Notas iniciais
Lady: meu Deus, eu tava tão ansiosa por esse capítulo que vocês nem sabem. Mentira, sabem sim, porque eu faço a louca fangirling quando me intrometo a responder reviews. Esse capítulo tá muito lindo, Nathy! Abriu 2015 com chave de ouro. Parabéns. Espero que gostem tanto quanto eu. *-*

O som produzido pelo vento ao colidir nas folhas já amareladas das árvores gerava uma melodia, que de certa forma lembravam lamentos. Talvez fosse uma forma de a natureza prantear pela aproximação do inverno. Drogo tremia um pouco enquanto relutava em abrir a carta de seu primo. Sentado debaixo de um pinheiro, nas margens da propriedade do Bolsão, tremia não devido ao frio — mas ao nervosismo.

“Quão medroso eu sou? Não consigo nem abrir uma carta sem antes ter um ataque de nervos!” Pensou irritado consigo mesmo. De súbito, abriu a carta e começou a ler.

Querido primo Drogo,

Eu não sei se deveria estar furioso ou aliviado com as notícias que primo Ada me forneceu através de sua carta. Como pôde esconder de mim a sua real situação no Condado? Sou seu primo e mais do que isso sou sua família... Preocupo-me com você e com a sua segurança.

Drogo suspirou longamente. Seu primo sempre fora super-protetor, e mesmo sendo agora um adulto, por ter passado pela a cerimônia de maioridade, o sentimento permanecia. O jovem Bolseiro sentia certa irritação por essa atitude de Bilbo, e às vezes achava que era um estorvo ao primo, sempre necessitando ser protegido pelo Bolseiro mais velho. Bilbo agora tinha novas responsabilidades, um reino para governar, uma nova família e ainda mais estava grávido! Drogo não queria atrapalhar a felicidade do seu adorado primo por não saber lidar com seus próprios problemas. O hobbit retornou a sua atenção à carta. Podia ver que a escrita do primo — a qual apresentava uma caligrafia quase que perfeita — estava falha; poderia ser devido à pressa do envio da mensagem, ou mesmo pelas emoções que o segundo rei estava sentindo no momento da escrita... Drogo sorriu; seu primo o amava e o jovem hobbit também o amava muito, e por isso não queria preocupá-lo, mas no final, todo o seu esforço foi em vão.

Mas o que importa é que você está vivo. Mesmo que nossa querida Prímula não tenha tido a mesma sorte.

Se você está lendo essa carta deve ter conhecido meus “sobrinhos”. Eles irão te auxiliar em qualquer confusão que esteja ocorrendo aí no Condado – contudo, não poderão permanecer. Eles, por serem príncipes, têm outras obrigações que os impedem uma estadia prolongada. Drogo, não estou querendo demonstrar que o fato deles se deslocarem para o reino dos hobbits seja um inconveniente — já eles mesmos se ofereceram e deram a ideia da jornada — mas só quero enfatizar que às vezes não terá sempre alguém ao seu lado para ajudá-lo.

“Sim, eu sei disso...” Pensou Drogo, mordendo o lábio inferior, contendo as lágrimas. Se sentia fraco, ainda mais porque era a verdade o que seu primo escrevia. Não conseguira salvar Prímula e se não fosse por Kili e Fili talvez estivesse agora sentenciado a casar com o desprezível Justa-Correia. Sentia-se um inútil...

Primo... Não sobre esse sentimento de impotência que deves estar sentindo agora, eu sei muito bem o que está passando. Sei também que você pensa que sou uma espécie de “exemplo a ser seguido”, que sou corajoso ou qualquer outra bobagem que passa em sua cabecinha imaginativa. Eu não sou um herói, Drogo... Tal como você, senti medo e insegurança e só aprendi a escondê-los em prol de proteger aqueles que amo. Para provar isso a você, irei contar a história de como o Bolsão foi destruído. Não acredito que você se lembre, já que eras muito pequeno, e eu sempre tentei não reverberar antigas e dolorosas lembranças, mas acho que deve ser necessário, tendo em vista a situação atual...

