Os dois reis sob a montanha
52 Barco, Barris e Perdão?
Notas iniciais
— Onde está o mestre Flink? — Foi o primeiro questionamento lançado por um guarda elfo que interceptara o barco de Bard logo na fronteira de Mirkwood. Não era algo inesperado, afinal, era óbvio que seria barrado antes de adentrar no reino élfico; o que era inconveniente fora o fato de que o humano quase não vira de onde saiu aquele rapaz de orelhas proeminentes, com pontas afiladas, feições suaves e longilíneas, usando uma armadura dourada e portando um longo arco cuja flecha apontava para o pescoço do senhor de Dale.
— Saudações para você também, nobre criatura. — Levantou uma das mãos em sinal de rendição, já que a outra controlava o leme qual guiava com sutileza a embarcação pelo estreito braço do rio — Eu sou um dos aprendizes de Flink; para ser mais preciso, ex-aprendiz, já que posso ser considerado um barqueiro maduro e experiente...
— Não teste a minha paciência. Eu te fiz uma pergunta simples e exijo uma resposta do mesmo nível.
— Ora, e eu que pensei que os elfos, por serem imortais, tinham bastante paciência. — Provocou. O elfo, pelo visto, não tinha muito senso de humor, pois acabara de puxar a corda do arco — era um alerta.
— Como eu dizia antes de ser interrompido, sou um amigo de Flink e estou aqui lhe fazendo um favor. Não sei se você percebeu, mas o velho Flink já tem suas limitações físicas, logo, não pode desempenhar todas as suas funções como antigamente. Estou aqui aliviando um pouco das responsabilidades do meu velho mestre, visto que justamente hoje ele estaria indisposto e não queria atrasar as suas entregas.
O elfo parecia relutante em recolher o seu arco.
— Bem... É verdade que os homens envelhecem...
— Pois é, trata-se de uma característica cativante de nossa raça. — Piscou Bard, o que resultou em uma expressão de confusão por parte do jovem guarda — Pois bem, estou aqui para entregar os peixes. Quanto antes entregar, melhor, acredito que vocês elfos gostem deles frescos e não podres, não é mesmo?
— S-sim, claro. — Assentiu o guarda. Bard, internamente, suspirava aliviado.
— Espere! — Outra voz se intrometeu na conversa. Outro elfo surgiu das folhagens. O rei humano praguejou silenciosamente todos os deuses sobre as habilidades furtivas dos orelhudos.
— Acho que devemos verificar a mercadoria. — O outro guarda, pela a aparência, era mais velho e provavelmente era ele que estava no comando, para o desespero de Bard.
— Verificar a mercadoria? Bem, se quiserem abrir cada barril e contar os peixes, isso é problema de vocês, mas eu não tenho tempo a perder. Tenho outra mercadoria para recolher no porto-
— Pois é melhor arrumar tempo, humano. — Cortou o elfo-chefe com um tom claramente orgulhoso — Estamos pagando Flink muito bem por essa mercadoria, logo, é nosso direito inspeciona-la!
Bard estava ficando sem opções, pelo visto, não eram só os anões que dispunham de uma atitude tolamente obstinada.
— Flink não tinha me informado que vocês faziam esse tipo de revista... Desculpe, é que não estou acostumado...
— São ordens de nosso rei, tudo que entra em Mirkwood tem que ser fiscalizado.
Bard franziu o cenho.
— Sério? Ele teme que peixes possam ataca-lo, por acaso?
— Cuidado, humano. — O guarda elfo disse isso enquanto retirava em um movimento rápido e silencioso a espada élfica da bainha — Não ouse desrespeitar o nosso rei, principalmente pisando nas terras de Mirkwood!
— Tecnicamente não estou “pisando” nas terras, já que ainda estou no barco.
O elfo olhou para o seu jovem companheiro, confuso.
— Ele se acha engraçado... Creio eu. — Sussurrou o mais novo para o seu superior.
— Mortais tolos.
Bard rolou os olhos. As coisas não estavam saindo como planejava. Não queria ter que se utilizar da força para adentrar na fronteira. Sim, podia estar um pouco enferrujado em suas habilidades de luta, consequência das longas horas de trabalho burocrático de ser um rei, mas podia distraí-los enquanto a dita “mercadoria” escapasse. Mirou de relance para o canto do barco, onde um grande saco vazio servia de esconderijo para Drogo, e o hobbit observava toda a cena apreensivo. Bilbo provavelmente iria mata-lo se algo de ruim acontecesse a seu primo e também sobrinhos... Mas estava vendo que as opções estavam se eliminando, restando, tão somente, a possibilidade de forçar a entrada dos anões ocultos em Mirkwood e rezar para que tudo ocorresse bem a partir daí. Já estava prestes a pegar a sua espada, oculta por seu longo sobretudo de couro quando um terceiro elfo apareceu — ou melhor: elfa.
