— Os viajantes do tempo

Era uma manhã fria de segunda feira no Reino de Órion. As semanas, assim como todo o mês anterior, foram calmas o bastante para os habitantes do reino se esquecerem que seu mundo era repleto de seres superpoderosos e que Órion, como a capital da Terra de Áries, era o maior alvo de invasores no planeta, muito embora fosse uma das mais prósperas nações do mundo e contasse com os guerreiros mais temidos. Algumas de suas cidades, vale mencionar, ainda estavam sendo reconstruídas após a última invasão.

Kin estava na frente do espelho do banheiro terminando de passar o brilho labial rosado quando a campainha lá de baixo tocou. Ela suspirou com pesar. Mari, com o seu sarcasmo habitual, gritaria "eu atendo, senhora" e logo em seguida tentaria assustá-la com alguma história inventada. Dois meses se passaram e a imensa dor de perdê-la, junto com o peso do fracasso, não diminuiu nem um pouco. Salvou tantas pessoas, angariou tantas vitórias, mas quando se tratou de proteger alguém que amava, falhou. Era como se tivesse perdido a mãe de novo.

Desceu as escadas forradas de carpete amarelo. Na sala, pegou a jaqueta negra que estava sobre o braço direito do sofá vermelho, vestiu-a sobre a camiseta rosa de alças finas que estava usando, ajeitou a saia azul clara e as botas e abriu a porta de madeira maciça da casa. Seu coração quase saltou por sua boca quando os seus olhos perceberam quem tocou a campainha. Arashi. Há meses não o via.

Ele estava tão diferente. Sempre foi bonito — e com isso praticamente todas as garotas do reino concordavam —, mas naquela manhã havia algo especial nele, uma coisa que só ressaltava suas qualidades físicas. Não eram seus cabelos, que apesar de mais compridos, estavam, das raízes às pontas, tão negros quanto sempre foram; também não era sua pele, acastanhada de nascimento, ou seus olhos, azuis tais como o céu ensolarado no amanhecer. Kin não sabia dizer por que ele não parecia o mesmo.

— Oi. — Ele a cumprimentou, meio sem jeito. — Sei que deve estar zangada por eu ter aceitado aquela missão sem falar nada com você, mas-

Ela pulou em cima dele, o abraçando com toda a força antes que ele terminasse de falar. Sentiu tanto sua falta que aquele abraço foi como beber água depois de passar dias perdida num deserto. Arashi sorriu e retribuiu o gesto. A recíproca era verdadeira. Se parou de pensar nela por um segundo enquanto esteve fora do reino, foi pelos dois dias que passou cem por cento inconsciente.

Algumas palavras trocadas depois, o casal saiu andando pela rua de braços dados. Seu destino era a praça mais próxima dali. Até lá, foram falando sobre tudo o que aconteceu nos meses em que não se viram. Ela, já que Órion viveu a mais absoluta paz, não tinha nada de interessante para contar, ele, contudo, falou de mil coisas, aos risos contou da surra que ganhou, da criança que ajudou, do edifício que literalmente sustentou nas costas. Mais um dia normal para um retalhador de elite.

A Praça da Liberdade era um grande ponto turístico do Reino de Órion. Um dos poucos lugares que não foi destruído na última batalha, a paisagem dela era tão brilhantemente verde quanto há vinte anos. Ela tinha belas árvores magras com pétalas cor de cereja, um lago no centro lotado de vida, de águas cristalinas e uma longa trilha de concreto em torno para que os visitantes evitassem pisar na grama.

Kin sentou-se no balanço e, quieta, ficou a admirá-lo. De pé, ele também não parava de olhá-la, de memorizar cada detalhe de seu arredondado rosto alvo, convidando-a para visitá-lo em seus sonhos. Sentiu tanto a falta do suave perfume de seus cabelos loiros encaracolados, da profundidade e da ternura de seus olhos castanhos escuros, que nem ele e nem o mais eloquente poeta seriam capazes de expressar.

— Posso te contar uma coisa? — O indagou, rompendo o silêncio de mútua contemplação. Ele assentiu. — Eu achei que você fosse voltar pro velório dela... Quando você não apareceu, eu fiquei com muita raiva. Fiquei com raiva de você por muito tempo. Eu me senti abandonada.