~~**~~

A toca era apertada, mesmo para dois pequenos hobbits que lá estavam escondidos. Aquele lugar não era nada comparado a uma toca de um hobbit respeitável; era um buraco no chão, escuro e úmido, e talvez fosse confortável para um coelho ou raposa, mas não para hobbits.

– Primo Bilbo... — O menor deles choramingou. Tentava limpar o rosto sujo de lama com as costas das mãos, mas era difícil, afinal toda a sua roupa já estava suja de terra. Sentia que sua mãe iria reclamar ao vê-lo adentrar assim em casa. Mas onde estava a sua mãe e o seu pai? Quanto tempo estavam naquele buraco? – Primo Bilbo... Eu não quero mais brincar disso...

– Shh... — Falou o mais velho levando o dedo indicador para os lábios do menor – Só vamos ficar escondidos mais alguns minutos, certo?

– Mas...

– Drogo, eu prometo que logo vamos sair daqui, mas tem que permanecer calado, certo?

Drogo assentiu com a cabeça. Não gostava do olhar que o seu primo lhe lançava — era o mesmo olhar que seus pais tinham quando os mandaram brincar de “esconder”. O menor não entendia... Aquilo não era divertido, na verdade, era assustador. Podiam ouvir sons abafados de gritos e choros, e ele soube que algo ruim estava acontecendo. Drogo tentou tapar os ouvidos, pois não queria ouvir aquilo. Queria seus pais, queria voltar para casa e ajudar sua mãe no jardim. Era isso que queria.

– Shh... – O pequeno hobbit sentiu o calor do corpo de seu primo o abraçando –Vai ficar tudo bem, eu estou com você.

– Mas... Eu quero os meus pais... — Sussurrou.

– E-eu...Sei... — A voz firme do Bolseiro mais velho parecia falhar — Eu também quero meus pais, contudo eles estão ocupados agora.

Drogo queria perguntar mais, queria saber mais. Entretanto, Bilbo começou a cantarolar uma canção que fez com que o menor aos poucos relaxasse. O barulho já não mais incomodava, e a voz doce de seu primo ocupava seus pensamentos e o guiou para o mundo de sonhos.

Horas depois, Droga acordou subitamente, ao sentir um vento frio invadir o pequeno buraco. Abriu os olhos e logo identificou seu primo Bilbo abrindo a tampa que cobria a entrada; flocos de neve começaram a cair e uma luz fraca iluminou o ambiente de penumbra. Os dois pequenos hobbits saíram de seu esconderijo. A primeira coisa que notaram foi o silêncio. Uma fina camada de neve agora dominava o cenário, e mais flocos caiam do céu nublado.

– Vamos. – Disse Bilbo, oferecendo a mão ao menor, que a segurou. Os dois começaram o seu trajeto de volta ao Bolsão. O único som que ouviam era o barulho de seus pés descalços afundando na neve.

– Primo Bilbo... — Murmurou Drogo ao ver uma grande mancha vermelha sobre um monte de neve. Na verdade, havia muitas manchas daquela coloração em diversos locais da estrada – O que...

– Shh... Drogo... — Bilbo parecia suplicar. O Bolseiro mais novo sentiu as mãos do primo tremerem; talvez não fosse a hora ideal para perguntar.

A dupla continuou o trajeto. Podiam notar várias tocas de hobbits ao longo do caminho, e muitas delas pareciam abandonadas, sem nenhuma luz em seu interior e portas fechadas. Outras estavam destruídas. Drogo apertou a mão de Bilbo e este correspondeu ao aperto. Rapidamente subiram a colina para alcançar o Bolsão, contudo, na metade do caminha puderam notar uma fumaça negra vinda do topo.

– Drogo... Fique aqui. – Disse Bilbo soltando a mão do primo menor, enquanto subia o resto da colina correndo. Drogo não queria ficar para trás, logo, apesar do comando do primo resolveu segui-lo, mas seus pequenos pés não acompanhavam a velocidade do Bolseiro mais velho. Assim, acabou por demorar a chegar ao cume da colina, aonde o Bolsão deveria estar...

