Os Trinta Colares de Pedra

16 Ou está com a gente, ou está contra nós!


— O que houve? Não vai mais me chamar de capitão como sempre faz?

Ele sorria, um sorriso que incinerava, era sarcástico, malicioso e repreensivo ao mesmo tempo. Apesar disso, não chegava a ser diferente do normal.

Mitsuyoshi quis correr dali e esconder seu rosto de vergonha, era a primeira vez que via ele desde aquele dia. Não queria mais ser humilhado pelo outro, já bastava ter sido rejeitado pelo maior, não queria passar por isso novamente. Se pôs de pé em um pulo, mas não pode correr, Gamaishi e Oosawada estavam lá, com os olhares violentos sobre ele. Mitsuyoshi não era burro para saber que o tamanho deles eram tão grandes quanto sua velocidade. Olhou-os de soslaio e então mirou seu capitão que parara diante de si.

— O que faz aqui? — Perguntou tentando se manter calmo e indiferente.

Isozaki não segurou um riso irônico.

— Ah... Coincidência? Mas falando sério, não pensei que seria tão difícil achá-lo. Será que por acaso... Estava fugindo? — o garoto de longos cabelos azul-marinho e branco olhou-o avaliativo.

— Claro que não — rebateu. — Estava me procurando? — não conseguiu fingir um olhar surpreso, pois já lhe era muito óbvio que seu time inteiro o procurava na cidade.

Encararam-se por alguns segundos.

— Hunf — Isozaki soltou em um ar de desapontamento enquanto se aproximou do atacante.

Mitsuyoshi congelou.

Isozaki deu a volta no jogador, no caminho, deslizando a mão nas tranças violetas antes de soltá-las rudemente.

— Não minta para mim — encarou o outro em um tom sério, emanando uma superioridade natural para ele, que antes Mitsuyoshi admirava e desejava, mas que agora apenas lhe transmitia medo.

— Não... estou mentindo — disse em um tom não muito alto. Sentiu o ombro machucado latejar por causa da tensão do seu corpo. — Por que... Estava me procurando?

Mitsuyoshi temia essa resposta. Não queria fazê-la pois de alguma forma sabia que seu capitão tinha percebido a sua relação com os colares. Mas já que estava naquela situação, tinha que perguntar, não havia outra escolha.

— Isto — Isozaki segurou um colar de aspecto metálico entre dois dedos alheios. — Você sabe o que é? — foi direto ao ponto.

Mitsuyoshi engoliu seco.

— Um colar — respondeu secamente.

— Não brinque comigo — irritou-se, avançando bruscamente na direção do menor a agarrando o colar que se encontrava escondido sob sua roupa, fazendo Mitsuyoshi recuar um passo, assustado. — Se esconder alguma coisa de mim...

— Não estou — o cortou, fazendo Isozaki estreitar o olhar. — Ontem esse colar apareceu do nada, não sei de onde veio.

— É mesmo? — ele o encarou — Que coincidência — soltou o atacante e deu-lhe as costas, se aproximando dos dois defensores.

“Esse é o capitão dele..? Assustador” Izumi assistia, sem se mexer. Só o que conseguia fazer era comparar aquela pessoa com seu capitão, sempre gentil. Então esse era o capitão da Mannouzaka, Isozaki Kenma. Mas acima de tudo, o que Mitsuyoshi vira nele?

— Entretanto, suas ações tem sido estranhas — falou Isozaki, dando a certeza que não pretendia para ir embora. — Não é mesmo, Oosawada?

— Sim — respondeu o gigante, esmagando o menor com o olhar e Mitsuyoshi revidou estreitando os olhos. O maior mostrava sua raiva por ter sido feito de bobo no último encontro. — Shinoyama disse que o tinha visto entrando na Raimon.

— Você estava lá? — Isozaki voltou-se para ele novamente.

— Não.

— Tsc — ele bufou, perdendo a paciência, mas sabia como arrancar a verdade do seu jogador rebelde. — Você sempre foi bom em inventar desculpas, Mitsuyoshi. Sabe, Busujima e Yoshiyama contaram que viram você na floresta perto da escola dois dias atrás, a noite. Esteve lá?

Mitsuyoshi arregalou os olhos e logo balançou a cabeça, negando.

— O que raios eu faria lá?

Isozaki riu com o canto da boca, fazendo questão de continuar.

— Nessa mesma noite, eu vi quando um monte de esferas brilhantes saíram dessa floresta para diversas direções.

“Ele viu?” Mitsuyoshi quis correr, ele tinha informações suficientes para culpá-lo, e testemunhas... Viu que apenas se envergonharia mais se continuasse resistindo, mas não podia simplesmente contar a verdade.

— Eu quero saber a verdade, Yozakura. Ou prepare-se para sofrer as consequências das suas mentiras.

A feição do capitão da Mannouzaka endureceu e sua mão se cerrou enquanto se aproximava. Mitsuyoshi lembrou-se de quando ele quebrara sua mão sem se importar com o que ele sentiria. Não sabia o que ele poderia fazer dessa vez. Suou frio, sua mão tremia tanto quanto seu coração acelerava-se, com medo. Encarou seu capitão esperando o que viria a seguir, sem conseguir reagir. Iria ele machucá-lo de novo?

— Desalmado — uma voz alheia, antes com presença invisível, ronronou baixinho.

Isozaki virou-se para ele, olhando-o de cima.

