Os descendentes e o segredo
22 Pesadelos e planos
Notas iniciais
P.O.V. Jade Mason
Eu me virava na cama, estava tendo pesadelos diariamente e essa noite não foi diferente. Luta, sangue, morte. Érick falava que era por causa das crianças e o meu medo pelo futuro delas. Medo. Sério? Eu não concordava, mas ele amava usar essa palavra.
O rio de pensamentos foi interrompido por um choro de bebê, levantei-me da cama e me dirigi a um quarto com a porta vermelhinha e amarelinha, aonde um C era destaque. Ali dentro tinha um quartinho de bebê, objetos brancos, rosinhas, lilás e azuis claros enfeitavam o ambiente, para ser sincera, os móveis eram brancos e as cores ficavam para a decoração. No lado oposto ao da porta, um bercinho com o mesmo padrão estava presente.
Caminhei até lá atravessando o chão de madeira e o tapete felpudo. Uma bebê chorava na caminha, os cabelos negros começavam a cobrir toda a cabeça, as mãozinhas estão fechadas. Eu me abaixei e peguei a pequena em meus braços. Ela abriu os olhos, olhos azuis escuros tão lindos e únicos, a pequena era muito linda.
—O que aconteceu, Cecília? — Ela me olhou, segurando meu dedo, lágrimas ainda escorriam, eu acabei pensando em um mar durante uma tempestade, a cor escura e água. — Pesadelo? — Perguntei depois de verificar se podia ser outro motivo.
—Mã? — Eu me virei, um menininho de um pouco mais de um ano estava na porta. — Tudo bem? Ouvi a Ceiíia lolando.
—Dylan. — O pequeno se aproximou, o pijaminha dele estava todo amassado, o cabelo castanho encontrava-se e caia sobre os olhos, sendo afastados pelas mãos dele que os esfregava, ele acordava do mesmo jeito que eu, esfregando os olhos. — Vem aqui. — Sentei-me no tapete, a Cecília ainda em meus braços.
O mais velho se apoiou em minha perna para conseguir olhar para a irmãzinha, ele ficou um tempo parado, apenas olhando para o rostinho da menina. Talvez ele tenha passado alguns bons minutos assim. Ele esticou a mãozinha e passou na bochecha da bebê, secando as lágrimas dela.
—Não lola, Cei. — Ele subiu a mão para os cabelos negros.
Eu sorri de leve, eu sabia que Dylan sempre protegeria a Cecília. Isso me deixou mais tranquila, mesmo ainda temendo pela vida deles. Não queria que meus pesadelos fossem reais. Talvez uma angústia materna? Pode ser. Alguma ligação com a guerra que enfrentei? Provavelmente. Acho que estava paranóica.
— Don't be afraid, my little girl. When this look so hard, close you're eyes. When you what to cry, keep a breath. You're not alone, you have me, your father and your brother. – Eu passei a mão pela bochecha de Dylan que me observava com os olhinhos brilhando. — You are so smart, beatiful, mysterius, my girl. You can do everything. You are so couragious, intelligent, ambicious and loyalty. You're incredable.
Sem que eu percebesse, a morena fechou os olhinhos. Seu rosto ficando suave novamente. O pequeno voltara a olhar a bebezinha em meus braços. Eu já cantei essa música para os dois a cada pesadelo.
—I know that this can became hard, but you are so strong, use your mind and everything will be okay. When your enimy look at you, don't (shock), you have all that need. You are so couragious nas intelligent, use that, fight, don't move, look in front. You are ambicious and I know that Will do all that need to win and you're loyalty will be essential for have allies. – Podia continuar, mas ela já dormia tranquilamente. Eu fiz essa música do fundo do meu coração, sabia que tanto ela quanto Dylan tinham essas características, pois eu e Érico as tínhamos.
Levantei com cuidado e coloquei a minha filha de volta no berço. Então peguei o pequeno Dylan em meus braços e saí do quarto.
—E você? Teve pesadelo? – Ele balançou a cabeça negativamente. – Quer um chocolate quente?
—Queio.
—Ótimo. Vamos fazer. – Desci até a cozinha, acendendo a luz, coloquei o pequeno na mesa por um segundo para pegar o leite e esquentar. — Fica aqui. – Pedi antes de me afastar, leite, dois copos, caneca e achocolatado, isso era tudo o que eu precisava.
Enquanto o leite esquentava na caneca, eu me virei para pegar a criança de volta, dei um sorriso leve. Tinha sorte de Dylan ser tão quieto, não sei bem quem puxou, ele gostava de explorar, mas sabia obedecer; não sei se Cecília seria desse jeito também, algo nela me dizia que não seria tão fácil mantê-la parada.
Senti meu cabelo sendo segurado e, olhando para baixo, percebi que o responsável era o bebê em meus braços. Olhei para a caneca, acho que a temperatura estava boa. Ainda com o pequeno nos meus braços, coloquei o leite nos copos e misturei o chocolate, após colocar uma magia de proteção em torno de um deles, entreguei-o a Dylan que o envolveu em suas mãozinhas pequenas antes de beber o conteúdo.
Não demorou muito e tínhamos acabado, fiz um feitiço para limpar tudo e apaguei a luz. Antes de subir as escadas, eu dei uma olhada em meus braços, meu filho estava quase dormindo, os olhinhos fechavam e abriam. Eu me senti sortuda nesse momento, estava casada, com uma casa boa e dois filhos e esse sentimento me ajudou a me acalmar. Eu sabia que muita coisa podia acontecer a esses pequeninos, mas o que eu pudesse evitar, eu iria.
Cheguei no segundo andar e me dirigi ao outro quarto ali, a porta de um degradê que misturava azul e verde. Abri a porta, o quarto dele tinha bastante azul, verde, branco e amarelinho. Móveis eram neutros, o colorido ficava por conta dos detalhes e decorações do local. Ele dormia em uma caminha que imitava um berço, porém com maior liberdade para quem dormia e cuja cor é levemente acinzentada com detalhes verdes em sua estrutura e o azul predominava entre as roupas de cama. Ajeitei o pequeno ali, dando um beijinho em seu rosto e o cobrindo. Fechei a porta cuidadosamente.
