Os dois reis sob a montanha

73 Daín Pé-de-Ferro, Senhor das Colinas de Ferro


Notas iniciais
Em negrito - língua anã (Khuzdul)

— Você não precisa ir...

Mesmo falando aquilo, sabia que não estava sendo ouvido. A figura se movia na sala, enchendo sua rústica mochila com mantimentos. Sequer permitirá que o ajudasse. Os movimentos eram metódicos e automáticos. Parecia ignorar os ferimentos, ainda frescos por debaixo das ataduras.

— Pelo menos, poderia até que...

— Daín, quanto mais espero, mais meu povo de dispersa pela Terra Média. É necessário que lutemos para nos manter unidos. – Respondeu, mais pareciam palavras ensaiadas e decoradas do que uma fala espontânea.

— Mas, a proposta de seu avô é por demais prematura. Reconquistar Moria? Isso parece algo louco de se fazer, logo após a queda de Erebor! Muitos de vocês ainda estão doentes e feridos... Não possuem anões o suficiente para lutar contra os Orcs que enfestam aquelas montanhas! – Tentou argumentar, mas logo se arrependeu ao receber o olhar penetrante do primo. A raiva e a dor da perda ainda estavam bastante expressos naqueles olhos azuis.

— Daín, você não sabe como é...Seu reino ainda existe. Seu povo ainda vive. Seus tesouros ainda estão salvos. Você tem algo a ser chamado de seu. Um lar. Esse é momento de tentarmos buscar o nosso...

— Thorin... – Daín não sabia o que dizer, aquela batalha estava fadada ao fracasso. Contudo, não podia tinha argumentos fortes o suficiente para dissuadir o seu primo, muito menos teria poder para isso. Era apenas um príncipe e seu pai tinha dado o divido apoio a empreitada de Thór, rei da montanha solitária, ou o rei louco, como ultimamente era conhecido.

— Sou mais forte do que imagina. – Garantiu o jovem anão, forçando um sorriso, mas aquilo não dispersou as preocupações que dominavam o coração de Daín.

— E ele não está sozinho! – Exclamou um anão sorridente, que se entrelaçou os braços os ombros dos dois anões mais velhos. O rapaz esbanjava energia – Eu, Frerin Dúrin, irei protegê-lo! Afinal, nós três sabemos quem é o melhor guerreiro, não é mesmo? Alias, a rabugice de Thorin pode ser um problema! Não se vence orcs lançando olhares mortais, tão pouco, resmungando pelos cantos.

— Frerin... – Thorin tentou se afastar do irmão mais novo, mas este persistiu no abraço forçado – Você não precisa ir.

— Ohhh? Só por que sou jovem? Se notou, meu querido irmão, já tenho barba grande o suficiente e sei manejar uma espada...

— Uma guerra não se mede pelo o tamanho de sua barba, tão pouco a sua habilidade como espadachim. Você só lutou contra o nosso mestre e não com orcs de verdade!

— Sério? – Frerin não parecia desmotivado, continuava a sorrir, seus olhos azuis, tais como Thorin, faiscavam como diamantes brutos sob a luz do luar – Engraçado, adorável irmão, pois sei que você está na mesma situação que a minha... Ambos nunca participamos de guerras propriamente ditas! Ou seja, seu argumento não é válido!

— Ele tem certa razão... – Teve que admitir, Daín.

Como resposta, Thorin soltou um resmungou. Algo que lhe era bem característico. Frerin gargalhou e Daín não pode segurar soltar algumas risadas. O otimismo de Frerin Dúrin estava adormecendo suas dúvidas e receios, ao ponto que o fez acreditar que, quiçá, pudesse rever os primos são e salvos...Sem nenhuma cicatriz horrenda do combate eminente.

Infelizmente, estivera errado...

— Majestade?

Daín submergido do obscuro lago que era suas lembranças. O vento morno acaricia sua face, fazendo levantar com leveza os seus cabelos cor de brasa. Por alguns segundos ficou confuso, não reconhecia a paisagem aonde se encontrava. Ali era mesmo Erebor?

— Majestade? – Seu escudeiro insistiu, só então o rei anão se voltou ao jovem anão.

— Sim?

— Só quero lhe informar que estamos próximo da Montanha solitária.