Deveria. Pois agora era só um amontoado de madeira e fogo. Bilbo estava ajoelhado na entrada, sua cabeça estava abaixada e Drogo não sabia ao certo se o seu primo estava chorando. O que deveria fazer? Não havia nenhum adulto. Não podiam deixar que o Bolsão queimasse! O pequeno Bolseiro pegou neve com as mãos, fazendo uma pequena bola e a jogou nas chamas. Começou a fazer isso continuamente, seus dedos já estavam dormentes e tinha perdido a conta de quantas bolas de neve tinha feito, mas o fogo não pareciam diminuir. Já esta fazendo outra bola quando foi parado por Bilbo.

– Não adianta — Sussurrou – O Bolsão está destruído...

– Não se preocupe, primo Bilbo. Quando nossos pais chegarem eles vão consertar. Meu papai sabe fazer muitas coisas de madeira e o tio Bungo também. Vão fazer um Bolsão ainda mais bonito e...

– Eles não irão voltar, Drogo. – Interrompeu rispidamente o outro.

– C-como assim?

– Se os orcs conseguiram avançar tanto em Hobbiton significa que a manobra de defesa feita por nossos pais falhou.

– Falhou? – Drogo não entendia, sentiu seu coração acelerar.

– Sim... Eles não vão voltar. – Bilbo parecia falar mais para si mesmo do que para o seu priminho. Seu olhar se voltou para o Bolsão, talvez esperando algum tipo de sinal.

– Não! Você está mentindo! – Lágrimas começaram rolar de sua face – Nossos pais sempre voltam...

– Não desta vez.

– Não! – Drogo empurrou Bilbo, como se ele fosse o culpado por todas as coisas ruins que estavam ocorrendo – Pai! Mãe! – Gritou, seus gritos ecoaram mas não obtiveram nenhuma resposta.

– Drogo...

– Pai! – Chamou de novo – Mãe!

– Drogo! – Agora Bilbo foi mais enfático, puxando pelo pulso o menor – Nossos pais morreram! Não os chame. Eles não irão te responder. Você sabe o que eram aquelas manchas vermelhas que vimos desde o esconderijo até aqui? Era sangue! Mas não vimos nenhum corpo, não é mesmo? Sabe por quê? Os orcs levaram os corpos com eles... Vão comê-los! Você entende? Nossos pais não vão voltar... Nem poderemos enterrá-los! Eles...

O Bolseiro mais velho finalmente soltou a mão do menor, percebendo que tinha falado demais. Se sentou no chão, as mãos cobrindo o rosto — finalmente Bilbo estava chorando. Drogo nunca tinha visto o seu primo chorar. Ele sempre parecia forte e maduro, e era como estivesse ao lado de outro adulto, mas agora via que não era verdade. Bilbo era uma criança igual a ele... Uma criança órfã.

Drogo se aproximou do primo que tentava abafar o choro com as mãos, inutilmente.

– O que vamos fazer agora? – Perguntou baixinho.

Minutos passaram antes que Bilbo pudesse respondê-lo.

– Não se preocupe... Eu vou pensar em algo.

Drogo segurou uma das mãos do primo, podia sentir a umidade, provavelmente advinda das lágrimas.

– Vai ficar tudo bem, eu estou com você. – Forçou um sorriso. Isso fez Bilbo também sorrir. Não estavam sós... Tinham um ao outro, e iriam ficar bem.

Eles acreditavam nisso. Tinham que acreditar.

~~**~~

Gotas caíram sobre o papel e Drogo tocou a própria face; nem tinha percebido que estivera chorando. O relato de seu primo tinha feito ressurgir lembranças que nem imaginara que tivesse... A sua infância antes de ir viver com os Tûks era um borrão, pois nem mesmo se lembrava da face de seus pais. Talvez a sua mente infantil quisesse esquecer, sendo uma forma de se proteger do passado doloroso.

Eu não só fui forte por ter você ao meu lado, Drogo. Não pense que és um estorvo ou que deve me poupar de seus problemas. Isso seria impossível, pois você depende de mim tanto quanto eu dependo de você... Somos uma família. Os últimos Bolseiros.