— Oi. – Ouvi uma voz perto da porta do meu quarto e virei-me pronta para atacar até perceber que quem havia me chamado foi Érick Mason.
Não podia negar que ele estava extremamente bonito, ele encontrava-se apoiado na parede com os braços cruzados, os olhos me encaravam intensamente e era incrível como o cabelo bagunçado de quem acabara de acordar o deixava sexy. A camiseta verde a qual usava marcavam o braço dele, apesar de ser um pouco larga no tórax.
Aproximei-me lentamente, Érick era bonito, isso é fato. Entretanto uma das coisas que mais ouvi foi que o que ele tinha de bonito, tinha de frio e preconceituoso. Na verdade, acredito ser o comentário mais frequente com relação aos Masons. Quando cheguei, coloquei-me ao seu lado.
— Eles dormiram? – Érick me observava direto.
— Dormiram.
— Você deve estar cansada. – Ele passou o polegar abaixo dos meus olhos. – Pesadelo novamente?
— Direto. Eu não quero que eles se machuquem. Não quero colocá-los em risco.
— Não precisa. — Olhei de canto de olho para ele, seu olhar permanecia intenso, mas travei.
“Quinto ano. Caminhava pelos corredores até ouvi um barulho estranho, apesar do meu lado muitas vezes considerado certinho, a coragem me incentivou. Meus passos foram silenciosos até chegar no local. Luka Sanders, um garoto da minha turma e que, pelo que eu havia descoberto, havia sido indicado para ser monitor comigo, estava no chão. Não sei o motivo dele não ter sido o escolhido, era bem inteligente e responsável para o cargo. Talvez tivesse até mais pontos positivos do que eu.
Entretanto, Luka não estava sozinho e, apontando a varinha para ele, encontrava-se Richard Mason com seu irmão, Érick, logo atrás. Tal cena não me surpreendia mais, só me irritava, afinal eles não eram melhores que ninguém por causa de uma casa ou sobrenome.
O cabelo loiro do corvino estava colado na testa e seus olhos escuros, fechados; seu rosto expressava cansaço. Não sei o que aconteceu aqui, mas levando em consideração o fato de Luka ser nascido-trouxa e os Masons estarem ali, coisa boa não era.
—Parem com isso. — Caminhei para um lugar que eles me vissem e percebi a raiva no olhar dos dois ao me reconhecer. Imaginei a minha melhor amiga, Marlene, aqui, a morena teria a raiva visível em cada centímetro dela e, conhecendo-a, sabia que me daria trabalho, Lene costumava ser inteligente, mas era mais impulsiva em uma luta.
—Ora, a monitorinha White chegou, Érick. Fiquei até com medo e, considerando seu cargo, vou parar respeitando o pedido. — Richard exalava sarcasmo em sua fala e o irmão sorriu de forma fria e divertida ao mesmo tempo, eles agiram de forma completamente esperada ao me atacarem. Ri ao me defender.
—Vocês são completamente previsíveis.
—Como ousa?! — O sonserino mais velho quase gritou. — Sabe quem somos? Quem você pensa que é para nos atacar?
—Vocês são Richard e Érick Mason – Eu falei apontando para cada um. — Estão com amnésia? Ah, antes que eu me esqueça, desprazer, Jade White.
Eles pareceram ficar possuídos com a minha resposta e atacaram ainda mais. Talvez, a resposta não fosse a coisa mais inteligente de se falar, porém eles me perguntaram, então eu fui educada.
Corri para perto do meu amigo a fim de protegê-lo. Podiam mudar o foco de ataque e isso seria bem perigoso. No segundo que olhei para o garoto desacordado, senti algo um pouco abaixo do meu pescoço. Ergui a cabeça, era o sonserino caçula.
—Olá, White. — Érick deu o mesmo sorriso que dera anteriormente, forçando-me a levantar. — Você não é muito esperta, né? — Ele desviou o olhar para Jack. — Seu amiguinho sangue ruim está desmaiado. Quer se juntar a ele?
—Érick, chega de conversa. — Percebi o tom irritado e que, previsivelmente, viria ataque, lancei a proteção ao meu redor, o resultado foi por conta dela.
Aquele que me ameaçava, foi jogado para trás um pouco e a raiva exalava de quem atingiu a barreira.
—Parem. — Uma voz severa falou, eu obedeci, conhecia aquela voz e não seria nada bom contrariá-la, Minerva McGonagall estava atrás de nós. — Os quatro na minha sala, agora.
Virei-me para acordar Luka, seus olhos abriram e se focaram em mim.
—Jade. Como você me achou?
—Não importa. — Ajudei ele a se levantar, apoiando-o em mim.
—Senhorita White, vejo que se encontra aqui com eles novamente. — Os olhos da professora recaíram sobre mim.
—Lamento isso, professora. Contudo, não é minha culpa se eles resolvem atacar as pessoas, eu só as protejo.
—Veremos isso, senhorita.
O caminho pareceu incrivelmente longo, por mais que os irmãos não atacassem, eu podia perceber que coisas boas não viriam e nem as esperava. Eles iam quietos, mas com as cabeças levantadas em um gesto típico de superioridades dessa família. Quando chegamos, a mais velha pegou o aluno de meus braços e o ajudou a se sentar.
—Muito bem. O que vocês têm para contar? — Dito isso, McGonagall começou a nos observar.
Eu fui a primeira a falar, contei tudo o que tinha visto, desde o barulho que ouvira durante o passeio até o momento que ela chegara, o próximo foi Luka e os Masons foram os últimos, ambos com toda a prepotência do universo, revirei os olhos diversas vezes. Os irmãos não negavam a criação conhecida por todos, o jeito como falavam, a frieza com que tratavam a essa situação, podia ser considerado surreal tal atitude. Passamos vários minutos assim.