As palavras dela o deixaram reflexivo. Foi como pensou. A verdade era que foi um covarde. A culpa pelo assassinato de Mari o corroía como ácido por dentro, ele se sentia o responsável, então, para não ter de encarar Kin, aceitou a missão e ficou fora por meses. Estava tentando descobrir um jeito de abandonar a covardia e contar isso a ela.

Respirou fundo. Deu um beijo em sua testa, a abraçou e disse:

— Sinto muito. Agora estou aqui e prometo: você nunca mais vai se sentir abandonada por mim.

Estava prestes a contar tudo quando percebeu que estavam sendo observados — não em segredo e nem por pessoas que pareciam inimigas, mas por uma dupla de jovens que aparentava ter a sua idade, um garoto e uma garota. O garoto, loiro, sisudo, pouco expressivo, tinha olhos escuros misteriosos e uma pele agrisalhada que contrastava com eles. A menina, vaidosa dona de uma extensa cabeleira preta cacheada e rebelde, possuidora também de um bronzeado lhe pertencia por nascimento, era nitidamente mais desenvolta do que o acompanhante.

Os dois, principalmente a garota, pareciam abismados. Eles não paravam de encará-los. Kin, que havia se perdido na beleza do azul dos olhos de Arashi, virou-se para trás e os notou. Eles estavam do outro lado do lago, a vários metros de distância.

Kin acenou e perguntou:

— Posso ajudar?

A dupla tomou isso como aval para se aproximar. Arashi retirou uma mecha de cabelo da frente do olho de Kin e perguntou:

— Já viu algum deles?

Ela, com a cabeça, disse que não, mas a medida que os dois chegavam perto, Kin os achava mais e mais familiares. Sua mente começou a se cutucar, insistia em saber de onde os conhecia, mas não encontrava respostas. Eles dois eram muito parecidos com alguém cujo nome não parava de escapar de sua memória.

A garota, mais faladora, se apresentou:

— Eu me chamo Saori, ele é o Iori. Nós somos irmãos.

— Isso levanta mais perguntas do que responde, mas... — Kin saiu do balanço, apertou a mão dela e se apresentou: — Eu sou a Kin, ele é o Arashi. E nós não somos irmãos.

— Já sabemos disso. — Saori falou. Em resposta, com o olhar, seus ouvintes perguntaram como, ela levou uma cotovelada de Iori e se explicou: — Ah, é que a gente tava olhando vocês dois de longe, é isso!

Um silêncio irritante se seguiu. Arashi e Kin esperavam que eles dissessem o que queriam, mas os dois ainda estavam intrigados por estarem na presença deles e não conseguiam dizer nada. Os olhos de Saori encheram-se de água. Depois de reparar nela melhor, Kin concluiu que conhecia aquele vestido azul safira rodado de algum lugar. O mesmo valia para a camisa vermelha de mangas curtas e dois botões prateados que o garoto vestia.

Iori se cansou daquilo e tratou de inventar uma história:

— Nós viemos do Reino de Altair, estamos aqui para conhecer o Reino de Órion e comprar uma casa. Nos disseram para procurá-los.

Kin e Arashi trocaram olhares.

— Nos procurar? — Perguntou ela. Iori confirmou. — Mas nós não temos nada a ver com vendas de casa ou com turismo.

— Foi o que Hayate nos disse para fazer. — Retrucou Iori. Kin e Arashi pareceram ainda mais confusos. Iori deu a solução: — Deve ter havido algum engano. Só, por favor, nos mostrem o reino e o resto vemos depois.

Kin e Arashi não viram por que não, por algum motivo sabiam que podiam confiar nos dois, especialmente Kin. Embora fossem completos desconhecidos, eles provocaram nela um sentimento que ela nunca experimentou e que não sabia bem como descrever. Arashi estava mais curioso do que emocionalmente afetado. Foi andando com Kin na frente para, com sua audição super apurada, tentar ouvir o que eles diriam.

Os dois, porém, sabiam da super audição dele. Sabiam tudo sobre Kin e Arashi. Tudo. Sobretudo, cresceram ouvindo histórias sobre Arashi, que não chegaram a conhecer e que nem sequer sabia da existência deles. Iori levou um lenço no bolso da calça jeans azul porque sabia que Saori não aguentaria ficar perto dele um minuto sem chorar. Só o viram através de fotos e não podiam acreditar que estavam com ele.

