Notas iniciais
CAPÍTULO 9: Recebo uma visita e um aviso importante
SAM PODIA SENTIR O OLHAR de todos sobre ele, mas estava ocupado demais tentando processar o que foi dito. Se antes estava se sentindo perdido e confuso, agora ele não entendia mais nada com nada. Os outros começaram uma discussão tensa e assustada sobre a tal da profecia e perguntando a Quíron o que aquilo queria dizer, o que significava meio-sangue indefinido. No entanto, o centauro estava mudo, fitando o vazio com seus olhos escuros.
Centauro, pégasos, dragões, meios-sangues, profecias. A cabeça de Sam latejava.
Ele se levantou.
– Eu realmente não faço ideia do que estão falando. Meio-sangue? Não sei o que isso quer dizer e eu sou humano – afirmou. Embora a vaga lembrança que tivera ficasse martelando em sua mente que ele deveria pensar duas vezes antes de afirmar isso. – E que história é essa de profecia?
– Acalmem-se – pediu Quíron e sua voz saiu tão firme que instantaneamente todos se calaram. – Não temos certeza de nada ainda. Sam foi trazido para cá por algum motivo, ele não teria conseguido atravessar as barreiras do acampamento se os deuses não tivessem permitido. Assim como aconteceu a Jason, Sam não se recorda de nada. Suas memórias foram perdidas.
Mais uma vez testas foram franzidas e olhares foram direcionados a Sam.
– Quíron tem razão – disse Rachel. – Lembro-me claramente de ver dois semideuses na lanchonete. Ele não estava na visão. Mas certamente se ele apareceu lá, alguém sabia que iríamos resgatá-lo também. Alguém queria que ele viesse para cá.
– Hera? – arriscou Annabeth, sua expressão era de alguém que planejava uma jogada complicada numa partida de xadrez. – Ela o mandou aqui também? Como mandou Jason e levou o Percy? Mas o que ela quer dessa vez?
– Só pode ter sido ela – concordou Piper sacudindo a cabeça.
– Hera? Quem é essa? – Sam as encarou. – Ela sabe o que aconteceu comigo?
– Ah, claro perdoe-nos. Você ainda não sabe – disse Quíron cruzando as mãos sobre o colo na cadeira de rodas. – Sente-se, jovem. Há algo que precisa saber antes de tentarmos resolver essas questões. Você deve estar ainda mais confuso com toda essa história.
Ele não estava errado. Sam se sentou de volta no sofá.
Então o centauro começou a lhe contar uma velha história que logo lhe pareceu absurdo. No entanto, considerando tudo que ele havia passado até aquele momento, não era tão absurdo assim. Deuses mitológicos existiam e assim como contavam as histórias, eles ainda se relacionavam com humanos e tinham filhos, os semideuses. Todos os jovens naquela sala e naquele acampamento, até mesmo Kurt e Bela, as pessoas que despertaram com ele na lanchonete, eram semideuses – com exceção apenas de Rachel, que na verdade era uma espécie de Oráculo de Delfos, capaz de prever o futuro e fazer profecias. Jason, o louro de olhos azuis com sua espada dourada, era filho de Júpiter – a forma romana de Zeus, não que isso fizesse diferença para Sam. Piper era filha de Afrodite, a deusa do amor, e Annabeth era filha de Atena, a deusa da sabedoria.
Ele também explicou que existiam monstros mitológicos e que o Acampamento Meio-Sangue servia de abrigo e como um centro de treinamento para jovens semideuses. Assim eles poderiam treinar para enfrentar os monstros quando saíssem em “missões”. Quando Sam perguntou como ninguém mais via esses monstros lá fora se eles realmente existiam, Quíron explicou sobre algo chamado Névoa, que se tratava de um véu que separava o mundo mortal do mundo mágico. A Névoa agia criando uma realidade alternativa na mente humana de forma que os mortais pudessem lidar com o que viam sem que enlouquecessem com a verdade. A Névoa era tão poderosa que até mesmo semideuses podiam ser afetados por ela.
A expressão de Quíron ficou sombria.
– Existem alguns mortais que são capazes de ver através da Névoa...
– Como a Rachel – disse Annabeth impaciente. – Ou a mãe do Percy.
Sam não sabia se era apenas impressão, mas a loura parecia apreensiva sempre que mencionava o nome daquele menino, Percy.
