Os amores de um homem
1 O prazer de ser quem é, e a dor de esconder
Notas iniciais
“We'll keep the fires alight
I'll face down the world with you”
Entenda como quiser.
Entenda que as pessoas precisam omitir e esconder quem são, por medo.
Medo de retaliação, medo de não serem vistas como antes simplesmente por quem amam e levam para a cama. Medo por perder aquilo que tanto lutaram para conquistar com verdadeiro suor, e nesse caso de se esconder: lágrimas.
Aquele era mais um daqueles momentos, onde o silêncio e a falta de companhia eram apenas fantasmas da noite passada, da noite onde podia ser ele mesmo, onde podia tocar e ser tocado, amar e ser amado. Limitam uma pessoa a amar apenas pessoas, esquecem-se que amar o que faz é o que torna o trabalho digno, e Harry amava o que fazia. Amava a fama que isso o concedia, não pela simples fama, mas por ser bom.
Era a dualidade, os dois lados de uma mesma vida, frente e atrás dos holofotes: o Harry produtor, e o Harry homem que deitava-se com outros homens porque era isso o que o fazia bem, era isso que clamava seu coração, assim como também clamava por manter-se no trabalho, por amar o que fazia. Por isso agora tomava café da manhã sozinho no restaurante do hotel, os olhos mirando a xícara sobre o pires, o brioche no cesto a frente. Uma enorme mesa para acomodar todo o seu vazio pela manhã.
Sorriu e acenou quando foi reconhecido, uma moça bonita, cabelos castanhos e olhos de um verde surreal de tão vívido. Afinal, ser Harry Cameron ainda significava ser visto como, não apenas produto, mas amigo da estrela Evelyn Hugo, a quem tinha em mais alta conta.
Quando saiu do hotel após o check-out, entrou no carro bem a tempo de ver um ou outro click de um fotógrafo a fim de, quem sabe, faturar uma grana se algo bombástico acontecesse na saída do hotel. Pobre coitado, as coisas que valeriam manchetes aconteciam sempre entre quatro paredes, com isso Harry era extremamente discreto, ainda mais com tudo; trabalho, peso de ser quem era.
Em casa podia ser mais ele. Não que tivesse muito mais o que mostrar, era um homem de gosto sofisticado, porém simples. A casa não contava com muitos adornos, clean era a moda, e Harry era adepto àquela. Mas em casa podia trocar a roupa perfeitamente alinhada por algo mais simples e despojado, confortável para um dia preguiçoso sobre o sofá da sala. Uma bermuda de lavagem clara, como puída, um sapato macio nos pés e nada a lhe tapar o tórax. A música ecoava baixa, algo para lembrá-lo de que amor poderia ser cantado por um homem, sentido por ele. Sem a vergonha de falar de amor. Love Me Tender embalava o momento enquanto seu coração era embalado pela batida na porta.
Foram anos de não amores e apenas momentos. Amar não fazia parte dos planos de Harry, tampouco apaixonar-se por um quarterback de fama. Quando apenas um era famoso, ao tempo que era muito mais fácil esconder as saídas, também era perigoso, às vezes só um teria o que perder. Com ambos sob as luzes ofuscantes dos holofotes, teriam muito a perder, muito a ser visto. Mas isso não o impediu de se apaixonar por aquele que seria o suposto par romântico do verdadeiro amor de sua melhor amiga.
— John. — A voz rompeu baixa, como se nem ao menos o esperasse ali, mas desejasse por isso. Sorriu olhando para os lados discretamente antes de dar-lhe passagem para entrar. Como se, sequer tivessem passado a noite juntos após a festa onde estava com ele e Celia, e tantos outros nomes que, para seu trabalho eram importantes, mas ali, com John em sua casa… eram insignificantes. Então fechou a porta, como se recebesse nada mais que um amigo em sua casa. Como se fossem sentar e beber umas cervejas, ou jogar pôquer para passar o tempo. E então sentiu a mão dele em sua cintura desnuda, o hálito dele em sua bochecha enquanto ele se aproximava, beijando-o o rosto, o pescoço para que lhe desse um cheiro, como se a saudade fosse de anos, e não de horas.
— Pensei em fazer uma surpresa.
E era.
John era contido, calculava os passos. Aos olhos dos outros era um brutamontes de quase cem quilos de pura força bruta, o que era exigido para ser um jogador, afinal. Não era dado a extravagâncias, nem surpresas loucas como aquela. Era translúcido em suas ações e Harry já enxergava isso, então, ser pego de surpresa só fez o que ele achava ser impossível: amá-lo ainda mais.
Foi por isso que envolveu-o coms os braços, deixando pesar sobre os ombros fortes daquele monumento de homem de mais de 1,80. Permitiu que seus lábios chegassem aos dele, que selassem não só um beijo singelo, mas um beijo que significava amor. Que significava entrega. Não que os demais beijos não significasse essa entrega, mas ali era um pouco mais, uma pitada a mais.