Saori não conseguia conter o choro, Iori tentou confortá-la com um abraço. Kin e Arashi, alguns metros a frente, pararam onde estavam quando notaram que eles haviam parado e estranharam a choradeira dela. Você tem que parar de chorar, Iori repetia para ela, lembra que a nossa mãe disse que ele era um cara muito inteligente? Se você continuar assim, ele vai perceber tudo e aí nós estaremos perdidos.

— Eu sei, eu sei! Desculpa... — Saori respirou fundo, secou o rosto e engoliu o choro. — Pronto.

Kin foi até eles e lhes perguntou:

— Tá tudo bem?

Saori olhou para Arashi por cerca de vinte segundos antes de responder. Ele sorriu para ela. Saori abriu um sorriso que misturava alegria e tristeza e respondeu:

— Tá, tá, sim! É que eu sou muito chorona, tô um pouco triste pela destruição do Reino de Órion, mas vamos continuar!

A caminhada prosseguiu. Durante toda ela, Saori e Iori não paravam de olhar Arashi. Kin o cheirou para ver se ele estava fedendo, verificou suas costas para saber se ele estava sujo e não achou nada que justificasse aquilo. Pensou na hipótese dos dois serem retalhadores infiltrados para matá-los quando estivessem de guarda baixa. Foi a que levou a sério. Ele concordou em realizar uma abordagem mais dura para obter respostas.

Então Kin, num gesto imprevisível, rendeu Iori com a espada de luz que tinha o poder de materializar do nada e o jogou contra a parede.

— Quem são vocês!? — Exclamou, em tom de ameaça.

Com uma calma que Kin só presenciara em Arashi, Iori respondeu:

— Eu já disse. Somos do Reino de Altair e estamos aqui para comprar casas.

— Alguma coisa me diz que você está mentindo. Podem chamar de intuição. — Disse Arashi. Desconfiado, ele chegou mais perto e completou: — E quando sigo minha intuição, eu não costumo errar.

A dupla trocou olhares. Eles não viam saída a não ser dizer a verdade. Quando Saori estava a ponto de abrir o jogo, entretanto, o estrondo de um trovão junto com o azul que tomou os céus roubou suas atenções. Havia um homem sobre o terraço da casa ao lado. Um homem de terno e gravata. Terno preto, gravata vermelha, camisa social branca, calça e sapatos sociais negros. Pálido a ponto de irritar as vistas de um observador, sua figura era esguia, sinistra e cada detalhe de sua aparência parecia feito para instilar temor em quem o via.

Kin até se esqueceu que estava ameaçando Iori, largou a espada no chão, se afastou dele e olhou espantada para aquele homem. Não pode ser. Contudo, seu espanto não era solitário. Arashi estava tão atônito quanto ela, ele não pode estar vivo, pensava, como se estivesse diante de uma assombração. O homem enfiou as mãos nos bolsos, saltou de onde estava e caiu a dez metros de distância deles, que permaneciam estáticos, estupefatos com os olhos sobre sua figura.

Antes com a mais pura expressão de tédio, o sujeito sorriu repentinamente e uma felicidade estranha brilhou em seus olhos cor de sangue. Saori e Iori, confusos, se entreolhavam. Havia alguma coisa errada. Se aquele era mesmo Santsuki, os dois não deveriam estar ali. Devem ter cometido algum erro ao calibrar a data da viagem e, dependendo da época em que caíram, estavam com sérios problemas.

— Como você ainda está vivo...?! — Atemorizada, Kin perguntou.

Santsuki se espreguiçou, coçou a orelha direita e respondeu:

— Essa é uma loooonga história. Vamos deixar para depois, eu tenho uma proposta mais interessante. Vão lá contar para o Hayate que eu estou vivo e depois me encontrem nesse endereço aqui.