—Muito bem, senhor Sanders, chamarei alguém para levá-lo até a ala hospitalar. Senhorita White, senhores Masons, menos 10 pontos para cada pela luta nos corredores, além de uma semana de detenção pelo mesmo motivo. Quanto o ataque ao senhor Sanders, vocês terão um mês de detenção adicionado e perderão mais 50 pontos cada um. — Antes que alguém tivesse a chance de comentar, uma batida na porta soou. — Entre. — A porta foi aberta e por ela passou uma pessoa muito conhecida por mim, Lola Carter, uma corvina bonita, ela e sua irmã, Grace, eram incrivelmente parecidas no físico, ambas possuíam cabelos escuros, cuja a única diferença era o corte, e olhos claros.
As duas Carter se diferenciavam mais com relação à personalidade, a primeira era totalmente dedicada aos estudos, tímida e não gostava de chamar atenção; enquanto a segunda, adorava ajudar os outros, vivendo em um paradoxo entre gentileza e estresse.
—O que aconteceu? — Lola parou ao ver tantas pessoas em um só lugar.
—Não se preocupe com isso. Poderia levar o senhor Sanders até a ala hospitalar, por favor? — Mesmo pedido por favor, não era como se, de fato, uma resposta negativa fosse aceita. Assim que os dois saíram, ela se virou para nós. — Os senhores estão liberados. Senhorita White, fique.
Observei os sonserinos saindo, eles riam imaginando que eu havia me encrencado. Isso passou pela minha cabeça durante breves minutos. De qualquer forma, eu não tinha arrependimento algum quanto a minha atitude.
—Professora, o que aconteceu?
—Nada, senhorita. Só queria pedir para tomar cuidado, sei que é corajosa como seu pai, mas temo que isso possa ter consequências. A coragem é uma ótima característica e sua vontade de proteger mestiços e nascidos trouxas, em especial seus amigos, é muito bom; contudo, não se esqueça de que continua sendo estudante e, como monitora, não deve se envolver em qualquer luta. — Eu suspirei, levantando e caminhando até a ponta de sua mesa.
—Eu sei, professora. Creio que a senhora saiba que eu não vou mudar também.
—Felizmente, sua coragem e inteligência são suas maiores qualidades, Jade. Você é uma aluna brilhante.
—Obrigada. — Sorri de leve.
—Tome cuidado.
—Pode deixar. — Eu agradecia toda preocupação de Minerva McGonagall para comigo, mesmo ambas sabendo que nada nunca mudaria.
Após me despedir, saí de sua sala rumo ao meu salão comunal.
—Olá, White. A conversa foi boa? — Perguntou uma voz fria escondida na escuridão de um dos corredores.
—Olá, Érick Mason. Foi ótima, principalmente, por não ter ficado um mês de castigo – Minha intenção deu certo, os irmãos saíram das sombras, os olhos intensos traziam um quê de raiva. — Podem falar o que quiserem, podem me atacar, eu sou corajosa e inteligente o bastante para vencer vocês e sabem disso.
— Você gosta de provocar. – A voz de Richard pingava de raiva.
— Na verdade, não. Mas não vou só observar o que fazem, além do mais, a culpa não é minha se tenho habilidade. – Virei para ir embora e uma mão me segurou.
— Cuidado, White. Quem muito brinca acaba se machucando. – Não sabia como ele conseguia ser tão frio na vida, porém também não me interessava. Aproximei-me dele.
— Quem muito ameaça não faz nada. – Ele me soltou e fui embora.”
— Jade? – Voltei para o presente, encarar os olhos do, agora, meu marido trouxera lembranças de muito tempo atrás.
— Oi. – Percebi suas mãos em meus braços, seus olhos, que eram frios, estavam precupados.
—Você está bem?
—Sim. Eu estava me lembrando de Luka. — Seus olhos endureceram levemente e seu maxilar enrijeceu. Ele olhou para baixo.
—Sinto muito por aquele dia. — Ele se afastou. — Eu era uma idiota. — Suas mãos se fecharam.
—Está tudo bem, Érick. — Coloquei a mão sobre o braço dele.
—É ser muito malvado falar que, apesar de me arrepender, eu não mudaria nada? Por que, se eu mudasse, não teria tudo o que tenho hoje. — Ele segurou a minha mão e dei um sorriso de leve.
—Sim, é malvado. — Apertei a mão dele.
—Você não ouviu a minha resposta sobre o Dylan e a Cecília, né?
—Não, desculpa – Estava um pouco envergonhada por tê-lo deixado falando sozinho. Ele riu baixinho
—Não precisa pedir desculpas.
—Mas é um assunto sério.
—Se eu fosse te pedir desculpa a cada vez que te deixei falando sozinha sobre assuntos sérios, teria mais desculpas do que anos de vida.
—Quero ouvir o motivo pelo qual não preciso colocá-los em risco.
—É só ensinarmos eles. — Eu parei. Se eu já havia pensado em passar todos os meus conhecimentos para eles? Muitas vezes, mas não sabia se era o bastante e meu coração de mãe se apertava cada vez que pensava no que podia dar errado.
De qualquer maneira, não íamos poder evitar o destino deles. Eles teriam que lutar, lutar muito mais do que Érick e eu, porém podíamos dar todas as armas para os nossos filhos. Dylan e Cecília poderiam ser excelentes em tudo, na verdade, isso me parecia quase uma necessidade. Sabia que como pais, eu e meu marido, precisaríamos melhorar nossos conhecimentos para ter chance de salvar os pequenos.
—Pode dar certo. Vamos treiná-los da melhor forma possível, faremos com eles o que foi feito conosco. — Falei tentando parecer animada. — Só espero que seja o bastante – Murmurei.
—Será, Jade. Estarão preparados da melhor forma possível e tente não se preocupar tanto, você pode ser a mãe, mas eu sou o pai, não se esqueça, também me preocupo. — Suspirei, ele me envolveu em seus braços. — Vem, vamos dormir. — Ele se abaixou para me carregar.
—Eu consigo chegar no quarto andando.
—Eu sei, mas está cansada.
—Mas...
—Jade, para. Eu sei que você é durona, mas posso fazer algo por você? — Ele me olhou, parecia levemente irritado, porém acabei cedendo e me acomodando em seus braços. O caminho era curto, entretanto podia aproveitar.
