Os dois reis sob a montanha
20 A Chegada da Carta
Notas iniciais
O alvo estava a sua frente. Tratava-se de uma estrutura de madeira coberta com feno na sua parte superior, e coberta com um tecido de couro. Podia-se ver a pintura em formato circular com coloração variando entre branca e vermelha. Kili podia ver claramente o seu objetivo: acertar o centro do alvo com suas flechas. Seus olhos já estavam bem treinados para aquilo, pois desde que era apenas criança se especializou no uso do arco, mesmo não sendo uma das armas preferidas pelos anões. Muitos até a consideravam uma arma muito élfica, e desta forma, feminina e fraca; contudo, Kili não ligava para aquelas opiniões e por muitas vezes já demonstrara a sua habilidade e como suas flechas salvaram seu tio e irmão durante os combates com orcs antes da conquista de Erebor. O básico de usar o arco é ter concentração, limpar o pensamento de preocupações e tensões... Se concentrar... Acertar o alvo...
– Mais uma caravana chegando a Erebor – Falou um anão que estava no campo de treinamento, em um dos andares mais baixo da montanha. O local era um dos poucos lugares da montanha em que podia-se ver o céu azul e sentir a brisa fria das montanhas. Todos ali podiam ter uma visão privilegiada do portão principal da entrada de Erebor, desta forma observavam quem saia e adentrava com facilidade.
– Caravana? – Kili, que estava segurando a flecha por sobre o fio tensionado do seu arco, acabou por soltá-la ao virar a cabeça para mirar o que acontecia abaixo, nos portões.
– Belo tiro, irmão — Riu baixo Fili, o anão loiro manejava sua espada para os lados, cortando o ar e emitindo um som fino e até mesmo irritante.
O príncipe mais novo voltou sua atenção para o alvo, vendo que sua flecha tinha voado longe e acertado a parede de pedras do outro lado do campo.
– Tsc... – Resmungou, perdera uma flecha. Seria muito difícil recuperá-la naquela altura – Só foi um erro de cálculo.
– Sei... Era mais fácil você justificar o seu erro pela distração. – Nisso, o loiro apontou com a lâmina da espada para a caravana que se aproximava a Erebor, passando pela a ponte de pedra.
– Besteira...
– Toda vez que alguém grita “caravana” você fica todo animado... Mas infelizmente essa caravana veio das Montanhas Azuis e não do Condado.
– C-como se eu ligasse de onde e para onde vão os comerciantes! – Deu os ombros, fingindo desinteresse.
– Bem, tais caravanas trazem cartas... – Provocou o mais velho, rindo ao ver que o irmão tinha corado, mas fingia se concentrar em analisar o seu arco – E uma destas cartas podem ser de um certo hobbit do Condado, primo do tio Bilbo... Qual é mesmo o nome dele?
– Fili! Já chega! – Se voltou para o irmão, evidentemente irritado – O nome dele é Drogo e você sabe! Afinal, recebes carta dele também!
– Oh, calma irmão! – Levantou as mãos em sinal de rendição – Eu recebo cartas dele sim... Mas não fico todo alegre quando vejo uma caravana se aproximando!
– Mas se fosse uma comitiva de elfos...
Agora era a vez de Fili ficar irritado, com um certo rubor que se fez em seus bochechas.
– O que quer dizer com isso?
– Nada. Só que... Toda vez que os elfos de Mirkwood visitam Erebor você fica todo animadinho... – Falou, fingindo analisar as unhas das mãos – Tal como procurasse alguém, talvez um certo elfo de nome Lego...
– SHHH! – Fili cobriu a boca do irmão com a sua mão e olhou para os lados, nervoso. Por sorte, nenhum anão parecia estar ouvindo a conversa dos príncipes – Estás louco?!
– O que? – Resmungou Kili libertando a sua boca – Você tem direito de me provocar e eu não tenho o mesmo direito?
– Eu sou mais velho. Lógico que tenho esse direito! – Falou orgulhoso.
– Quem disse? Existe alguma lei em Erebor sobre isso que eu desconheço?
– Sem falar que eu tenho barba o suficiente para ter herdado essa autoridade... – Sorriu o príncipe alisando a barba loira que dispunha, ignorando as perguntas do irmão caçula – Posso ser considerado adulto, e você, meu caro e querido irmãozinho, seria a criança...