— O que vocês estão fazendo? — Questionou a mulher — O carregamento já devia ter chegado a cozinha real uma hora atrás!
— Lady Tauriel, — O jovem elfo fez uma pequena reverência, que foi também mimetizada pelo o outro guarda com certa relutância — Estamos fazendo a inspeção, como as ordens proferidas por nosso rei.
A elfa de cabelos acobreados soltou um suspiro que retirou uma mecha rebelde de sua testa.
— Tenho certeza que Lord Thranduil não estava sendo tão específico assim, afinal, o carregamento de pescado, até a semana passada, estava adentrando em Mirkwood sem tanta burocracia. Já se passaram decádas desde que elfos e humanos iniciaram esse simples comércio-
— Vossa majestade tem seus motivos, Tauriel! — Cortou o elfo mais velho — Ele deseja nos proteger. Sendo tão próxima ao nosso rei, você, mais do que ninguém, deveria apoiar as decisões daquele que a adotou como filha.
Bard pôde ver a fúria dominar a elfa, mas esta conseguiu disfarçar muito bem pois deu um formoso sorriso.
— Então, se parece entender tão bem os motivos de nosso rei, acho que poderia você mesmo relatar a ele como um carregamento de pescado apodreceu e que o jantar de vossa majestade deve ser substituído por algo menos digno do seu refinado paladar.
Ao contrário de Tauriel, o guarda não foi nem um pouco capaz de esconder sua raiva, e a cor rubra se propagou pela pele alva — algo que Bard não estava acostumado a ver em um elfo, sem dúvida esta se entretendo muito com aquele pequeno conflito.
— Devemos estar nos preocupado com o avanço das aranhas, a presença de orcs em nossas fronteiras e não com peixes! Saibamos interpretar as ordens. Vossa Majestade Thranduil deseja proteger nosso reino de ameaças estrangeiras. Sinceramente, não vejo como um simples barqueiro e seu usual carregamento de peixe pode ser classificado como “ameaça”.
Aquilo foi um verdadeiro soco nos estômagos dos guardas elfos, e ambos pareciam desconfortáveis e meio embaraçados com suas atitudes. Bard soltou um assobio de admiração, mas a sua ação foi interrompida com o olhar crítico lançado a si pela elfa.
— V-você pode passar, humano. — Anunciou, por fim, o guarda mais jovem. Bard cantou vitória internamente; parte do plano estava concluído.
— Irei acompanha-lo até o porto para que faça o descarregamento o mais rápido possível. — Declarou Tauriel — Assim, eu mesmo irei avaliar se eres de fato uma ameaça ou não. Sou uma das melhores guerreiras deste reino, humano, acho melhor que dose bem seus atos ao meu lado.
— Sim, senhora. — Bard assentiu, sentindo vontade de bater continência para aquela poderosa mulher, mas temeu que aquela ação fosse mal vista pela a Lady Tauriel.
Os guardas deram singelas reverências e sumiram, novamente, nas folhagens. Tauriel saltou para o barco e este nem ao menos se mexeu com o aumento de peso. Na verdade, era como se nada fosse de fato adicionado; a graça e leveza dos elfos eram surpreendentes. Bard começou a guiar a embarcação pelo rio. A copa das árvores centenárias praticamente cobriam o braço d´água, fazendo um túnel formidável de galhos e folhas; era algo natural, o rei humano sabia, porém dava uma falsa ilusão que fora forjado por mãos inteligentes. Talvez os elfos tenham se comunicado com as árvores e as convencido a fazer tamanha obra... Quem sabe?
— A florestas tem ouvidos. — Sussurrou Tauriel ao seu lado. Podia-se ver o quão tensa a garota estava, mirando as margens do rio com desconfiança — Iremos parar em uma pequena baía antes do porto principal. Existe uma trilha pouco usada, ela guiará os anões até o palácio, mais precisamente, a parte dos aposentos onde se encontra Legolas.
— Perfeito. Mas, me diga, como vai o nosso Lorde elfo Elrond? Está tendo sucesso em sua investida romântica?
Tauriel deu um tímido sorriso.
— Eu não sei ao certo, tive que sair rapidamente para poder interceptar o barco.
Bard ficou decepcionado. Estava bastante curioso em relação a esse fato — não que fosse fofoqueiro, não! Só que um rei tem direito de ter seus hobbies.