Ele jogou uma bolinha de papel neles. Kin pegou, Arashi desembrulhou e leu o endereço. Quando iam lhe perguntar o que ele queria deles, o desgraçado já havia sumido. Iori e Saori viram nisso a desculpa perfeita para estarem ali e irem com eles atrás de Santsuki, o infeliz era um velho inimigo não só de sua mãe, mas também de sua avó. Conta-se que, no passado, ele provocou a maior guerra da história da Via Láctea e que, por culpa dele, a galáxia inteira junto com seus habitantes quase foi reduzida a pó.

Os irmãos contaram algumas coisas para o casal a fim de fazê-los confiar neles, informações secretas sobre Santsuki, coisas que, de fato, só aliados sabiam. Os quatro foram direto para o gabinete de Hayate e contaram sobre o retorno do engravatado. Em sua pequena sala de pisos avermelhados, teto amarelo canário, paredes rubras, com quase metade do espaço ocupada pela grande mesa marrom atrás da qual se sentava, Hayate, com seu terno cinza escuro e sua camisa social azul clara os ouvia preocupado e atento.

Ele nunca acreditou que o facínora estivesse morto, então digeriu a notícia com mais facilidade. Gostaria de encontrá-lo pessoalmente mas não podia abandonar seu reino em um momento tão difícil quanto o que estava passando. Seu rosto pardo foi castigado por uma palidez repentina, seus olhos castanhos claros repudiavam a decisão que ele estava para tomar. Ele passou a mão pelos cabelos já penteados para trás e disse:

— Não vão só os quatro, reúnam o máximo de gente que conseguirem.

Arashi, que achou sua decisão um absurdo, expressou sua opinião:

— Tá de brincadeira? É do Santsuki que estamos falando, isso é assunto intergalático!

Até Kin ficou espantada com o modo como ele falou, Arashi nunca foi de desrespeitar as autoridades, muito menos Hayate, que era como um irmão mais velho para eles.

— Eu estou trabalhando com o que tenho, Arashi. Nós não podemos transformar isso num assunto intergalático, porque o Kaira também ainda está por aí e se ele souber que o Santsuki não morreu, vai começar outra guerra! — Argumentou Hayate, não fazendo a menor questão de esconder quão estressado estava. — E se você discorda dos meus métodos, pode voltar para casa, só não me obrigue a tolerar a sua insolência!

Todos saíram calados. Kin achou melhor dividirem-se em duplas: ela iria para academia com Iori chamar Haru e Naomi, Arashi iria com Saori até a casa de Yue e depois passariam na casa de Sora para chamá-lo também. Felizmente, Yue não morava muito longe dali, portanto levariam cerca de vinte minutos para chegar na casa dela. Saori, por alguma razão, estava tão emocionada que eles foram o caminho todo quietos.

A jovem agia como se estivesse ao lado de um santo, de um deus, não ousava se colocar sob a sombra dele e, sempre que ele reparava que ela o estava olhando, ela rapidamente desviava o olhar. Arashi, que já não era muito de conversar, aproveitou a falta de assunto dela para ir o caminho todo com as mãos dentro dos bolsos da jaqueta jeans e a boca fechada. Mas algo em seu interior o incomodava o tempo todo, dizia-lhe para puxar conversa com ela.

Enfim chegaram à casa de Yue, uma humilde residência de fachada cinza, teto vermelho, duas janelas, pátio, porta e assoalho compostos de madeira. O quintal não era protegido por muros, uma trilha de mármore dividia o solo da entrada e os lados eram tomados por árvores, arbustos e grama. Sempre seguido de Saori, Arashi foi até a porta e tocou a campainha. Sabendo que Yue demoraria para atender, Arashi admirou o gramado em volta.

— Eu acho que o Hayate foi um pouco injusto com você lá em cima. — Saori quebrou o silêncio.

Arashi riu.

— Não, eu mereci. Fui desrespeitoso. — Ele defendeu Hayate.

— Só tava pensando na segurança da sua esposa. — Saori deixou escapar. Ele, que nunca deixava detalhes tão gritantes escaparem, a olhou como se perguntasse "Hã?". Ela se corrigiu: — Digo, sua namorada.

— Sim, mas na verdade eu tô com raiva de mim mesmo e tentei descontar nele. — Afirmou, pensativo. — Além disso, não sei se Kin vai querer continuar sendo minha namorada depois que eu disser o que fiz.