– Eu não sou criança! Já sou adulto e você sabe muito bem disso!
– A idade mental não condiz com a física! – Deu os ombros – E muito menos os pelos do rosto parecem acompanhar a sua dita “maturidade”.
– Fili! – Rosnou o moreno se lançando sobre o irmão e iniciando a briga. Logo os dois estavam rolando no chão, trocando socos e pontapés. Os outros anões ignoravam os jovens príncipes já acostumados com o modo que agiam, alguns até saiam do caminho permitindo que os jovens irmãos tivessem bastante espaço.
– Eu vou arrancar a sua barba! – Rosnou o mais novo.
– Cuidado, irmão... Se você fizer isso, vou raspar os poucos pelos que ainda dispõe em seu rosto! Vai ficar lisinho, tal como bunda de bebê!
Antes que Kili pudesse contra-argumentar, exclamações advindas dos outros anões chamaram a sua atenção.
– Um mensageiro? – Perguntou um, apontando para os portões de Erebor. Kili logo seguiu o seu olhar para o local apontando; um pônei se aproximava dos portões galopando rapidamente, o anão que montava o animal parecia quase desfalecido quando finalmente alcançou o portão de entrada, desceu do animal e entregou o que parecia uma carta.
– O que está acontecendo? Um mensageiro chegando desta forma... – Começaram a discutir os anões, de alguma forma tal situação fez o príncipe mais novo sentir um estranho calafrio no corpo. Será que...
– ...A carta é do Condado? – Fili completou os pensamentos do irmão, inconsciente da sincronia que existia entre eles.
– Fili... — Kili olhou para o irmão, e aquilo foi o suficiente para que ambos entendessem o que deveriam fazer. Os príncipes se levantaram e correram rumo ao corredor principal que ligava o local de treinamento com os outros salões de Erebor. Uma das vantagens de serem encrenqueiros e escaparem constantemente de seus algozes (Thorin e Dwalin) era descobrir passagens secretas pela a montanha, e agora eles a iriam utilizá-las para alcançar o portão principal. Afinal, se fossem pelo caminho convencional demorariam muito tempo pegando os elevadores e usando as vias comuns cheias de anões.
– Tem a possibilidade de ser de outro local... – Falou Fili enquanto apalpava a parede atrás de uma grande pilastra no corredor principal – Só por que a correspondência vem do Condado está demorando mais do que dos outros meses, não significa que o mensageiro seja de lá... Tampouco a carta!
– Sim... – Concordou o moreno também tocando a parede, mesmo com as palavras de apoio do irmão, estava temoroso com o pior. A comitiva que veio do Condado chegou na semana passada sem nenhuma carta vinda de Drogo, isso logo o preocupou. Será que o pequeno hobbit tinha se esquecido de enviar a correspondência? Impossível! Drogo e Bilbo sempre trocavam cartas. Além disso, o jovem Bolseiro agora também correspondia com Kili e Fili... Definitivamente ele não iria interromper aquela comunicação duma forma tão brusca.
– Achei! – Exclamou o príncipe anão mais velho ao pressionar uma pedra, fazendo com que um túnel surgisse por detrás de uma das colunas. Tinham encontrado aquela passagem há alguns meses enquanto fugiam das aulas extras de estratégia militar a ser dada por Dwalin; foi uma grande surpresa encontrarem aquilo. Na verdade, Erebor era cheia de passagens secretas, muitas delas não eram registradas nas plantas antigas do reino, sendo construídas ao longo da história, abrangendo objetivos diversos. Aquele túnel era pequeno e estreito, de modo que poderia ser usado no passado para o transporte de suprimentos para os andares abaixo, mais precisamente para os portões de entrada de Erebor.
– Vamos logo! – Disse Kili, já saltando no túnel e escorregando pela passagem íngreme.
– Espere! A carta não irá fugir! – Resmungou, enquanto também adentrava no túnel, contudo fechando a entrada, ocultando-a. Kili estava se segurando nas paredes impedindo que escorregasse mais, esperando pelo o irmão mais velho.
– Fili... Eu tenho que saber se é de Drogo... – Havia uma certa súplica em sua voz.
