Os dois reis sob a montanha
81 Extra: Planejamento de uma festa de aniversário
A biblioteca de Erebor estava praticamente restaurada. Ainda havia construções sendo feitas, mas essa era devido ao projeto de ampliação que Bilbo, segundo rei de Erebor, estava implementando. E isso não era tudo, a quantidade de livros traduzidos do elfo para a língua comum e mesmo para Khuzdul tinha aumentado, tudo isso graças ao Sociedade da Pena e Tinteiro. Sociedade essa criada por Bilbo, sendo constituído por, além do próprio segundo rei, de apenais mais dois membros: Drogo e Ori.
A Sociedade da Pena e Tinteiro estava hoje se reunida em uma das mesas da espaçosa biblioteca trabalhando em tradução de pergaminhos diversos enquanto conversavam.
— Então... – Bilbo se serviu de uma xícara de chá – Logo será o aniversário de Frerin II.
Ori levantou o rosto com um sorriso radiante nos lábios. Drogo logo o acompanhou, roubando um bolinho de ameixa da bandeja que estava estrategicamente colocada no centro da mesa aonde os tradutores trabalhavam.
— Oh! Sim, isso é maravilhoso! – Comentou Ori.
— E o que planeja fazer? Ou melhor...O que Thorin pretende fazer?
Bilbo bebericou o seu chá e depois soltou um longo suspiro.
— Vocês sabem como ele é. Pretende fazer um grande alarde para o evento. Lógico que desejo comemorar o aniversário de nosso filho, mas queria que fosse algo mais familiar e não tão ostentador.
— Qual foi a ideia dele? – Quis saber Drogo com um sorriso divertido nos lábios – Um feriado?
— Sim, ele sugeriu isso. Mas logo o convenci que tal ideia é um absurdo. Se ele deseja que tenhamos muitos filhos e se cada um deles ele colocar um feriado associado não só ao seu nascimento, bem como os seus feitos...
— Oh! O feriado do primeiro dente. – Lembrou Ori.
— O feriado da cerimônia do primeiro broche. – Também lembrou Drogo.
— Exatamente! – Rangeu os dentes Bilbo que continuou a sua fala anterior – Logo o Erebor será uma coleção de feriados criados por um papai coruja muito tolo!
— Bem, então se não vai ser um feriado o que vai ser?
— Um desfile. – Revelou Bilbo por fim, um sorriso se formando em seus lábios – Ele deseja dar para Frerin algo divertido...Que o faça rir... Acho que as crianças de Erebor irão adorar tal evento, pelo menos.
— Parece ser uma ótima ideia. – Assentiu Drogo, já ansioso para assistir tal desfile.
— Depois do desfile haverá sim uma festa. Ou melhor, uma festinha para os mais íntimos. Com direito a bolo, docinhos, cantar os parabéns, troca de presentes...O típico. Espero que Frerin consiga aproveitar esses dois eventos.
— Ele vai adorar. Ainda mais quando ele será o centro das atenções. – Riu Ori.
— Ele é tão bebê...Acho que ele nem tem noção da importância do evento para nós. – Suspirou Bilbo, mas logo depois sorriu – Eu estivesse ensinando alguns truques para ele!
— Bilbo...Ele não é um cachorrinho para você ensinar truques. – Criticou o outro Bolseiro-Durin.
— Shhh! Quero ver se você não faria o mesmo quando tiver seus próprios filhos. E pela frequência que vocês fazem amor...É bem possível que logo logo teremos a resposta para essa questão.
Com essa fala Drogou ficou vermelho e engasgou com o bolinho que estava comendo.
— Vejam. – Instruiu o segundo rei – Frerin, querido...
Em uma mesa ao lado, que mais parecia uma versão menor da mesa aonde a Sociedade da Pena e do Tinteiro trabalhava, estava as crianças. No caso, Frerin estava sentado no chão, abandonara a sua cadeirinha e se concentrava no seu trabalho de pintar com as mãos um pergaminho oferecido por Bilbo. Na mesa, entretanto, estava Gimli que se esforçava em resolver os exercícios de gramática que Bilbo e Drogo tinha organizado para que o pequeno anão melhorasse sua proficiência na língua comum.
