa de um comedor de folhas ou em sua entrada.
– Não seja tão negativo! – Riu Kili – Pelo menos poderemos dormir tranquilos.
– Tsc... Nunca se dorme tranquilo perto dos elfos! Não se deve confiar neles! – Falou Glóin. O príncipe mais novo deu os ombros, ignorando o conselho do anão. Fili suspirou. O preconceito com relação aos elfos era deveras profundo em seu povo, mesmo com a aliança entre os dois reinos, a desconfiança entre as raças era ainda muito forte.
Um sorriso se formou em seus lábios. “Mas... Nem todos os elfos são ruins...” Pensou, enquanto se encaminhava para a borda da floresta e tocava em uma das árvores.
– M-mas o que é isso? – Disse surpreso, tirando a mão do tronco. Teias de aranha, pegajosas e densas, prendiam-se em seus dedos.
– Eca... — Kili falou enojado.
– Sabia! Isso deve ser coisa de elfo! – Bradou Glóin, já pegando o seu machado.
– Agora os elfos produzem teias de aranha? Isso não é uma habilidade muito legal... –Analisou o moreno – E por onde sairia a teia?
– Não... Isso não é proveniente dos elfos... – Fili não estava interessado na discussão tola dos seus companheiros. Fitava o interior da floresta, tinha algo errado. Algo ou alguma coisa os observava. – Kili, Glóin... -Antes que falasse algo, mais um jato de teia foi lançado, mas em seu rosto, e se sentiu sendo puxado bruscamente para o interior da floresta.
– Fili! – Kili pegou o seu arco e flecha e saltou do pônei, pronto para socorrer o irmão. Adentrou na floresta, contudo era difícil mirar na escuridão.
“Droga! Por Mahal! Nem terminou o nosso primeiro dia de viagem e já nos deparamos com algum tipo de monstro?!”
– Fili! Onde você está!? – Gritou; a flecha já estava pronta a ser lançada, mas tinha que esperar. Olhava a sua volta, a copa das árvores ocultavam a ínfima luz que advinha do fim do dia.
– Ki-Kili! Cuidado!
A voz do seu irmão se projetava... De cima? O jovem anão levantou a cabeça e se horrorizou com o que viu. Uma aranha gigante prendia Fili com sua teia e o enrolava rapidamente, com auxílio de suas longas patas.
– Por Mahal... – Sussurrou. Contudo, o sentimento de surpresa logo foi substituído por raiva. Mirou no que seria o “rosto” da criatura e lançou sua flecha. O monstro emitiu um longo guincho de dor, soltando Fili, que caiu pesadamente no solo da floresta.
– Vocês estão bem? – Glóin se aproximou ofegante – Pela a barba de Mahal, o que é isso? – Disse se referindo a grande aranha, que continuava a guinchar.
– Eu não sei... Mas não vamos ficar tempo o suficiente aqui para saber! – Falou Fili já se levantando usando suas espadas duplas para cortar as teias remanescentes que jaziam sobre o seu corpo.
O grupo começou a correr para a entrada da floresta, entretanto, o caminho foi obstruído por outra aranha que saiu das sombras já os atacando. Glóin usou o seu grande machado para abater a criatura, esmagando sua cabeça... Mas aquele não era o fim, somente o começo. Outras aranhas se aproximavam, vindo das altas árvores.
– O que faremos? –Sussurrou Kili que já lançava suas flechas em direção aos monstros.
– Devemos abrir caminho... Sair da floresta! – Bradou Fili, atacando uma aranha próxima.
– Ótimo plano. Mas essas aranhas não estão cooperando! – Rosnou Glóin.
“Como iremos sair?!” Pensou aflito o príncipe mais velho “Que ótimo líder eu sou... Se tio Thorin estivesse aqui, aposto que já encontraria uma solução...”
Uma aranha de tamanho maior do que as outras se aproximava do trio. Kili já tinha lançado duas flechas de encontra ao artrópode, mas de nada adiantou.
“Esse é o fim?”
Uma flecha adentrou por um dos olhos da criatura, atravessando a cabeça do monstro e fincando-se em outra aranha logo atrás. A grande aranha caiu ao chão, morta. Fili olhou para o irmão, mas esse sorriu desconcertado, demonstrando que aquela flecha não se originou do seu arco.