– Eu sei – O irmão mais velho forçou um sorriso para tentar animar o outro, e Kili correspondeu ao sorriso. Logo parou de segurar nas paredes laterais do túnel e começou a escorregar, Fili o seguiu, ambos escorregando para as profundezas do túnel.
~TKATC~
– Levem ele para a ala da enfermaria! – Bradou Glóin para os seus guardas que seguravam o mensageiro, este que já tinha desmaiado devido à exaustão.
– Agora eu tenho isso... — Falou o anão, olhando a carta que tinha nas mãos. O mensageiro não conseguiu explicar muito bem para quem seria e muito menos o motivo da sua pressa – Deve ser algo importante!
– Glóin! – Kili e Fili falaram ao mesmo tempo fazendo que o anão mais velho se sobressaltasse e soltasse a carta das mãos.
– Pelas as barbas de Mahal, vocês ainda vão me matar de susto! De onde vocês surgiram?! – Ralhou.
– Segredo! – Sorriu Fili dando tapinhas no ombro do amigo.
Kili, por sua vez, se concentrou em recuperar a carta e olhar o remetente da mesma.
– Ei! Não vá olhando cartas que não são destinadas a você! – Rosnou Glóin. Aqueles príncipes realmente não tinham modos.
– Adalgrim Tûk... – Sussurrou Kili, lendo o nome que estava sobre um dos lados do envelope.
– Esse não é o nome do outro primo do tio Bilbo? Aquele que ficou responsável em tomar conta do Bolsão? – Perguntou Fili agora evidentemente preocupado. Sabia da existência deste primo devido as informações trocadas entre as cartas e a história que Balin e Dwalin haviam contado sobre os eventos que ocorreram no Condado quando Bilbo assinou o contrato. Contudo, tal primo nunca escrevia nenhuma carta. O segundo rei até tinha lhes explicado que o “primo Ada” não era muito bom na escrita, se dedicara mais a ser um agricultor e guerreiro do que um acadêmico, logo pouco lia ou escrevia.
“Então por que ele está escrevendo agora?” Pensou o príncipe mais velho.
– Algo deve ter acontecido... – Kili estava prestes a abrir a carta quando foi parado por Fili.
– Essa carta é para o Bilbo. Se algo aconteceu devemos entregar primeiro a ele!
– Mas... Eu tenho que saber se o Drogo...
– Kili! – Repreendeu o irmão mais velho.
– C-certo... – Concordou cabisbaixo.
– Nós iremos entregar a carta ao nosso tio, o segundo rei de Erebor! – Informou Fili a Glóin, que apenas assentiu com a cabeça. Os dois logo saíram correndo dali, e agora teriam que ir em busca de Bilbo.
– Onde achas que ele está? – Perguntou Kili, enquanto corriam pelos corredores estreitos da montanha.
– À essa hora... Com o sol forte que está lá fora...
– ...A estufa! – Concluiu sorridente o mais novo.
– Sim, acho que esse seria o local ideal para procurarmos primeiro! – Concordou Fili, já pegando um elevador e puxando o irmão consigo. Quanto mais rápido chegassem a Bilbo, mais rápido saberiam o conteúdo da carta.
~TKATC~
– Quanto mais? – Resmungou Dwalin, segurando uma cenoura nas mãos. Tinha acabado de retirá-la da terra.
– Ora, devemos tirar todas as cenouras de terra! Elas estão prontas para serem colhidas – Informou o hobbit, que vestia um avental já sujo de terra e luvas de couro. Era bem evidente o tamanho de sua barriga agora, não podendo mais esconder pelo uso de roupas folgadas – Se quiser eu ajudo!
– Não! Você cuide de regar... Esses capins... Ali! – Mandou o anão guerreiro – Thorin iria me matar se soubesse que deixei que você fizesse o trabalho duro.
– Thorin é um tolo! – Agora era a vez de Bilbo resmungar – Eu estou perfeitamente bem! E desde quando tirar cenouras do solo é trabalho duro? E isso não é “capim”! Já lhe disse que são tomates! Nada parecido com capim. Não confunda as plantas! Por Yavanna... Meus lindos tomates serem comparados com capins?! Que afronta!
