Os Verdes, Os Negros e o Dourado...
1 O Dia que Não Foi Comum...
Notas iniciais
Seus braços estavam doloridos, e sentira mais um calo em sua mão estourar. Pelo menos aquele havia estourado sozinho, ou com o esfregão, vai saber. Bem, melhor estourar sozinho do que você mesmo o fazer.
Já esfregava aquele lugar há horas, mas a mancha não saía de jeito nenhum. Também, era por isso que o nome da fortaleza era Fortaleza Vermelha. As pedras em tom carmesim esfregavam no seu rosto que ele nunca iria deixar aquele piso marrom, pareciam rir dele. Sempre fora maníaco por limpeza, o que era irônico, devido ao lugar em que nascera. Sua mãe, Maegyr, o fazia limpar todos os dias o chão do bordel até ele conseguir trocar o piso de madeira coberto de sêmen pelo piso de rochas acaju do castelo.
E o pior de tudo era trabalhar sete dias seguidos. Aquilo era era exigir demais de sua paciência, mas era melhor do que trabalhar no bordel. O silêncio no castelo era palpável, absurdamente insólito. Tão pouca gente trabalhando naquele dia. Fosse por loucura ou preguiça, ninguém aguentava mais trabalhar a menos de dois cômodos de distância dos aposentos reais. O cheiro pútrido fazia qualquer um ficar enjoado; até mesmo ele, que nascera na Baixada das Pulgas, estava incomodado com aquilo. O cheiro de excremento nas latrinas que ia limpar depois do chão estava parecendo algo melhor que aquilo que sentia. Ninguém especulava sobre o que causava tudo aquilo, e os que sussurravam sobre isso, acabavam o fazendo com os mortos, por isso ele mesmo tentava evitar o assunto. Quanto menos falasse com aquele povo, melhor, para sua integridade mental e física.
O chão reluzia em seu brilho rubro, o que era o máximo que ele conseguia fazer. Feito isso, sua dispensa daquele dia se mostrava inabalável. Deixou seus companheiros esfregão e balde bem guardados e secos e rumou para casa.
O crepúsculo anunciava um banho, e com ele, começava a noite. Hoje ele teria uma tarefa “especial”, e especial para ele significava rentável. Como poucas pessoas trabalhavam à noite, ele ganharia mais por isso. Seria bom visitar pelo menos um bordel diferente da sua própria casa.
A lua dava seu tímido olhar quando ele chegou ao Árvore Entre as Encostas, para tomar seu banho sagrado e se refrescar. Depois de passar por vários quartos, subir as escadas, passar por bêbados e gemidos nada discretos, pôde chegar ao seu amado quarto. Após um longo dia, nem os Sete eram mais sagrados para ele do que um balde, um pano e um pouco de água quente. Só se contentou quando havia se passado mais de meia hora de muita água, nenhum cheiro e muitos gemidos que ultrapassavam as paredes de madeira fina. Deitou-se em sua esteira, sentia saudade até das pulgas.
Mais uns anos. – pensou. – Só mais uns anos, e poderei sair deste lugar.
Virou a cabeça pro lado e observou, desgastado. Havia poucas coisas para se olhar. Uma mesa improvisada e bem lascada, um banco feito do tronco de uma árvore, algumas velas em um pote de cobre, feitas de uma cera vagabunda e fétida, ainda desconfiava da procedência daquela cera; sua velha conhecida vassoura escorada em um armário tão antigo que ele nem se lembrava de como ele fora parar lá, e o céu encarando-o pela janela. Ele ouvia a Lua dizendo para ele se levantar, que a noite já começara e que ele tinha que estar no castelo.
É mais dinheiro para sair daqui, vamos, levante-se. – sua consciência gritava. E ele tinha que lhe dar a devida atenção.
Içou-se com uma dificuldade tão grande que achou que a esteira emendara os galhos secos nele, pegou uma roupa limpa, porém leve e gasta pra começar no batente de novo e foi-se. As latrinas tinham um encontro com ele, e ficariam furiosas se ele faltasse.