– Parece que precisam de ajuda...
Fili conhecia aquela voz melodiosa, cheia de orgulho e elegância. O príncipe regente levantou os olhos, encontrando os olhos do elfo que o salvara.
– Legolas — Não pode esconder o sorriso se formar em seus lábios.
– Bom te ver novamente... Príncipe Fili. – Falou de forma formal e ao mesmo tempo deliberadamente provocadora.
– Agora me chamas de príncipe? – Arqueou uma sobrancelha o anão de cabelos loiros – Fico feliz que me respeites tanto assim para proferir o meu título. Mas prefiro quando me chamas somente de Fili... – Piscou galante.
– Não precisas aumentar o seu ego unicamente com isso... Anão tolo! – Um rubor se fez nas bochechas alvas do elfo.
Kili rolou os olhos.
– Sinto muito interromper, mas acho que agora não é o momento adequado para flertes! – Resmungou o príncipe mais novo. De fato, as aranhas ainda avançavam, pronto para atacá-los e devorá-los. Outras flechas foram lançadas de encontro aos monstros, abatendo alguns e deixando cambaleantes outros.
– Eu iria dizer o mesmo! – Uma elfa logo saltou de um dos galhos de uma árvore e pousou ao lado de Legolas. Ela tinha cabelos ruivos e um olhar vivaz – Temos trabalho para fazer, príncipe Legolas! Ou esqueceu? – Provocou.
– Eu sei, Tauriel... – Resmungou o elfo. Agora, o corar tinha se propagado mais pelo seu rosto e tinha alcançado as suas orelhas pontudas. A elfa apenas sorriu e voltou a atacar as aranhas com suas flechas; Legolas também seguiu o seu exemplo.
Kili tentou “competir” com aqueles arqueiros, tentando eliminar mais aranhas possíveis. Contudo, seu esforço fora em vão, os elfos realmente eram mestres naquela arma e a visão aguçada deles permitia a maior precisão em acertar seus alvos.
– Tsc... – Resmungou ao ver a última aranha ser eliminada por uma flecha de Tauriel.
– Não fique chateado, mestre anão, você tem uma grande habilidade no arco e flecha. – Falou a elfa.
– Sério? – Os olhos de Kili se iluminaram com o elogio.
– ...Para um anão – Continuou Tauriel com um sorriso provocador. Agora Kili assumiu uma expressão irritada – Na verdade eu não sabia que sua raça podia segurar um arco, um instrumento tão delicado... Só imaginei vocês empunhando martelos ou machados.
– O que tem de errado em lutar com machados?! – Rosnou Glóin.
– Como podes ver, é uma arma com pouca eficiência. Quantas aranhas eliminou, meu caro anão?
– Pois eu irei te mostrar a eficiência de minha arma... – Nisso, o velho anão já levantava o machado pronto a atacar a elfa que, por sua vez, já pegava a sua espada.
– Já chega! – Bradou Fili – Não temos tempo para isso! Os inimigos foram mortos, é isso que importa.
– Fili tem razão. A batalha já terminou. – Disse Legolas olhando para a sua companheira, que suspirou longamente e guardou sua espada. Glóin ainda resmungava sobre elfos e a falta de respeito e honra.
O príncipe mais velho emitiu um grunhido de dor, sangue escorria de seu ombro esquerdo. Legolas se alarmou e logo estava ao seu lado.
– Estás machucado! – Disse, enquanto analisava o ferimento.
– Eu estou bem... Só foi um arranhão, nada demais! – Resmungou teimoso o anão.
– Podes estar envenenado! Deixe-me tratá-lo.
– Nós anões somos muito resistentes, não será uma mordida de uma aranha que irá me fazer cair!
– Fili Durin, sobrinho de Thorin Escudo-de-carvalho Durin, primeiro rei sob a montanha. Não sejas teimoso e me deixe tratá-lo, agora! – A autoridade e preocupação eram evidentes na voz do elfo.
Fili sorriu. Devia se sentir irritado por ter sua autoridade questionada ou mesmo receber ordens de um elfo, mas não. Sentia uma estranha felicidade o dominando.