Quando me acostumei com som de seu coração, ele chegou perto da cama, colocando-me deitada nela. Podia dizer tudo, que ele havia me beijado, que ficamos conversando, que ele passou a mão pelo meu rosto; mas, na verdade, ele deitou do meu lado e me puxou para apoiar a cabeça em seu ombro. Naquele momento, eu dormi sem pesadelos.
Abri meus olhos, vendo branco na minha frente. Meu braço estava esticado tocando o lençol macio. Aos poucos, fui despertando e minha mente começou a funcionar. Virei-me de modo que minhas costas se apoiassem no colchão. Parecia que tinha desmaiado até me lembrar de algumas horas atrás, provavelmente devia ter acordado mais tarde, resultado do cansaço acumulado e do sono sem sonhos.
Um barulho vindo do andar debaixo me fez levantar, Érick não encontrava-se na cama, então estava segura, pois ou ele podia cuidar do problema ou me chamaria para ajudar. Qualquer que fosse a opção, decidi trocar de roupa, digamos que, por mais confortável que fosse, pijama não seria a roupa mais adequada.
Rapidamente, havia despertado, tomei um banho, penteei os cabelos, escovei os dentes; minha roupa era formada por um simples vestido florido e uma rasteirinha. Desci as escadas com destino a cozinha, chegando lá, descobri a origem do barulho, o ex-sonserino estava cozinhando enquanto os bebês aguardavam em suas respectivas cadeirinhas. Mesmo com a agitação típica de crianças da idade deles, era visível o quanto a garota era mais impaciente que o irmão mais velho.
— O que...? — O homem se virou.
— Jade, bom dia! Você dormiu tão bem, decidi te deixar descansar e fazer a comida para eles. Não sou nenhum especialista, mas é o bastante para eles não morrerem de fome nem intoxicados. – Ele terminou de colocar o que preparava em um prato, colocando-o na mesa, em um lugar vago. — Vem, seu café da manhã está servido.
Enquanto eu comia, Dylan pegava o conteúdo de seu pratinho com as mãos para comer e o mais velho alimentava a filha. Teria chamado atenção do pequeno se a comida não fosse consistente o bastante para se comer assim.
— Obrigada, Érick. Está muito bom. — Agradeci entre uma mordida e outra. Ele sorriu.
— Eu agradeço o elogio. – Ficou sério de repente. – Vamos conversar sobre o que falamos depois de terminarmos aqui?
— Isso parece bom.
O café da manhã passou do mesmo jeito que começou, cada um manteve duas ações até o fim. Deixando os nossos filhos ainda nas cadeirinhas, eu e meu marido decidimos levar a louça para a pia, usando magia para limpá-la.
— Pega a Ceci. – O sonserino caminhou até o menino, pegando-o em seus braços após soltá-lo da cadeira; fiz o mesmo com a bebê.
Seguimos rumo ao escritório de nossa casa, a conversa seria séria e decidimos que não teria lugar melhor do que lá, além dos livros que serviria caso fosse necessário fazer uma consulta, creio que não precisaremos, mas não custa nada cobrir todas as opções.
O escritório era grande, como todos os cômodos dessa casa e das moradias dos Masons, porém comum, madeira predominava, uma mesa grande desse material está posta diante das três prateleiras de livros presentes na parede esquerda dali. O piso era do mesmo material e possuía um tapete felpudo e quente em seu centro. Ao entrar naquele local, convocamos, por meio de magia, brinquedos para os pequenos se distraírem.
—Pronto, fiquem aqui. — O homem falou.
Dylan olhou para a irmãzinha, ela conseguia ficar sentada, mesmo sendo bem pequena. Enquanto observava o menino se esticando para poder tocar o rosto da menor, reparei nas roupinhas vestidas por eles, o maior dos dois, usava uma camisetinha verde com uma cobra estampada no lado esquerdo do peito, presente de meu sogro e vizinho, e uma bermudinha branca; acabei me lembrando dos bebês de família rica, estava idêntico, apesar de não estar surpresa por ter sido a escolha de seu pai. Érick fora criado em uma família de muitas posses, se é que podia-se dizer isso, e tal fato o influenciava até hoje.
A de cabelos negros usava uma camisetinha de um azul bem clarinho e delicado com rendinhas brancas – uma das quatro peças dadas por sua tia, Emmanuelly, de presente, as peças eram um vestido, uma camiseta, uma saia e um sapatinho, tudo do mesmo estilo –, uma saia branca e, para completar, uma presilha também azul.
Tudo neles transmitia a mais alta classe, suspirei, o ex-sonserino não abandonava seus ensinamentos e, por mais que eu admirasse tal característica, repudiava fortemente a maior parte do que o sobrenome Mason trazia a qualquer um. A minha família também era rica, mesmo não sendo tanto quanto a de meu marido, porém bem mais humilde e essas pequenas atitudes só me lembrava do que Érick Mason já fora, o dinheiro, o exibicionismo, a prepotência, o pensamento de superioridade... muitos consideravam ele o pior de sua família, entretanto ele só estava sendo puramente Mason, na essência do que eles mais presavam.
—Jade. — Ouvi uma voz adulta me chamando, aquele cujo nome estava escrito em minha aliança já se encontrava sentado à mesa, observando-me dali.
—Fiquem quietinhos. — Pedi aos dois bebês e a última coisa que vi antes de me virar foi Cecília se assustando com o toque do Dylan.
—Pode deiar, mamã. — O pequeno falou.
—Jade, sei que se preocupa, mas esse é o motivo de estarmos aqui. — Foi a primeira frase após eu ter me sentado.
—Estou bem. Vamos traçar o melhor dos planos. — Dei um sorriso desafiador e convencido, ao que o Mason riu.
—Essa é a garota irritantemente Jade que eu conheci.
—E esse comentário é típico do Mason mais Mason tentando controlar o sobrenome que eu conheci. — Ele riu mais ainda pelo meu comentário quase inteligível.
—Como você fala coisas confusas certas?
—Habilidade e sangue. — O homem ergueu as sobrancelhas.
—Isso é extremamente parecido com as falas de uma garota corajosa da minha escola.
