Os Três Amores Da Minha Vida
2 Bem vinda à Korean School For Gifted
Notas iniciais
*despertador*
_ Bom dia! Ana?! – disse ommá com a cabeça entre a porta entreaberta.
_ Hm... que dia... hoje é...
_ Hoje é o primeiro dia de aula. – ela disse aproximando-se da cama e pondo a mão sobre minha testa. – Ontem quando seu pai e eu chegamos, Kiseop nos disse que havia desmaiado de fome. Você passou o dia sem comer?
_ Acho que até me esqueci de comer. – disse, recuperando a memória aos poucos do que havia acontecido na noite anterior.
_ Pois então, não pode! Kiseop parecia preocupado, disse que saiu do banho e estava desmaiada. Devia-mos levá-la ao médico?
_ Não! Não precisa! Me sinto mais forte hoje.
_ Ok, então estamos esperando você para o café daqui a 15 minutos. – disse a senhora Lee caminhando até a porta.
Levantei-me e tomei uma ducha fria e rápida para acordar. Conseguia me lembrar com clareza da noite anterior, e estava agradecida por Kiseop não ter dito toda a verdade.
Vesti meu uniforme com um tanto de pressa, sequei meu cabelo, escovei os dentes e usei de pouca maquiagem. Calcei meus tênis e peguei um agasalho, indo rapidamente em direção à porta.
No corredor, Kiseop também saía uniformizado de seu quarto, olhou para mim e começou a rir baixinho.
_ Ya! Ta rindo de que? – disse irritada, porém sem jeito.
_ De nada! – continuou rindo. – Legal o uniforme! Ele é... original.
Aquilo não fazia sentido nenhum. Mas não dei muita importância, Kiseop raramente dizia algo com sentido.
Andamos juntos do corredor até a cozinha, e quando chegamos a porta, ommá nos esperava com o maior sorriso do mundo e uma maquina fotográfica em mãos.
_ Ah, veja só JaeSoon, que lindos! – disse derretida – Andem, cheguem mais perto um do outro pra eu tirar uma foto!
_ Aish, ommá, não inventa! Porque...
_ Shiu, Kiseop! Não seja rabugento, anda logo! – dessa vez, empurrando-o para mais perto de mim. – Agora sorriam!
Uma bela foto, sem dúvida. Kiseop com cara de tédio, e eu olhando para um besouro no chão, que estava atravessando a sala de jantar.
_ Aeygo! Vamos, sentem-se, comam que hoje eu faço questão de leva-los!
Segundo o senhor JaeSoon, a senhora Lee sempre quis ter dois filhos. Um casal na verdade. Mas devido a complicações no parto de Kiseop, ela não poderia mais engravidar.
Comi. Comi pelos dois dias que não havia comido, devorei uma torrada, uma salada de frutas, iogurte, ovos mexidos e suco de laranja. Todos na mesa ficaram espantados, mas eu estava com muita fome, era impossível resistir a tantas coisas.
_ Calma, ainda não será hoje que te mandaram de volta para o presídio de onde você veio. – disse Kiseop, como sempre com brincadeiras inconvenientes.
A senhora Lee o encarou por alguns segundos e a mesa permaneceu em silêncio. Os únicos barulhos que se ouviam eram de eu abandonando os talheres no canto do prato, e mastigando lentamente com a boca cheia, envergonhada.
Finalmente aquela tortura silenciosa acabou quando o senhor JaeSoon levantou-se da mesa, e carinhosamente depositou uma maça dentro de minha mochila, o que causou um ataque de risos em Kiseop, e todos nós continuamos sem entender.
Fomos para o carro. Estava-mos atrasados e eu morrendo de ansiedade. Estava em Seoul à 2 meses para me adaptar antes das aulas começarem, mas nunca havia ido para uma escola coreana, principalmente para a Korean School For Gifted, onde todos diziam ser a melhor e mais famosa escola da Coréia, isso eu não sabia porque.
*telefone tocando*
_ Yobeoseyo?!
_ ANA! NÃO VAI ACREDITAR! – disse Brookie berrando no meu ouvido.
