Os descendentes e o segredo
19 Lentumfilo subtegminis
Notas iniciais
P.O.V. Cecília Mason
Abri os olhos percebendo o teto da cama sobre mim, as cortinas fechadas ao redor. Afastei elas e desci até o chão. A luz que entrava era fraca, mas não tínhamos muito tempo para dormir, iríamos para casa hoje.
Olhei ao redor e percebi que ninguém havia acordado. Aproveitando esse tempo que julguei ser curto, fui para o banheiro com a roupa já separada nos braços, é verdade que a água quente me ajudava a despertar – bom, a água fria também, porém não negava preferir temperaturas mais elevadas.
Enquanto vestia a calça jeans preta e a camiseta igualmente escura, uma coruja branca como a neve apareceu na porta, avancei para pegar a carta.
“Cecília, sei que o Expresso de Hogwarts vai partir daqui a pouco tempo, considerando o dia, mas também sei que você acorda cedo. Poderia vir até a minha sala antes de partir? Preciso falar com você.
Te aguardo,
Minerva”
Ao que tudo indica – devido ao fato da diretora querer falar comigo –, deve ser sério, por isso saí para o quarto aonde coloquei meu velho all star e peguei um casaco bege, transformando o meu malão em miniatura e parti para a sala da diretora.
— Doce de limão – A gárgula se moveu me permitindo acesso à porta dela. Bati.
— Pode entrar – Observei o local, os objetos descritos pela minha mãe como pertencentes a Alvo Dumbledore e isso inclui a espada de Godric Gryffindor a qual voltara a esse local após a guerra. Na mesa dos diretores, estava Minerva McGonagall do mesmo jeito de sempre; o cabelo preso no já conhecido coque e as vestes verde esmeralda. – Cecília, vejo que recebeu minha carta.
Concordei, apesar de ser óbvio. Ela levantou e caminhou para mais perto, observando-me atentamente.
— Algumas vezes, parece deja vu. Você e Dylan são parecidos com seus pais, uma mistura incrível.
— Com todo respeito, diretora, mas para que a senhora me chamou aqui?
— Para falar sobre os ataques. – Isso me chama a atenção e ela percebeu. – Andei pesquisando sobre os possíveis motivos da barreira estar mais fraca.
— E por que está falando isso para mim? – Ela me analisou por um tempo.
— Cecília, os ataques começaram quando vocês chegaram e isso é preocupante. Além do mais, conversando com os antigos diretores, em especial, Dumbledore, Black e Slytherin, eles me aconselharam, principalmente o primeiro, a perguntar se você teria alguma ideia de como resolver, afinal, você e Dylan são os que melhor lutam. – Suspirei.
— A qual conclusão chegou?
— Nada. Esta foi toda informação que achei: Nada.
— Nada?
— Nada útil.
— Em que parte eu entro?
— A senhorita teria alguma suposição sobre o que pode estar acontecendo? Ou sobre como resolver?
— Não entendo, se eu e Dylan lutamos bem, por que está perguntando isso apenas para mim?
— Eu o chamei, mas ele ainda não respondeu.
— Entendi. – Meus olhos viajaram pela sala, enquanto meus dedos percorriam os objetos dali. – Bom, quer a minha opinião? Reforcem- na, digo, a proteção, chamem bruxos mais poderosos para isso, qualquer um que tenha a capacidade de proteger os alunos e mantê-la forte e estável, fazendo sua função.
— Os Potters e Weasleys são, eles derrotaram Voldemort. – Eu a olhei.
— Não estou dizendo que não são, eu sei o que fizeram, contudo existem outros mais; outros que podem reforçá-la até de maneiras desconhecidas.
— É isso? Chamar bruxos? – Virei de frente para a mulher, abandonando os objetos, os braços cruzados de qualquer jeito abaixo do meu peito, conhecia-me bem o bastante para saber que meu olhar estava afiado como uma faca recém-comprada.
— É a saída mais plausível, Hogwarts precisa proteger os estudantes. Se eles não estão seguros aqui, mesmo restando parte da barreira, eles não vão estar, lá fora, sem nada. Mestiços e nascidos trouxas serão caçados um por um, sem pena, sem como se defender. Acredite em mim, eu conheço os inimigos, eles não vão parar, mas acredite principalmente quando digo que Hogwarts não está inútil, ainda existe magia protecionista aqui, eu posso sentir. E garanto que Dylan também.
— Você e seu irmão poderiam formar grupos para protegê-las. – Meu corpo ficou tenso, meu olhar endereceu.