Ao caminhar pela Baixada das Pulgas viu o significado da palavra monotonia. As mesmas pessoas vazias, aquelas conversas sem conteúdo. Um bêbado jogado em um beco, mais um pra estatística de gargantas cortadas na próxima manhã. Uma prostituta guardando a saída e procurando ganhar a noite, o que era difícil naquele lugar. Se prostituir como meio de vida em um ambiente daqueles era como ter uma barraca de tomates num tomateiro. Ninguém pagaria pra ter algo que com um pouquinho mais de esforço poderia conseguir de graça.
Seguiu seu caminho com seus passos automáticos, sua vista nublada com seu pensamento longínquo não o deixava ver o que havia à sua frente enquanto andava, ela estava fixada em um lugar onde poderia descansar e dormir. Só percebeu que estava perto quando sentiu o cheiro, os utensílios diários que usava estavam no lugar em que os deixara quando saiu.
Acabou o dia, começa a noite.
Pegou seus fiéis companheiros e rumou para a área tão cheirosa, já bem conhecida por ele. Caminhando junto à sua sombra, reparando já nas marcas de sandálias e botas de alguns que passaram ali. E a única coisa que sua mente traiçoeira teimava em lhe pontuar era:
— Não se preocupe, Sorion, amanhã terá mais pra você limpar.
Sorriu desgostoso com o pensamento, mas era o ciclo vicioso em que vivia.
Finalmente chegou e já pegava o esfregão. Quanto mais cedo começasse, mais cedo terminaria.
Movimentos repetitivos e cansativos, enquanto sua mente divagava. Ele os fazia com a ilusão de terminar mais rápido, como pessoas esperançosas esperando o sino badalar, como cachorro esperando as sobras.
Molhar na água, ir pro chão, molhar na água, ir pro chão, molhar na água, ir pro chão…
Os minutos se arrastavam longamente, e quando ele desistia de contar até parecia que passava um segundo, mas só talvez. Via as estrelas ao longe, a lua, alguns conhecidos andando no castelo. E ele já tão sujo e molhado de suor que se misturava com a cor da parede, ou seria a luz? Não sabia mais. Estava com fome e sede, mas não era hora pra isso. Contava as vezes que completava um ciclo e ia encher o balde. E se repetia mais uma vez, e mais uma…
Quando a lua já havia se escondido e a Hora do Lobo se aproximava, ele já havia terminado de limpar tudo e mais um pouco. Ambos os antebraços queimando, mas tudo feito. Seria bem recompensado, sem dúvida. Pegou suas ferramentas e se arrastou pro lugar em que iria guardá-las, deixou o esfregão encostado sem resquícios de água junto ao balde e se encaminhou para sua esteira de descanso. Passos automáticos o levavam para sua amada ao lado dos outros servos quando mãos enluvadas agarraram sua blusa empapada e o jogaram aposento adentro.
Breu se fez presente em sua visão sonolenta, mas logo uma chama tremulante iluminou o ambiente. Era um depósito de materiais de limpeza. Baldes, trapos e vassouras estavam pendurados por toda parte, cabos estilhaçados e alças de metal quebrada se espalhavam pelo chão, até correntes enferrujadas havia jogadas em um canto. Parecia mais um depósito de lixo do que de materiais propriamente ditos. E na sua frente, ou sua visão era uma puta de uma ilusionista, ou ali estava, de gibão aveludado e botas silenciosas, Sor Steffon Darklyn.
— Que algum servo me acorde, porque foi difícil demais arranjar este serviço.
— Escute bem e afaste esse sono, pois eu tenho um trabalho importante para lhe designar. Dá conta de mais um serviço esta noite, Sorion?
Ou ele estava com muito sono ou Sor Steffon precisava mesmo de algo. Mesmo com um sono terrível, respondeu-lhe de maneira polida, curvando as sobrancelhas e um sorriso de canto despontando em seu rosto.
— O que estiver ao meu alcance, senhor.