— Frerin... – Chamou novamente, o bebê interrompeu a sua atividade de pintor para assim encarar o seu pai hobbit. Ele tinha crescido muito, seus cabelos castanhos escuros agora desciam por sua face gorducha, algumas tranchas sustentadas por broches evitavam que as mechas encaracoladas caíssem sobre seus olhos cor azul esverdeado.
— Papa! Ô! – O bebê levantou o pergaminho mostrando seus garranchos com muito orgulho.
— Oh! Nossa, que lindo! Você é mesmo um grande artista, Frerin.
Concordou o bebê assentindo com convicção.
— Frerin, querido...Quantos anos você irá fazer?
O bebê novamente olhou para o seu pai que por sua vez o observava com ansiosa expectativa. Frerin levantou sua mãozinha e indicou a idade que iria fazer.
— Um? – Disse com incerteza.
Ele tinha acerta, sim. Bilbo percebeu que o dedo que o bebê tinha levantado não era o indicador e sim o dedo do meio. Isso não foi algo que o segundo rei tinha ensinado.
Alguém riu. Não fora Drogo e muito menos Ori, que ainda estavam assombrados com a visão de um bebê com menos de um ano dando o cotoco. Quem riu foi Dwalin, o fiel guarda-costas do segundo rei de Erebor.
— Belo truque que você ensinou, Bilbo. – Disse Dwalin ainda rindo.
— Eu não o ensinei isso...Digo ensinei a parte da idade, mas...Ora, Dwalin, pare de rir!
— Um! – Frerin deu uma risadinha gostosa e levantou a outra mão e repetiu o gesto, o que fez o guarda anão gargalhar mais alto.
— Dwalin! – Repreendeu Ori corando visivelmente – Estamos em um ambiente que presa o silêncio!
— Desculpe. – Dwalin falava isso, mas não estava nem um pouco arrependido.
— E o que tem de errado isso? – Agora foi Gimli a repetir o gesto para os adultos – Tio Elladan disse que era uma forma divertida de indicar o número um.
— Elladan. – Bilbo repetiu o nome de forma lenta – Já devia imaginar...
O filho de Elrond transitava constantemente entre Erebor e Mirkwood, sendo uma presença que acabou por se mesclar no cotidiano das famílias reais de ambos os reinos. Bilbo tinha que admitir que o elfo poderia ser muito útil as vezes, principalmente lidando com as crianças. Era como se Elladan tivesse algum tipo de poder sobrenatural em relação aos infantes, todos independente de raça ou idade o amavam. Por isso, Elladan se tornara a escolha ideal de babá. Contudo, isso não isentava a possibilidade do elfo aprontar uma de suas travessuras.
— Sinceramente, quando pensei que teríamos uma paz depois que Kili e Fili se aposentaram de suas traquinagens, agora vem outro assumir o posto. – Resmungou Bilbo.
— B-bem... Você falava de uma festinha, Bilbo? – Perguntou Drogo, tentando adiar a fúria de seu primo, pelo menos por enquanto.
— Sim...A festa de aniversário de Frerin II, pretendo convidar todos nossos amigos. Além disso, acho que a festa seria uma ótima oportunidade para... – O segundo rei mirou Ori que, por sua vez, se remexeu de forma desconfortável em sua cadeira.
— Para o que? – Inqueriu Dwalin desconfiado.
— Para que um determinado casal finalmente assumisse o seu romance diante dos amigos e familiares. – Por fim falou Bilbo, agora lançando o seu olhar para o guarda-costas.
— Como é? Do que você está falando?
— Ora, não se faça de sonso, Dwalin Fudin. Não sei quanto tempo pretendem ficar se encontrado as escondidas. Sei que isso pode ser meio excitante e tal...
— Bilbo... – Sussurrou Ori mortificado.
— Mas não tem nada de errado vocês se assumirem. Pelo menos, tem o meio apoio e o de Thorin.
— Thorin, ele sabe? – Murmurou Dwalin.
— Demorou para ele perceber os fatos, mas ele sabe. A questão é: quando pretendem contar para Nori e Dori?