—Ela merece um prêmio por te aguentar.
—Ei. — Ele pareceu ofendido. — Desse jeito, vou ter que construir um pódio para ela, minha esposa gosta mais dela do que de mim.
—Você era o Salazar em pessoa e ela te aguentava.
—Aguentar é uma palavra forte, estava mais para ela me matava, vivíamos lutando.
—Mais um motivo para eu amá-la.
—E o oposto?
—Querido, o inimigo do meu inimigo é meu amigo, além do mais, amor próprio é tudo.
—Estou adorando o jogo, mas temos que começar. — Seu olhar demonstrava todo o divertimento
—Muito bem. Vamos treiná-los, isso já foi decidido. A pergunta é: quando vamos começar?
—O quanto antes.
—Entre 5 e 7 anos? — Perguntei.
—Tão cedo?
—Pense, é a idade em que os poderes começam a ser controlados e teremos um bom tempo para tudo.
—Isso é verdade. Você está certa como sempre, só acho meio cedo para tudo isso, pode ser pesado.
—Cedo é, porém acho uma idade boa.
—Concordo. — Ele se mexeu incomodado. — Preciso te fazer uma pergunta. E sobre o ensinamento dos Masons? — Suspirei, imaginei que esse dia chegaria.
—Érick, eu não gosto disso.
—Eu sei, mas é tradição na minha família e eu não gostaria que isso se perdesse.
—Érick, não. Com todo respeito, eu não quero e não vou deixá-los serem que nem você.
—Eu imaginava que fosse falar isso, mas você não pode negar que eu era forte.
—Não, Érick. — Levantei-me irritada, mas senti alguma coisa segurar minha perna. A minha filha estava agarrada a minha perna com seus bracinhos.
Esse era um dos motivos pelo qual acreditava que Cecília daria mais trabalho, o irmão estava brincando com os brinquedos e ela resolvia descobrir o mundo. Eu sei que bebês fazem isso, mas Dylan era bem mais parado na idade dela, costumava ouvir nossos pedidos. Por falar nisso, percebi ele levantar o rosto e, ao ver a mais nova em minha perna, arregalou os olhos, correndo em nossa direção.
—Ceiía, é pa fica lá... como os binquedos. — Ele a segurou pelos ombros, tentando puxá-la de modo gentil.
— Deixa, eu pego ela. – O pequeno olhou-me e deu uns passinhos para trás, abaixei para pegar a menininha nos meus braços, caminhando com ela até o local onde estava.
Dessa vez, fiz um cercadinho com magia, deixando os dois lá dentro, o menino começou a pegar alguns brinquedos e a brincar na frente da irmãzinha, de modo a deixá-la entretida.
—Jade, escuta, eu era forte e eles vão precisar de força. — O ex-sonserino tentou me convencer novamente.
—Chega, Érick. — Gritei, ele me pegou, colocando-me contra a parede, apesar de estarmos irritados, seu toque era suave em meu pulso.
—Escuta. Eu não quero que eles sejam que nem eu, acredita em mim, eu não quero que eles passem pelo que passei, mas, Jade, eles precisam de força e magia das trevas dá força.
—Mas...
—Deixa eu terminar. — Suspirei. — Nenhum inimigo vai deixar de usar isso, porque eles não usam. Não estou te pedindo para deixá-los serem um mini Érick, estou te pedindo para dar uma chance de lutarem de igual para igual contra quem precisarem. Jade, se eles tiverem contato antes, não serão tão afetados por elas, caso sejam atingidos; além de torná-los mais fortes e imprevisíveis. A lista de feitiços vai aumentar, terão mais opções de ataque e de estratégias. — Eu parei, meu ódio pelos ensinamentos dos Masons continuava, porém o homem a minha frente tinha razão. — Não precisa impedi-los de serem eu, eu faço isso e eles não precisam serem maus, vamos ensiná-lo como e quando usar. Só te peço para dar armas para eles e não os tornar assassinos. — Eu sabia que ele podia tentar me manipular, sempre teve essa habilidade, entretanto, não era o caso agora.
Deixei meu olhar parar nos dois dentro do cercado, meus filhos usando magia das trevas não estava nos meus planos, eles eram tão inocentes. Senti meu coração doer, quero protegê-los e não acabar com a vida deles. Parei, Érick nunca deixara de usar feitiços assim, mas mudou as motivações. Talvez ele tivesse razão, talvez eles não se tornariam o que eu odiava, talvez e só talvez esse plano desse certo.
“Tinha muitos comensais ao meu redor, cercando-me, atacando-me. Tentava desviar, mas sabia que minha batalha com eles não duraria muito, o cansaço estava muito forte e os machucados doíam. De repente, eles foram puxados para longe e pude ver Érick Mason atrás, a varinha erguida como se tivesse atacado e tinha.
—Você está bem? — Ele perguntou preocupado, a mão em meu rosto.
—Sim. Como você...?
—Magia das trevas, eu sei que você não gosta, porém é útil. — Ele sorriu, enquanto me puxava. — Temos que sair daqui.
Não tinha percebido o quanto ele mudara, pois, para mim, a maior mudança não era ele abandonar tudo o que era antes, isso poderia ocasionar uma explosão a qualquer momento e tudo voltar a como era, mas manter suas características de forma controlada, saber lidar e conhecer quem ele é, permitindo-se fazer as coisas de forma racional. Uma sensação de gratidão tomou conta de mim, se pudesse, voltaria no tempo só para agradecer a eu mais nova.”
—Você tem razão, pode ajudar. — Ele me encarou. — Vai ajudar. Tudo para eles viverem.
—Obrigado, não queria abandonar totalmente as tradições da minha família, eles são Masons no fim das contas. — Senti sua respiração bater no meu rosto e pescoço, virei-me, seu rosto estava a centímetros do meu, suas mãos soltaram meus pulsos e foram para minha bochecha e cintura, puxando-me para perto, seus lábios tocaram os meus, iniciando um beijo calmo.
—Tudo bem. — Respondi após o término do beijo. — Podemos falar sobres eles serem Masons? — Percebi seu olhar meio duro.
