Notas iniciais
When my time comes Forget the wrong that I've done Help me leave behind some Reasons to be missed And don't resent me When you're feeling empty Keep me in your memory Leave out all the rest - (Leave Out All The Rest) Linkin Park

Santiago – RS

Aproximadamente 19 horas

Saindo da cidade

Eu estava deitada no banco de trás do carro, um cobertor fino formava uma cápsula ao meu redor e dois travesseiros sob a minha cabeça faziam minha posição confortável o suficiente para querer tirar um cochilo. Meus pés estavam gelados, meus dedos enrugados. Havia chovido no ultimo dia de rodeio e a bota que eu supostamente acreditava ser impermeável havia me deixado com as meias e os pés completamente molhados.

Lucas entrou no banco do motorista e meu “sogro” entrou no banco do carona. Geralmente eu me incomodava com esse arranjo. Todas as vezes que viajávamos, meu sogro tomava o assento do carona. Supostamente era porque o Lucas não tinha carteira, e assim ficava mais fácil para os dois trocarem na estrada de lugar. Mas de qualquer forma eu não gostava de ter que me sentar atrás como uma criança. Mas hoje aquilo não estava me incomodando nem um pouco. Eu preferia estar deitada ocupando o banco de trás inteiro. Estávamos finalmente indo para casa, depois de um final de semana extremamente longo.

Eu fechei meus olhos e inclinei a cabeça para a esquerda até encostar no meu braço que estava erguido e apoiado na minha cabeça. Eu pretendia dormir tão logo meu corpo aceitasse o sono, e aquela posição facilitaria o trabalho.

No banco da frente, Lucas estava calado como sempre. Às vezes eu estranhava como uma pessoa que normalmente fala pelos cotovelos e está sempre brincando pode ficar mortalmente sério do nada sem motivo aparente. Acho que assim como eu ele tem muitas coisas na cabeça pra lidar.

Régis, ou Seu Régis como a maioria das pessoas o chamam – menos o pessoal lá de casa. Lá em casa é tio ou pai. – puxou assunto com o Lucas.

– Como que tu errou aquela armada¹? – Ele quis saber. – Passou por cima da vaca?

– Não. – Lucas respondeu. – Caiu do lado da vaca.

Eu virei meus olhos mentalmente para aquilo. Pouco antes de terminar de carregarmos as coisas para virmos para casa, seu Régis tinha aparecido no acampamento e falado coisas muito ruins sobre os meninos. Tinha dito que com aquele time não dava pra competir, que ele iria a falência, e blábláblá. Depois havia chacoalhado o chapéu e sem querer havia me dado um banho de chuva no rosto, ao que eu disse “ai tio” rindo e olhei pra Jessica, enquanto limpava a água dos meus olhos.

Ele perguntou o que foi, e eu comentei que ele havia me dado um banho. Não era uma reclamação, nem nada do tipo, mas ele já estava com o pé esquerdo e enxergou como se fosse. “Agora é de açúcar?” ele me largou as patas.

Deus sabe que eu não sou nenhuma tonta, muito menos calma. Eu não tinha nada a ver com o fato de os homens não terem se classificado, e por conseqüência não era em mim que ele deveria soltar as patas, não mesmo.

E fiz questão de deixar isso bem claro.

Mas como o homem já estava completamente com os nervos à flor da pele, começou a gritar comigo, me acusando de ser “mal educada” com ele, e um monte de absurdos. Eu simplesmente re-afirmei que eu não tinha nada a ver com aquilo tudo e que se ele estava estressado não era em mim que ele tinha que despejar aquilo. E prontamente voltei a conversar com a Jéssica o ignorando, e ele saiu do acampamento para dar uma volta.

A Jéssica concorda comigo, quando digo que o tio, pelo fato de não laçar, não tem noção de como é difícil, e que muitas vezes a vaca não ajuda, o cavalo faz algo errado ou o cara simplesmente erra. São coisas normais de acontecer, e todo bom laçador já lançou uma armada para ganhar e no final era branca².

Mas vai explicar isso praquele velho teimoso. É impossível.

Seria uma semana longa, infelizmente. Provavelmente ele passaria a semana toda de mau humor e acabaria estressando todo mundo na fazenda. Eu já havia falado isso para o Lucas.

Mas meu querido marido apenas disse para eu “não me meter nesses assuntos” e que se o tio viesse encher o saco dele por causa do rodeio ia errar o pulo.

Eu realmente não gostava quando o Lucas me mandava “não me meter”, mas eu já estava cansada de brigar com ele todos os dias por causa de bobagens. Então eu apenas disse que não tinha me metido em nada, e que pra mim se eles ganhassem ou perdessem o rodeio não mudaria nada.

Mas então o tio tinha chegado e o assunto morreu. E eu sabia que não poderia tocar nesse assunto de novo, por mais que eu quisesse abrir o problema ao meio e dissecá-lo como um sapo, por que eu sou o tipo de pessoa que gosta de ter tudo resolvido e em pratos limpos.

Agora nós dirigíamos pra casa pela rodovia, e o caminhão com os cavalos e o acampamento desarmado vinha atrás de nós, com a Jessica, Seu Padilha – pai dela – e o Muleke, um peão da fazenda que tinha laçado também.

O som do carro estava desligado, o que pra mim era algo irritante. Pelo fato de eu ter TDAH, ficar em silencio é começar a pensar sobre, bem, tudo. Quando tinha musica eu podia apenas deixar minha mente vagar pra longe enquanto a letra e melodia da musica ocupava minha cabeça e eu logo pegava no sono. E pra ajudar no meu tormento, o tio tinha voltado a falar sobre o rodeio e o Lucas respondia o necessário. Era visível que o Lucas não queria conversar sobre isso, mas o tio parecia não notar.

Mas isso não era novidade. Ele nunca nota.

Minha cabeça parecia dar voltas em assuntos que não eram bem vindos e o tio ficava insistindo em falar sobre o rodeio para, acho eu, preencher o silencio que parecia completamente constrangedor.

As gotas de chuva batiam violentamente contra o vidro e o Lucas tinha deixado uma pequena fresta no seu vidro para que o pára-brisa não embaçasse. Estava ficando realmente frio dentro do carro e eu me encolhi mais sob o cobertor tentando manter o calor ao meu redor. Não estava funcionando muito bem.

E então, ouviu-se um barulho de pneu derrapando na pista e por alguns minutos eu pensei que o Lucas tinha feito algum tipo de barbeiragem, mas o carro não tinha se movimentado para nenhum lado. O tio gritou algo que eu não consegui entender o que era e o Lucas deu uma puxada violenta na direção. O barulho de pneu derrapando tinha ficado mais alto e o som que se seguiu foi como o de uma batida de carros no filme velozes e furiosos.

Tudo aconteceu tão rápido. Aparte do banco onde estava meus pés amassou para dentro, o vidro quebrou em milhões de estilhaços que choveram sobre mim, o carro deslizou para a lateral da pista e capotou. Eu senti a dor me invadir quando meu corpo bateu de frente contra a parte interna do capô e os cacos de vidro perfuraram minha pele. E em seguida um peso imenso veio sobre a minha cabeça e tudo ficou em completa escuridão.

¹. Armada é a mesma coisa que laçada.

². Branca é quando a armada não consegue pegar somente os dois chifres do boi. Quando pega um chifre só, ou quando laça o pescoço é considerada uma armada branca, ou seja, o laçador errou.

Notas finais
Obrigado a todos que chegaram a ler até aqui. Espero que a história esteja interessante para vocês.