– Como quiser. Sou todo seu, mestre elfo. – Sussurrou para o outro. O rubor novamente dominou o rosto de Legolas, que tentou manter a sua compostura, se afastando um pouco do príncipe e o guiando para uma clareia. A dupla ignorava totalmente o trio que os observava.
– Jovens... – Resmungou Glóin dando os ombros – Parece que vamos acampar dentro da floresta afinal.
– Não se preocupe, mestre anão. Tomarei conta de você! – Piscou Tauriel.
– Eu sou forte o suficiente para me defender, elfa! – Rosnou.
Kili conteve o riso. Parecia que a elfa estava se divertido provocando-os, talvez essa seja a sua natureza. Ela não parecia incomodada com a relação de Legolas e Fili e, para sua surpresa, nem Glóin se importava.
“Só espero que ele não diga nada ao tio Thorin quando retornarmos...” Pensou receoso o príncipe mais novo, temendo pelo o futuro amoroso de seu irmão.
~TKATC~
– Ai. Ei, cuidado!
– “Anões são resistentes” sei. Parece um bebê chorão, para mim! – Legolas sorria, enquanto colocava ervas por sobre o corte de Fili, apreciando o corar no rosto do anão e bem como o biquinho que se formava nos lábios.
– Somos resistentes, mas ainda sentimos dores! – Se defendeu.
– Entendo. – Riu. Estava mais relaxado ao ver que o ferimento não apresentava veneno, na verdade sempre ficava mais relaxado ao lado do príncipe anão, era tão estranho e reconfortante ao mesmo tempo – Acredito que não veio aqui só para me visitar.
Fili o encarou surpreso, o que fez o outro corar. Talvez não devesse ter perguntado.
– Infelizmente... Não. – Falou por fim, depois de um silêncio constrangedor ter se estabelecido entre eles – Sei que tinha prometido vir te visitar em seu reino...
– Oh, não. Fili, não precisa de desculpar por causa disso!
– Mas, eu realmente desejei vir te visitar... Digo... – Massageou o pescoço, embaraçado – Quando a comitiva de elfos vem a Erebor, você sempre está entre eles, contudo é meio difícil conversar com você em meio a tantos olhares críticos, e...
– Verdade. Mas não seria diferente se viesses me visitar. Serias vigiado o tempo todo... Não seria uma visita das mais prazerosas.
– Bem... Se for você a me vigiar, não vejo mal nenhum em ser prisioneiro dos elfos! –Piscou.
– Não fale tolices! – Disse, dando uma tapinha no ombro machucado, arrancando um resmungo de dor do anão – Mas... Por que estão aqui?
– Bem... – Sorriu nervoso.
– Não confias em mim? Já não lhe dei provas da minha amizade?! – Perguntou Legolas, com evidente dor na fala. Fili rapidamente segurou a mão do outro e a levou para os seus lábios, beijando-a.
– Eu confio em você, Legolas, sabes bem disso. – Sussurrou, seus olhos azuis encontrando os olhos de mesma cor do elfo.
Legolas mordeu o lábio inferior sem saber o que dizer com aquele gesto, Fili tinha essa habilidade de o surpreender e o deixar sem ação.
– Eu irei te contar... – Falou por fim o loiro, sem soltar a mão do elfo – Precisamos ir até o Condado com urgência.
– Condado? Esse é o reino de Bilbo, não é? Aconteceu algo com o segundo rei? O bebê?
Fili sorriu. Legolas era um grande amigo do hobbit, logicamente, ficaria preocupado com o amigo.
– Tio Bilbo está bem, como também o meu futuro primo. O problema envolve outro hobbit, o primo de Bilbo, Drogo. Tentaram... Matá-lo. Nos propusermos a investigar e protegê-lo, já que ele agora também é nosso parente.
– Bom... Isso realmente é o certo a se fazer. – Legolas parecia pensativo, algo que Fili não gostou muito.
– Não! – Falou rapidamente – Nem penses em...
– Eu vou com vocês! – Anunciou o elfo, ignorando o que o outro dissera.
– Legolas... Essa missão é nossa. Não envolve o seu reino!