_ Ai, menina! Quer me ensurdecer?
_ Aish, fica quieta, não estraga! Tenho uma bomba... não, tenho uma mega bomba pra te contar!
_ Ya! Então pare com esse suspense e me conte logo! O que é?
_ Essa escola é demais! – ela disse em um surto final.
_ Era isso? – disse desanimada.
_ Calma Ana, como você é chata! Preste atenção, sabe aqueles grupos de Kpop pelos quais eu sou louca de paixão?
_ Ãh? Sei.
_ A maioria deles estudam aqui! – podia sentir sua euforia pelo telefone.
_ Brookie, você está pulando? – podia ouvir sua respiração ofegante.
_ AHAM!
_ Meu Deus Broo, para de ser louca! – ri. – Me conta mais, só que para de pular né?
_ Ok, então... Eis de que eu cheguei na escola faz uns 10 minutos e pude ouvir umas meninas gritando e correndo para a entrada da escola ai eu fui ver o que era e quando eu menos esperava vi meu marido dos sonhos DooJoon entrando na escola todo lindo maravilhoso... – ela dizia sem respirar.
_ Broo, calma, respira... continua.
_ Ai eu não consigo! To muito feliz! Desde que eu estou aqui já chegaram pelo menos uns 4 grupos diferentes. SHINee, Beast, TeenTop e uns membros do U-Kiss, na verdade, falta só o Kiseop! CNBlue acabou de chegar! AAAAAAAAAAAAAAAH! Acho que vou ter um treco amiga, chega logo!
_ Ok Broo, já estou a caminho. Vou desligar agora, e tente não morrer, por favor.
_ Ta, beijo! – pude ouvi-la gritando antes que desligasse o telefone.
Brookie é uma americana, também mestiça, que mora na Coréia com seu pai. Um compositor um tanto maluco mais de coração bom, que deu tudo de si pra criar Brookie nas melhores condições desde que sua esposa morreu em um acidente de trânsito. Brookie é a menina mais linda que já vi. Seus olhos claros e cabelos levemente avermelhados, ela não deixa de lado alguns traços coreanos que herdou de sua mãe. É um pouco maluca, mas com certeza a amiga mais fiel que eu poderia ter encontrado.
Depois de falar com Brookie, permaneci em silêncio, apenas apreciando o caminho de ida para a escola. Prestava atenção em cada prédio, em cada pedestre, em cada cerejeira. Prestava atenção em absolutamente tudo! Sentindo o frio entrando pelas janelas, e lembrando-me do calor que fazia no Brasil. Na verdade, sentindo falta de todo aquele calor humano. Por mais que a Coréia seja um lugar incrível de se viver, e por mais que as pessoas sejam amorosas e acolhedoras, nada se compara à energia do Brasil.
_ No que está pensando Ana? – perguntou senhora Lee, cansada do silêncio.
_ Em casa. Quer dizer, no Brasil. Sinto que agora, minha casa é com vocês, de certa forma.
_ Fico feliz em ouvir isso! Eu e JaeSoon nos esforçamos para você se sentir em casa, e pesquisamos muito sobre o Brasil, pra fazer você se sentir mais a vontade.
_ É um alívio ouvir isso! – ri.
_ Desculpe se as vezes as coisas parecem desconfortáveis para você! Mas prometo que com o passar do tempo, tudo fluirá mais naturalmente!
_ Eu sei. – disse encerrando o assunto.
Kiseop estava quase dormindo do meu lado. Ele definitivamente babava, e sua cabeça as vezes tombava para o lado. Ignorando tudo e todos com fones de ouvidos e olhos fechados.
_ Chegamos! – disse senhora Lee estacionando o carro do outro lado da rua. – YA! KISEOP! Acorde, vamos... Aish, esse menino, preguiçoso!
Cutucando Kiseop como quem cutuca um leão com vara curta, eu tentava acorda-lo “carinhosamente” pra não provocar danos maiores, do tipo ele sair do carro arrastado por sua mãe pelas orelhas.
_ O que quer? – ele disse grosseiro limpando a baba dos cantos da boca.