– Alguns mortais enlouquecem – prosseguiu Quíron. – Pois simplesmente não conseguem lidar com o que veem. Outros tentam conviver com essas visões, como Rachel e Sally Jackson. No entanto, há outros, e acredito que esse seja o caso de Sam, que são capazes de ver os monstros através da Névoa e usam esse “dom” para o bem. Eles agem como as Caçadoras de Artémis, caçando monstros e consequentemente salvando pessoas, com a diferença de que não se tornam imortais e nem servem aos deuses.
– Salvar pessoas, caçar coisas, o negócio da família – disse Sam quase que automaticamente. As palavras surgiram em sua mente como um clique de uma luz sendo acesa. Foi uma lembrança vaga, apenas uma frase, mas o suficiente para ele saber que Quíron estava certo, embora não lembrasse totalmente. – Era o que eu e meu irmão fazíamos caçávamos coisas.
– Seu irmão? – perguntou Piper. – Achei que não se lembrasse de nada.
– E não lembro – afirmou Sam, emburrando-se. Era frustrante não conseguir se lembrar. – Mas de vez em quando tenho alguns fleches.
– Quíron, está dizendo que... Alguns mortais caçam monstros? – perguntou Annabeth como se aquela ideia fosse um absurdo completo. – Como é possível?
Antes que o centauro pudesse responder, algo sinistro aconteceu. O fogo na lareira parou de crepitar e a sala foi iluminada por uma luz esbranquiçada. Uma névoa densa e fria preencheu o lugar arrepiando todos os pelos de Sam. Ele sentiu vontade de fugir ou de ao menos ter algo com o que se defender, pois uma coisa era certa: ele estava em perigo. Ele conseguia sentir uma presença poderosa e intimidadora naquela sala.
Sam olhou a sua volta. Annabeth estava paralisada com a boca semiaberta como se fosse fazer mais uma pergunta, Jason estava de braços cruzados com a expressão distante e Piper parecia assustada. De frente para Sam, Quíron permanecia em sua cadeira de rodas com as mãos dobradas no colo, os olhos escuros como poços profundos. Nenhum deles estava se mexendo, nem se quer piscavam.
– Samuel Winchester – disse alguém. – É um desprazer revê-lo.
Ele se virou novamente para Annabeth, mas não era ela quem estava falando e sim Rachel. Os olhos da menina estavam completamente escuros, os cabelos esvoaçavam no ar como fumaça vermelha misturando-se a névoa que a envolvia da cabeça aos pés.
Sam levantou-se do sofá lentamente. Rachel ou o que quer que fosse aquilo, estava barrando a passagem, ele não tinha para onde ir. Ele não sabia se estava enxergando mal, mas parecia que havia duas, não, havia três Rachel. Sua forma tremeluzia conforme ela trocava o peso dos pés.
– Quem é você?
– Você não se lembra de mim – A voz dela ecoava como se viesse por um túnel e com certeza não era a voz de Rachel. – Está sem memórias. Bom, não importa, não tenho muito tempo.
Ela ergueu as mãos e duas tochas brilhantes surgiram iluminando ainda mais a sala, fazendo a névoa recuar para os cantos.
– Sou Hécate, deusa da magia. Fui eu quem solicitou sua ajuda, caçador. E como já disse, nós não temos muito tempo.
Sam a encarou. Aquela definitivamente não era Rachel. Os olhos escuros, a expressão vazia e o poder que irradiava dela confirmavam o que ela dissera. Embora não se lembrasse de já ter visto um deus de verdade antes, Sam sabia que ela era uma deusa. Isso só tornava as coisas ainda mais confusas.
– O que você quer? O que sabe sobre minhas memórias?
– Vamos pular as perguntas e ir direto ao assunto. Se quiser recuperar sua memória, faça o que precisa ser feito. Aceite a missão.
Sam franziu a testa, não gostando nenhum pouco daquela conversa.
– Do que está falando? Que missão?
– Em breve você entenderá – respondeu a deusa. – Esse é o único jeito de recuperar sua memória novamente, é o único jeito se quiser encontrar seu irmão.
Ele a encarou. Não confiava naquela deusa de jeito algum. Seus instintos gritavam que ela era inimiga, que ele deveria matá-la antes que ela o fizesse. Mas ele estava desarmado, indefeso. Se ela fosse tão poderosa quanto parecia ser, ele não teria a menor chance.
– Não somos seus inimigos, Sam Winchester – disse ela como se lesse sua mente. – Ao menos não por enquanto. Nós precisamos de vocês e vocês precisam de nós.
Ela sorriu e sua imagem tremeluziu em três Rachel novamente.
– Lembre-se disso. Nós nos veremos novamente em breve.
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