Dwalin deu os ombros, pois já estava bem acostumado com aquele falatório do pequeno rei, afinal, já fazia meses desde que se tornara o guarda pessoal do hobbit. Seu trabalho consistia em evitar que o jovem Bolseiro se estressasse ou se metesse em “aventuras”, como Thorin gostava de enfatizar bem. Dwalin já perdeu a conta de quantos livros teve que carregar na biblioteca, ou quantas vezes teve que ajudar Bilbo na cozinha... E agora na estufa.
“Eu sendo um grande guerreiro sendo destinado a fazer essas coisas?!” Pensou emburrado, enquanto puxava outra cenoura com força.
– Cuidado. Seja delicado!
Dwalin já iria reclamar sobre o fato das cenouras serem tão somente cenouras e não princesas para serem tratadas com tamanha frescura, quando percebeu que não eram os únicos na estufa. Dois jovens anões tinham adentrado, ofegantes, pisando sobre os alfaces preciosos de Bilbo.
– Ops! – Disse Fili, vendo que sua bota tinha se afundando em algum vegetal amarelado.
– Minha abóbora! – Bilbo choramingou e encarou os seus sobrinhos com olhar cheio de fúria.
“O olhar de Thorin não se compara ao olhar de um hobbit furioso!” Riu em pensamentos o anão mais velho, iria se divertir com o castigo dos príncipes.
– Espero que vocês dois tenham uma boa razão para entrarem aqui desta forma! –Cruzou os braços diante de si e esperou a explicação.
– Tio Bilbo... Isso chegou no portão principal de Erebor! O remetente é Adalgrim Tûk! –Falou Kili, já entregando a carta ao segundo rei.
– Primo Ada? – O hobbit arqueou as sobrancelhas surpreso com aquilo, pegou a carta e a abriu. A sua expressão de surpresa e curiosidade logo mudou para raiva e depois medo e tristeza. Isso tudo só estava deixando Kili ainda mais nervoso.
– Tio Bilbo? – Falou o moreno – O que a carta diz? Drogo está bem?
Bilbo fechou a carta e suspirou.
– Sim, ele agora está...
Aquilo gerou um aliviou no jovem príncipe. Fili deu tapinhas no ombro do irmão com uma expressão no rosto que dizia claramente “eu te disse”.
– ...Mas agora eu devo retornar para o Condado! – Falou o segundo rei, já se dirigindo para a porta de entrada da estufa, nem se importando em retirar o avental sujo, tampouco as luvas.
– V-voltar ao Condado? – Fili se assustou com o fato – Você não pode!
– Tentem me impedir! – Disse o hobbit teimosamente saindo da estufa, deixando os anões surpresos com aquela atitude repentina.
– E eu irei tentar mesmo! – Exclamou Dwalin indo atrás do menor e antes de sair da estufa se voltou para os príncipes – Vão atrás de Thorin! Informe ele sobre o que está acontecendo. Eu vou tentar impedir Bilbo... Mas ele é o segundo rei, desta forma se ele me der uma ordem eu terei que obedecê-lo!
– M-mas... O nosso tio está em uma reunião importante com o conselho e... — Começou a explicar Fili.
– Isso não importa agora! O que quer esteja escrita naquela maldita carta fez com que ele agisse assim. Deve ter acontecido algo de muito sério no reino do Condado, e eu presumo que tenha algo haver com a família dele... Agora vão, antes que Bilbo faça alguma besteira! – Nisso, saiu da estufa rumo a sua “caçada” ao pequeno segundo rei.
– O que será que aconteceu? – Questionou Kili confuso – Eu tenho que ler aquela carta!
– Eu não sei o que realmente aconteceu, podemos discutir isso depois. Temos que falar com o nosso tio! – Disse Fili, já puxando o seu irmão consigo – Pelo jeito que o tio Bilbo ficou, é bem capaz de ele fugir de Erebor rumo ao Condado sem pensar nas consequências...
Kili assentiu com a cabeça conforme acompanhava o irmão. Apesar de Bilbo ter lhe informado que Drogo estava bem, aquilo não tirava a angústia que tinha em seu peito.
“E o Tio Bilbo disse que agora Drogo estava bem... Isso denota que anteriormente ele não estava bem?” Analisou o jovem príncipe. Mas esse questionamento ele deveria deixar para depois; agora eles tinham uma missão para cumprir.
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