— Não. – Meu tom foi letal.
— Por que não?
— Isso não lhe diz respeito. Com licença. – Vi a confusão estampada em seu rosto, no momento em me virei para a porta a qual abri e saí.
Caminhei totalmente irritada – na verdade, eu já tinha acordado assim, apesar de cansada, não consegui dormir tranquilamente, minha mente, meus sonhos me fizeram vivenciar lembranças antigas dolorosas, tensas, afiadas como navalhas, seja física ou emocionalmente. Para ser sincera, fisicamente. Bom, isso era o que eu dizia para mim, tentava lutar para só algumas se passarem como filmes. – até o Salão Principal, esse era o plano inicial, porém, enquanto descia as escadas para o Sexto andar, lembrei-me da Sala Precisa. Mudei minha rota rapidamente, seguindo até a sala secreta.
A porta surgiu e eu a empurrei. A última vez que estivera aqui foi após pegar o livro que a Weasley usou para descobrir sobre o Nathan, sentei em uma das poltronas dali.
A ruiva foi muito inteligente juntando as pistas, admito. Eu fui muito tola por não prestar atenção. Não posso escorregar nenhuma vez, c aso contrário... ela vai descobrir e e vou ter que tomar algumas providências.
Peguei o livro da mochila e passei os dedos pela capa. Meu pai concordaria com o que fiz, já minha mãe... eu tenho minhas dúvidas, não se ela preferiria o segredo mais frágil, porém sendo segredo (ela me criticaria, algo que até eu me pergunto se, de fato, foi a melhor alternativa), mas se brigaria por eu ter “roubado” um livro da biblioteca de Hogwarts. Folheei as páginas.
“A família Mason também conhecida como “A família sonserina” surgiu há muitos anos e é uma das mais famosas a seguirem os ensinamentos do fundador de sua casa, Salazar Slytherin.”
O livro seguia algumas páginas descrevendo a minha família e mais algumas dezenas, falando sobre os membros da mesma, ainda tinha algumas descrições. Fiquei surpresa por não sabermos da existência dele antes.
Bom, apesar do pouco tempo que fiquei aqui, preferi guardar o livro e sair dali, não queria perder o trem – apesar de transporte não ser problema para mim –, além disso, preferi não ir de estômago totalmente vazio, nem que fosse apenas um suco de abóbora.
Atravessei os corredores agora lotados de zumbis, ou melhor, pessoas. Era incrível como todos necessitavam de várias horas de sono para se recomporem, ainda bem que Dylan e eu estamos imunes a isso. Obrigada, comensais.
Apesar da grande quantidade de pessoas, o Salão Principal estava bem calado, quase podia ouvir o som dos casacos se arrastando enquanto seus donos pegavam e largavam os talheres e copos. Sob esse silêncio descomunal, caminhei até a mesa da Grifinória, entretanto fui parada por uma voz já conhecida, a voz de John White.
— Cecília? – Virei-me para ele.
— John. O que aconteceu?
— Minha mãe pediu para te entregar. – Ele me estendeu uma carta, a peguei, analisando-o: o cabelo loiro claro – o mesmo de suas irmãs – estavam bagunçados, os olhos azuis não tinham o brilho de sempre, se fora em parte e ele tinha olheiras.
— Ah, tudo bem. – Apesar de ser uma fala até que amigável, meu tom de voz mostrou o oposto.
— Cecília... a propósito, você estava bonita ontem. – Balancei a cabeça.
— Fala para ela – Mostrei a carta. – que assim que ler, eu respondo. – Virei para ir me sentar.
— Mais uma coisa. – Parei – Como você consegue vestir só essa camiseta?
— Não é “só essa camiseta”. – Disse me referindo ao meu feitiço favorito. – Além do mais, tem esse casaco. – Ergui a mão com o agasalho. Continuei o caminho até a mesa vermelho e dourado.
Conhecendo John White há algum – já tinha falado com ele em alguns dos bailes dos Masons, apesar de sua família ser corvina –, eu conseguia perceber algumas diferenças como a diferença no brilho do seu lar, talvez alguma característica do meu lado corvino.
Caminhei até o lado de Dylan, peguei uma torrada e um copo de água.
— Não foi falar com a diretora?
— Estava ocupado. – Disse simplesmente dando de ombros. Ergui a sobrancelha. “Quinto área” (Quinto andar).
Entendi ao que se referia. Pelo menos alguém seguiu os conselhos da nossa mãe.