Saori, imaginando mil coisas, esbravejou histericamente:

— Você traiu a minha... q-quero dizer, a sua namorada!?

Arashi a olhou como se encarasse uma alienígena.

— Claro que não! — Retrucou. Achando que seria mais fácil contar para Kin depois de desabafar com alguém, hesitou, mas se abriu com Saori: — Eu não estive com ela no velório da melhor amiga dela porque falhei em salvar a Mari e não conseguia encará-la. Eu aceitei a missão para ficar fora e não ter que... enfim, eu fui um covarde. Fracassei com ela duas vezes. Eu também deixei que ela acreditasse que eu não podia dizer "não" para a missão e agora não consigo contar a verdade. Eu acho que ela não vai me perdoar.

Saori pôs a mão no ombro dele e o aconselhou:

— Seja sincero, vai ser o melhor pra vocês. E não se preocupe com o perdão, ela vai entender. Você não tem noção do quanto ela te ama... q-qualquer u-um vê isso!

Yue finalmente abriu a porta. Magra, um e setenta de altura, olhos castanhos, branca, ela era uma menina muito simples e gentil — menos quando se tratava de seus cabelos, lisos como os de um índio, tão curtos que não tocavam seus ombros e dos quais ela vivia trocando a cor das pontas, hoje loiras, mas que das raízes à maior parte, em dez anos, só mudaram do roxo para o azul claro. Seu estilo de vestimentas se mantinha na camisa de alças finas, hoje verde, na saia, hoje branca, e nos chinelos de dedo brancos — esses eram sempre os mesmos.

Ela não parecia, mas era muito forte e habilidosa em batalha. Quando olhou para Saori, sua primeira reação foi abraçá-la e perguntar:

— Shiori, tem tanto tempo que não te vejo! O que faz aqui em Órion?

— Essa não é a Shiori. — Arashi a informou, então ela, sem graça e confusa, se afastou de Saori. — Ela se chama Saori e está aqui para nos ajudar numa coisa. Você a achou tão parecida assim com a minha irmã?

— Idêntica! E com você também! — Revelou, fazendo-o reparar melhor nela. — Exceto pelo cabelo, que lembra muito mais o da Kin... Se vocês fossem vinte anos mais velhos, eu acharia que ela é sua filha!

OOh. Saori, numa fria da qual precisava sair, olhou para o relógio invisível do pulso e disse:

— Temos que chamar logo o Sora, meu irmão e minha... Kin estão em perigo, eu sinto isso!

Eles levaram a sério o aviso dela e foram. Encontraram com Sora, o asiático sarcástico e politicamente incorreto da equipe, foram para a casa de Kin e não encontraram ninguém lá. Passaram na casa de Naomi e o resultado foi o mesmo. Deduziram que os três já haviam ido para o endereço e seguiram para lá, descobrindo que ele dava num lugar próximo da praia localizada além das fronteiras do Reino de Órion.

Lá, na beirada do oceano, nas alturas, Santsuki se divertia fazendo Kin, Haru e Naomi enfrentarem seus seguidores. Haru lidava com o gigante Asa, Kin, bem longe dele, lutava com Keitaro e Misuna sozinha, Naomi confrontava o veloz Sachiro. Saori imprudentemente chegou procurando Iori e, ao notá-la, Santsuki avançou em sua direção. Quando, porém, ele ia pôr as mãos nela, Iori surgiu e se colocou entre eles.

O vilão viu em seus olhos duas coisas que muito respeitava em retalhadores: coragem e sede assassina gritante, retirou as mãos dos bolsos da calça e o convidou para o combate. Tem início uma troca de socos em que surpreendentemente Santsuki foi forçado a ficar na defensiva, surpreendente até para ele próprio. Iori desferia cerca um milhão de socos por segundo, algo que Santsuki só tinha visto uma pessoa fazer.

Para testar aquele jovem, Santsuki aumentou o nível de força e velocidade de seus golpes; desferiu um chute alto, o qual Iori bloqueou com o braço direito, atacou com dois diretos, Iori esquivou-se de ambos e contra-atacou com um gancho. Santsuki, para escapar, foi forçado a deitar o corpo para trás, dar uma cambalhota e, ao retornar, atacou com o máximo de força que tinha disponível, um soco tão forte que não só fez o oceano inteiro recuar, como se fez sentir por todo o sistema solar.

