Os dois reis sob a montanha
38 Dís, Princesa de Erebor
Notas iniciais
O único som que se ouvia no quarto eram os choramingos do bebê e o leve roncar de Bilbo. Fora isso, parecia que todos tinham segurado o fôlego e esperavam pelo início da batalha. Drogo mordia o lábio inferior, fortemente. Não queria presenciar uma briga familiar, ainda mais quando fazia poucas horas que tinha chegado a Erebor. Ora, por que não deixavam essa discussão para daqui a alguns dias? Principalmente quando Bilbo estivesse bem e consciente, pois pelo o que parecia, o segundo rei era o único que empunha limites a Thorin.
– Eu vim o mais rápido que pude — Uma voz se fez ouvir quando as portas do quarto se abriram subitamente e uma mulher anã adentrou. Drogo ficou impressionado com a incrível semelhança entre ela e o primeiro rei; tinha os mesmos cabelos negros e olhos azuis profundos. O que os diferenciava era o nariz, que ela não apresentava tão alongado, e o fato dela ter um busto avantajado e a pouca barba que crescia nas laterais do rosto. Sim! As mulheres anãs têm barba. Isso meio que assustou o jovem hobbit. Apesar desta barba não ser excessiva e proeminente como seus equivalentes do sexo masculino, aquilo gerava um estranheza, afinal, hobbits não tem barbas, mas já tinha meio que se acostumado com os homens. E agora... Mulheres também? Abaixou os olhos rapidamente, pois não queria ser pego olhando a barba daquela que deveria ser princesa de Erebor.
– Aquele conselho... Sinceramente, às vezes penso que o título real de nada vale, já que somos obrigados a ouvir aqueles anões mesquinhos e... — O tagarelar da anã foi interrompido quando seus olhos passaram por todos os membros que ali estavam, se detendo em Legolas que ainda segurava o pequeno Frerin nos braços. — O que significa isso? – Agora a princesa voltou seu olhar inquisitivo para Thorin.
– Não sou eu que devo te explicar isso. Creio que seu filho, Fili, pode discorrer melhor sobre esse assunto.
– Fili? – Dis retornou sua atenção para o elfo. Parecia que tinha notado os broches, pois seus olhos se arregalaram e um rubor dominou o seu rosto. Drogo notou o desconforto e nervosismo de seus amigos. Kili, ao seu lado, roía as unhas e Gandalf massageava a testa, talvez tendo uma dor de cabeça – compreensível, tendo em vista a confusão que iria ocorrer.
“Não. Bilbo não gostaria que isso ocorresse!” Pensou o menor, afinal, o seu primo tinha afirmado diversas vezes que não desejava que o primeiro dia de vida de seu filho fosse rodeado por desavenças e rancores.
– Er... Com licença – Falou Drogo. Sua voz estava trêmula e fraca, mas se fez ouvir, já que ninguém parecia querer emitir nenhuma palavra.
Dis deixou que seus olhos se voltassem ao hobbit e pode-se parecer surpresa; talvez a princesa não o tivesse notado.
– Você seria...? Oh! O pequeno hobbit, primo de Bilbo! – A voz dela pelo menos pareceu mais cordial e amável do que a momentos atrás – Que indelicadeza a minha, nem me apresentei... E meu adorável irmão não teve nem a decência de nos apresentar. Esqueceu os seus modos?
Thorin fez uma careta.
– Você entrou no meu quarto feito um tufão tagarela, não tive nem tempo de fazer as formalidades! – Resmungou o rei anão.
– Tufão tagarela? Mas que desrespeito! – Bufou a anã – Pelo menos eu não tenho a cara de alguém que chupou limão!
– Dis, sempre somos comparados. Muitos dizem que somos muito parecidos, principalmente em aparência, deste modo, se criticas o meu rosto deve antes olhar a si mesma no espelho, minha adorável irmã.
“Oh, céus! Será que eu piorei a situação?” Drogo olhou aflito para Kili, que exibia um sorriso no rosto.
– Não se preocupe. — Sussurrou – Eles são sempre assim.