— Bem, preciso explicar-lhe antes. Percebo em você a sua discrição, e por isso recorro a você. Eu faria as coisas sozinho, mas há muito mais ratos neste palácio do que imagina, por isso o procuro, meu rapaz. Tenho a tristeza de lhe informar que…–
— Que Vossa Majestade, o rei Viserys, morreu? Não é novidade pra mim, senhor. – e mais uma vez sua língua cortante se fazia presente, mas não podia evitar, estava com sono. Se irritava e não raciocinava com clareza quando estava há tanto tempo sem sua amada.
— A esperteza e a peculiaridade que vi em seus olhos não mentem. Sim, o rei está morto, há sete dias pra ser mais exato. A reunião sobre como as coisas vão prosseguir de hoje em diante não me deixa escolhas muito boas, e receio que terei de apelar para atitudes mais… Drásticas, por falta de palavra melhor.
Não era nenhuma novidade a tal reunião. As marcas de botas no salão eram esfregadas por Sorion todos os dias, e nem sempre haviam tantas. É claro que ele sabia que algo urgente acontecera, e não parecia algo bom, pois eles entravam com expressão de quem comeu palha e saiam como se a tivessem regurgitado. Enquanto o Darklyn tagarelava, Sorion bebia suas palavras e arrancava informações de suas entrelinhas.
—… e então aquela maldita gárgula do Cole cortou a garganta do homem por ser a favor de nossa legítima rainha, bem em cima da mesa de mapas. Era a vontade de Viserys, nosso amado rei. E o homem o assassina por ser a favor disso! Maldito Cole!
Suas faces estavam rubras de raiva, e saliva respingava de suas palavras venenosas. O homem estava possesso.
— … e Aegon, ao invés de rebatê-lo e reconhecer Rhaenyra, se manteve calado e se absteve. Não o condeno, sempre quis o apoio do pai. Mas o próprio sempre teve amor incondicional pela princesa, e quem não teria? Rhaenyra é forte e determinada, brilhante como o pôr do sol, enquanto Aegon é como o sol da manhã… Nada belo e frágil como madeira seca.
Suas palavras eram fervorosas, Sorion percebeu, quase como amor contido. Pena que Sorion se desligava facilmente e perdia partes do quase monólogo do homem.
— … e é aí que você entra, rapaz. – a vela de “esperte-se” acendeu-se na cabeça de Sorion, ele se aprumou e ouviu com atenção.– Tenho mais besouros em minhas roupas escutando minhas palavras do que gostaria. Você fará a limpeza dos aposentos reais como em qualquer dia normal, mas roubará a coroa e me ajudará a fugir. Tenho um dracar me esperando. Você ficará aqui e me dará informações privilegiadas. Ambos sabemos que você quer e precisa de dinheiro, a ambição grita em seu semblante. Você irá me ajudar.
Não era uma pergunta, percebeu. Era quase cômico ele dizer que a ambição brilhava em seus olhos, sendo que Sor Steffon estava com as pupilas dilatadas de expectativa. Sorion quase gargalhou, quase.
— E por que eu ajudaria você? Eu não tenho motivos pra fazer isso. Pode custar meu pescoço. – riu pelo nariz discretamente. Ele já sabia o que viria a seguir. Esperava há anos por isso.
— Nem por duzentos dragões de ouro? – disse o outro homem com austeridade.
— Quinhentos. Nada mais, nada menos. E caso algo dê errado aqui, eu quero abrigo em Pedra do Dragão. É onde Rhaenyra está agora, não é? – seu sorriso de canto de boca estava estampado lindamente em seu rosto como nunca antes.
— Como sabe disso, garoto? – havia profundo assombro nos olhos do Darklyn ao indagá-lo.
— Bordéis têm mais ouvidos do que imagina, principalmente quando eles são bem frequentados. A sua preferida é a ruiva, não é?
— Já chega. – disse Darklyn, assombrado. – Aceitará minha proposta ou não? – a adaga dele reluzia na bainha com uma mão enluvada pousada sobre ela.
— Como quiser… Sor. Estou ao dispor da verdadeira rainha. – Sorion não era tolo de recusar e morrer naquela sala. E era uma boa proposta.