— Recebi a carta só depois e, bom, como a diretora estava aqui, quando cheguei... acredito que estava atrasado de qualquer forma. Irritada?
— Sempre.
Comi a torrada rapidamente. “Ceci”, essa voz irritada... Virei-me para a mesa da sonserina, Nathan viajava os olhos entre mim e alguém a minha direita, suas mãos fechadas em punhos; Jennyfer observava o irmão, a mão esquerda sobre a dele. Percebi, de relance, Dylan acompanhando meu olhar.
Procurei o alvo dos olhares sonserinos e ali estava James Sirius Potter, o qual olhava de mim para Nathan, de Nathan para a Weasley inteligente e dela para mim com um olhar afiado, percebi esse um pouco mais em mim do que nos outros e, provavelmente, meu primo também.
Peguei o copo com água, lembrando de não usar muita força, e tomei lentamente com a intenção de me acalmar. Um pensamento surgiu em minha mente, virei para o garoto ao meu lado.
— Dylan, preciso ver um negócio, eu te encontro no trem. – Peguei meu casaco e mochila para sair.
Quem fosse bem atento, perceberia o clima tenso no Salão Principal assim como uma bomba super sensível antes de explodir. Atravessei o local até a porta principal normalmente, eu realmente pouco me importo com as brigas idiotas nas quais meu primo se mete. Na verdade, esse joguinho de gato e rato com o Potter é totalmente infantil. Mas Nathan não é nada racional quando o assunto é aquele grifinório e, devido a isso, tenho que ficar de olho – mesmo com problemas bem maiores e mais importantes – nele. Lançar cruciattus, uma maldição imperdoável em plena Hogsmead? Está certo que somos Masons, porém isso não justifica nada. E o que me irritou ainda mais, quase contar um segredo o qual ele tinha jurado proteger a todo e qualquer custo.
Acelerei os passos, o jornal que chegou essa madrugada pesando em minha mochila, eu, de fato, possuía algo para fazer: ler as informações daquele. Antes de entrar em um corredor que me levaria até uma sala vazia, senti alguém segurar meu braço e me puxar com força – até demais – em direção a porta principal do castelo. Sem pensar, estendi a mão oposta na direção da pessoa e lancei um feitiço, ouvi um gemido baixo de dor quando cordas prenderam meu sequestrador. Pude ouvir o som no momento em que seu corpo atingiu a parede.
— Mas que droga, Cecília! – Distingui a voz furiosa do “Príncipe da Sonserina”, ele se encontrava totalmente imobilizado e desarmado – sua varinha estava aos meus pés –, como ele se debatia, seu pulso já ficava vermelho. – Solta-me – Peguei o pedaço mágico de madeira do chão. – Agora! – Ele ordenou ao que ergui a sobrancelha e aproximei-me dele.
— O que está acontecendo? – Minha voz saiu letal sem nenhum tom de curiosidade, os fatos relatados naquele papel e os quais vi de relance, contribuíram para acabar com meu bom humor e gentileza, no meu lugar, estava uma arma de luta pronta e treinada para se proteger.
— O que está acontecendo? – Seu tom foi letal. – Estou imobilizado porque minha prima foi pega desprevenida.
— Ótimo. Então você sabe. – O sonserino se debateu – Nunca me surpreenda, não é como se fosse novidade essa informação, não é, priminho? – Ele engoliu em seco perante a ironia e deboche em minha fala. – Finite incantatem.
— O que houve com você? Lentumfilo subtegminis? Sério mesmo? Isso por eu ter te surpreendido? – Lancei-lhe um olhar frio, ele suspirou. Colocando a mão no bolso da calça, tirou de lá um vidro com conteúdo azul claro pela metade, meu cérebro funcionou instantaneamente. – Toma. – Ele me deu o recipiente. – Beba, Jennyfer me entregou ontem à noite depois que chegou do baile. Beba o resto. – Eu peguei e virei o líquido na boca, rapidamente, senti um pouco de calma me dominando. – Está mais calma agora?
— Um pouco.
— Ótimo, vem! – Ele pegou minha mão firme, mas sem tanta força dessa vez. O moreno me levou pelo caminho que seria feito um pouco mais tarde.
— Mason. – É sério mesmo? Viramos dando de cara com o grupo do Potter.
— Cala a boca, Potter. – Falei fria, apontando minha varinha para o líder daquele trio idiota.