_ Desce logo! – disse descendo pela outra porta.
Um beijo na testa e um desejo de boa sorte, era tudo que a senhora Lee SoonHyun poderia fazer por mim. Senti que ela queria despedir-se de Kiseop, mas ele já estava longe, provavelmente para ninguém notar que eu chegava com ele.
Retribuí seu carinho com um abraço, principalmente para consolá-la por ter um filho tão estúpido.
Entrei naquele universo então. Era uma escola enorme, com partes ao ar livre, e partes cobertas. Haviam pessoas tocando violão na grama, pessoas correndo com roupas esportivas, e alunos colando panfletos nos murais. As meninas pareciam todas umas bonecas e os meninos, robôs superdotados. Podia-se notar claramente a divisão entre populares, famosos, e NERDS. Eu sinceramente já sabia aonde me encaixaria, por mais que achasse tudo isso muito ridículo.
Ao ir entrando cada vez mais na escola, pude perceber que de certa forma, atraia olhares de pessoas, e após esses olhares, elas riam. Riam de mim? Será?
Fui ficando cada vez mais desconfortável com isso. Passava as mãos discretamente sobre os cabelos, tentando consertar qualquer fio que estivesse fora do lugar. As pessoas não paravam de olhar, e atravessar aquele pátio estava se tornando uma tortura.
Avistei Kiseop de longe, e ele também me encarava, rindo. Todos os membros do U-Kiss riam, menos Kevin, que ia em minha direção até ser impedido por Kiseop. Apressei o passo em direção ao banheiro, completamente em pânico!
“ O que era aquilo? Quer dizer, porque as pessoas estavam olhando pra mim, e rindo? Seria paranóia, ou o que? Será que eu estou suja, descabelada, ou pior, fedida? O que aconteceu comigo?”
Na porta do banheiro, pronta para surtar, trombei com uma pessoa, trombei com... quem era ele?
_ Aí! – disse um pouco tonta.
_ Me desculpa! – curvou-se em minha direção, e seguiu seu caminho.
Também segui o meu e ia finalmente entrar no banheiro quando fui interrompida.
_ Ei! Você vai mesmo entrar ai? – era o mesmo garoto que trombara comigo na porta.
_ Ãh? Como assim? – estava confusa.
_ Você não é daqui certo?
_ É. Como você sabe?
_ Bom, geralmente, alunas coreanas não entram no banheiro masculino, e nem usam o uniforme do avesso. – terminou abrindo um sorriso. Aquele sim era o sorriso mais lindo do mundo.
Estava encantada com aquelas covinhas lindas e... PÉRAI!
_ DO AVESSO? – cuspi tais palavras em um total desespero. – Ai não, não, não!
_ Calma, por um lado, não ficou tão ruim assim. – disse rindo do meu desespero.
_ A droga! – disse ofegante, andando de um lado para o outro. – Eu vou matar o Kiseop! Então era disso que ele estava falando! AAAAAAARGH!
_ Quem estava falando do que? – ele perguntou tentando me entender.
Continuei inquieta, sem saber se me matava ou se matava Kiseop. E a ommá, não percebera nada? Nem Lee JaeSoon, nem ninguém poderia ter me avisado?
De repente, aquele lindo estranho começou a tirar seu colete de uniforme, me fazendo parar para encará-lo. Ele percebeu que eu encarava-o incrédula, mas continuou seguro do que estava fazendo. Mas o que ele estava fazendo?
Quando percebi suas reais intenções, foi inevitável não sorrir como retribuição. Mesmo que apenas um sorriso não fosse o bastante, era o que faria, pelo menos naquele momento.
_ O que você... ? Você é louco? – ri.
_ Sinceramente, achei assim bem mais legal! Acho realmente que todos podiam usar o uniforme do avesso a partir de hoje. – foi andando em direção ao pátio gramado.
_ Espera! Você vai mesmo usar o uniforme do avesso? As pessoas vão rir de você!
_ Relaxa – disse piscando para mim – ninguém vai rir de mim, eu garanto.
_ Como pode estar tão certo?
_ Eu apenas estou. – deu as costas e partiu.