—Você não ia deixar isso passar. — Érick se afastou, passando as mãos pelos cabelos visivelmente nervoso e incomodado como sempre ficava ao abordarem o assunto “ser Mason”. — Quais são suas reclamações?
—Andar unicamente com pessoas sangue-puras e sonserinas. São os pontos iniciais. — Meu marido riu ironicamente.
—Não posso falar nada, meu exemplo é ótimo.
—Nada de existir obrigação de casamento. — O homem parecia incomodado, pois, a cada minuto, eu tinha mais restrições, mesmo sendo simples devido ao seu casamento.
Era mais do que óbvio minha aversão aos tipos de magias utilizados por cada membro daquela família, os ensinamentos, as exigências, entretanto, eu, no fundo, sabia que seria necessário aceitar muitas das imposições desde o meu “sim” e esse foi o principal motivo de ter parado nessas.
—Tudo bem. Mais alguma?
—Queria dizer que sim, mas, no momento, vou pesar só essas. Podemos repassar?
—Claro. — Ele se afastou ainda mais, permitindo que voltasse a me sentar. — Temos as seguintes informações: vamos treiná-los com todo o conhecimento possível, incluindo magia das trevas, iniciando entre os 5 e 7 anos, não pegaremos pesado sobre amizades e casamentos nem com relação ao sangue, nem com relação às casas.
—Isso. Vamos fazer um pequeno planejamento? Acho que vamos ter de escrever algumas cartas.
— Concordo. — No momento em que tudo ia iniciar, Cecília chorou. Levantando-me, segui para onde se encontrava, abaixando, percebi o motivo de suas lágrimas, peguei ela no colo, indo em direção à porta.
—Ah, antes que me esqueça, o garoto que era o Salazar em pessoa me deu muito mais do que já quis na vida – Pisquei para a pessoa que possui o par da minha aliança antes de sair.
Logo, eu voltei, a bebê limpa e ficamos um bom tempo dentro daquele cômodo, nossas únicas paradas foram para alimentar os nossos filhos, trocar as fraldas deles e pegar alguma fruta para comermos. Decidimos tudo o que dava, o conteúdo planejado para ensinar, as idades deles, tudo. Já estava escurecendo quando paramos, toda a magia colocada foi desfeita, peguei a menorzinha a qual ainda estava agitada, mesmo gastando muita energia, o meu marido pegou o menino que se enrolou no pai, quase dormindo.
Tínhamos um compromisso a noite, marcamos de jantar com os meus sogros, não sei se gostava muito da ideia. Tomei um banho rápido, enquanto meu companheiro fazia o mesmo com os dois bebês, conhecendo aquele homem como conhecia, tinha certeza que a única parte normal seria o banho, pois a magia ia no resto.
No momento em que pisei para fora do banheiro, uma toalha enrolada no cabelo e a outra, no corpo, o ex-sonserino chegou com os dois já prontos, a menina trocou o conjuntinho pelo vestido, o menino trocou a camiseta verde por uma cinza do mesmo estilo.
— Você cuida deles? – Érick caminhou para o banheiro com as roupas em mãos e os filhos no tapete.
— Sim. – Procurei no guarda-roupa até achar uma camiseta custa branca e uma saia azul, olhando os dois a todo momento.
O relógio indicava o nosso pequeno atraso, mesmo sendo para ir em nossos vizinhos. O ex-sonserino saiu do banheiro já pronto no momento em que terminei de arrumar meu cabelo. Seu perfume preencheu o ambiente, junto com o cheiro de shampoo e sabonete.
— Vamos? – Ele se abaixou pegando a filha em seu colo, enquanto Dylan se levantou, caminhando até mim e colocando sua mãozinha na minha.
O caminho foi tranquilo em diversos sentidos, não teve nenhum fato estranho em nosso caminho ou que provocasse um atraso maior do que os pequenos passos do menininho o qual se segurava em mim, caminhando devagar e com o máximo de cuidado possível.
Em menos de 5 minutos, a porta da casa de Gianne e Peter se erguia em nossa frente, era engraçado como, mesmo morando ao lado deles e a família de Richard logo depois, não nos víamos. O motivo para tal situação não era desencontros cotidianos ou dia corrido, era simplesmente o fato de não termos muita proximidade com eles; ter um alvo futuro em nós provocava isso.
Bati na porta. Quatro pessoas, eu com minha saia, camiseta e sapatilha, a varinha em minha cintura tomava a frente; Dylan com seu estilo de criança rica ao meu lado; Érick encontrava-se atrás de nós, a camiseta verde possuía três botões, os quais estavam abertos, tinha destaque nele, a bermuda cinza e tênis completava o look com as cores da casa das cobras e Cecília no seu estilo denominado princesinha por Érick o abraçava.
— Jade, Érick, vocês vieram. – A senhora Mason sorriu levemente, seus cabelos negros presos em um coque combinado com sua postura trazia um jeito severo a si. — Entrem.
Ela liberou o caminho, permitindo nossa entrada, era realmente incrível como aquela casa possuía grandeza e majestosidade desde sua estrutura até os móveis. Nossa primeira parada foi na sala aonde se encontravam meu cunhado, Richard, sua esposa e seus dois filhos pequenos; Nathan já tinha seus dois anos e brincava com a mágica feita pelo pai, Jennyfer dormia pacificamente no colo da mãe.
Ao perceber a cena, Dylan soltou a minha mão e correu na direção do primo, caindo algumas vezes durante o percurso, a água tinha poder revigorante naquele menino, estava dormindo em pé, quando saímos do escritório, mas, agora, corria com energia total.
O clima estava agradável, conversamos um pouco, os Masons não eram de muitos afetos – outra divergência entre nossas criações -, ajudamos a colocar a mesa e jantamos. Gianne fizera um molho de carne desfiada, nhoque e file à parmegiana, ela cozinha bem e todos os sabores eram incríveis, assim como nessa refeição. Percebi que alguns optavam entre o molho e o filé. Eu coloquei de tudo um pouco.
—Jade, Emmanuelly, preparei filés menores para as crianças. – Agradecendo, coloquei os pratos de Ceci e Dylan em uma distância possível para minha sogra alcançar.