– Enfim! – Bradou a anã, claramente irritada por ter perdido aquela batalha com seu irmão mais velho – Eu irei me apresentar. Sou Dís Durin, irmã disso... — Fez um gesto de desdém em direção a Thorin que, por sua vez, apenas rolou os olhos – e mãe destes encrenqueiros; os quais você deve conhecer muito bem.
– S-sim, os conheço. – Sorriu o hobbit, lançando um olhar de afeição a Kili – o que não passou despercebido pela a princesa – E sou eternamente grato por eles terem vindo ao meu amparo, a-apesar de... essa viagem ter causado tantos problemas, e-eu também peço perdão. – Fez uma pequena reverência. Toda aquela aventura, apesar de tê-lo providenciado grandes presentes (como ter conhecido pessoalmente Kili e ter a possibilidade de quebrar os grilhões que o prendiam a condição de Breeder e herdeiro, lhe permitindo escolher o seu próprio destino e futuro) pesava, como se tudo aquilo, de alguma forma, fosse culpa sua. Por ter escondido seus problemas de Bilbo e de todos, as consequências foram a morte de sua querida prima, bem como os outros obstáculos que foram enfrentados ao logo da viagem. Sentiu-se minúsculo.
– Não seja tolo... — Começou a falar Kili, mas a palavras do jovem anão foram interrompidas pela ação de Dís, que abraçou Drogo fortemente.
– Não tem que pedir perdão. Você não tinha intenção de que nada disso ocorresse, não é mesmo? Então, para que pedir perdão? E saiba que você pertence a nossa família e, deste modo, garantir a segurança de nossos familiares é um dever! Diga para ele, Thorin! – Disse a anã, enquanto afogava o pequeno hobbit em meio a seus fartos seios.
– Ela está certa. Não tem que pedir desculpas. Na verdade, você é muito bem-vindo ao meu reino. – Drogo ficou surpreso ao ver um sorriso se moldar nos lábios do primeiro rei. Seus olhos logo se voltaram para a figura adormecida de Bilbo.
– Obrigado... — Balbuciou o jovem Bolseiro, sentindo um pouco de alívio, já que o fardo de culpa foi retirado de seu consciente — pelo menos parcialmente.
– Eu mesma estou muito feliz por termos mais um hobbit em Erebor! Se Bilbo já causa tamanho alvoroço, imagine mais um Bolseiro? – Riu a princesa, finalmente libertando o pequeno hobbit de seu abraço.
– E-eu... Não pretendo causar n-nenhum alvoroço! – Disse rapidamente.
– Não creio que você ou Bilbo causam confusão intencionalmente. – Interveio Thorin – Vocês simplesmente a atraem.
Drogo fez biquinho. Não era um encrenqueiro, sempre fora um hobbit respeitável e comportado. Que ousadia da parte deles!
Kili riu, mas logo foi silenciado pelo o olhar “mortal” do seu hobbit.
– Bem... Acho que esse é o momento de conhecer outro novo membro de nossa família. – Fili falou pegando o bebê dos braços de Legolas, para a surpresa de todos. Drogo notou a tensão novamente se instalando no ambiente – Sei que vocês dois...
– Eu não. — Interrompeu Thorin em um resmungo – Bilbo me proibiu, lembra-se?
– Certo... – O príncipe mais velho deu um meio sorriso e continuou – Creio que você, mamãe, tem muita coisa que queira conversar comigo, mas eu te peço que deixe esse assunto para depois, sim? Eu vim a Erebor sabendo que seria recebido com esse antagonismo, sei também que lhes devo explicações. Contudo, quero respeitar o desejo de tio Bilbo e não discutirmos isso sem a presença dele, além disso, esse dia deveria ser voltado para Frerin, sendo assim de comemorações e não de conflitos.
Dís estava pensativa. Ainda lançava olhares furiosos em direção ao filho e ao elfo, mas por fim soltou um longo suspiro.
– Tens razão. Não sou tão cabeça-dura e irracional como o meu irmão; sei identificar o momento certo para começar uma briga.