Quem era ele? O que o fazia ser assim, tão seguro? E lindo, e encantador, e simpático...
“Ana, não! Foco! Você não esta aqui para isso! Concentre-se.”
O segui com o olhar para me certificar do que aconteceria com ele afinal. As meninas o seguiam com o olhar, e saiam correndo e gritando em desespero atrás dele. Isso me fez lembrar de Brookie. Onde ela estava afinal?
Dei um toque em seu celular, mas antes mesmo da primeira chamada, ela chegou por traz de mim, querendo me assustar.
_ ANA! Bom dia amiga!
_ Oi Broo, não vai acreditar no que eu fiz...
_ O que é isso? – disse olhando-me de cima a baixo. – Mal o Onew oppa saiu com a roupa do avesso e você já esta imitando-o? – ela disse incrédula, e eu nada entendi. – Pensei sinceramente que você não era dessas, mas tudo bem então.
_ Não, como assim? Quem é Onew?
_ Aish, em que mundo você vive? Onew, o líder do SHINee! Vai dizer que não o viu com a roupa do avesso ali no pátio?!
_ Ah, não sei. Acho que não vi. Isso aqui na verdade foi um acidente. – disse apontando o dedo para meu uniforme, ainda do avesso. – Espera, vou me trocar. – entrando no banheiro.
_ MENINA! Você vai mesmo entrar no banheiro masculino?
_ Ah, é.
_ Doida!
No banheiro pude notar que estava realmente com o uniforme do avesso, inconformada, queria afogar-me na privada, ou qualquer coisa do tipo, mas logo um sorriso involuntário surgiu em meu rosto quando me lembrei daquele lindo estranho.
Arrumei meu uniforme, e apressei-me para as aulas.
_ Broo, como você disse que se chamava aquele garoto usando roupas do avesso? – tinha uma ponta de dúvida. Seria ele o garoto que fora tão simpático comigo?
_ Onew oppa?
_ É! Você pode me mostrar?
_Hm, ok. – Brookie me guiou rapidamente até o pátio e apontou para um garoto. Era longe, mas eu podia reconhecer. Onew, o meu salvador secreto! – Aquele! Viu? Ele é lindo não é?
_ Hm, não sei! – menti. – Só queria saber quem era. Vamos?
_ Você é estranha! – disse com um ar de dúvida. – Mas eu amo você!
Seguimos para a sala de aula. No 2º corredor pude ver Kiseop em frente a sala 8, que me viu assim que entrei em sua vista. Eu sinceramente queria matá-lo, mas algo me dizia que eu tinha que estudar um pouco mais a minha vingança. Andei em sua direção, e a cada passo que me aproximava dele, fazia com que seus olhos saltassem de seu rosto. Ele tentou recuar, mas seus amigos estavam todos conversando, e distraindo-o, e ele não podia dar tão na cara de que na verdade, estava morrendo de medo de mim, ou do que eu poderia fazer para constranger sua imagem. Apesar de achar que os meus olhos diziam tudo naquele momento, a cada passo que me aproximava, tentava parecer mais tranqüila. Quando finalmente cheguei na rodinha onde estavam todos os membros do U-Kiss, me dei conta de que Brookie já não estava mais ao meu lado, e sim paralisada no começo do corredor.
Ao me ver, Kevin abriu um sorriso e logo me abraçou.
_ Vejam só se não é a menina do uniforme do avesso. – ele disse com aquele sorriso meigo ainda em seu rosto.
_ Oi Sunbae. – fiz de tudo para atuar meiga. Dizer Sunbae não era muito do meu feitio. Até Kiseop, ainda de olhos arregalados, sabia disso. – Vim apenas para dizer-te oi. “Oi!”. – sorri.
_ Ah que fofa! Eli, lembra dela? Gente, essa aqui é a Ana, ela mora com o Kissss... – Kiseop estava fuzilando Kevin com o olhar, e implorando para ele não dizer. – Ela mora com o Kiseop! – ele finalmente disse, sorrindo para Kiseop como provocação.
