Os astros conspiram a favor de nós
10 Eu olho no espelho...
Notas iniciais
Eu levei um bom tempo na frente do espelho me observando.
Claro, isso pode soar narcisista de se dizer, mas para mim era uma parte importante que faltava junto com as minhas memórias. Eu precisava conhecer a mim mesma. Precisava saber que aspecto tinha meu sorriso e o quão feia eu me tornava quando ficava irritada.
Movi a ponta dos meus dedos pelo meu rosto, seguindo as linhas do maxilar, passando pelas lábios macios e rosados, as maças do rosto definidas, o nariz que era arrebitado e alargado nas laterais, as sobrancelhas loiras arqueadas... Meus olhos se fixaram em olhos incrivelmente azuis, que trocavam de cor se tornando levemente verde. Assim como Lucas havia descrito.
Fiquei encantada com o que via diante de mim. Era como conhecer a alguém que você nunca viu antes e poder levar um longo tempo tentando decorar as linhas do seu corpo e rosto sem receber olhares desconfiados em troca. Era algo natural, real.
Era como conhecer a si mesmo novamente, olhando através de novos filtros.
Deixei minhas mãos correrem pela minha pele macia, sentindo o peso dos meus seios arredondados e firmes, notando a leve inclinação da minha barriga e as curvas da minha cintura. Minha pele era branca, suave, cremosa.
– Linda. – A voz de Lucas soou atrás de mim e de repente percebi que havia deixado a porta do quarto aberta, apenas ligeiramente encostada.
Um calor incrível subiu pelo meu pescoço e rosto e queimou ali, me fazendo ficar com a pele completamente avermelhada. Minhas mãos voaram para a toalha largada em cima da cama e eu senti os olhos de Lucas sobre mim enquanto eu me atrapalhava, tentando me enrolar em um casulo.
– Desculpa, eu não queria te assustar. – Ele parecia preocupado e deu um passo pra dentro do quarto.
– Você não me assustou... Apenas, me pegou de surpresa. – Eu disse sem encontrar seus olhos.
E era totalmente verdade. Nenhuma parte de mim se sentia assustada, apesar do meu coração estar batendo tão rápido e tão forte que eu tive medo dele explodir sem aviso prévio.
O que eu sentia era algo completamente diferente. E eram coisas que eu não poderia nem sequer começar a entender. Eu me sentia envergonhada, mas não por ter meu corpo exposto nu, eu não tinha mais esse tipo de pudor na minha mente. Não, eu me sentia envergonhada por ter sido flagrada em um momento tão intimo, tão inocente, tão puro. Era como se ele pudesse ver nos meus olhos toda minha confusão e tudo o que eu sentia. Eu estava desarmada, despida de qualquer barreira. Era incrível, era apavorante.
Era, como disse Lucas, lindo.
– Eu peço desculpas por isso. Eu não imaginava que você estaria... – Ele apenas gesticulou em direção ao espelho sem terminar a frase. Ele não precisava.
– Você não tinha como saber. Deixa pra lá. – Eu sacudi a minha cabeça.
Lucas concordou, como se não soubesse o que mais poderia fazer. Notei que esse era um terreno completamente novo pra ele também. Essa minha ingenuidade, essa minha falta de experiência, essa minha falta de memórias... Eu me assemelhava a uma criança.
E naquele momento eu percebi que eu amava ele. Ora, como não amaria?
Aqui estava ele, bonito, inteligente, divertido... E ele desejava a mim. Apesar de todas as minhas inseguranças, e de meus gracejos infantis... Ele queria permanecer ao meu lado.
Era assustador e lindo. Um sorriso bobo brincou nos meus lábios.
– Você está com fome? Quer que eu faça um café da manha pra você? – Ele se moveu para a cozinha sem esperar uma resposta. – Acho que seus gostos não devem ter mudado, apesar do acidente.
– Er... Acho que não. Eu realmente não sei. – Me senti confusa. Quais eram meus gostos, afinal? Do que eu gostava?
– Você pode se vestir enquanto eu faço algo pra você comer, então. Suas roupas ficam nas portas do meio. – Lucas indicou o guarda-roupas. – Calcinhas e sutiãs, segunda gaveta.
– Ah, claro. – Eu murmurei, de repente consciente de que ainda estava enrolada na toalha. – Eu vou... Encostar, aqui. – Indiquei a porta e ele concordou com a cabeça.
Fechei a porta lentamente e passei a tranca. Do lado de fora eu podia ouvir enquanto ele se movia, fazendo o meu café. Me senti estranha, como se meu corpo não fosse acostumado a tantos mimos.
Com um suspiro, abri as portas do guarda roupa. Esperava que ao tocar aquelas roupas que me pertenciam, ao sentir o cheiro de sabão em pó e amaciante, sentisse... algo. Alguma memória vaga, alguma sensação de saudade, qualquer coisa. Mas nada veio, e eu estava apenas ali parada, segurando uma camiseta preta, regata, com um pingente de caveira. O tecido era frio contra a minha pele, mas nenhum conforto veio. Era como segurar as roupas de outra pessoa, como viver a vida de outra pessoa.
Eu não sabia por quanto tempo conseguiria me manter em frente.
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