Os dois reis sob a montanha
16 Cartas - Parte 2
Notas iniciais
Caro Drogo,
Fiquei feliz quando recebi sua outra carta! Mesmo que ela tenha mais perguntas que descrições do que está ocorrendo aí no Condado. Drogo, como foi sua cerimônia de maioridade? Nem isso você me falou! Espero que na sua próxima carta sejas mais descritivo. Seu primo almeja saber mais sobre o seu querido primo mais novo!
Pois bem, foi muito fofo da sua parte adicionar na sua carta algumas receitas de carne associada com verduras, legumes, frutas... Realmente irá me ajudar muito!. Eu não me lembrava de todas as receitas e nem pensei em levar meu velho livro de receitas quando viajei a Erebor. Obrigado, primo!
Bem, agora voltando a responder as suas perguntas... Primeiro você me perguntou sobre Kili e Fili; bem, eles são meus sobrinhos, agora que estou casado com o tio deles. De certa forma, agora eles são seus parentes também. Os dois só se metem em confusão! E não venha me dizer que eu também me meto em muitas... Eu não busco elas, tais situações simplesmente acontecem comigo! Mas esses dois jovens príncipes buscam as confusões a qual se metem. Essa semana mesmo eles fizeram uma bomba de tinta no salão de treinamento. Devo dizer que ver Dwalin todo pintado de azul foi engraçado, mas isso é errado.
Os príncipes também estão curiosos quanto a você; eles leem também as suas cartas, e eu até peço desculpas quanto a isso, contudo é meio difícil dizer “não” a eles. Kili e Fili podem ser bastante insistentes. Kili, especialmente, adora quando você fala do Condado; fica dizendo que quer conhecer o reino dos Hobbits e você. Mas é lógico que Thorin não iria deixar, levando-se em conta que ele e o irmão fugiram de Erebor e viajaram pela Terra Média sozinhos para me encontrar... Quem sabe um dia eu os leve para te visitar! Vou convencer Thorin.
A outra pergunta sua foi referente a literatura dos anões. Pois bem, eu visitei a biblioteca real três dias depois da noite de núpcias. Antes que você faça a pergunta na próxima carta, eu não entrarei em detalhes o que fiz nesses três dias. Então, nem pergunte! São coisas que... Bem... Coisas íntimas. Digamos que estávamos nos conhecendo.
Enfim, o assunto é sobre os livros e vamos nos focar neles! Eu ainda me lembro como foi interessante visitar aquele paraíso de livros...
~TKATC~
– AH! Que lindo! – Exclamou Bilbo ao adentrar na grande biblioteca, havia tantas fileiras de livros. Nunca tinha visto tantos assim! A família Bolseiro era a detentora do maior acervo de livros do Condado, contudo, essa quantidade reduziu-se para metade quando os orcs invadiram. Mas nem todo o acervo original do Bolsão se comparava a quantidade de livros ali existentes.
– Ainda está sendo reconstruída e o processo recuperação de muitos livros que foram queimados pelo o dragão já está sendo feita. Desta forma, a biblioteca não é, ainda, como ela era antes da queda de Erebor... — Explicou Thorin, que caminhava ao lado do hobbit que olhava para os livros; alguns deles com marcas escuras de queimaduras, cicatrizes do passado. Bilbo pôde ver a dor nos olhos do marido e segurou a mão dele.
– Eu já a acho linda... — Sorriu – Nós vamos recuperá-la! Vai ficar ainda mais maravilhosa que a do passado. Vai ver!
Thorin correspondeu o sorriso e apertou a pequena mão do esposo.
– Oh, Majestades! – Disse Ori, deixando os livros caírem de seus braços ao ver os reis ali – Eu não sabiam que você veriam aqui. Oh! Nossa, está uma bagunça...
– Está tudo bem — Sorriu Bilbo.
– Bem... — O pequeno anão pegou os livros rapidamente, quase os deixando cair novamente devido ao nervosismo – O que desejam? Algum livro em especial?
– Na verdade, só estava mostrando a Bilbo um pouco da biblioteca. -Declarou Thorin.
– Não se preocupe, Ori. Thorin vai ser o meu guia! Mas se tiver algum livro sobre aventuras ou contos antigos... Eu adoraria ler!
O jovem bibliotecário sorriu.
– Eu tenho alguns novos que acabei de traduzir do Khuzdûl para a linguagem comum! Irei pegá-los para você, majestade.
– Me chame de Bilbo. – Pediu o hobbit com um sorriso. Ori olhou para Thorin como se esperasse uma confirmação quanto aquela situação e o anão rei assentiu.