— Chega! – Uma voz autoritária soou e o objeto segurado por mim saiu da minha mão. Ergui o olhar me deparando com o rosto sério apesar de saber que ele me analisava. Apenas me virei e continuei a caminhada como se nada tivesse me interrompido, colocando o casaco que carregava durante o percurso.
Ouvi passos me seguindo logo na sequência, passos do meu lado direito, passos pesados demais para serem de Dylan. Minha suspeita foi confirmada ao ouvir o suspiro de meu irmão ao longe.
— Desculpem, não sei o que deu nela. – Pelo visto, eles não o reponderam, pois não ouvi nada por uns segundo até que o silêncio foi rompido por passos atrás de nós. – Cecília. – Ignorei o chamado frio de raiva, mas o dono já esperava por isso, pois me segurou pelo braço, virando de modo que eu não pudesse me libertar. Ele me apertava contra seu corpo, suas mãos prendendo as minhas nas costas, meu rosto próximo do seu, mas com diferença de altura o bastante para me fazer erguer a cabeça para encarar seus olhos, azuis nos castanhos, tempestade no terremoto. Do jeito que ele me segurava, não deixava um espaço livre, a intensidade quase palpável naquele momento, qualquer vento parecia o estopim necessário para o desastre. Nenhum de nós era fácil quando irritado e deixar os dois nessa situação era demais para as pessoas ao nosso redor. – O que está acontecendo? – Ele exigiu a já esperada explicação de tudo, como se não soubesse que estava sem paciência antes.
— Nada. – Disse cada palavra em tom de aviso, estreitando os olhos de forma perigosa, quase felina. Contava com a sanidade do menino de cabelos castanhos a minha frente, uma briga entre a gente seria tão alarmante quanto dois elefantes lutando em uma cidade grande, não pelo nosso tamanho, mas pelo poder carregado por nós, os Masons grifinórios. E, sim, já ouvira esse apelido pelos corredores do grande castelo há alguns bons metros de distância.
— Você não me assusta, Cecília.
— Será mesmo? – Fixei meu olhar no dele e percebi que ele estava totalmente decidido, então ganhei tempo para preparar um contra-ataque, porém ele me segurava com firmeza demais para isso, como já sabia, ele não deixou nenhum espaço vazio.
Ele era meu irmão afinal de contas, me conhecia como ninguém, e tinha que ser inteligente para isso, pelo menos. É verdade que não somos idênticos, muitos pensam inclusive que Nathan possui esse laço sanguíneo comigo e não o moreno de olhos castanhos a minha frente. Mas quem nos conhece sabe nossas semelhanças e digo uma coisa: podemos ser seus piores inimigos em qualquer situação, somos espertos demais para qualquer um perceber, somos ágeis o bastante para não te dar tempo de pensar durante uma luta. Dylan tem o mesmo sangue que eu correndo nas veias, o mesmo sangue que nos faz ambiciosos, inteligentes e a mesma criação de coragem.
— Dylan, para. – A voz do mais velho soou séria e senti sua mão perto do meu braço, segurando o primo. – A culpa foi minha, eu irritei a Cecília contando uns negócios do Potter e seus companheiros traidores.
Percebi a tensão no ar enquanto eles se encaravam por longo minutos, meus braços ficando doloridos devido à pressão que sofria, até que meu irmão me soltou lentamente e se afastou não muito convencido, os traços de contrariado visíveis em seu rosto e olhar – pelo menos para mim –, mas, ao que aparenta, foi um ator bom o bastante para o outro não perceber.
— Ótimo. Encontro vocês no Expresso – Ele acenou e nós correspondemos – Nathan do mesmo jeito; eu, com a cabeça – antes dele se virar e correr de volta para o castelo.
— Vamos. – Nós continuamos descendo pela trilha das carruagens até o local de partida da locomotiva, o silêncio estava presente.
Cumprimentamos o responsável do trem – aparentemente, ele já era conhecido do “Príncipe da Sonserina” ao meu lado – e adentramos aquela máquina a procura de uma cabine em boa posição, afinal não queríamos ficar nem muito longe nem do lado das portas, o trânsito de pessoas seria horrível, isso sem contar com o barulho que muitos chamam de comunicação. Provavelmente, a essa altura, os demais estudantes já estariam a caminho daqui e Dylan possivelmente se responsabilizou de avisar a diretora sobre nosso adiantamento.
— Cecília. – Meu acompanhante me chamou quando já estávamos sentados. Ergui o olhar. – O que havendo? – Ele me perguntou hesitante.
— Nada que te interesse. – Meu tom foi totalmente cortante.