Thorin tossiu, e Drogo pôde identificar a palavra “mentirosa” em meio a sua misteriosa tosse. Pelo olhar irritado de Dís lançado ao irmão indicava, que o pequeno hobbit não fora o único a identificá-la.
– E... Você disse Frerin? – A princesa se aproximou de Fili, agora extremamente interessada no pequeno bebê que estava em seus braços. Este estava entretido balançando os bracinhos como estivesse animado com o fim dos momentos de tensão, baba escorria de sua boca e ele se remexia no colo do seu primo anão. Era tão afoito que o manto que o cobria estava praticamente sendo jogado fora.
– Sim... O nome dele é Frerin II Durin. – Disse afetuoso, Thorin – Foi ideia de Bilbo.
– Oh! Por Mahal... Que bela homenagem. — Uma solitária lágrima escorreu da face da anã enquanto essa pegava o bebê para si – Você tem o nome de um valoroso guerreiro e também querido e saudoso irmão... Tenho certeza que irá honrar tal nome, pequeno Frerin.
O bebê encarou, meio que desconfiado daquele novo ser que o segurava.
– Você é tão fofinho... — Sorriu a princesa – Espero que puxe a Bilbo, tanto em personalidade quanto em beleza.
– Novamente as críticas a minha aparência... — Resmungou Thorin se aproximando da irmã – Já disse para se olhar no espelho, Dís, somos praticamente iguais!
– Ora, só estou sendo honesta e não somos tão iguais assim. Eu sou bela, enquanto você... — A resposta da princesa foi deixada pela metade, pois Frerin tinha demonstrado que sem dúvida tinha a herança de ambos os pais, já que começou a fazer xixi no colo da anã.
Kili e Fili não contiveram as gargalhadas, e até mesmo Gandalf riu, só que mais discretamente.
– Esse é meu filho! – Falou Thorin, orgulhoso, pegando o seu bebê dos braços da irmã que olhava chorosa para o seu belo vestido agora destruído – Nem tem uma hora de vida e já está deixando o adad orgulhoso!
– Não o incentive, Thorin Escudo-de-Carvalho Durin! – Rosnou Dís.
Drogo soltou um suspiro ao ver a briga entre os irmãos anões se reiniciando, mas pelo menos tudo parecia bem... Por enquanto.
– Drogo... — O hobbit sentiu uma mão sobre o seu ombro, e de repente Legolas estava ao seu lado e exibia um sorriso agradecido em seus lábios – Obrigado.
– Não precisa agradecer... Mas temo que só adiamos o inevitável.
– Melhor assim. Hoje é um dia destinado a Frerin e a sua chegada a Erebor. Depois teremos o nosso momento... Além do mais, ainda tenho que voltar ao meu reino e enfrentar o meu pai.
Drogo engoliu em seco só de imaginar quantos obstáculos aquele jovem casal iria enfrentar. Mas não havia ressentimento e tampouco medo na voz do elfo — na verdade, era bem evidente a determinação. Eles não iriam desistir de seu amor tão facilmente.
“Só espero que essa determinação seja o suficiente para que as forças externas não os separem...”
~TKATC~
Momentos mais tarde, foi permitido que os outros anões adentrassem no quarto para conhecer o novo Durin.
– Ele é tão pequeno... — Analisou Dwalin, vendo Frerin nos braços de seu melhor amigo e rei.
– O que esperava? Um anão adulto? Bebês são pequenos! – Riu Bofur. Este fazia caretas para o pequeno príncipe, que realmente parecia interessado naquelas expressões estranhas e esticava os bracinhos, talvez tentando alcançar a barba do anão.
– Eu sei disso! – Rosnou o anão guerreiro.
– Quer segurá-lo? – Ofereceu Thorin ao amigo, que rapidamente negou.
– Eu sei segurar uma espada e um machado... Mas um ser tão frágil assim... -Dwalin parecia nervoso. Se recebesse aquele bebê em seus braços, sabia que entraria em pânico.
– E-eu posso segurá-lo? – Inqueriu Ori, timidamente.
