Os astros conspiram a favor de nós
9 Revendo velhos amigos
Notas iniciais
Fazer coisas simples como escovar os dentes não deveria ser algo tão terrível, não é mesmo?
Mas acontece que eu usava aparelho, e o ato de higiene pessoal se tornava algo lento e chato. Ter que limpar cada buraquinho do aparelho, passar fio dental... Nossa, eu não via a hora de tirar aquilo. Ao menos não estava doendo.
Depois de ter me limpado e escovado os dentes, eu decidi que a melhor forma de viver minha antiga vida era, ao invés de repetir meus passos para buscar minhas antigas aprendizagens, sair por ai e aprender coisas novas. Deixar o passado no passado.
Ao sair do galpão, me senti como Doroth, ao ser levada para OZ. Embora o galpão pudesse ser um canto que minha mente já havia se acostumado, o resto da fazenda era ainda para mim um labirinto sem entrada ou saída. Eu apenas estava ali no meio.
Um relinchar de cavalo chamou a minha atenção. Parecia ter vindo da parte de trás do galpão.
Em minha mente se formou um nome, Lucas.
Ele disse que estaria lidando com os cavalos. Pensei. A forma mais fácil de conhecer a fazenda é pedindo para ele me mostrar.
Tomei uma trilha que tinha entre o galpão e a casa principal – onde supostamente morava a família do Lucas. – e segui em direção ao som de relinchos.
– Ára Matungo! – Lucas berrou.
O pátio atrás do galpão era grande, a maior parte coberta com grama. Tinha uma arvore enorme, que protegia com seus galhos a maior parte do pátio contra o sol. Uma cerca delimitava o pátio, e além da cerca ficava a parte dos cavalos.
O campo se estendia além da vista, e em algumas partes as cercas delimitavam as divisas de terreno. Uma outra construção de madeira parecida com o galpão onde eu morava era a moradia dos cavalos, que relinchavam das suas baias. Do lado esquerdo, próximo a entrada do galpão dos cavalos tinha um quadrado perfeito, todo cercado com grades de madeira. Tinha duas porteiras, uma de cada lado. E ali tinha uma dezena de cavalos soltos.
Eles eram lindos, de diversos tamanhos, com as cores mais variadas. Mas todos eles passavam um sentimento de liberdade que eu não poderia explicar, apenas sentir.
Lucas vinha montado em um cavalo e parou junto à cerca. Ao me ver, franziu o cenho.
Eu me aproximei mais da cerca, ficando de frente para ele. Lucas desceu do cavalo e amarrou uma das rédeas no arame da cerca.
– Você deveria estar deitada. Era pra você ficar descansando. – Ele usava comigo o mesmo tom que eu imaginava que um pai usaria com um filho desobediente. Aquilo me fez rir.
– Eu me sinto bem. Realmente. – Eu assegurei a ele.
– Não é algo engraçado. Eu to preocupado com você. – Ele disse. Seu semblante era o de um menino que lutava com os pais para deixar o cãozinho novo dormir dentro de casa.
Deus, tá certo que ele é meu marido... Mas ele tinha que ser tão fofo?
– Não precisa se preocupar. Eu to bem. – Eu disse e me virei para encarar o cavalo.
Ele era enorme, e sua cara estava diretamente a minha frente. Seu pelo era da cor de caramelo, seus olhos eram da mesma cor. O pelo das suas patas era branco e também havia uma mancha branca que tomava toda a sua fronte. Sua crina era de um castanho escuro, quase preto. Em seus olhos eu podia ver uma inteligência que nunca pensei ver em um animal.
O cavalo lambeu meu rosto.
– Ah, ele me lambeu! – Eu disse meio horrorizada e meio confusa.
Lucas parecia tão apavorado com o ato do cavalo quanto eu, mas a surpresa logo deixou seu rosto quando ele começou a rir feito uma criança.
Embora o ato do cavalo tivesse me assustado, eu comecei a rir junto com ele. Lucas tinha esse tipo de risada que te fazia ter vontade de rir junto. Ele enrugava o nariz adoravelmente e expunha os dentes brancos em uma risada engraçada. Até seus ombros balançavam.
