Eram bons garotos. Não mereciam o destino que lhes foi imposto. Viviam à mercê de pessoas que desejavam marionetes, ou súditos. Pessoas más. Talvez isso tenha lhes despertado o ódio mostrado nas cenas de terça-feira. Quem diria... Um dia comum de março marcado na história do país. Bom, mas quem poderia prever? Afinal, por mais que sofressem abusos morais como tantos outros, nunca demonstraram um sinal claro que denotasse uma possível vingança. Uma tragédia anunciada, porém ocultada pelos que deveriam protegê-los. Afinal a imagem de uma escola moralmente correta e respeitosa estava acima de qualquer necessidade.

Alexandre, Marcio e Hélio eram alunos comuns. Nunca mostraram comportamento agressivo dentro ou fora de sala de aula. Alunos medianos e queridos pelos professores. Hélio e Marcio eram bastante participativos nas aulas de História e Geografia, principalmente com assuntos ligados à política. Visionários de um mundo melhor gostavam de debater boas políticas que se aplicassem a sociedade moderna. Nada muito incomum para jovens de dezessete anos. Alexandre gostava mais de poesias, literatura, filmes e jogos de vídeo game. Perdia tardes lendo Vinicius de Morais, Machado de Assis, Alvares de Azevedo, entre outros. Era também um exímio escritor, ganhando vários prêmios literários da escola e sendo considerado o “poeta romântico” da família. Um rapaz bem apaixonado. Sem dúvida eram bons meninos. Andavam sempre juntos, eram muito amigos. Além da amizade, uma coisa que os unia era a dificuldade de interação social com outros grupos e servirem de chacota para os outros alunos. Como sempre andavam juntos, havia quem os considerasse homossexuais, algo que os afetava bastante. Alexandre por ser mais sensível a comentários alheios sentia-se um lixo ao ser alvo das saraivadas de insultos e risos. Seus amigos sempre tentavam acalmá-lo e motivá-lo a esquecer tais insultos.

Eu sempre os observei. Sempre tive curiosidade de saber exatamente quem eram, suas convicções, suas aflições, pois interagiam muito pouco com outras pessoas da escola, exceto professores, e mesmo assim tratavam apenas de assuntos relacionados a conteúdos, provas. Conteúdo acadêmico.

Nunca poderia imaginar que planejavam algo tão... Cruel. A palavra é essa mesmo. Crueldade define bem o que fizeram. Mas o que poderia se esperar de garotos que só recebiam crueldade. Naquela terça-feira de março pude enxergar que loucura e ódio se escondem em máscaras calmas, porém em olhos aflitos.

Era um dia comum, os alunos entraram ao primeiro sinal. Como todos os outros, eles também se dirigiram à sala. Pareciam inquietos naquele dia. Pareciam amedrontados, porém determinados. Quando passaram por mim pude notar uma brisa gelada de gritos de sofrimento e sorrisos sádicos. Pareciam estar mortos por dentro. Mas ainda mortos deram uma chance ao mundo. Uma chance de redenção para evitar a catástrofe que viria a ocorrer naquela manhã calma de terça-feira. No intervalo, todos saíram para o pátio como de costume. E lá iam os três unidos cumplices. Dirigiram-se à cantina, tomaram seus lanches e comeram em frente a minha guarita. Quietos, calados. Se entreolhavam com um ar frio, como se quisessem que alguém entrasse em suas cabeças e mudasse tudo o que estavam determinados a fazer. Uma pena que o pobre Jonatan não percebeu o que eu percebi. Ele, acompanhado de todos os seus amigos que eram famosos na escola por mexer com alunos mais calados e reclusos aproximaram-se dos três garotos. Como sempre, já chegaram insultando, batendo e humilhando. Mas nesse dia eles foram longe demais. Parecia que o próprio diabo estava ali, ordenando para que fossem mais além nas atitudes. Lembro que Hélio carregava desde criança um pingente de apreço sentimental inestimável. Se não me falha a memória, uma joia que continha a foto de seus avós já falecidos. Os garotos ao importunarem o trio de cumplices arrancaram o tal pingente do pescoço de Hélio, abriram e falaram em alto e bom tom:

— Estes velhos deviam cheirar a merda. Olha a cara de velhos cagões que eles tinham.