– Lógico. – O rei passou o bebê para os braços do bibliotecário. Frerin parecia já ter se acostumado a ser passado para estranhos e não ligou muito, estava entretido chupando a sua mão e olhando, curioso, para das as diferentes faces que o observavam. Ori acalentou o bebê, que por sua vez, bocejou.
– Parece que já sabes onde encontrar uma babá quando precisar. – Sugeriu Bofur, sorridente.
– Meu irmão, sem dúvida, tem paciência e habilidade, ao contrário de certos anões que conheço. – Falou Dori cheio de orgulho, lançando um olhar reprovador para Dwalin.
– Aqui... — Disse Ori, sorrindo para anão guerreiro. Thorin ficou surpreso com o olhar apavorado que seu amigo detinha no rosto quando o bibliotecário o ajudou a segurar o bebê – Viu? Não foi tão difícil, foi?
– Ah... B-bem. — Dwalin parecia uma estátua, paralisado, segurando um hiperativo bebê – Defina difícil...
Ori riu baixo com aquela resposta.
– Mas tudo parece mais fácil com você ao meu lado. — Admitiu o guerreiro, de modo indiferente e totalmente alheio à plateia os observando. A espontaneidade atingiu o anão mais novo em cheio, que ruborizou. Bofur soltou um assobio, e Bifur assentiu, como estivesse aprovando a ação. Glóin riu alto. Contudo, Dori e Nori ainda apresentavam caras emburradas em relação a situação. Thorin apenas detinha um sorriso no rosto. Pelo visto, os planos de Bilbo para unir aqueles dois estavam dando certo.
– Eu não pensei que viveria o suficiente para ver isso. — Comentou Balin, que estava ao lado do primeiro rei – Um novo Durin vindo ao mundo... Sinceramente, eu tinha visto seu avô e pai caírem... Bem como, Frerin. Eu temia que meu futuro estivesse atrelado em ver a morte dos Durins. Contudo, vejo que me enganei... Pude presenciar a vida.
– E vai presenciar muito mais, meu amigo. – Falou Thorin dando um leve tapa nas costas do seu conselheiro – Pretendo ter muitos outros filhos.
– Oh. Pensei que Bilbo tivesse te ameaçado caso tivesse um outro filho.
– Quem te disse isso? – Arqueou uma das sobrancelhas e olhou para os lados, temendo que outros membros da companhia os estivessem ouvindo.
– Oín; mas não se preocupe, ele só confidenciou isso a mim. – Sorriu o anão ancião.
– Hum... Bem... Ele não quer ter outro filho tão cedo. Logo, daqui a alguns anos, existe a possiblidade. – Admitiu meio desconfortável.
– Creio que sim. Realmente desejo ver outros, se possível um bebê hobbit engatinhando por Erebor. Mas, também acredito que você não seja o único que pode produzir herdeiros, atualmente.
– O que quer dizer com isso, Balin?
– O jovem Drogo... Kili parece estar bem afeiçoado a ele, não? Fico imaginando se é prudente deixá-los sozinhos, tendo em vista que Drogo é um breeder.
– Como sempre, muito observador. Mas Kili e Drogo são muito novos para pensarem nessas coisas.
– Você acha mesmo? Eles são jovens e todos nós sabemos como a juventude pode nós fazer tomar decisões imaturas e trazer grandes consequências para o nosso futuro.
– Balin... Você quer que eu converse com Kili sobre... Sexo? É isso? – Nunca pensara que teria que ter essa conversa com os seus sobrinhos, afinal, subentendesse que eles já sabem, não é?
– E se possível, poderia ampliar essas lições para o príncipe Fili.
– Dís poderia...
– Meu senhor, creio que essa função será melhor desempenhada por você.
Thorin engoliu em seco. Como rei, nunca se imaginou em uma posição feito aquela, mas Balin estava certo. Vili, o pai dos seus sobrinhos, não estava ali para instrui-los. Esse era o seu dever.
– Que seja... Irei conversar com eles.
Balin parecia satisfeito pelo seu conselho ter sido aceito e voltou sua atenção para Bombur, que agora segurava o bebê e tentava oferecê-lo um pedaço de carne. Thorin praguejou e rapidamente foi ao socorro do filho.
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