– Então... Bilbo, irei pegá-los imediatamente! – Nisso, Ori saiu apressado, com os livros caindo de suas mãos. O hobbit riu baixo e deu uma tapinha no braço do marido.
– Você assustou ele! – Acusou brincalhão.
– Eu? – Thorin levantou as grossas sobrancelhas – Mas eu não fiz nada... — Resmungou.
– Só lançou o seu famoso olhar mortal.
– Famoso? Você está andando demais com os meus sobrinhos... Não tem nada errado no meu olhar, tampouco é mortal!
– Você olha para todos assim – Bilbo fez uma careta, imitando o anão rei. Este de início se sentiu ofendido, mas logo depois começou a rir alto. Alguns anões que estavam na biblioteca se assustaram com aquela reação, outros olharam para casal de forma reprovativa.
– Thorin! Precisamos ficar em silêncio – Pediu o menor – E... Você devia sorrir mais. Fica bem mais bonito assim. — Confessou o menor, corando.
– Fico é? – Sussurrou o anão, se aproximando de Bilbo. Que por sua vez se afastou, andando para trás; entretanto, acabou ficando encurralado por uma estante de livros.
– T-Thorin... Estamos em público, lembra? – Disse o hobbit, conhecendo muito bem o olhar atual do marido. Não era nada comparado ao “famoso mortal”, e sim mais próximo do “faminto e pervertido”.
– E? – Thorin sussurrou no ouvido do menor, antes de mordiscar-lhe a orelha. Este teve que morder o lábio inferior para não gemer.
“Ele sabe que minhas orelhas são o ponto fraco!” Pensou irritado com a recente descoberta do marido.
– Você tem que se comportar! – Murmurou ofegante.
– Eu estou... — Beijou o pescoço de Bilbo, alternando-se entre mordidas aqui e ali.
– T-Thorin... — Gemeu.
– Ca-ham. – Uma voz rouca fez o casal se sobressaltar. Um anão idoso os observava; tinha longa barba branca que descia até o chão. Seu olhar irritado e reprovativo fez os reis corarem – Eu queria pegar um livro que está logo atrás de vocês... Majestades.
– Oh, sim. — Thorin se afastou junto com seu esposo, permitindo que o ancião passasse.
– Jovens... — Resmungou o anão, pegando o livro que queria e se afastando.
Thorin suprimiu outra risada enquanto Bilbo tentava conter a vergonha que sentia no momento.
“Maldito anão... Já não basta o que já fizemos nesses últimos 3 dias?”
– Oh... — O rei anão notou um determinado livro na estante, enquanto vagava com o olhar por ela. Bilbo o observou curioso. O anão retirou da estante um livro fino, a capa estava chamuscada – Eu não sabia que o tinham recuperado...
– O que é? – Perguntou o hobbit vendo o marido folhear as páginas amareladas em uma língua estranha e com diversas imagens. Era um livro infantil.
– Um dos livros que eu sempre lia quando era criança... Junto com o meu irmão. — Falou Thorin acariciando as páginas – Veja, ainda tem marca dos nossos desenhos nas páginas!
O jovem Bolseiro de fato notou desenhos do que pareciam anões com espadas lutando entre si. Era fofo.
– Qual é o nome do seu irmão? – Perguntou Bilbo, e logo percebeu que não devia ter feito tal questionamento, pela tristeza que transpareceu em seu companheiro.
– Ele se chamava Frerin.
“Chamava? Oh, Bilbo, seu grande idiota! Não devia ter feito essa pergunta!” pensou o menor irritado consigo mesmo.
– Ele morreu na batalha Azanulzibar, em Moria. Frerin ainda era muito jovem. Eu não queria que ele participasse, mas ele queria provar para mim que já era um adulto que podia ajudar... Tolo. Ele não era muito diferente de Fili e Kili, com relação a personalidade. — Ele sorriu triste.
– Frerin é nome muito bonito. — Disse Bilbo, tocando a mão do marido – O que aconteceu no passado não foi sua culpa. Essas guerras tiram mais vidas do que alcançam a vitória.
O rei anão concordou em silêncio, ainda observando o livro.
– Podíamos levar esse livro conosco, se quiser.
– Certo — Disse Thorin, entregando o livro para Bilbo, que o recebeu e abraçou contra o peito.
– Vamos levar esse também... – Bilbo levantou os olhos para observar outro livro nas mãos do marido.
– Esse livro era usado para ensinar crianças a ler e a escrever Khuzdûl... -Sussurrou o rei.