— Acho já consigo notar isso. – Sorriu Daín, afinal, conseguia ver a imponente montanha se erguendo no horizonte. Alias, agora entendia por que o seu desnorteamento inicial o fizera se sentir deslocado no ambiente. A última vez que visitara tais terras foi logo após da queda de Erebor. Viera ali para ver a destruição, a desolação da cultura anã. De logo, presenciou as ruínas, os refugiados, desespero e dor. Contudo, agora, diante os campos floridos, se podia ver que sua imagem do passado nada tinha relação com o presente. Dale estava reconstruída em sua glória, agora lhe restava ver Erebor.

“E me reencontrar com Thorin...”fez questão de adicionar a sua consciência. Sim, já fazia décadas desde que se encontrara com o seu primo. Trocaram parcas cartas ao longo dos anos, mas encontros face-a-face foram evitados...Ou melhor, Daín fugiu deliberadamente dos encontros com seu primo. Contudo, a época de fugas tem que acabar. Já estava na hora de Daín Pé-de-ferro confrontar suas inseguranças e pesares.

“Thorin deve me odiar...” concluiu temoroso. Se incitasse o seu bode montanhês a dar a meia volta, rumo as Colinas de Ferro, saberia que seria taxado com covarde, além de que sua prima, princesa Dís, iria caçá-lo e arrastá-lo pela barba até Erebor.

Tinha conseguido arrumar desculpas para não vir ao casamento de Thorin, ao nascimento de seu primeiro filho...Estava acumulando dívidas para com seus familiares. Não podia negar o casamento e o noivado de seus primos segundos.

— Sou também um herdeiro dos Durin. – Resmungou enquanto atiçava o seu bode, fazendo que este descesse a colina pedregosa com a rapidez que lhe era própria – Não viramos as costas diante de nosso destino!

Seu escudeiro o acompanhou montado em um imenso javali, o jovem rapaz não entendia muito bem por que o seu senhor estava agindo como estivesse cavalgando rumo a um combate eminente.

~**~

— Thorin, você quer parar? – Ralhou Bilbo que acalentava Frerin, que, por sua vez, estava inquieto, querendo abandonar o aconchegante colo de seu Breeder para explorar os arredores do imenso portão de entrada de Erebor. Bilbo, por mais complacente fosse em relação a personalidade aventureira do seu filhote, não iria permitir que o mesmo escapasse de sua vista, ainda mais quando deveriam receber os anões estrangeiros das Colinas de Ferro. Poderia ser considerado uma falta de educação receber os convidados, enquanto vasculhava a vegetação próxima, andando de quatro na terra, buscando um príncipe fujão...

Thorin, por sua vez, andava de um lado para o outro, parecendo uma fera impaciente, presa em uma jaula.

— Agora já chega! – Exclamou o hobbit indo até o seu marido e puxando uma de suas tranças. O primeiro rei soltou um gemido de dor, que foi acompanhado por seus guardas que observavam a cena, já que deviam ser a comissão de boas-vindas além de escoltarem os reis de Erebor. Bilbo puxou o seu anão até o canto mais afastado da entrada, por trás de uma grande estatua de um guerreiro anão, empunhando seu machado colossal.

— B-Bilbo...Lembre-se...Anões...Seus cabelos...

— Aham! Eu sei! Guerreiros tão fortes e com couro cabeludo tão sensível! – Resmungou, ainda sem soltar a trança, afinal, estava precisando de respostas e iria consegui-las.

— Da! Da! – Frerin estendeu seu bracinho, tentando agarrar com sua mão a outra trança de seu pai, infelizmente não conseguiu e começou a choramingar. Por que só seu papa poderia brincar com o seu adad?

— Bilbo! – Choramingou o rei anão.

— Thorin... Se eu te libertar, vai responder as minhas perguntas?

— Eu sempre respondo suas perguntas, meu tesouro.

— Aham. – Bilbo ergueu as sobrancelhas, com uma expressão descrente estampada no rosto, mesmo assim libertou a trança do Durin, que, por sua vez, sentiu um grande alívio – Mesmo que sejam sobre Daín e essa estranha atitude sua de querer tudo perfeito?

— O que deseja saber sobre ele?