Então, imediatamente todos os membros me cumprimentaram e brincaram comigo. SooHyun era o mais engraçado, e DongHo o mais fofo. Todos me trataram muito bem, e Kiseop permaneceu emburrado, encostado na parede apenas olhando por fora o que conversávamos.
_ Aeygo, eu disse que ela era fofa!? – disse Kevin. – Cuidado DongHo, ela pode ser até mais fofa do que você!
_ Não! – disse DongHo brincando e fazendo um biquinho.
_ Ana, em qual sala você está? Quer dizer, caiu na sala de algum de nós? – quem perguntou dessa vez foi AJ, pela primeira vez me dirigindo a palavra.
_ Na verdade, ainda não vi. Eu e minha amiga Brookie estávamos indo ver isso, mas aí encontrei vocês e ela sumiu.
_ Nós caímos em salas separadas pela primeira vez, mas seria bom se você estivesse na sala de algum de nós. – disse AJ com um sorriso no canto dos lábios.
_ YA! Isso está ridículo! Ana, volta pra sua amiga! – disse Kiseop arrastando-me pelo braço para longe de seus amigos. Nenhum deles atreveu se meter.
_ Ya! Me solta! KISEOP! – tentava livrar meu braço de suas mãos.
_ Eu não disse pra você fingir que não me conhecia? Aish, você francamente...
_ Não falei com você em nenhum momento seu bastardo! – estava furiosa.
_ O que você disse?
_ Bastardo! – repeti.
_ Você é ridícula! E bastarda é você, mestiça nojenta!
Permanecemos nos olhando, um nos olhos do outro. Eu estava chocada. Aquele tipo de xingamento não fazia sentido. Seria ele tão ruim assim pra me ferir desta maneira?
_ LEE KISEOP! – disse Kevin com tom indignado.
Meus olhos estavam enchendo-se de lágrimas. Eu já não podia mais contê-las. Chorei então.
_ Cara, o que você esta fazendo? – pude ouvir Eli dizendo enquanto corria para longe dali.
Não sabia se chorava ou se corria, só sabia que não queria estar perto de ninguém, e não queria ter que explicar para ninguém o porque de estar chorando.
Existe uma dor por trás de ser xingada de mestiça.
Entrei em uma porta enorme e azul, e de repente estava em um lugar parecido com uma quadra de esportes. Não conseguia ver muito bem. Minha visão estava embaçada, e a luz era muito forte, então apenas sentei no lugar mais alto de uma arquibancada, aterrei minha cabeça em minhas mãos e chorei.
“Eu odeio Kiseop! Eu odeio Kiseop!”. Pensava enquanto não conseguia conter minhas lágrimas.
Mestiça. Isso ficou ecoando em mim.
Não me preocupei muito com o horário, já não estava mais tão animada assim com as aulas, mas após uns 15 minutos consegui me conter, e tive a curiosidade de saber como era o lugar em que eu estava.
Comecei pelo teto, e pude perceber que era uma grande estrutura. E sim, era uma quadra de esportes, com luzes fortes, e um piso de madeira brilhante. Passei rapidamente os olhos pelas arquibancadas e
“OMO! Não acredito! Ana, quando você vai fazer as coisas direito?”. Pensava enquanto batia minha mão em minha testa.
Havia alguém ali, que de longe, parecia um menino. Um menino com uma cara bem mal humorada, que provavelmente estava ali a algum tempo, me vendo chorar.
_ YA! – disse já de pé, enxugando as lágrimas. – Me desculpe por incomodar. – Desta vez, dirigindo-me até a porta, constrangida.
Nenhuma resposta.
Chegava cada vez mais perto da porta, pensando em como já tinha causado várias más impressões em apenas um dia de aula. Primeiro com o Onew, depois com os membros do U-Kiss, por sair chorando feito louca, e não me comportar diante da infantilidade de Kiseop, e agora com esse estranho.
_ Não se preocupe! Ele é mesmo um idiota! – disse-me o estranho.
_ Ãh? Eu por acaso...
_ Sim, você disse alto. Na verdade, penso que deveria chorar mais baixo, ou então, escolher um lugar mais privado para se fazer de vitima.