– Oh, perfeito! – Sorriu o Hobbit recebendo o grosso livro e o folheando. Não entendia nada do que estava escrito. Como poderia aprender a língua dos anões assim? Ouvir e falar Khuzdûl não era dificuldade para o pequeno Bolseiro, mas ler e escrever era outra história.
– Eu irei te ensinar... Todas as noites! – Falou Thorin como se adivinhasse o que se passava na cabeça do jovem hobbit.
– Isso seria perfeito. Mas... Pensei que tinha outros planos para as nossas noites — Falou Bilbo, mas este logo tapou a boca com a capa do grande livro. Por tinha falado aquilo?
– Oh. — O primeiro rei sorriu – Nossas noites serão bem atarefadas, pelo que vejo... Fico pensando se teremos tempo para dormir, de fato.
– Thorin. E-eu realmente quero aprender Khuzdûl. — Resmungou o hobbit, ignorando o comentário do outro.
– E eu prometo de ensinar.
– Mesmo? – Bilbo fez biquinho, ainda não confiando muito naquelas ditas “aulas”.
– Sim. — Nisso, Thorin se abaixou e beijou os lábios do seu esposo, de leve e rapidamente; não queriam ser alvos de represálias de outros anões idosos que os vissem.
Bilbo abraçou os livros contra o seu peito, feliz.
“Frerin... Realmente é um nome bonito. Quem sabe...” Pensou, enquanto continuava a caminhar ao lado do marido pela a biblioteca “...Seria um lindo nome para nosso primeiro filho.” Corou com a ideia, mas nada disse. Não teriam filhos assim tão cedo.
~TKATC~
Nossa visita a biblioteca foi perfeita, e agora, quando tenho tempo livre, sempre vou visitar Ori e pegar alguns livros emprestados para ler. Estou pensando em pedir permissão a Thorin para eu auxiliar na tradução de alguns livros de elfos para a linguagem comum. Sim, existem livros élficos na biblioteca dos anões! Eu achei interessante saber disso; pelo menos eles respeitam os conhecimento milenar dos seus rivais. Eu realmente quero ajudar a reformar a biblioteca, afinal, é onde estão as histórias dos antepassados de Erebor!
Sua outra pergunta é relacionada a se eu ainda estou tendo aulas sobre a cultura anã; de fato, estou. Balin me dá aulas de política e diplomacia três vezes por semana. Além disso, tenho aulas com Dori sobre cultura duas vezes semana. Bofur me dá aula de matemática e mineração... Que aliás acho muito chato! Os anões gostam muito de matemática. Eu sou péssimo nessa matéria! Thorin não consegue entender porque hobbits não estudam equações integrais e derivadas... Muito menos funções de segundo e terceiro graus. Além de não entender como não calculamos áreas de figuras irregulares! Ora, nós hobbits não somos grandes arquitetos. Nunca precisamos ser! Ao contrário dos anões... A aula de mineração é a pior! Sabe quantos nomes de gemas e rochas eu tive que decorar na semana passada? Eu nem te digo porque eu nem me lembro mais. Me sinto como uma criança hobbit novamente!
Além disso, tem as aulas de luta com Dwalin. Sim, estou aprendendo a lutar! Finalmente, uma aula de fato interessante! Só que Thorin não pode participar. Ele só atrapalha as minhas aulas... Eu ainda me lembro da minha primeira aula.
~TKATC~
– Bem, um anão primeiro deve desenvolver seus músculos para que assim possa pegar armas mais pesadas como a marreta ou o machado. – Explicou Dwalin. Bilbo ouviu atento o anão guerreiro; estavam no salão de treinamento. Muitos guardas os observavam, curiosos com a situação. O segundo rei aprendendo a se defender? Queriam ver se era possível – Mas... Vocês hobbits me parecem ser uma raça que não desenvolve muito os músculos. Tal como os elfos!
Com a palavra "elfo" muitos anões resmungaram entre si; como os elfos pareciam afeminados devido ao seu corpo esguio, longos cabelos e não terem barba. Bilbo suspirou cansado. A rivalidade entre as duas raças era muito evidente.
– Então... Não vou treinar para desenvolver os músculos? – Perguntou o hobbit.
– Acho melhor treinar outras habilidades. Vocês são rápidos e furtivos! Talvez treinar com facas e espadas leves seja melhor... – Nisso, Dwalin pegou uma espada e movimentou a lâmina no ar, emitindo um som baixo que fez o menor tremer – Se usada com precisão, a lâmina de uma espada pode matar seu oponente em segundos. O que acha, Thorin?