Drogo sorriu com aquelas palavras. Sim, eles estavam unidos e não só pelo o laço de sangue.

E desde o passado Leoamros já tinha provado o quão era desprezível, por isso eu me culpo por não ter feito uma ação mais efetiva contra ele. Irei contar um fato que ocorreu pouco depois da destruição do Bolsão.

~~**~~

O som de música e o cheiro forte de comida eram contrastantes com o ambiente depressivo de Hobbiton. Drogo não entendia porque aquela toca hobbit estava tão animada e cheia de vida, tendo em vista que a maioria das outras tocas pareciam ter adotado o luto.

– Primo Bilbo... — Sussurrou o menor ao primo, enquanto esses se aproximavam da porta da estranha toca, temendo o que poderiam encontrar ali — apesar de não negar que sua barriga parecia feliz ao sentir o cheiro de comida fresca e quente.

Bilbo apenas sorriu para ele e lhe deu um cafuné, que era uma forma de dizer que estava tudo bem. O Bolseiro mais velho bateu a porta. Como não obtiveram resposta, bateu de novo e mais forte.

– Por Yavanna, se for mais um hobbit órfão mendigando comida... — Rosnou alguém quando abriu a porta subitamente. Por segundos, o hobbit mais velho parecia surpreso pelo que via, depois assumiu uma expressão de descontentamento. Drogo se escondeu atrás de Bilbo rapidamente.

– Leoamros Justa-Correia. – Saudou formalmente Bilbo.

– Hum. E você, seria?

Drogo notou que o punho do seu primo se fechou, mas o seu rosto não apresentou nenhum vestígio de sua raiva.

– Sou Bilbo Bolseiro e este é meu primo Drogo Bolseiro – Disse indicando o seu priminho atrás de si.

– Oh, sim... E o que vossas altezas desejam? – Leoamros sorriu jocoso.

– Abrigo.

– Ora, o Bolsão não lhes confere abrigo o suficiente? Oh! Esqueci... O Bolsão não existe mais. O que é uma lastima. Tantas coisas de valor, perdidas.

– O que é mais importante são as vidas que foram perdidas. – Falou firmemente Bilbo.

– Sim... Claro.

– Mas pelo que vejo, vocês não parecem tristes com aqueles que morreram tentando proteger Hobbiton.

Leoamros riu alto.

– E que bela defesa eles fizeram, não é? Veja a sua volta, criança, a ideia estúpida do seu pai de nada adiantou. Ainda fomos atacados e muitos se tornaram a próxima refeição de algum orc.

Drogo sentiu a sua fome ser substituída por enjoo. Imaginar que seus pais como tantos outros sucumbiram ao mesmo destino.

– Podia ter sido pior; melhor lutar do que aceitar nossa destruição. Melhor do que ficar sentado confortavelmente em sua toca enquanto orcs atacam o seu vizinho! – Nisso Bilbo aponta para a toca ao lado que estava toda destruída.

– Ora, vejam só... O jovem mestre Bolseiro está querendo dar a mim uma lição de moral? – Nisso, o Patriarca do Justa-Correia empurra Bilbo o fazendo cair no chão.

– Bilbo! – Drogo corre para ampará-lo e ajudá-lo levantar.

– Eu não devo mais lealdade ao clã dos Bolseiros, afinal, não existe mais clã nenhum. – Disse sorridente – Por isso, não sou obrigado a lhes conceder abrigo.

– Nós ainda estamos vivos, seu porco. – Bradou enfurecido.

– Isso é só uma questão de tempo... O inverno é longo e além de orcs, muitos lobos vagam em nossos bosques em busca de alimento.

– Você nos quer mortos... Você estava comemorando porque pensava que estávamos todos mortos!

– Inteligente para uma criança. – Disse o velho hobbit – Seria um bom líder, se tivesse idade, algo que não tens. Logo, o titulo de família real deve passar para o clã mais próximo, tendo em vista o partilhamento de laços de sangue.