— Thorin, ele não veio ao nosso casamento...E nem a festa para comemorar o nascimento de Frerin II. Ademais, quando houve o julgamento dos traidores? Ele também não veio prestar o auxílio! Você quase não menciona sobre ele em suas histórias. Como posso saber se esse é seu primo é confiável? Como posso saber se é seguro expor a minha família a esse estranho?

Thorin soltou um grande suspiro, entedia a desconfiança que toda aquela situação devia inspirar em Bilbo. Seu esposo não era idiota...Entedia que havia algo errado. Devia uma explicação a ele...

— Eu admiro Daín. – Revelou o Durin – Ele é um rei que não teve um avô louco, que não acumulou ouro ao ponto de atrair um dragão que culminou não só em destruir Erebor como também Dale. Não se precipitou em guerras que sabia que não sairia como vencedor. Não perdeu os seus familiares. Não empobreceu e vagou pela Terra Média como um joão-ninguém...Quase se matou e também seus sobrinhos em uma missão suicida de retomada de seu reino destruído...Ele e melhor rei do que eu...Ouch!

Bilbo puxou novamente a trança. Havia lágrimas em seus olhos esverdeados.

— Esqueceu de dizer que você venceu o dragão. Que reconquistou seu reino. O reconstruiu em uma versão melhorada...Com mais aliados. Com um futuro muito além de acumular pedras preciosas e ouro...Algo melhor para a nação anã. Esqueceu também de mencionar... – Lágrimas rolaram na face corada do hobbit – Que se casou comigo. Que tem um filho lindo...E que sua jornada como rei, pai e marido apenas está começando.

— Dodói? Pa... – Frerin mirou preocupado para Bilbo, fez biquinho, obviamente segurando o choro, mas não iria chorar, não quando o seu papa estava sofrendo. Iria tentar curar o dodói, de alguma forma. Começou a dar tapinhas carinhosos no rosto de Bilbo e balbuciando o que parecia ser uma canção de ninar.

Thorin puxou Bilbo para um abraço, afundando seu rosto no pescoço do seu querido hobbit.

— Querido...Desculpe. – Sussurrou Thorin.

— Eu não sei quem é esse Daín...Se ele é um bom rei ou não. Mas tenho certeza, que você é admirado por todos os anões de Erebor...E ainda mais... Que eu te amo, pelo o que você é. Isso envolve todo o seu passado também. – Continuou falando o segundo rei, também em um sussurro.

Tesouro. — Nisso se afastou um pouco, apenas para beijar os lábios de seu amado. O ato foi interrompido por um gemido de dor...Alguém tinha puxado, novamente, a trança do primeiro rei de Erebor. Desde vez, não fora Bilbo...

— Da! Pa! – Frerin estava confuso e irritado. Primeiro não o deixavam brincar na grama, depois ficavam discutindo e fazendo caras tristes. Aquilo não estava nem um pouco divertido!

— Desculpe, príncipe melancia. – Riu Thorin dando um beijo na testa do infante.

— Não o chame disso! – Reclamou Bilbo – Ele vai ficar traumatizado!

— Ora, mas foi você mesmo que pensou que ele teria uma cabeça de melancia, não é mesmo? Me recordo de ter virado a noite buscando essa fruta e carne de javali...

— A-aquilo já faz muito tempo... –Resmungou, corando um pouco.

— A coroa não iria caber na cabeça dele... – Repetiu o anão, imitando a voz de seu esposo, ou tentando imitar um gato com grave problemas nas cordas vocais.

— Thorin! – Deu um tapa no ombro do marido.

— Da! – Frerin também deu uma tapinha no ombro do pai, dando uma risada alegre.

— Agora os dois estão contra mim? – Gargalhou o primeiro rei.

O momento feliz só foi interrompido pela tocar das cornetas. Anunciavam a chegada dos tão esperado convidados.

Os anões da Colina de Ferro tinham chegado. E com eles o seu rei: Daín Pé de Ferro.

~**~

“Eles não se pareciam.” Foi a primeira conclusão que Bilbo obteve ao vislumbrar o primo de Thorin. Ele era ruivo, o que contrastava com os cabelos escuros de seu marido e de sua irmã. Talvez não devesse tentar estereotipar dos descendentes da linguagem Durin, afinal, Fili era loiro (herança de seu falecido pai) e nem todos teriam o nariz avantajado e olhar penetrante como o primeiro rei e a princesa de Erebor. Dáin desmontava um grande bode que usava uma armadura de placas de metal, mas isso não o havia impressionado, o que lhe chamara atenção era os grandes chifres.