Todos ao redor riram. Até mesmo alguns professores que ali passavam tentaram esconder os risos de seus rostos. Até mesmo alunos que também sofriam com os abusos morais riram desta “piada”. Piada mortal, eu diria.

Uns dois minutos de risadas e vergonha se passaram. Foi o suficiente para que toda a raiva contida naqueles jovens explodisse. O problema é a forma como tal raiva explodiu. Espera-se de um jovem que sofre abusos uma revolta física ou estratégica. Aquela revolta foi cruel. Hélio sacou um revólver e o pôs na cara de Jonatan e disse:

— Eu esperei longos seis anos para isso, seu filho da puta!

E então atirou. Pela proximidade, pedaços do crânio e cérebro do jovem Jonatan voaram por todo o pátio. Todos ali presentes correram assustados, aos gritos. Logo, Alexandre e Marcio também sacaram suas armas. E começou-se o inferno. Escondi-me na guarita para que não acabasse como o pobre Jonatan, mas outros não tiveram a mesma sorte que eu. Ouvia-os gritando “ONDE ESTÁ SUA CORAGEM, FILHOS DA PUTA?” por toda a escola enquanto atiravam cruelmente em qualquer um que passasse à sua frente. Professoras já idosas, crianças que ainda usavam fraudas... Nada lhes escapava à mira. Uma sinfonia de dor, agonia, ódio e sadismo. Um verdadeiro roteiro infernal. Após trinta minutos, não lembro ao certo, eles voltaram ao pátio. As vestes sujas do sangue de suas vítimas e um sorriso sádico e irredutível em suas mentes. Pareciam comemorar o maior feito de suas vidas. Como troféu, arrancaram um membro de um de seus molestadores. O dedo indicador, que por vezes foi posto em seus rostos como medida intimidadora.

Minutos depois se preparavam para cometer o último ato de atrocidade extrema de suas vidas – o suicídio libertador. Um suicídio em massa após 38 assassinatos frios, cruéis e sádicos. Os garotos pretendiam levar para o inferno as almas de quem lhes passasse a frente, e assim o fizeram. Trinta e sete pessoas foram mortas através de suas armas de fogo. Uma delas, a diretora da escola que por vezes se omitia das constantes denúncias feitas pelos alunos sobre seus molestadores foi morta a tesouradas. Cinquenta e seis perfurações foram encontradas em seu corpo. Diziam eles em uma carta encontrada posteriormente no bolso de um dos garotos que era uma tesourada para cada reclamação não atendida por parte dos garotos. Cinquenta e seis omissões que se converteram em carma brutal no corpo de meia-idade da diretora.

Após o suicídio coletivo dos garotos, a polícia e os paramédicos adentraram as instalações da escola. Não havia muito a se fazer. Os que sobreviveram tinham como único ferimento a dor e o medo pelo que viveram naquelas horas de terror. Os mortos eram apenas testemunhas da crueldade e ódio. Eram como palavras em um livro em branco contanto uma história macabra. Palavras vermelhas, tingidas de sangue.

As mães dos jovens estavam catatônicas ao presenciar o acontecido na TV. A mãe de Hélio teve um ataque fulminante no coração tamanha foi a emoção de ver o que seu filho fora capaz de cometer usando a arma de seu pai, que por incrível que pareça era policial.

O país chorou amargurado a morte de trinta e oito pessoas por três meses. Mas eu vi claramente que suas almas choravam amarguradas durante anos. Choravam berrantes em um grupo de tantas outras aulas surdas. Eu tenho pena dos garotos... Eram bons garotos. Vítimas da maldade humanas. Acabaram por forçar a maldade de que foram vítimas a outras tantas outras pessoas de maneira cruel, de maneira assombrosa. Até hoje vejo em minha mente seus sorrisos sádicos e tenho pesadelos sobre aquelas horas. Aquelas infinitas horas.

Notas finais
Espero que tenham gostado. Até a próxima.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!