– Você casou a sua filha com o meu primo só por causa disso? Um título? É tudo que você se importa? O quão tolo você pode ser? Não está vendo a matança que ocorre a sua volta?!

– Já chega! Não tenho tempo para gastar com vocês! – Rosnou. Seu rosto ficou avermelhado, Drogo tremeu, e por alguns segundos aquele que se chamava Leoamros parecia mais assustador que um orc — Mas... — Se recompôs, ajeitando as cabeleiras meio grisalhas que caiam sobre o rosto – Para mostrar que sou um nobre clemente... – Enfiou a mão no bolso e lançou algumas moedas nós pés dos pequenos hobbits – acho que tem dinheiro o suficiente para um pão. Bom proveito.

Ao falar isso, o patriarca dos Justa-Correia começa a fechar a porta.

– Papai? Quem era? – Era a voz esganiçada de Lobélia.

– Nada, só alguns mendigos.

A porta foi fechada e as festividades continuaram. Drogo iria pegar as moedas, mas foi interrompido por Bilbo, que o puxou para longe dali.

– Não precisamos da esmola dele. — Disse rangendo os dentes.

– Mas Primo Bilbo... Eu estou com fome — Sussurrou – E para onde vamos?

O Bolseiro mais velho parou subitamente o seu caminhar, o que fez que Drogo colidisse de encontro as suas costas.

– Já sei onde seremos bem vindos... — Murmurou com um sorriso no rosto.

– Onde? – Drogo estava curioso, e já sentia uma nova esperança renascendo em seu peito.

– Os Tûks.

~~**~~

– Maldito... – Drogo pôde ver que, inconscientemente, amassou as bordas do papel, tamanha era a sua fúria. Leoamros era deplorável, e então já não era a primeira vez que tentava matá-los. O jovem Bolseiro teve vislumbres de imagens de sua lembrança em relação aquele evento, e lembrava-se também que tivera muitos pesadelos cuja face furiosa de Leoamros aparecia tentando comê-lo. Como pôde esquecer aquilo?

A história ainda não terminou, primo. Ainda falta mais um conto de nossa infância perdida que devo relatar, mas desta vez, creio que terá um final mais feliz.

~~**~~

– Estou cansado... – Resmungou Drogo – E com frio...

– Eu sei... — Bilbo suspirou, uma nevoa branca escapou de sua boca. O inverno não dava trégua para os pequenos hobbits, que andavam pela a floresta rumo às fronteiras do Condado. Ao longo do caminho tiveram sorte de encontrar alguns cogumelos para se alimentar, além de buscar abrigos em tocas de hobbits abandonadas; contudo, agora eles estavam em uma área mais inóspita, sem indicações de civilização, onde só havia árvores nuas de suas folhas, e neve.

– Quando iremos chegar? – Perguntou Drogo. Pela expressão de irritação do Bolseiro mais velho, era evidente que não era a primeira vez que o menor tinha feito aquela pergunta.

– Logo.

– Você sabe mesmo para onde vamos?

– Er... Só temos que seguir até a fronteira.

– Quando vamos saber que estamos na fronteira?

– Bem...

– Estamos perdidos?

– Não! Drogo, pare de fazer tantas perguntas!

O Bolseiro mais novo fez biquinho. Estava cansado de andar e andar, e era o que tinham feito nas últimas semanas. Estava cansado, queria dormir em uma toca confortável e quente... Mas esses tais Tûks pareciam tão distantes de serem alcançados, que às vezes o pequeno hobbit pensava que eles não passavam de uma ilusão. Eles não teriam mais casa e nem família... Talvez devessem parar de procurar isso.

– Cansei. – Falou Drogo se sentando no chão – Quero descansar agora.

– Drogo... — Resmungou o outro.

– Não! Meus pés doem! Não dou mais nenhum passo! – Cruzou os braços e fez um bico ainda maior.

– Como você é teimoso! Não podemos descansar aqui!

– E por que não?

– É um local muito aberto, temos que buscar proteção...