O referido casal ficou em silêncio. Drogo pegou um novo bolinho e começou a comer. Toda aquela tensão o estava deixando nervoso e, ultimamente, quando estava nervoso comia.
— Ori não é um breender. – Por fim, Dwalin falou – Isso complica as coisas.
— Complica? – Bilbo ergueu as sobrancelhas, confuso.
— Anões tem um índice de natalidade tão baixo. – Começou a explicar Ori, com rosto oculto por um pergaminho – Relações envolvendo anões do mesmo sexo são um taboo para nossa sociedade. Não se produz filhos dessa forma...E se tais relações fossem aceitas poderia prejudicar o crescimento da nação anã e nos levar a extinção ...
— Nunca ouvi tanta besteira em toda a minha vida! – Interrompeu Bilbo – Ora, vocês dois que se amam tanto pretendem se casar com anãs?
— Não! Nunca! – Revelou Ori, choroso.
— Não... – Resmungou Dwalin.
— E mesmo que vocês se casassem, obviamente que essa relação não seria por amor e sim tentando preencher a expectativas esperada pela sociedade anã. No final das contas, um filho poderia nem ser produzido dessa união e se produzido essa criança iria sofrer crescendo em um núcleo familiar defeituosos e moldado em falsidade e dever. Pelo que sei, vocês anões presam e muito pelo o bem estar de suas crianças, já que elas são tão raras. É esse tipo de ambiente que vocês desejam que suas crianças cresçam? Me parece uma contradição.
Dwalin não respondeu. Ori parecia encarar o amigo com assombro e admiração.
— Existe alguma lei proibido que vocês sejam um casal? – Voltou a questionar, Bilbo.
— Formalmente, não. – Disse Ori – Mas todos sabem que...
— Você acha que sua família não iria aceitar as suas escolhas, Ori? Que Nori e Dori iriam negar a oportunidade que sejas feliz? E quanto a Balin? Ele iria te impedir de ser feliz, Dwalin? Vocês não devem se importar com todos e sim com quem realmente importa!
— Acho que Balin sabe dos meus sentimentos em relação ao Ori... – Revelou o guarda anão, de contragosto – Acho que meu irmão não iria se opor...
— Bilbo...Se você nos apoiar...Digo, se nós assumirmos nossa relação, todos em Erebor irão criticar a posição dos reis de Erebor quanto a essa questão delicada. – Argumentou Ori, temoroso.
— Ora, que grande infortúnio. – Dramatizou Bilbo – Iremos ser criticados novamente pelo conselho. Teremos que fazer mais discursos públicos e formular mais decretos...Iremos abalar os pilares da sociedade anã...De novo. Se ainda não percebeu, Ori querido, causar uma confusão é uma constante no meio reinado. E estou pronto em causar mudanças positivas em nosso reino, para que todos sejam de fato felizes em Erebor.
— E se eles aceitam os breeder... – Falou Drogo com a boca cheia de bolinhos – Devem também aceitar os casais do mesmo sexo...Digo, somos seres masculinos que tem a capacidade de engravidar, mas somos sim masculinos. Temos todos os instrumentos para demonstrar esse fato. É uma hipocrisia aceitar a união de uns em detrimento de outros. E quanto a produção de crianças... Existe sempre a adoção, caso vocês queiram, é lógico!
Se antes Ori segurava o choro, agora não mais. O bibliotecário se pós a chorar. Antes que todos pudessem fazer algo para confortá-lo, alguém puxou a aba das vestes de Ori.
— Riri... – Frerin tinha engatinho para perto do anão e o chamou pelo apelido que ele tinha oferecido para sua babá preferida – Dodói?
— Não... Não estou machucado, Frerin. – Pegou a criança no colo – Não mais...
Bilbo sorriu sentindo lágrimas se formarem em seus lábios. Uma mão posou em seu ombro, o sobressaltando. Se virou para encarar um muito emotivo Dwalin.
— Obrigado.
O segundo rei assentiu e deu uma leve tapinha na mão áspera e cheia de cicatrizes de seu amigo. Todos deviam ter o direito de amar e Bilbo iria lutar para isso se torne uma realidade em seu reino.
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