Eu ergui minha mão e deixei o cavalo cheirá-la. Logo em seguida, fiz carinho nele. Aqueles olhos cor de caramelo me encarando com uma inteligência fora do comum.
O cavalo ergueu sua cara contra a minha mão quando eu parei de acariciá-lo, como se estivesse dizendo; “Quem mandou você parar? Continue!”
– Que cavalo lindo. – Comentei com o Lucas. Ele estava entretido assistindo a cena.
– Sim. O Baio era seu cavalo preferido. – Lucas concordou. – Você costumava correr com ele, mesmo quando eu dizia pra você não fazer. Sempre teimosa.
Eu sorri com o comentário. Por mais que pudesse parecer uma repreensão, eu podia notar que ele dizia aquilo com saudade. Como se gritar pra eu não correr fosse algo que ele nunca mais faria, mas que gostaria de fazer novamente.
– Esse é o nome dele? Baio? – Eu perguntei, ainda acariciando o cavalo.
– Não. Baio é o tipo de pelo dele. E a raça é quarto de milha. – Lucas me explicou.
Eu concordei com a cabeça, mas me senti estranhamente burra. Raça, pelo... Pra mim era mais fácil olhar e dizer: cavalo cor de caramelo e grande. E não Cavalo Baio, quarto de milha. Não fazia o menor sentido!
– Você quer dar uma volta nele? – Lucas ofereceu.
Eu parei de acariciar o cavalo e olhei para ele confusa.
– Eu posso? – Perguntei.
Lucas sorriu adoravelmente e concordou com a cabeça.
– Vem cá. – Ele disse.
Eu fiz a volta na cerca e passei pela porteira, fechando ela novamente atrás de mim. A cada passo que eu dava para perto do cavalo meu coração se acelerava mais.
– Não precisa ter medo. – Lucas me acalmou. – Ele é bem mansinho.
– Eu não to com medo. – Respondi. E era verdade. Eu estava incrivelmente ansiosa, mas não sentia medo. Era como se o cavalo estivesse me assegurando que ele cuidaria de mim.
– Então vem. Coloca o pé direito aqui. – Ele puxou o estribo para que eu pudesse colocar meu pé. – Agora segura aqui na crina dele.
– Eu vou machucar ele se eu puxar ai. – Eu disse preocupada.
Lucas riu com a minha preocupação e negou com a cabeça.
– Não vai. É pra isso que serve. Segura aqui da crina dele e se impulsiona pra cima. Daí você passa a perna por cima dele.
Eu fiz o que ele me disse, e consegui montar no cavalo. Meu marido fez menção de querer puxar o cavalo comigo em cima, mas eu não queria ser tratada como uma criança.
– Posso? – Perguntei indicando as rédeas.
Lucas pareceu considerar por alguns instantes as probabilidades de eu cair do cavalo se ele me entregasse as rédeas, mas por fim cedeu e concordou.
– Segura elas aqui. –Ele encurtou as rédeas um pouco. – Se você liberar mais do que isso, ele vai correr. Se você puxar ela mais, ele vai andar para trás. Puxar para a direita, ele vai pra direita. Esquerda, mesma coisa. – Ele me olhou com advertência nos olhos. – Não corre.
Eu sorri apesar de tudo.
– Tá bom.
Eu movi as rédeas para a esquerda, fazendo o cavalo se virar. Lucas abriu a porteira para mim e eu segui troteando por entre as arvores. A sensação do balançar em cima do cavalo parecia metódica, e assim que me afastei das vistas do Lucas, parei o cavalo.
– Hey, amigo. – Eu me inclinei para perto do rosto do cavalo. – Eu sei que eu perdi a minha memória, mas eu confio que você sabe o que está fazendo. Que tal a gente galopar um pouquinho, hun?
O cavalo relinchou como se concordasse e eu me senti um pouco mais normal com a resposta dele. Pelo visto falar com um cavalo não era tão loucura assim.