Antes que Bilbo terminasse de explicar, o rosnado de alguma fera oculta os fez paralisar. Até o momento não tinham encontrado nenhum orc ou lobo ao longo de sua jornada, e então parecia que a sorte de ambos tinha se findado.

– Bilbo... — Choramingou Drogo tremendo, não devido ao frio, e sim por medo. Bilbo olhava para os lados tentando avistar o lobo, mas nada via a não ser o branco da neve e as árvores esqueléticas e nuas.

– Drogo, segure a minha mão. — Pediu em um sussurro, e o menor logo se levantou, pegando a mão oferecida. Bilbo catou um graveto do chão e empunhou, tal como fosse uma espada. O rosnado continuava, mas a fonte ainda era um total mistério.

– Vamos correr e tentar subir em uma árvore... — Instruiu o mais velho, contudo, o plano não pôde ser posto em prática, pois um grande lobo branco avançou sobre eles. Bilbo abraçou Drogo, abandonando o graveto e esperou pelo impacto do ataque... Que nunca veio.

Flechas foram lançadas no ar, bem como gritos de fúria. Bilbo e Drogo olharam atônicos para a cena da qual faziam parte. Hobbits surgiram das árvores, empunhando foices, espadas e arcos. A fera parecia tão surpresa quanto os pequenos Bolseiros, e logo decidiu fugir do que lutar.

– Persigam o monstro! – Gritou um deles – Quero uma pele nova para nossa sala de estar!

Os outros hobbits gritaram em euforia, já iniciando a perseguição.

– Eles são loucos? – Sussurrou a pergunta, Drogo.

– Não... — Sorriu Bilbo, com os olhos brilhando de excitação – São os Tûks.

– E vocês são o que? – Um garoto portando uma espada de madeira cutucou os menores. Ele tinha olhos verdes vibrantes e algumas cicatrizes no rosto; não deveria ser tão velho em comparação aos Bolseiros, mas ali estava, participando de uma caçada a um lobo.

– Adalgrim Tûk! O que eu disse sobre cutucar os outros com essa espada de madeira? — Ralhou alguém que se aproximava. Bilbo e Drogo logo notaram uma velha senhora saindo de uma das trilhas em meio as árvores.

– Vovó Tûk... Você não deveria ter saído de nossa casa! – Choramingou Adalgrim, que recebeu uma batida de leve nas canelas dada pelo cajado da velha senhora.

– Eu estou velha, mas não inválida. Se eu disse que quero participar de uma caçada, significa que eu vou!

O jovem Tûk choramingou, mas a dita vovó Túk tinha a sua atenção voltada para os visitantes.

– Eu conheço você... — Ela falou, apontando a extremidade do cajado para Bilbo, que engoliu em seco. Drogo tremeu, pois temia que a anciã batesse nele com o cajado.

– Eu... Eu sou Bilbo Bolseiro, filho de Beladonna Tûk... — Disse nervoso.

– Bilbo... Oh... — Vovó Tûk se aproximou rapidamente e envolveu os dois pequenos hobbits em um abraço – Meu pequeno... Que longa jornada você fez para chegar até aqui. Como está a sua mãe e o seu pai?

Drogo pode ouvir o choro abafado do primo, e logo o seguiu, compartilhando a mesma tristeza. Não tinham chorado uma lágrima sequer desde o Bolsão, e agora todos os sentimentos de dor que tinham reprimido vieram à tona.

– Não precisam falar mais nada, meus queridos. Vamos para casa, está bem? Ada! – Chamou o outro pequeno hobbit que observava tudo confuso – Nos acompanhe, eu vou precisar de ajuda para cozinhar um jantar farto e quente para esses dois corajosos hobbits.

– S-sim. — Adalgrim os acompanhou rapidamente.

E foi assim que os dois órfãos encontraram um novo lar em meio ao clã dos excêntricos Tûks.

~~**~~

Drogo sorriu e novamente lágrimas dominavam a sua visão. Daquilo ele se lembrava... Sentira-se seguro e amparado. Os Tûks foram o seu lar por muitos anos, até que Bilbo passasse pela a cerimônia de maioridade e adquirisse o status de chefe do clã dos Bolseiros e retornasse a Hobbiton. Aos poucos — e com ajuda dos Tûks e outros hobbits que se mostraram aliados ao clã Bolseiro — o Bolsão foi reconstruído.