Imagine seu espanto quando Iori bloqueou seu soco. Embasbacado, o moreno de terno desferiu vários outros, um tão forte quanto o primeiro, mas Iori conseguia pegar todos com as mãos. Após tratá-lo como uma criança, Iori o esmurrou no rosto, mas levou também um soco na cara e foi eletrocutado. Caiu encostado no joelho e rendido pela lâmina do vilão, que em tom de admiração e sussurro, lhe fez duas perguntas:

— Você não é desse mundo, é? Quem é você?

O garoto deu um tapa na espada que ele punha em seu queixo e girou chutando-o, Santsuki, para se proteger, usou os braços e recuou com os olhos nele. De repente, o perdeu de vista. Cauteloso, o procurou. Olhou para o lado e conteve o soco do loirinho pouco antes de levar um direto na cara. Ao sentir a força do ataque, percebeu com muito choque que se tivesse sido atingido, provavelmente estaria nocauteado. Afastou o garoto com um empurrão, deu-lhe um pisão no peito, girou e o chutou no rosto, derrubando-o. Em seguida, sumiu.

Iori, de pé com a ajuda de Saori, procurou por Santsuki. Os dois perguntaram-se se aquilo deveria ter acontecido, tinham medo de ter mudado algo no futuro.

Após raptar Keitaro e Misuna, o vilão de terno também parou para trocar algumas palavras com Yue, Arashi e Kin. Ele flutuava vinte metros acima de suas cabeças, era um costume seu pairar sobre seus oponentes para olhá-los do alto e demonstrar superioridade, só aterrissava quando realmente reconhecia um igual no retalhador que encarava. Poucas vezes na vida reconheceu um igual.

Aquilo estava tirando Arashi do sério. Só o fato de ele estar vivo o tirava do sério.

— Agora você vai colocar o rabinho entre as pernas e fugir?! — Arashi tentou provocá-lo. Estava diante do homem que matou seus pais e destruiu o seu vilarejo, seu coração borbulhava de ódio, seus punhos tremiam de fúria.

— É... tecnicamente, sim. Eu só vim mesmo pra saber o que eu perdi nesse tempo que fiquei fora. — Retrucou o facínora. No meio de um demorado bocejo, prometeu: — Mas é temporário, eu vou voltar rapidinho, vocês não vão nem sentir saudades. É sério, tô começando a achar que sofro de narcolepsia, como é o nome do médico que cuida disso? Seria "narcocientista"? Tô pensando em procurar um. Ah, esqueci que vocês me odeiam. Bom, até a próxima!

Ele desapareceu sem deixar rastros. O que inquietava Kin e Arashi era saber que aquele miserável não dava ponto sem nó, ele, com certeza, não armou aquele circo todo só para ir embora, quando dava as caras, Santsuki gostava de deixar o universo inteiro ciente de que ele deu as caras. Ele, entre outras coisas, foi o responsável pela divisão da Via Láctea em quadrante Alfa e Beta, não podiam esperar tão pouco dele.

Mais tarde, os rapazes de terno e gravata, as garotas de vestido negro, todos os oito foram ao cemitério visitar o túmulo de Mari. Arashi queria reparar o erro que cometeu, ter se deixado levar pelo medo e pela dor do fracasso o impediu de estar com a garota que amava num dos momentos mais difíceis da vida dela. Foi fraco. Egoísta. A culpa o fez pensar que aquilo era sobre ele — nunca esteve tão distante da realidade.

O cemitério onde enterraram a querida Mari tinha o chão repleto de grama, grama brilhante, bem cuidada, diariamente lavada. A lápide dela era branca, em cima dizia seu nome completo, no meio seu ano de nascimento e o de morte e, em baixo, foram gravados os dizeres "Amiga, irmã, mãe, amada por quem a conheceu". Arashi também lhe devia muito. Ela o ajudou de muitos modos, foi muito importante para ele também.

Ele deixou uma humilde rosa solitária na frente da lápide e disse:

— Adeus, Mari.