— Não me interessa? Você se esqueceu do acontecido no castelo? No qual eu fiquei preso? – Apesar do que a fala pode sugerir, seu tom foi baixo e sem intenção de briga. Seu olhar vacilou um pouco e desceu para o anel em meu dedo. – Tem relação com... – Sem dar tempo para ele terminar a fala, levantei-me a fim de me aproximar, minha postura foi totalmente ameaçadora: postura reta, olhar intenso fixo no dele, passos duros, rosto rígido, mãos fechadas em punho.
— Não termina sua frase – Cada palavra foi marcada com uma raiva tão forte que parecia ácido. – e limpa a sua boca antes de falar sobre isso. – Eu me estranhei, antigamente, minha voz sairia fria como o Ártico, talvez a mudança seja por causa de tudo que anda acontecendo.
— Ceci, Nathan, o Dylan disse... – A voz de Jennyfer morreu. Ela estava com uma de suas mãos na porta, mais ou menos na altura de seu ombro, e a outra, no batente. Seus olhos, tão afiados quanto os de qualquer Mason, nos analisaram. – Estão tentando se matar? – Mesmo querendo parecer surpresa, era possível perceber um fundo de diversão.
— Não exatamente. – Respondi enquanto me ajeitava e, após lançar um último olhar de aviso para o Nathan, peguei o livro de História da Magia na mochila para ler.
Sentei-me no canto perto da porta, do lado direito da mesma, coloquei meus pés no banco de modo a ficar encolhida e apoiei a cabeça contra a parede, abrindo o livro na última página lida.
Pouco tempo depois, a porta se abriu novamente – logo fechando – e meu irmão se sentou do meu lado.
Por alguns breves minutos, senti sua respiração batendo levemente no meu cabelo e rosto enquanto seus olhos vagavam pelas palavras do objeto que eu segurava.
— Vere? Bella? Cogitavi in corde vos cognovi. – Sério? Guerras? Achei que você soubesse de cor.
— Scio. Est enim officium, quod ego non possum scribere in libro. Quod suus non malum, dat didurecent. – Eu sei. É para um trabalho, não posso escrever o que não está no livro. E não é tão ruim, dá para se distrair.
— Dá para falarem inglês? Não estamos entendendo. – Nathan reclamou com a cara fechada, lembrei-me de quando ele era criança e brigávamos.
— Talvez não seja para entenderem. – Respondi automaticamente.
— Cecília. – Meu irmão pronunciou meu nome em tom de alerta. Simplesmente ignorei, passando os olhos atentamente por cada linha.
“Em 31 de Outubro de 1981, Voldemort – mais conhecido como “Você-Sabe-Quem” ou “Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado” – invadiu o esconderijo dos Potters, matando James Potter e sua esposa, Lily Potter – antes Evans –, deixando como sobrevivente o filho do casal, Harry James Potter. A criança possuía uma cicatriz em forma de raio na testa quando foi encontrado naquela noite fatídica.”.
Suspirei. Amava ler, mas ler aprender e não para me limitar como essa leitura. Deixei meus olhos vagarem pelas próximas palavras no momento em que os três aumentaram o tom de voz.
— Vou treinar muito nessas férias, a final do quadribol está chegando e eu quero esfregar na cara do Potter quem é o melhor apanhador. Será uma doce vitória vencer um mestiço ainda mais ele. – O sonserino disse isso esfregando as mãos de tanto entusiasmo. – Vou pedir para o pai me treinar.
— Você não para de falar de quadribol. – Jennyfer suspirou.
— É evidente, minha cara irmã. Eu sou melhor que o Potter e vou mostrar isso para ele. Papai vai ficar orgulhoso.
— Nem do Potter. Por que você não declara seu amor, beija ele e, no fim, se casam? – A morena estava realmente cansada desse assunto, pois ela recebeu um olhar mortal do irmão. Percebendo a cena, Dylan se esticou para falar comigo.
— Posso falar com você a sós um minuto? – Ele sussurra me encarando, ergo o olhar, observando bem, ele parecia inquieto.
Sem dizer qualquer palavra, fiz uma marcação na página que parei, fechando o livro cuidadosamente e o guardei. Percebendo meu próximo passo, ele se afastou, colocando-se de pé rapidamente. Segui seus passos silenciosamente.
— Esperem. – Uma voz feminina nos parou quando já estávamos com a porta aberta. – Antes de saírem... poderiam tirar uma dúvida minha? O que acharam de Hogwarts? – A sonserina nos olhava ansiosa, parecia querer fugir da guerra a qual provocara, mas também tinha animação e curiosidade em sua voz. Talvez esse conjunto nos fez responder.