Afrouxei um pouco mais as rédeas do cavalo e o Baio começou a caminhar novamente, logo passando para um trote ligeiro e em seguida começou a galopar. Meus cabelos loiros balançavam com o vento que me atingia, e enquanto o cavalo galopava pelo campo, eu fechei meus olhos e podia fingir que estava voando, de tão boa que era a sensação. Ele foi diminuindo o galope, até começar a trotear de novo. Puxei as rédeas para ele parar.
– Isso ai, amigo. Muito bom! –Eu disse contente, e soltei uma risada alegre. – Você é um bom amigo!
Conduzi o cavalo lentamente até onde o Lucas me esperava na cerca. Ele parecia apreensivo, mas assim que me viu sorrindo em cima do cavalo seu rosto se suavizou.
Ele estava preocupado comigo. Pensei. Que fofo.
– E ai, como foi? – Ele perguntou, assim que eu cheguei na cerca. Entreguei as rédeas para ele, e ele amarrou elas na cerca.
– Mágico! – Eu disse animada, e ele sorriu.
Lucas estendeu os braços para me descer do cavalo, e eu prontamente me deixei cair em seus braços. Ele me colocou suavemente no chão, mas seus braços continuaram na minha cintura.
O cavalo deu um passo para o meu lado e a lateral dele me empurrou para os braços do Lucas. Meu corpo se colou ao dele e os braços do meu marido se enlaçaram ao meu redor. Meu rosto parou a dois dedos do dele, e ele buscava meus olhos. Aqueles lindos olhos castanhos me transmitiam uma estranha calma e ao mesmo tempo enviavam arrepios pelo meu corpo.
Os lábios do Lucas pousaram sobre os meus, macios, quentes, suaves. Febris.
Meu corpo se derreteu contra o dele, e seus braços se apertaram mais ao meu redor. Minhas mãos pousaram nos seus bíceps. Os lábios do Lucas se entreabriram e ele tomou meu lábio inferior com os seus, provando o sabor da minha boca.
– Ôpa. – Alguém disse e em seguida riu.
Lucas se afastou de mim com um olhar assassino e se virou para o nosso telespectador.
Era um homem negro claro, pouco mais alto que eu. Tinha os cabelos escuros e lisos, cortados curto. Olhos castanhos, sorriso bonito. Uma barba rala tomava o rosto dele. Usava uma camiseta azul onde se lia “Fazenda São Rafael”, uma bombacha azul desbotada e botas de montaria. Assim como Lucas, tinha uma barriga saliente.
– Tinha que ser tu, né Moleque! – Lucas resmungou. – Nego e cachorro, só matando mesmo.
O homem apenas riu mais.
– Foi mal, Pitiço. Não queria interromper.
Lucas sorriu, como se não acreditasse na desculpa do homem, mas também não parecia mais tão chateado com a interrupção.
– Logo agora que eu tava vivendo um grande momento, uma grande paixão. – Lucas riu e me olhou de canto de olho. O homem riu novamente.
– Ta melhor, Ju? – O homem me perguntou. Eu concordei com a cabeça.
– Esse é o Moleque, Ju. – Lucas disse. – É um amigo e trabalha aqui na fazenda. Só não dá muita conversa pra esse nego arcaide.
– É verdade que tu perdeu mesmo a memória? – O homem, Moleque, me perguntou.
– Sim. – Eu me limitei a responder.
– Mas que Bah. – O Moleque respondeu.
Ele olhou entre eu e o Lucas e em seguida disse para o meu marido:
– Me ajuda a apartar o gado, pitiço?
– Tá, vai encilhando a tua égua que eu já vou. – Lucas respondeu olhando pra mim.
O Moleque concordou e seguiu para dentro da cocheira, lugar de onde provavelmente tinha saído.
– Eu vou lá pra baixo agora. – Lucas disse. – Acho melhor você voltar lá pra dentro. Tenta descansar mais um pouco, ta cedo ainda.
Eu concordei com a cabeça, e passei por ele em direção ao galpão.
Quando olhei para trás, Lucas estava concentrado ajeitando alguma coisa nos arreios do cavalo. Mas o baio me olhava com aquela inteligência que eu já começava a me acostumar.
E de repente eu pensei que ele ter dado um passo para o meu lado não foi um feliz acaso.
Me peguei sorrindo. Ao que parecia, tinha refeito uma amizade.
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