Os dias contados de Branca
1 Eu sou Branca
Notas iniciais
Meus olhos se abrem e uma dor latejante na lateral da cabeça indica que eu dormira sobre algo incrivelmente duro. Sento-me no gramado, minha tatuagem mais atual arde na parte inferior das costas, perto das nádegas. Faço uma careta, ao meu redor, todos os meus amigos ainda dormem. Estamos no gramado de uma casa qualquer, um dia depois da farra semanal. Tento sorrir, mas a tatuagem arde um pouco mais, e meu estômago ronca. Bufo de raiva, ele não poderia roncar, eu estou realmente gorda.
Levanto-me do gramado um ponto tonta, minha visão que a pouco estava desfocada, fixa-se em um aparelho prateado, que reluzia à pouca luz de sol que batia nele, na fria manhã. De todos os aparelhos celulares da turma, o meu era o único prateado, senti-me um pouco mais aliviada, então, abaixei-me e peguei o celular, desbloqueando-o e procurando por algo de útil. Como sempre, não havia nada de útil no aparelho, que mais parecia uma telha de tão grande e fino, não entendo o por que de Miranda gostar tanto de Iphone’s, tanto a ponto de me dar um de presente de aniversário.
Enquanto ando, meu salto quinze se desloca de meus pés, fazendo com que eu me desequilibre e caia, assim fazendo, minha saia preta sobe, mas não muito, alguns de meus amigos dizem que falta pano nela, mas eu não acho. Ralo meus joelhos tatuados e meu coque apertado se desfaz, fazendo com que meus cabelos, do lado esquerdo na cor preta, e do lado direito na cor loiro platinado, se desmantelassem e se armassem. Suspiro, com raiva, e guardo o celular no minúsculo e apertado bolso que tinha na saia. Sento-me no asfalto, de pernas abertas, pouco me importando com quem poderia me ver. Quem repararia numa anarca-feminista extremamente pálida de pernas abertas tentando arrumar em seu pé um salto enorme? É, todo mundo. Mas para minha sorte, a rua estava vazia.
Ao arrumar o minúsculo laço do salto, apoio-me nos braços para me levantar. Bato a sujeira da roupa, voltando à minha andança. O asfalto estava rachado em várias partes, tomando minha atenção. Na verdade, qualquer coisa tomava minha atenção, muito embora, a dor de cabeça forte atrás da cabeça, a ressaca do dia anterior estava realmente muito forte, faço diversas caretas de dor enquanto ando. Já na Rua Mirabella, havia algumas pessoas ali, e minha careta e meu coque todo desajustado chamavam muita atenção a mim. Ainda era muito cedo, quase nenhum carro passava por mim, por isso ainda era possível ouvir o barulho do meu salto ecoando com o atrito à calçada. Respirava fundo enquanto andava, era algo bem difícil de fazer enquanto se está parcialmente bêbada, com o cabelo ridículo, a saia que subia a cada passo e todas as poucas pessoas na rua olhando para você.
Cruzo a Avenida São João, e por incrível que pareça algo acontece em minha mente, no fim da quadra, lembro-me de que Ariana havia ficado lá no gramado da Musicoteca. Dou de ombros, ela sabe muito bem se virar. Logo, um pequeno sorriso invade meu rosto, ao lembrar-me de minha namorada. A bela Ariana, com seus cabelos platinados e suas rosas tatuadas pelo corpo, por todo o corpo, exceto no rosto. Volto a andar, minha casa era do outro lado da cidade.
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