~***~
Elladan estava entediado. Pendurado no lado de fora dos aposentos do rei elfo de Mirkwood, o jovem passava o tempo analisando as pontas duplas de sua frondosa cabeleira negra. Sua missão? Garantir a segurança de seu pai. Na verdade, suspeitava que Elrond tenha o incumbido aquela missão só para assegurar que seu filho não se metesse em confusão. O que era uma imensa afronta! Elladan não se metia em confusão, não tinha culpa se os outros não conseguiam aguentar as “verdades” que o nobre elfo proferia. Esses mesmos outros não tinha senso de humor, sempre levando para o lado pessoal. Ou seja, a culpa não seria de Elladan pela confusão começar a se formar em sua volta. Se teria de culpar alguém, esses deveria ser os outros!
— Tenho que hidratar meu cabelo... Esse ar frio dessas terras está deixando-o todo quebradiço. —Reclamou distraído, quando notou algo sendo lançando da janela — uma xícara feita da mais delicada porcelana. Logo depois foi um píres. Em seguira algumas almofadas.
“Será que agora é o momento que devo salvar o meu pai?” Pensou com certo receio enquanto levantava seu olhar para a grande janela a qual seu progenitor tinha escalado momentos atrás para se encontrar com o amor de sua vida. Havia muitas trepadeiras crescendo sobre as paredes externas de toda aquela área, o que facilitou (e muito) a escalada dos elfos de Valfenda. Elladan começou a subir. Estava preocupado — mas também extremamente curioso para saber o que estava ocorrendo.
— Você acha que pode vir aqui, depos de todos esses anos, dizer essas palavras e eu irei me jogar nos seus braços? — Mais uma almofada fora lançada para a sua “morte certa”, atravessando a janela e caindo no abismo. Elladan agora já tinha uma melhor visão da surpreendente cena. Seu pai, grande guerreiro e diplomata elfo, estava usando a mesinha de centro como escudo contra os ataques erráticos de Thraduil, o rei elfo, que por sua vez, estava jogando praticamente todos os itens da sala janela a fora.
— Duil- — Suplicou Elrond em um tom paciente.
— Já disse para não me chamar de Duil! Como ousa? Eu não acredito que você tem a audácia de propor um absurdo como esse! — Um vaso de lindas flores se espatifou de encontro a mesinha.
— Absurdo? Acha que meu amor é um absurdo, Duil?
Thranduil hesitou. Tinha uma cadeira nas mãos.
— Eu sempre te amei, Duil... — Continuou Elrond, aproveitando a abertura.
— Mentira! — A cadeira foi lançada — Isso tudo é mentira! Onde estava o seu amor quando eu fui prometido ao seu primo?
— Meu amor estava ali, escondido por trás do medo de envergonhar meu pai e família, de desmerecer a minha responsabilidade para com a minha raça e linhagem. Esqueceu que no mesmo dia em que você foi entregue ao meu primo, também recebi o informe de que deveria me casar com Celebrían para o bem da nossa raça? O que eu poderia dizer? Meu pai já me considerava rebelde e as constâncias de reclamações para com minhas atitudes estavam se tornado por demais severas, ao ponto de ameaçar me deserdar e exilar. Queria provar que era de confiança, que não trairia meu povo e... Como forma de me testar e talvez de me punir, arranjou o casamento mesmo sabendo quem eu amava- meu pai me forçou a ver... Ver meu primo ganhando aquilo que eu queria para mim.
Thranduil pôde ver suas mãos tremendo segurando mais uma cadeira a ser destruída, e também sentiu lágrimas rolando por sua face. Lembrar daquele momento, mesmo que tenha ocorrido já fazia tantos anos (até mesmo séculos), lhe parecia uma lembrança tão recente e dolorosa, como se tivesse vendo diante dos seus olhos o pesar e desespero de quando recebera a notícia que construiria seu futuro.
— Peço perdão, Duil. Não fui corajoso o suficiente para impor meu desejo e opinião. Deixei que fatores externos me manobrassem. Contudo, meu coração nunca pertenceu a minha esposa. Sempre foi seu.
O rei elfo enxugou as lágrimas nas mangas longas de sua exuberante veste.
— Mas agora já é tarde. Você ainda tem a sua mulher e-
— Você não soube? Celebrían faleceu há algum tempo!
A cadeira caiu no chão, com um estrondo que ecoou pelo quarto (agora parcialmente desmobilado, já que a a maior parte fora lançada pela janela ou quebrada).
Não sabia. Thranduil não sabia de nada. Foram tantos anos tentando esquecer o outro elfo que simplesmente negava qualquer informação advindo de Valfenda, tantas cartas rasgadas e queimadas...
Como fora tolo...
Elrond inspirou fundo, tomando coragem para se levantar e sair de sua proteção.