Foi uma longa jornada, já que sofremos muito, e com esforço conseguimos reconstruir o que foi destruído e reconquistar a paz ao reino do Condado. Eu pensei que estaria feliz após todas essas conquistas, mas agora eu vejo que sinto que ainda falta algo — ou melhor, alguém para que eu realmente sinta que estou feliz. Pode ser egoísmo de minha parte, talvez não seja a solução de todos os nossos problemas... Mas eu gostaria que viesse para Erebor e morasse comigo. Sei que deves achar uma loucura, pois ao fazer isso irás abandonar o Bolsão e o nosso amado Condado, mas é uma oferta que te ofereço, meu querido primo... Minha família nunca será completa sem você ao meu lado. Troca de cartas não é o suficiente, eu quero poder te ver e saber que estás bem.

Se Erebor é um lugar seguro? Se é um lar próprio para um hobbit?

Eu creio agora que podemos construir o nosso lar, como nós já fizemos. Lar não é algo físico, e sim onde reside o nosso coração. O meu está divido entre Erebor e o Condado... Entre minha nova família e minha antiga... E eu desejo uni-las.

Eu aceito qualquer que seja a sua decisão. Confio em você, Drogo, e sei que não passamos por todos esses obstáculos juntos a toa; você é forte — só ainda não sabes disto ou não teve consciência de sua verdadeira força.

Juntos somos ainda mais fortes...

Por isso, pense bem na sua decisão.

Com amor,

Bilbo Bolseiro Durin

Segundo Rei de Erebor

Drogo soltou um longo suspiro, que nem sabia que estava contendo, depois de acabar de ler a longa carta. Todas aquelas recordações associadas com os eventos no presente resultaram em um turbilhão em sua cabeça. O que deveria escolher? Levantou os olhos para fitar o Bolsão e se surpreendeu ao notar uma figura se aproximando. Era Kili. O anão massageava o pescoço e parecia muito desconfortável e nervoso ao se encaminhar até Drogo, como se estivesse incerto de se aproximar ou não. O príncipe levantou os olhos e esses se encontraram com os do hobbit — naquele momento, Kili parecia ter entrado em pânico.

– Quer se sentar comigo? – Indicou Drogo com um sorriso amigável, o que fez o outro relaxar um pouco e tomar o lugar ao lado do hobbit.

Os dois permaneceram em silêncio alguns minutos, só observando o cair das folhas e o entardecer.

– Meu irmão tinha me proibido de te ver... – Falou Kili, quebrando o silêncio – Sinto muito se atrapalhei de alguma forma.

– Não, está tudo bem.

– Se quiser... Eu posso sair. – Disse isso já mostrando indicações que iria se levantar.

– Não, Kili. — Colocou a mão por cima da do anão, o impedindo que se movesse – Fique, por favor.

O príncipe anão sorriu.

– Na verdade... Eu tenho algo a te perguntar.

– O que seria?

– Você sabe o conteúdo da carta que meu primo me mandou?

– N-não! Eu não li a carta! Tio Bilbo me mataria se soubesse que eu espiei a correspondência dele destinada a você!

– Mas... Você sabe mais ou menos do que se trata.

– Bem... Eu... Acho que sim. — Falou baixinho, meio inseguro.

– Bilbo está me convidando para morar com ele em Erebor.

Drogo observou com atenção a expressão do anão e não notara surpresa — então Kili já tinha concluído, pelo menos, aquele aspecto da carta.

– Kili, o que você acha? Devo ir a Erebor?

– Só você pode responder isso... — Resmungou – Eu não posso influenciar na sua decisão, não seria correto.

– Eu sei. Mas eu queria saber se você gostaria que eu fosse ou não! – Disse corando um pouco. Kili o encarou e depois voltou a sua atenção para o cenário. Drogo ficou admirado com o aspecto sério do anão, pois nem tinha imaginado que o príncipe tinha aquela faceta.