Riu quando foi prensado à porta, quando a perna direita de John ficou entre as suas, como dois adolescentes no calor do momento atrás de uma arquibancada depois do jogo de futebol, dois namorados curtindo o calor do corpo alheio, e o que despertava em si enquanto as mãos deslizavam pelo corpo alheio para constatar que era real.
John era isso, o modo surreal de como o mundo real poderia ser bom.
John era seu chão, mas as nuvens sobre sua cabeça. Era o porto seguro com aqueles braços grandes, o abrigo da tempestade, mas era o terremoto que o fazia se agarrar à cama como se fosse cair num abismo sem fim se simplesmente não se agarrasse a ele, e o amasse.
E era o que estaria, mais que disposto a fazer agora. A puxá-lo pela camisa, despindo-o enquanto o empurrava sobre o sofá, caindo em seu colo de modo planejado e calculado, as pernas dispostas uma de cada lado do quadril daquele homem que o fazia arfar, arrepiar e sentir como se, ser amado, fosse um direito todo seu.
Sentia-o lhe tocar, sentia a necessidade dele quando lhe apalpava desde as coxas até as nádegas, e então, sentia toda a ternura quando ele olhava em seus olhos e lhe tocava o rosto antes de puxá-lo para um beijo. Era a mesma volúpia que ele desferia ao abrir a camisa de John, estourando alguns botões, rindo com o desespero latente de ter o corpo dele colado ao seu. Antigamente, sexo era apenas isso: sexo. Com John, tornou-se mais. Tornou-se, contra todas as regras e incertezas: amor.
Apoiar a mão naquela pele clara, sentir os músculos firmes sob a pele suave e facilmente marcável. Nunca resistia a vontade de beijá-lo ali, uma trilha de beijos desde o queixo marcado até o pescoço e clavícula, e então o peitoral, como uma adoração. Porque o adorava. Porque, mesmo sabendo que não seria possível da forma como era para tantos outros casais, queria uma vida inteira ao lado daquele homem.
Elvis ainda entoava do toca-discos quando John colocou-o deitado e nu sobre o sofá, fazendo seu corpanzil pesar sobre o seu, abrindo suas pernas e apoiando-as na lateral do corpo, uma das mãos firmes em sua coxa como se mostrasse cuidado e posse enquanto o penetrava de maneira doce e gentil. Nenhuma outra foda, em toda sua vida, havia sido assim, perfeita. Nenhum outro homem sequer havia chegado perto de ser para ele, o que John era. O máximo de afirmar amar alguém que ele podia até então, era alegar seu amor por Ev, sua melhor amiga.
— Eu te amo.
O sussurro era quase inaudível enquanto o sofá rangia pelo peso dos corpos a se movimentar sobre ele. Harry mesmo quase não se ouviu em meio aos próprios gemidos, agarrando-se às costas de John enquanto contraía-se chegando ao ápice.
— Eu também te amo.
Aquelas quatro palavras mudaram seu mundo.
Aquele homem mudou seu mundo.
E quando não mais ouviu os “eu te amo” da boca de John, quando o coração do homem que mais amou na vida parou… o seu parou também, não literalmente, mas a dor era a mesma. Quando John morreu, Harry morreu.
Anos.
Levou anos até que soubesse se reerguer, em tese. Tinha sua família para lhe dar apoio, afinal. Tinha Ev, e a filha que tiveram juntos. Tinha trabalho a fazer, e um motivo para ficar sóbrio, ou quase isso.
Homens passaram por sua cama, seu corpo, sem nunca jamais chegar ao seu coração. Ninguém nunca seria John, ou como ele. Até que um dia, um dia… alguém chegou perto o bastante de ser. Perto de assustá-lo de novo com aquilo que fazia o coração bater mais forte, com o desespero, com a ansiedade de ser de alguém, e ter esse alguém em igual medida.
Lindo, gentil e trabalhador. O tipo de homem que seria capaz de partir corações, sorte que era um cara bom. Bom até demais. Bom ao ponto de nunca, jamais abrir mão da família, mesmo que amasse Harry com todas as forças.
Todos os amores de Harry, os homens que amou. Dos homens que levou para a cama, apenas dois entraram também em seu coração. E ali ficaram, junto de Ev e sua filha. Como parte de si, como um pedaço que jurou levar consigo até o dia de morrer.
Os amores de um homem não deveriam ser segredo, não por medo, porque amar um outro homem não deveria ser pecado, e sim sagrado.
Quando se foi, foi sabendo que amou, mesmo que tão intensamente que tenha se dilacerado no processo. Mas amou.
Fale com o autor