Aish, também não precisava disso! Ele parecia mesmo muito importante.
_ Hm... ok. Me desculpe. – estava ainda mais perto da porta, mas dessa vez, com a cabeça aterrada em meus ombros, de vergonha.
_ Espere! – disse ele de pé, caminhando em minha direção. O que ele poderia querer? – O que você realmente é do Kiseop?
_ Ah, na verdade eu... Moro... – dizia lentamente, tentando entender o porque da pergunta. – Porque quer saber?
_ Vai ou não vai responder? – disse em um tom autoritário.
Eu sinceramente não estava a fim de brigar novamente, então simplesmente dei as costas para ir embora. Ele por sua vez, segurou meu braço com força e me arrastou em direção as arquibancadas.
_ YAA! O QUE... AISH, ME SOLTA! – disse surpresa.
Chegando longe o suficiente da porta, ele pressionou meus ombros para baixo, me fazendo sentar, e sentou-se à meu lado.
_ O QUE VOCÊ...
_ Aish... Porque você tem que gritar? É realmente do tipo escandalosa? – disse em um tom indagador olhando-me fixamente.
Calei-me. Esperaria pelo que ele teria a me dizer. Ele era um tanto expressivo, misterioso e sexy.
_ Qual o seu nome? – perguntei, não suportando o silêncio.
_ Você está brincando? – debochado.
_ Não vai me dizer seu nome? – quantas perguntas mais iríamos fazer?
_ Você, francamente! Meu nome... – disse pausadamente. – É JunHyung! Isso te lembra alguma coisa?
_ Deveria me lembrar? – alguma coisa nessa pergunta fez com que ele risse alto.
_ Quantas vezes mais vai me surpreender? – continuei calada. – Primeiro você entra aqui chorando, depois me deixa falando sozinho e agora diz não saber quem eu sou. Está falando sério?
Olhei para o chão, ainda envergonhada por conseguir “ofender” alguém de tantas maneiras. Eu realmente deveria saber seu nome? Por via das dúvidas, continuei calada para não surpreende-lo uma quarta vez.
_ Não vai mesmo me dizer o que é do Kiseop?
_ Porque eu deveria?
_ Bom, ouvi você reclamando sobre ele, logo entendi que ele era o motivo do choro. Quero saber o que é dele, para entender o porque estava tão desesperada. Você pôde se ouvir chorando?
_ Então, porque não me perguntou o porquê de estar triste, ao invés de me deixar mais triste dizendo o nome dele?
Ele riu.
_ Como você é complicada! – disse me questionando com os olhos.
Permaneci em silêncio.
_ Você não é daqui não é? – uma pergunta retórica — Ok, não queria ter que tocar nesse assunto, mas eu vi você chegando hoje na escola. É a garota do uniforme do avesso, não é?
_ Aish, exibiram isso em rede nacional? – disse indignada.
_ Isso eu não sei, mas já temos fotos no blog da escola.
_ O QUE? Como... ai. – controlei-me para não surtar. – Ok, o que você quer saber? – queria acabar logo com aquilo.
_ Vi você chegando com o uniforme do avesso, e agora te ouvi chorando por mais de 10 minutos, presumi que não tenha tido um bom dia hoje. Já que fui um bom amigo invisível, ouvindo você chorar por tanto tempo, mereço saber por que estava assim, você não acha?
_ Você é um curioso, isso sim! – disse baixo.
_ Ãh?
_ Nada. – como disse, não queria discussões. – A verdade, é que esse está realmente sendo um péssimo dia. Eu não sou daqui, nasci no Brasil. Meu pai é daqui e minha mãe é de lá, logo, sou uma mestiça. – analisei seu rosto por alguns segundos, esperando alguma reação surpresa, nada. – Ganhei uma bolsa de estudos aqui, por ser uma boa aluna, e vim por meio de um intercâmbio. Os pais de Kiseop me adotaram temporariamente e agora moro com eles. Porem, eu e Kiseop não nos damos bem por algum motivo. Essa é toda a história. – olhei para ele como quem tivesse acabado de tirar um caminhão de cima das costas.