– Sinceramente... Eu gostaria que você fosse. — Drogo sorriu animado – Mas, ao mesmo tempo, não.

– Hã?! E o que isso significa?

– Er... — Kili massageou o pescoço novamente – Eu gostaria que fosse, pois desejo ficar mais tempo ao seu lado. Mas também desejo que não vá, pois... Temo por sua segurança. Apesar daquele hobbit que tentou te matar, o Condado parece ser mais seguro que Erebor. Nosso reino está no processo de reconstrução, e estamos sujeitos a ataques de orcs e outras criaturas das trevas, além intrigas políticas, rivalidades, e todo esse tipo de coisas que aqui no reino dos hobbits parece não ter. Além disso, eu sei como Tio Bilbo ficou triste inicialmente com a rotina dos anões. Nós vivemos embaixo da terra, longe do sol, gostamos de riquezas e somos ambiciosos e orgulhosos... Isso é diferente do que o Condado oferece, com seus campos verdes e suas tocas aconchegantes. Talvez você fosse mais feliz aqui...

– Falando assim até parece que o meu reino é perfeito. Esqueceu do que viu e ouviu no conselho? Temos intrigas, tal como vocês!

– Não... Você não tem ideia como é uma verdadeira intriga politica. Sabe o hobbit velho que tentou te matar? Bem, muitos anões são tal qual esse hobbit... Só que piores. Imagine um salão cheio de indivíduos assim, prontos para alcançar riqueza e poder a qualquer custo. Não é a toa que a linhagem da minha família tem uma doença associada à cobiça e desejo de riqueza. O Condado é mais seguro que Erebor.

Drogo abaixou os olhos e observou a carta em suas mãos. Seu primo estava em Erebor sozinho, e estava feliz por ter encontrado amigos e formado uma nova família, mas isso não significava que estava seguro. A situação de Bilbo não era diferente da sua. O Condado tinha alcançado a sua paz, o clã Bolseiro não era de fato uma monarquia, e sim mais um clã, que participa como igual nas votações do conselho. O título é só uma alegoria. De fato, o reino do Condado não necessita mais de um Bolseiro. Eles podiam viver tranquilamente com ou sem um membro da antiga família real presente em suas terras.

– Eu não sou tão frágil como imaginas... – Começou a falar o menor – Estou cansado dos outros tentarem me proteger. E, definitivamente, estou cansado de me abster das aventuras. Eu mesmo me julguei fraco, tanto era o meu preconceito em relação a mim mesmo, que adoro ler sobre as histórias de heróis e aventuras épicas. Contudo, nunca me imaginei participando delas, ao contrário do meu primo Bilbo, que sempre desejou ver mais e fazer mais. Agora eu vejo que eu tinha medo... E também acabei escondendo meus reais desejos. O meu maior obstáculo todo esse tempo foi eu mesmo. Não foi o fato de eu ser um Breeder ou de ser um Bolseiro, e sim porque não tinha confiança em mim mesmo.

Kili nada disse, pois estava esperando, ansioso, à decisão final do mais novo.

– Eu desejo ir a Erebor... E desejo, além de tudo, uma aventura só minha. Desejo construir meu destino além da sombra do meu primo e do que os outros consideram o certo para mim.

– Essa é sua decisão final. Tem certeza? Pode estar escolhendo um caminho de perigos e de incertezas em relação ao seu futuro. – Falou Kili, e a insegurança era bastante evidente em sua voz. Ele desejava protegê-lo, e estava disposto a sacrificar os seus próprios sentimentos para tal.

– Mas também estou escolhendo o caminho que meu coração está me dizendo para seguir. E sei que não tem só coisas obscuras em meu futuro. – Tocou a face do anão e sorriu – Você também está incluído nele, Kili.

– Drogo... — O anão correspondeu o sorriso e aproximou o seu rosto do menor, lhe roubando um beijo doce e inocente.

Naquele momento selou-se o destino de Drogo Bolseiro.

Notas finais
Lady: ... E aí??? :D