O prato do menino estava completo, mas, no da menina, eu deixei unicamente o filé à parmegiana – com o excesso queijo retirado – e um pouco de nhoque. É verdade que ela já comia um pouco de comida, mas éramos bem cuidadosos quanto a isso e o amor pelo leite ainda era forte. Cortei o frango em pedaços bem pequenos, Gianne o deixara extremamente macio, então não teria problema.
O jantar não teve conversas, eu alimentava a mim e a Cecília, Érick auxiliava o filho, quando esse tinha problemas. Emmanuelly cuidava seus pequenos, mesmo Nathan já possuindo boa independência no quesito comida e Jennyfer estando próxima do primeiro aniversário. De qualquer forma, a maioria dos barulhos eram dos talheres.
Quando todo mundo se deu por satisfeito, as mulheres se juntaram para organizar a louça, desde pegar os utensílios da mesa até guardar os pratos já limpos com magia. Tudo se encontrava estranhamente agradável para essa família.
—Sabe, corvinazinha, você devia saber educar bem seus filhos já que é tão inteligente, talvez, eles só tenham puxado a insolência da mãe.
—Peter... — A mais velha disse em um tom de alerta o qual foi respondido por um olhar irritado do marido.
—Eles são bebês, senhor Mason, mal sabem falar.
—Isso não me interessa. — Ri com escárnio.
—Sabe, não me surpreende nenhum pouco que o senhor não entenda nada de bebês, não posso julgar o seu conhecimento nesse assunto, visto o que quase aconteceu com o Érick. De qualquer maneira, o senhor em extremamente inteligente em outros assuntos.
—Espero que sua má-criação não seja refletida nos meus netos e devo lembrá-la de que Masons são Masons e são obrigados a seguir nossas regras.
—Eu me recordo disso, entretanto, ninguém vai obrigá-los a nada.
—Como ousa? Quem você pensa que é? — Ele se aproximou furioso.
—Eu? Sou a mãe deles, senhor Mason. Eu e Érick decidimos como vamos educá-los, quando e onde. Ninguém mais vai intervir nisso, estou sendo bem clara? Eu costumo ser educada, senhor, mas não vou aceitar as ordens de ninguém, muito menos de um ex-sonserino preconceituoso que ia deixar seu filho se complicar, pois não aconteceria nada com ele por causa do sobrenome que carrega e o puniria se sentisse incerteza quanto a isso. Desculpa, se me preocupo demais com meus filhos para não querer isso para eles. — Mesmo minha voz sempre ter um leve tom de irritação, estava controlando-a de forma que saísse educada.
A minha fala o deixou enfurecido, ele veio para cima de mim.
—Ora, sua... você destruiu minha família, influenciou Érick como uma manipuladora venenosa e traiçoeira, virou ele contra tudo o que ensinei. Vou fazer o que devia ter feito a muito tempo.
Ele ergueu a varinha, meu corpo ficou tenso, preparado para o combate. Minha mente e mãos encontravam-se pronta para me defender, meu olhar de desafio, provavelmente estampava meu rosto e, então ele movimentou a mão poucos centímetros até ser parado por uma mão.
—Chega, pai. Não foi a Jade que mudou meus conceitos, fui eu. — A descrença do mais velho era evidente, encarava o outro como se uma piada fosse contada. — Ou mudava ou a coisa mais irônica do mundo aconteceria, não preciso explicar mais, né? Isso é o primeiro ponto. Em segundo lugar, Jade é minha esposa e mãe dos meus filhos, mais mãe do que você é avô, e exijo respeito para com ela. Por último, quem vai cuidar da criação dos dois somos nós.
—Como se atreve...?
—A falar que ela é mais mãe do que você vô? Simples, é ela quem cuida, alimenta, os faz dormir, quando têm pesadelos. Jade White faz o papel de mãe de forma impecável.
—Érick Mason, tome cuidado com sua língua.
—Ou vai me desertar? Sabe que não me afetará — Vi meu marido dar um sorriso de gelar os ossos, o mesmo sorriso de divertimento, frieza e quase sádico de quando torturava o pessoal de Hogwarts.
—Meu filho, pare. — Minha sogra aproximou-se discretamente até pousar sua mão esquerda no ombro de seu mais novo. — Peter, acalme-se, sabemos todo o passado. Jade mudou Érick? Sim, mas eles nem namoravam. A mudança foi para melhor ou pior? Depende do ponto de vista; para nossos costumes, foi para pior, mas foi o melhor para ajudá-lo na época. — O mais velho lhe lançou um olhar cortante, porém ela continuou. — Você mudou desde que nos conhecemos. Vai julgar isso também? Creio que não. — Ela respirou fundo. — Então, pare, não peço isso por Jade, nem mesmo por Érick, mas pelos pequenos.
Peter Mason em toda pose de autoritário vacilou por um segundo, tempo o bastante para ser arrastado pelo filho. Gianne aproximou-se de mim.
—Lamento por isso, você sabe das opiniões dele, entretanto não era de minha vontade essa discussão de hoje.
—Eu sei. — A mais velha deu uma risadinha de leve.
—Graças a Merlim, a ex-corvina aqui é calma, seu marido foi bem mais explosivo. Vem, vou pegar um copo de água para você.
Emmanuelly se manteve quieta durante toda a situação, não podia culpá-la, os Masons não eram do tipo que se deve desafiar e, portanto, não estavam acostumados com isso, além de punir quem ousasse quebrar tal “regra”. Não temia tal punição, afinal, sei que a vontade de Peter não superaria o “respeito” por mim. Talvez respeito possa ser uma palavra forte. O meu cônjuge voltou logo e me chamou com um sinal.
—Vamos. — Disse em meu ouvido, peguei Ceci, enquanto o menino correu para o pai.
Despedimo-nos de todos os presentes, o que não contava com o anfitrião, caminhando para a saída da casa. É verdade que estar fora daquele local, respirar o ar puro dali, sentir a leve brisa da Primavera tocando nossa pele e observar o maravilhoso céu estrelado de Salazar’s Town era maravilhoso, um relaxante natural super eficaz.