_ E hoje, Kiseop a chamou de mestiça na frente de todos? – ele perguntou, quase que concluindo a parte da história que eu queria esconder.
_ Como você sabe?
_ Você resmungou isso depois de engasgar. – disse ele rindo após provavelmente lembrar da cena.
_ Me desculpe por perturbá-lo. – disse apoiando minha cabeça sobre minhas mãos.
_ Não deve estar sendo fácil. – disse ele, colocando sua mão sobre as minhas costas.
Eu paralisei. Depois da surpresa, relaxei. Sentia como se estivesse com um amigo. Um amigo que apareceu de forma muito inesperada.
_ Não me lembro de ter dito como se chama. – disse ele quebrando o silêncio acolhedor.
_ Ana. No Brasil, escrevemos o nome de forma diferente. Primeiro o nome, depois o sobrenome – expliquei calma a ele. Na verdade, expliquei isso pela primeira vez à alguém.
_ Então, como é o seu nome junto com o seu sobrenome?
_ Ana Chiao Brandão. Aqui é só Chiao Ana. – sorri.
_ Até o sobrenome Chiao é muito raro por aqui, a família de seu pai deve ser antiga. Quanto ao nome Brandão... – disse ele de forma engraçada. – ...é um nome interessante também. – riu consciente de que não havia pronunciado certo.
_ Obrigada. – disse, encostando minha cabeça em seu ombro impulsivamente.
Ele olhou para mim surpreso, mas simplesmente continuou olhando para frente. Pude notar que seu fone de ouvido tocava alto uma música muito familiar.
_ Que música é essa? – perguntei então.
_ Você não conhece? – disse arregalando os olhos.
_ Já ouvi. É muito familiar na verdade.
_ A bom, já ia perguntar em que planeta você vive.
_ Porque?
_ São raras as garotas na Coréia que não conhecem Beast. Na verdade, acho que não existe nenhuma que não conheça.
_ A, está brincando? Eles são assim tão famosos?
Ele riu, provavelmente da minha pergunta. Foi muito idiota?
_ Você é uma figura! SIM! Eles são MUUUUUUITO famosos.
_ Como sabe?
_ Já estava começando a gostar de ser tratado por alguém que não quisesse um autógrafo.
_ Ãh? Como assim?
_ Nada. Não é nada. Eu simplesmente sei. Os vejo na televisão o tempo todo!
_ Hm... Legal. – disse encostando-me novamente em seu ombro.
_ Não vai para a aula?
_ Não.
_ Assim vai perder o posto de boa aluna. – disse tentando me incentivar.
_ Hoje não é um bom dia para me esforçar. Sinto que já gastei todas as minhas energias. Preciso comer, e dormir, e depois sim estudar. – fechei os olhos lentamente. Ele, misteriosamente, me transmitia confiança, me deixava a vontade. – E você, não vai para a aula?
_ Não. Também não me sinto bem.
_ Por quê? – perguntei envergonhada por até então ter dito apenas sobre mim.
_ Digamos que tenho muitas coisas para fazer, muitos planos pra executar em pouco tempo. E eu ainda tenho que vir aqui todas as manhãs, passar o meu tempo com tantas pessoas fúteis e desnecessárias.
_ Nossa! Você parece estar pensando nisso há algum tempo...
_ Sim, já faz tempo que me cansei dessa situação, mas não a nada que possa fazer. Apenas, não se engane com essa escola.
Foi o bastante para mim. Voltei a encostar-me nele.
_ Pensa que sou um travesseiro?
_ Você me arrastou até aqui, então pelo menos me console direito! – disse rindo, não me importando com sua pergunta.
Ele riu.
_ Quer ouvir música comigo?
_ O que está ouvindo?
_ O mesmo grupo de antes. Ouça comigo, e depois me diga se achou legal...
Capturei um fone de ouvido e voltei a encostar-me nele.
_ Esse Beast... Até que eles são bons...
_ É. Ele até que são bons... – disse ele fechando os olhos.
Nós dormimos. Um encostado no outro. Eu enconstada em um estranho amigo
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