— Eu já havia me separado amigavelmente dela. Celebrían não me amava, e eu a respeitava como uma irmã e amiga. Entretanto, ela não detinha meu coração. — Desviando dos destroços que jaziam no chão, se aproximou do ainda atônito elfo — Quero que veja uma coisa.
Nisso começou a despir as suas vestes. Bem, não necessariamente se despir inteiro, mas os sensos de Thranduil estavam a flor da pele e ele simplesmente se assustou com a visão.
Elladan, que expiava tudo, corou. Assim como, Duil que ficou mais vermelho que um tomate fresco.
— O-o q-que pensa que está fazendo? — Sua voz era um falsete — Eu p-posso deter algum sentimento para com você, lord Elrond, mas isso não significa que iremos pular fases... Digo... Eu-
Elrond riu do nervosismo e embaraço do seu companheiro.
— Duil, teremos tempo para compensar todos os anos perdidos. Inclusive precisamente o tempo que perdemos de nos conhecer na cama. — Disse galantemente, arrancando um arfar lascivo do elfo-rei.
Elladan estava morrendo de vergonha de ouvir seu pai, aquele que trocou suas fraldas e o ensinou a usar a espada e arco-flecha, falando sobre aquelas coisas! Pais deveriam ser proibidos de falar algumas palavras.
— Veja. — Elrond mostrou o seu peitoral nu. O elfo não apresentava um corpo extremamente musculoso e cheio de pelos como alguém da raça dos homens ou dos anões, contudo era firme e tinha sua tonicidade. Mas o que assombrou Duil fora algo... Ou melhor, a ausência de algo.
— A marca... — Balbuciou, tocando de leve o local onde o esterno, local próximo ao coração, estava. Podia sentir o palpitar rápido do músculo cardíaco do lord elfo. Aquilo era impossível?
— Minha ex-sogra conseguiu desfazer a feitiço antigo que me unia minha esposa. Estou livre para compartilhar a minha alma com outro alguém... — Sua mão quente se pôs por cima da mão delicada de Thraduil — Adivinhe quem eu desejo passar o resto da minha eternidade?
— M-mas... Mas... Isso... Eu...
— Duil, o que você deseja? Sei que sofres todo o dia desde a morte de meu primo... Eu o amava também como a um irmão e tenho com ele uma grande dívida, já que ele te protegeu e amou quando eu não pude. Não peço que o esqueça, como também não posso esquecer a minha ex-esposa. Só peço que me dê uma nova chance. Quero te fazer feliz... Quero ser feliz ao seu lado, Duil.
Com a outra mão livre acariciou a face úmida de lágrimas de seu amado. Quanto tempo tinha esperado para poder toca-lo daquela forma? Parecia um sonho... Mas sabia que havia tido uma visão como aquela, muito tempo atrás.
— Você é um grande idiota, burro, besta, elfo cabeça-dura, teimoso, inconveniente, além de ter um péssimo gosto para roupas... — Começou a resmungar Duil que puxou Elrond pelo pescoço, o surpreendendo com um beijo.
Era o primeiro beijo que trocavam. Desde a adolescência, nunca chegaram a esse ponto... O beijo expressava todo o desejo contido e frustrações de ambos fermentados e guardados por tantas eras. Sem perceber (ou mesmo sendo intencional), Thranduil guiava o guerreiro elfo para um grande divã, o fazendo cair sobre ele.
— Você demorou demais... Terá que se esforçar muito para me convencer a perdoa-lo. — Disse o rei elfo sentando sobre o colo de Elrond, de forma bastante elegante. O lorde elfo tinha perdido a sua famosa eloquência.
— Eu... — Engoliu em seco perceber Duil caindo sobre o seu peito nu, se assemelhando a um felino pronto para capturar sua presa — F-farei o possível e impossível para que me perdoe.
— Prove... Meu Elrond.
Aquilo foi o suficiente para quebrar quaisquer grilhões que ainda seguravam seu instinto. Puxou para si o rei e tomou seus lábios novamente.
Sim, faria de tudo para provar a seu amado e compensar suas faltas passadas.
Elladan, aos poucos, começava a escalar, se distanciando da janela e do trauma de presenciar seu pai em um momento bastante íntimo. Se contasse aos seus irmãos, tinha certeza de que eles iriam rir de sua cara por séculos.
Malditos! Ficaram em Valfenda enquanto ele teve dr ficar ali, servindo de babá para seu já crescido pai — e segurando vela? Não! O grande Elladan não iria ficar ali ouvindo seu pai e seu futuro padrasto se divertindo! Iria ajudar na missão, de uma forma ou outra.
Um gemido alto advindo do rei de Mirkwood só fez com que o jovem lord de Valfenda acelerasse em sua descida.
Estava mais que traumatizado. Seus olhos e ouvidos nunca mais seriam os mesmos.
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