— Huh? Que! Ah! – Frerin estava quase soltando para fora do colo de Bilbo, querendo obviamente conhecer o novo animal.

Ele, sem dúvida, tem bom gosto. – Comentou Daín, ele também tinha voz mais melodiosa e rugas em sua face, logo abaixo dos olhos, o que podia ser um indicativo que sorria muito. De fato, ele deu um grande sorriso.

Se quiser, podemos deixar que ele monte... — Sugeriu Daín, mirando Thorin que dava um aceno cordial.

Oh! Não!— Cortou Bilbo – Não devemos mima-lo. Ele deve saber que nem tudo que ele vê, pode ter! Ainda mais, ele é apenas um bebê, como pode esperar que ele monte?

— Er... – Pé de Ferro encarou o hobbit com evidente surpresa, era obvio que não esperava o conhecimento na língua sagrada anã por parte do segundo rei de Erebor.

— Ops... Eu não quis ser desrespeitoso. – Falou logo em seguida – Digo...

— Não! Não! – Riu Daín – Eu que lhe devo desculpes, senhor Bolseiro-Durin. Eu não tenho muito experiências com crianças pequenas...Digo, eu só fui conhecer Fili e Kili depois que eles tinham nascido, quando eram já crianças travessas.

— Bem, posso te garantir que eles não devem ter mudado tanto desde essa época, mestre Daín. Talvez um pouco mais de altura aqui, barba ali...Mas o espirito travesso ainda persiste.

O rei anão gargalhou. Bilbo sorriu, parecia que tinha se preocupado atoa, Daín não parecia ser tão ruim assim. Entretanto, tinha notado uma coisa...Até o momento, Thorin não tinha falado nada.

— Espero que tenha feito uma boa viagem...Não é mesmo, querido? – Disse fitando o primeiro rei.

— S-sim. – Gaguejou Thorin, algo que não era do seu feitio – Você deve estar cansado, Rei Daín, fico honrado com a sua presença no meu reino.

Daín fitou de relance o seu primo e só...Os dois reis ficaram se encarando, como buscando palavras para dirigir um ao outro, mas as palavras escapavam e não eram proferidas. Bilbo franziu o cenho. Anões costumam ser bastante abertos aos seus sentimentos. Abraços e cabeças. Palavras de afeto e provocações. Também deixavam bastante evidente quando alguém não era bem-vindo. Eles eram um tremendo livro aberto, a qual Bilbo se tornou um expert tradutor. Entretanto, naquele momento, não soube dizer, com total certeza, o que estava acontecendo...

— Vamos entrar? – Sugeriu já que nenhum dos reis pareciam querer tomar a iniciativa – Frerin precisa de sua mamadeira e creio que você e seus companheiros necessitam de um descaso. Temos vinhos e cervejas oriundas de Erebor, Dale, Condado e Mirkwood.

— Oh! Sim. Claro. – Daín respondeu exibindo um sorriso afetado – Frerin...Esse é um...Ótimo nome a ser dado ao seu filho.

Thorin exibiu um sorriso triste.

— Sim, primo... – Concordou com um aceno – Você nunca visitou Erebor antes, não é mesmo? Digo...Antes do Dragão. Esse será uma ótima oportunidade de conhecer o nosso reino, o meu, de Dís e de Frerin... Então, deseja entrar?

— Será um prazer, primo.

“Finalmente!” Bilbo exclamou em seu pensamento. Pelo visto, anões podiam ser cabeças duras independente se eram de Erebor ou das Colinas de Ferro. Obvio que havia um laço de afinidade entre Thorin e Daín, também era obvio que algo os impedia de ser honestos um com outro.

“Pelo visto, além de uma cerimônia que devo que organizar, seria prudente adicionar a minha lista de afazeres tentar solucionar dramas familiares?” quem imaginou que os deveres do segundo rei eram ínfimos comparado ao do primeiro rei, estavam totalmente enganados.

Um hobbit tinha que cuidar de seus teimosos anões...