– Como não? Esqueceu de nossa recém-aliança? Além disso, acredito que se eu pedisse ao meu pai ele iria aceitar; sabes muito bem que o nosso rei nutre uma amizade especial para com o rei hobbit.
– Não temos tempo de esperar a aceitação do seu rei...
– Eu falei “se eu pedisse”, algo que não pretendo fazer pessoalmente.
– Legolas... Não sejas teimoso!
– Você, tentando me dar lição moral sobre teimosia? – Arqueou as sobrancelhas, em um falso sinal de espanto – Não entendo o porquê não irias querer que eu fosse. Por acaso não achas que sou capaz de ajudá-los? Não sou um bom guerreiro? – Nisso, afastou com relutância a sua mão, que ainda estava sendo segurada pelo o outro.
– Lógico que és capaz. Você nos salvou a momentos atrás; a questão não é essa! Trata-se de uma jornada perigosa e seu povo pode não gostar de saber que o príncipe está viajando ao lado de anões!
– Oh. A questão é essa? – Legolas cruzou os braços diante do peito – Meu povo, tal como seu povo, devem começar a se acostumar que os tempos são outros. Que adianta termos uma aliança se não podemos conviver juntos!? – Falou enfurecido – O que adianta todo esse papo diplomático se não posso ficar ao seu lado?! – Notou o que tinha falado e tapou a boca.
Fili novamente sorriu, aproximou do elfo — com delicadeza, que era estranha a sua raça – e colocou um mecha loira por trás das orelhas pontudas, agora avermelhadas, devido ao embaraço.
– Eu também desejo você ao meu lado, Legolas. — Sussurrou – Eu só não quero te causar problemas...
– Fili... Você e seu irmão sempre causam problemas por onde passam. – Isso provocou uma risada no príncipe anão – E eu não vejo problema nenhum em te acompanhar. Só estou honrando a aliança entre anões e elfos!
– Sei... Acho que estou sendo uma má influência para você.
– Eu não ligo. Que sejas... – Sussurrou, colocando sua mão de textura suave por sobre a do anão. Legolas encarou o mais baixo e sorriu tímido; lambeu os lábios secos lentamente e notou que o outro acompanhava a sua língua no lento movimento. Fili emitiu um rosnado baixo e se aproximou. Os rostos de ambos estavam poucos centímetros de distância, podiam sentir o respirar de um e doutro. Legolas entreabriu a boca e estava já ofegante. Parecia que o tempo tinha parado, os sons da floresta e da noite se emudeceram, em respeito a aquele momento.
– Er... Desculpe incomodar...
O som da voz de Kili fez os dois sobressaltarem e se afastarem subitamente.
– Kili?! O que você quer? – rangeu os dentes o encarou o irmão.
– Ei! — Levantou os braços em sinal de rendição – Eu só vim para ver como estavas e avisar que já arrumamos o acampamento.
– Podia ter esperado um pouco mais...
– Se eu esperasse mais, Glóin iria vir pessoalmente ver se ainda estavas vivo, já que ele não confia na medicina élfica! – Explicou o jovem príncipe.
– Fili está bem... Como podes ver. – Falou Legolas se levantando – Mais tarde eu terei que ver se não tem outros machucados em seu corpo.
– Queres que eu tire a roupa? – Sorriu o anão de cabelos loiros.
– E-eu não... Quis dizer desta maneira! – Disse, totalmente corado.
– Parece que ter você no nosso grupo será uma vantagem, afinal. Caso eu me machuque, terei um tratamento especial.
– Na próxima vez, irá desejar ter sido comido pelas aranhas! – Rosnou o elfo, saindo da clareira, deixando Fili com um sorriso bobo no rosto.
– Então... Agora temos um elfo no grupo? – Perguntou Kili confuso.
– É. Algo contra?
– Nada. Só espero que não fique sonhando acordado com relação a um certo elfo e me deixe em apuros! – Disse o irmão, contente por ter tido a sua chance de vingança. Fili o deixou comemorar aquela “vitória”, porque de fato era verdade.
“Essa jornada vai ser bem interessante...” Pensou, vendo a figura do elfo se distanciar na penumbra da trilha da floresta.
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