Caminhamos pelas ruas sinuosas por algum tempo, esfriando a cabeça e aproveitando cada momento longe de toda a discussão e cobrança, um momento apenas com nós quatro, como uma família. Eu e meu marido não tínhamos muito essa vontade de passear ou criar momentos com os filhos. Culpa nossa.
Esse momento, estava relaxante. A pequena apoiou a cabeça no meu peito e Dylan apontava para todos os lados falando o nome de cada pequena coisinha com seu jeitinho. “Esteia”, “Ua”, “Aneia”, “Lusi”, “Éu”. Em algumas palavras, ele falava uma letra, mas a omitia em outra, como no caso de luz, estrela, Lua e janela; o l saiu na primeira, porém não se fez presente nas demais.
Passado um tempo relativamente grande, Érick sugeriu que fossemos para a praça, isso permitiria brincadeira para os mais novos e podíamos descansar. Aceitamos a ideia, o menor foi o primeiro e mais entusiasmado de todos. Não posso negar o fato de ter sido incrível, Dylan ficava andando no local, observando tudo e a irmãzinha se mexeu impacientemente querendo segui-lo, imaginava que, se ela pudesse andar, não o faria, nem teria a calma de acompanhar o outro.
Depois de o ex-sonserino voltar com o filho nos braços, decidimos retornar para a casa. A menina dormia tranquilamente, desde o momento que desistiu de chorar, do jeito anterior, a cabeça apoiada em mim.
Coloquei a bebê no seu berço já trocada, o mais velho havia ficado no andar debaixo, preparando o leite do segundo mais novo de nossa casa. Passando pela escada, percebi ele subindo. Parei para ele passar, mas o mesmo fez sinal para eu passar, sendo assim, continuei meu caminho até o quarto.
Adoraria tomar um banho morno para relaxar, mesmo com o passeio, ainda percebia meu corpo levemente tenso, talvez, somado ao cansaço. Suspirei, o meu pijama já estava em minhas mãos e o banheiro, bem perto.
O choque da água em meu corpo, me fez arrepiar. Deixei que ela caísse sobre meus ombros, provocando um bem-estar quase instantâneo. Passei bons minutos ali, só aproveitando a sensação de cada centímetro meu relaxando, sentia-me como se estivesse em uma cachoeira.
“-Jack, como você está?
—Bem. — É verdade que ele parecia ter se recuperado do ataque, mas ainda estava preocupada.
—Eu devia ter te protegido. Eu devia imaginar que, mais cedo ou mais tarde, os Masons viriam atrás de você
—Jade, você não pode proteger todo mundo. Eu sei que se preocupa, mas não se cobre tanto.
—Desculpa.
—Não precisa... só não se aproxime muito deles.
—Pode deixar. — Senti sua mão acariciando meu rosto e ele sorriu”
O que Jack falaria se soubesse que me casei com um deles? Balancei a cabeça. Jack estava morto, ele morreu pensando que eu nunca me aproximaria de um Mason, ele sabia que eu ajudava Érick em algo, porém nunca descobriu o quanto me envolvi.
Deixei a água cair em meu rosto e a deixei levar embora todos os pensamentos que me deixavam mal. Pensei em meus filhos dormindo nos quartos, esse simples pensamento foi o bastante para me fazer melhorar e poucos minutos embaixo do chuveiro já me deixou muito bem.
Rapidamente, eu já estava pronta, caminhando para o quarto. Meu marido encontrava-se deitado com apenas uma calça, nenhuma camiseta se fazia presente e seu torso encontrava-se a mostra, ressaltado por sua posição, quase deitado com a parte superior de suas costas apoiada contra a cabeceira da cama.
Ele me chamou e eu me deitei, apoiando a cabeça em seu peito. Suas batidas do coração me tranquilizaram ainda mais.
“Eu fechei os olhos, o coração de Luke fazia-me sentir protegida. Meu irmão passava a mão pelos meus cabelos, tentando me acalmar, minhas mãos continuavam fechadas em punho.
—Jade, eu sei que é complicado, mas você é mais forte do que imagina.
—É verdade, Jade – Beatrice estava sentada na minha frente, sua mão secou uma lágrima solitária a qual escorria pelo meu rosto.
Eu havia acabado de entrar em Hogwarts, um menino incrivelmente metido havia me deixado furiosa ao insultar a minha primeira amiga e, agora, meus irmãos tentavam me dizer que podia me controlar, que era forte para isso, que não ia socar ninguém, mesmo se chorava de raiva. Eles sabiam como me acalmar.
—Já sei. Espera com ela aqui. — Beatrice saiu correndo só para voltar minutos depois com algumas coisas em mãos. — Sigam-me.
A mais velha seguia pelos corredores com uma facilidade impressionante, esperava, um dia, ser como ela. Logo, pude ver o lado de fora daquela incrível escola de magia.
—Lago, Trice?
—Sim. — Aquela paisagem era maravilhosa, um grande lago no centro de onde estávamos, algumas árvores encontravam-se mais ou menos perto e foi embaixo da maior de todas que Beatrice deixou as coisas.
Passamos um momento muito bom, a veterana havia levado de tudo um pouco, incluindo comida e livros. Adoraria saber aonde ela arruma tanta coisa. Eu só sei que o tempo passou incrivelmente rápido e o céu mostrava traços da escuridão, quando acabamos.”
—No que estava pensando? — Enquanto Luke acariciava meu cabelo para me acalmar, Érick fazia cafuné.
—Momentos com meus irmãos.
—Você parece ter boas lembranças com eles. — Sabia que apesar de ser sincero, ele usava um tom quase sugestivo para evitar que me recordasse de horas antes.
— Eu tenho.
—Isso é bom. Pelo menos algum de nós tem.
Conversamos por sussurros durante um tempo, esse dia fora bem agitado entre pesadelos na madrugada, conversas sobre o futuro, discussão e passeio, mas, finalmente, peguei no sono e essa foi a primeira noite completa sem pesadelos em muito tempo, a primeira noite com a certeza de Cecília e Dylan ficariam bem.
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