— É legal – Essa foi a minha resposta.
— É realmente mágica, adorei. – Revirei os olhos para a resposta educada. O grifinório sempre foi o mais educado, como se eu me importasse com “demonstrar minha educação”, pensei relembrando o rosto decepcionado da minha prima diante da minha resposta.
— Legal? Sério, Cecília? É isso que você tem a dizer sobre Hogwarts? Justamente você? – Ela parecia incrédula, contudo, fingi não perceber.
— Vamos? – Perguntei para o de cabelos castanhos, ele possuía um sorriso em sua boca, eu não sei se o motivo seria o desespero da Mason de olhos escuros ou por ser mais simpático mesmo.
— Vamos.
Saímos a procura de uma outra cabine livre para, assim, podermos conversar em paz, mesmo se tivéssemos a habilidade de manter uma conversa civilizada mentalmente, algumas vezes, era bom tê-la oralmente. Andamos por quase todo o trem, as pessoas nos olhando de diferentes formas: curiosidade, medo, raiva, nojo, indiferença; entretanto todas elas tinham algo em comum, todas se afastavam abrindo caminho. Medo? Possivelmente. Não podia negar que adorava isso.
Quando finalmente achamos uma cabine livre – bem longe da onde estávamos inicialmente –, uma voz conhecida e totalmente desagradável atingiu meus tímpanos como agulhas, seu dono, há alguns passos de nós.
— Cecília. – Reconhecia a voz de Nicolas Zabine de longe.
Meu irmão olhou-me por uns segundos antes de se precipitar para dentro da cabine puxando-me pelo braço. Assim que encontrávamos seguros no local, fechei a porta com tudo, seguindo a agitação do moreno ao meu lado, e percebi que, um segundo a mais, Zabine estaria do mesmo lado da porta que nós.
— Desculpe agir assim sem avisar. – Meu acompanhante está sentado; os braços, apoiados nas pernas; as mãos, juntas. – Só... achei não ser um bom momento para falar com ele.
— E é seguro falarmos aqui? – Ele me deu um sorriso irônico, quase um sorriso do outro Mason.
— Abbafiato. Vana mentis. – Eu acompanhei seu gesto. – É seguro. – Ele fez um sinal para que eu me sentasse. – O que a diretora queria?
Analisei Dylan. O menino foi direto como sempre. Mas tinha algo estranho, seus movimentos estavam um pouquinho mais agitados que o normal.
— Ela queria falar sobre Hogwarts, sobre os ataques.
— Só por falar? Não faz a cara dela. – Ele ergueu uma sobrancelha.
— Pediu um conselho para mim. Disse que te enviou uma carta também.
— Sim, eu fui depois ao avisar da sua pressa. Queria saber se foi para a mesma coisa. Aliás, qual foi a sua resposta?
— Arrumar alguém com capacidade de ajudar com a proteção dos alunos. E você?
— Interessante. Falei algo bem parecido também. – Ele suspirou.
— Você me chamou aqui para isso?
— Queria conversar sobre a carta da mamãe.
— Mais uma vez?
— Sim. Acha que ela vai esperar o que da gente?
— Faço a menor ideia. Não pensei sobre isso ainda. Além do mais, mamãe consegue ser bem imprevisível às vezes.
— Isso é verdade. Imagino se ela vai mudar ao ponto de falar para fazermos amizades. – Meu sorriso foi totalmente sarcástico.
— Está aí algo que ela não vai mudar de jeito nenhum. Dylan... ela não se esqueceu daquilo. – Minha voz endureceu no final da frase. A rigidez me atingiu o suficiente para o garoto a minha frente perceber, ele parecia meu espelho, exceto por ter tremido logo após minha fala. – De qualquer forma, eu não ia ceder, mesmo ela deixando.
— Você é mais dura do que eu, hein?
— Você cederia?
— Eu... não tenho a menor ideia. – O silêncio se instalou, permanecendo por um tempo razoável. – Ceci, você acha que... ela vai pedir para... como posso dizer? Contar o segredo?
— Não. – Fui firme. – Acho que não. É... – Procurei um adjetivo, mas nenhum descrevia a situação bem. – Ela ainda é nossa mãe, Dylan. Ela ainda é Jade Mason. – Nesse momento, eu reparei em algo. Mamãe podia não ter mudado, mas nós, seus filhos, sim. Hogwarts fizera isso sem nem percebemos nada.
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