O primeiro rei também observava a aula e concordou com o amigo.
– Uma pequena espada será perfeita para ele.
– Pois muito bem, aqui a sua arma! – Dwalin entregou uma pequena espada ao hobbit, que a examinou, maravilhado – Infelizmente, é élfica. Mas é bastante leve e a lâmina é uma das melhores que já vi.
Os anões que o observavam riram entre si, comparando a pequena espada com uma lâmina para abrir cartas. Bilbo os encarou, irritado, e estes logo se calaram.
– Vamos começar o treinamento! – Nisso, o anão guerreiro começou a tirar a armadura que usava e camisa. Bilbo corou severamente.
– D-D-Dwalin?! O que pensa que está fazendo?
– O quê? O anão, durante o treino, deve retirar a roupa, pelo menos da cintura para cima. Assim, expomos nosso corpo a condições extremas do treino, porque nem sempre teremos a armadura nos protegendo. Esse é o momento de nos machucarmos e saber nossos limites! – Nisso, o anão acabou de tirar a camisa e a jogou em um canto da arena. Bilbo pôde ver as várias tatuagens que Dwalin tinha em seu corpo, e não pôde conter o rubor de seu rosto se espalhar por todo o corpo. O anão guerreiro o encarou, esperando que também tirasse a parte de cima de suas vestimentas.
“Por Yavanna. Por que simplesmente não podemos lutar de roupa? Anões e seus costumes malucos” Pensou o jovem Bolseiro, enquanto tirava sua túnica.
O salão ficou em silêncio. Bilbo não entendeu por que todos o olhavam tão surpresos. Será por que não tinha músculos? Ou tatuagens? Ou olhavam a “marca” que tinha em seu peito?
– Ele é lindo... – Sussurrou um dos guardas, fazendo o Hobbit ficar ainda mais embaraçado e confuso. Os outros anões também concordaram, compartilhando outras frases de admiração com relação ao corpo de Bilbo.
– QUIETOS! – Rosnou Thorin, fazendo todos se calarem novamente – Saiam! Agora!
Todos saíram do salão de treinamento cabisbaixos por perderem o show, bem como a chance de verem o segundo rei sem a camisa.
– Thorin... — Dwalin suspirou longamente – Será que agora posso começar a minha aula?
– Sim, mas... — Thorin encarou o seu esposo e depois sorriu – Talvez eu devesse dar uma aula introdutória ao Bilbo, antes de sua aula.
– Aula... Introdutória? – Bilbo não gostou nem um pouco daquela sugestão.
Dwalin deu os ombros.
– Se você quer assim, tudo bem. — Disse o anão, já se direcionando para fora da arena – Mas não demorem muito.
– Espere, Dwalin! Não! – Choramingou o pequeno hobbit, já imaginando o que Thorin tinha em mente.
– Bilbo... Não tenha medo. – Nisso, o menor olhou para trás, já vendo que seu marido tinha tirado a camisa, expondo o seu peitoral musculoso e suado. O hobbit corou e engoliu em seco – Eu prometo ser um bom professor.
“Droga... Maldito anão e... E seu corpo... Lindo!” Pensou o menor, não conseguindo negar o desejo que agora sentia.
Thorin sorriu e pegou uma espada e apontou para as calças do hobbit.
– Vou mostrar como a lâmina das espadas podem ser precisas. Capazes até de cortar a roupa sem danificar a pele do oponente.
Bilbo olhou para as próprias calças e depois para o marido.
– Thorin, não! – Vociferou o menor, cobrindo com as mãos a calça. Agora entendia completamente a intenção da “aula introdutória”.
Dwalin rolou os olhos e saiu antes que visse algo impróprio.
Gemidos foram ouvidos de fora do salão de treinamento, e o anão guerreiro balançou a cabeça, tratando de afastar os curiosos do local.
~TKATC~
Thorin parece uma criança algumas vezes. Possessivo, tolo e pervert... Digo... Bem, acho que você entendeu o que eu quis dizer. Dwalin proibiu Thorin no salão de treinamento desde então; pelo menos posso ter a minha aula em paz. Às vezes Kili e Fili me acompanham, contudo eles mais brincam e provocam Dwalin do que ajudam! Sobrinhos bobos...
Terminarei essa carta aqui. Como você pode ver, estou bem atarefado... Mas feliz!
Espero que na próxima carta me fale mais sobre você e o Condado, senão irei pensar que estás escondendo alguma coisa!
Mande um abraço para o Primo Ada.
Saudades,
Bilbo Bolseiro Durin, segundo rei de Erebor.
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