— Ótimo. Já sabe o que fazer. Quando esta vela se apagar você sairá daqui e pegará seus utensílios novamente, irá para os aposentos do rei, pegará a coroa e voltará aqui. Você tem pouco tempo.
E a chama se apagou com Sor Steffon o jogando pra fora da sala. Se recompôs e fez como mandado, pegou seus conhecidos e foi para os aposentos reais, quase desmaiando de sono e enjôo quando entrou. O cheiro estava insuportável. Deu uma longa olhada no falecido rei, a aparência esverdeada, as antigas bolsas nos olhos estavam parecendo duas covas, com órbitas fundas. Nem lhe fizeram o favor de abaixar suas pálpebras e esconder os olhos amarelados e desfocados. Sorion o fez pelos outros. Sempre fazia o trabalho sujo.
E próximo aos braços do rei, em uma espécie de mesa, estava a coroa. Como reis aguentavam ficar com aquilo? Não parecia nada confortável. Pôs suas mãos nela, sentiu o peso, certamente não era confortável. Jogou-a sem cerimônia na água suja e saiu antes que vomitasse no piso que ele mesmo teria que limpar.
Com seus passos bem mais pesados em seu peito e uma ansiedade longa, Sorion voltou à sala onde Sor Steffon se encontrava, os passos ressoavam e parecia a ele que faziam mais barulho do que se andasse com sapatos de ferro. Deu de cara com alguns criados perambulando, mas nenhum obstáculo em si. Não acreditava em sua falta de azar, porque sorte ele nunca tivera.
Chegar à bendita sala parecia haver demorado horas, ele não acreditava que não tinha tido encontrado nem um ínfimo obstáculo. Parecia até fácil.
Entrou na sala com o maldito homem colocando a adaga no seu pescoço, saudando-o educadamente.
— Olá pra você também.
— Ah, é você, rapaz. Está vivo pelo menos. – disse ele, retirando a adaga do seu pescoço.
— Aqui está. – Tirou a coroa da água suja do balde.
— Ótimo trabalho, rapaz. Me dê.
— Não, não, não, não, não. – disse estalando a língua nos dentes. – Não até ver meus adoráveis dragões. Acho que tenho uma porcentagem de sangue Targaryen, sabe. Gosto tanto deles, com suas caudas douradas e seu bafo quente me tirando da miséria…
— Tudo bem. Venha comigo e lhe darei seus malditos dragões. — disse, resignado.
— Você na frente, os mais bem-sucedidos primeiro. – Sorion sentenciou, cauteloso.
Entraram na passagem atrás da tapeçaria ao lado da porta e seguiram caminho. Depois de muito caminhando chegaram a uma sala apertada, pouco iluminada e mal-cheirosa. Entraram e havia poucas coisas ali. O homem entrou primeiro e logo pegou uma sacola e a jogou em seu colo.
— Aqui está, rapaz. Saiba aproveitar bem.
— Ótimo. E não se esqueça, na hora que bem entender saio daqui para lá se algo der errado.
— Obrigado pela informação. Agora eu preciso ir, não demorará muito até perceberem o que aconteceu. Olhos abertos, garoto. – ele disse estendendo a mão. Pedindo implicitamente a coroa. Sorion a estendeu de bom grado com o ouro em seu colo.
Assim que deu a coroa ao homem ele desapareceu porta afora. Sorion também foi deixando aquela sala para trás. Seguiu pelo mesmo caminho que veio, tentando lembrar o rumo certo. Graças aos Sete saiu ao lado da mesma porta. Sorion foi ao seu depósito costumeiro e deixou os companheiros encostados na parede depois de esvaziar o balde. A sacola ele fizera questão de deixar dentro de um tijolo solto na parede, com um risco em formato de S assinalado com a corrente gasta no canto.
Já deitado em sua amada, ele pode sonhar com o que teria que fazer dali em diante.
Acordou com a anunciação de Aegon como rei. Ele teria realmente muito o que ver e ouvir.
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