Iori e Saori decidiram ficar um pouco afastados, olhavam-nos do lado de fora do cercado. Com a cabeça encostada no ombro do irmão, Saori marcava na memória cada gesto de Arashi, do mais ínfimo erguer de sobrancelhas ao mais forte abraço que ele dava em Kin. Queria coletar todos os traços que conseguisse da personalidade dele para nunca mais esquecê-lo.

Enquanto Yue homenageava a finada, Arashi beijou a boca de Kin, a pegou pelas mãos e disse:

— Eu tenho que te contar uma coisa. O verdadeiro motivo de eu não ter voltado...

Ele, enfim, pôs tudo para fora. Saori, percebendo que tinha razão quando disse que ela o entenderia e perdoaria, sorriu e se emocionou, deixou um rio de lágrimas rolar. Seu irmão a abraçou, aninhou com mais carinho o rosto dela em seu ombro e alisou seus cabelos com as mãos. Arashi pediu licença a Kin e foi até eles. Sentia que devia aos dois alguns segundos a sós com eles e, se lhe perguntassem, não saberia explicar essa necessidade.

Sempre sorrindo, Arashi abriu a porta do cercado de ferro e parou frente aos dois.

— Você estava certa, ela me perdoou. Obrigado. Sem seu conselho, acho que eu não teria tido coragem de contar.

Saori sorriu, o olhou nos olhos, assentiu com a cabeça e o questionou:

— Como se sente?

Arashi pensou por alguns segundos. Olhou para os lados, para o céu e para os amigos reflexivo, então respondeu:

— Feliz, pela primeira vez.

Iori notou certa estranheza na fala dele:

— Você parece incerto.

Arashi o olhou e se explicou:

— É que não é um sentimento muito familiar, filho.

Os dois quase caíram para trás quando o escutaram, ficaram boquiabertos. Ele não parava de sorrir. Acharam que podiam me enganar.

— Então você... esse tempo todo... — Saori não conseguia nem falar.

Arashi chegou mais perto dos dois, pôs a mão no ombro deles e falou:

— Ouçam, eu não sei com certeza o que acontece comigo no futuro, mas sei que só existe um meio de me separar de vocês. Eu não os conheço muito bem, mas sinto muito orgulho dos dois e sempre estarei ao seu lado.

Saori desabou em prantos. Mesmo Iori, conhecido pelo grande controle que tinha das emoções, não conseguiu contê-las e chorou feito um garotinho. Para esconder, junto com a irmã, se atirou ao ombro de Arashi. Estavam ali por ele. O retalhador, sorridente, os abraçava e passava as mãos em suas costas. Sussurrou um cuidem um do outro, deu um beijo na testa deles e, quando notou a aproximação de Kin, completou: cuidem da mãe de vocês também.

A loira estranhou tantos abraços e lágrimas, então, em tom brincalhão, perguntou:

— Quanto amor! Posso participar também?

Eles correram até ela e inadvertidamente a abraçaram. Mesmo surpresa, Kin retribuiu. Seja forte, Saori falou ao seu ouvido, você vai precisar. Mas nunca vai estar sozinha. Kin franziu o cenho. Ficou ainda mais confusa. Arashi deixou o braço em torno dos ombros dela quando os dois se afastaram. Ao não ver um só traço de confusão no rosto de seu namorado, ela olhou para baixo tentando, sozinha, entender o que estava rolando.

— Até uma próxima. — Disseram os gêmeos, antes de lhes darem as costas e saírem andando.

O casal, parado onde estava, olhou-os ir. A feição de Arashi guardava um pouco de melancolia, mas a felicidade e o orgulho a sobrepujavam.

Para tentar minimizar a confusão da loira, ele lhe disse:

— Ah, muda essa cara, você ainda vai vê-los de novo e vai poder perguntar o que quiser.

Ele não precisava falar, Kin, de algum modo, sabia que os veria de novo. O que não saía de sua cabeça era o conselho da garota. Tentou vê-lo como uma ameaça, não deu. Por mais que tentasse, não enxergava maldade alguma em nenhum dos dois. Menos ainda em Saori. Enquanto esteve com Iori, ele não lhe disse uma só palavra, parecia até mudo, apesar de, em alguns momentos, obedecer muito prontamente o que lhe dizia para fazer. Resolveu que era melhor ignorar e aproveitar aquele instante com seus amigos.

Fim.

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