— O que você disse? — estalou as mãos.

Izumi não disse nada, olhou para o lado sem aguentar o peso do olhar daquela pessoa.

— Não se meta, lixo da Kidokawa Seishuu — continuou, fazendo o menor olhar para baixo. Voltou a olhar para o atacante principal do seu time. — Agora... Vamos começar do início, o que são esses colares?

Mitsuyoshi hesitou.

— Não sei.

— Vai continuar com isso? — Isozaki estava perdendo a paciência, Mitsuyoshi sempre fora de se mostrar mais forte do que era, de persistir nas próprias palavras e de, muitas vezes, contrariar os colegas do time. Mas nunca dele, e não estava gostando disso. Mas logo sorriu. — Você mudou um pouco nesses dias, Yozakura, não sei dizer se ainda é um de nós. Muito bem... Vamos fazer isso de uma maneira diferente. Nós, mannouzakas, não nos importamos com a dor dos outros... Vamos ver o quanto isso mudou em você?

As orbes violetas se arregalaram em dúvida para o capitão, que deu-lhe as costas e mirou um outro pequeno ser naquela cena. Uma pontada fria atingiu o peito de Mitsuyoshi.

Izumi, que estava encolhido de encontro ao lateral da ponte, foi pego de surpresa ao ter o pulso puxado pelo capitão da mannouzaka, levando-lhe de encontro a ele. O prateado sentiu quando a mão esquerda do outro segurou-lhe a face alva.

— Ahh, até que você é bonito, para um lixo da Kidokawa Seishuu — Isozaki acariciou-lhe antes de socar-lhe o estômago.

Izumi gemeu de dor e caiu no chão, segurando a barriga.

Isozaki voltou-se para o violeta.

— Tem certeza que não vai dizer?

Mitsuyoshi percebeu o tom de ameaça na voz dele. Após ser colega de time dele por tanto tempo, conseguia dizer quando ele planejava algo, e sempre alguém saia muito machucado. O olhar dele era o mesmo dessas ocasiões. Mitsuyoshi já vira muitas dessas cenas, não era novidade, inclusive entre os colegas de time Isozaki já batera. Sabia que se não contasse, Izumi ficaria ainda pior. Apertou os olhos, sem saber o que fazer.

Izumi tentou se levantar, seu pulso preso entre a mão alheia. Seu corpo doía. Com o canto dos olhos passou os olhos de Isozaki para Mitsuyoshi. Estava, sem dúvida, surpreso com essa história.

— Isozaki... — Mitsuyoshi murmurou, sem saber o que dizer a seguir.

O capitão da mannouzaka voltou a erguer o meio campista da Kidokawa Seishuu, dessa vez acertando-lhe um soco no rosto, um fino fio de sangue correu da boca entreaberta do prateado. Um... Dois golpes se seguiram depois desse, três... Izumi gemia enquanto tentava se soltar, desesperado.

— Isozaki, pare. — Mitsuyoshi não aguentava mais ver isso. Já tinha visto a cena diversas vezes e agora que via novamente, lhe doía muito. — São trinta... Existem trinta colares como esse, cada um controla um elemento diferente.

Isozaki mirou o atacante com o canto dos olhos, curioso.

— E de onde ela vem?

— Um velho... Ele tinha elas mas elas caíram a acabaram se espalhando... Cada colar foi para uma pessoa diferente. E estamos juntando... — Mitsuyoshi se calou ao perceber o que ia falar, quase disse que estava procurando todas as pedras com a ajuda da Raimon.

— E estamos juntando... Continue, Mitsuyoshi. — Isozaki soltou o meio campista, que caiu abatido no chão duro. Mitsuyoshi calou-se. mostrando que não o faria. — Estão juntando as pedras, você e... a Raimon?

Mitsuyoshi suspirou.

— Sim — tinha se cansado de mentir. Isozaki já sabia de tudo, fugir das suas perguntas não adiantava mais. — O velho disse que eu tinha três dias para lhe devolver todas as pedras... E o time da Raimon está me ajudando.

O capitão fitou os olhos violetas do seu jogador por alguns instantes, logo uma sombra fez-se em seus olhos, irritado. Novamente tirou do chão o jogador ferido, aproximando-se do atacante.

— Ou está com a gente — o azulado segurou em seu uniforme da mannouzaka. — Ou está com eles. — Mostrou o corpo machucado de garoto antes de soltá-lo na sua frente.

Mitsuyoshi apertou os olhos, não de medo. Estava com raiva, não conseguia mais aguentar os métodos do seu capitão. Além do mais, precisava ajudar Izumi.

— Eu... — olhou firmemente para os olhos de Isozaki. — Estou com eles.

Isozaki cerrou os dentes, furioso. Atrás dele, Gamaishi e Oosawada não gostaram do que ouviram, vieram se aproximando com seu tamanho amedrontador.

Mitsuyoshi previu problemas se eles dois ficassem ali a mercê deles. Izumi estava caído abaixo de si. E seu ombro esquerdo estava ferido pela sua luta anterior com o elemento corrosão. Olhou as mãos cerradas de seus colegas e sentiu os olhos marejarem.

— Então está contra nós. — Isozaki levantou punho. — Melhor se preparar, Yozakura.

Mitsuyoshi recuou um passo e olhou para a direção onde Izumi estava, esse o fitou com medo. Pensou rápido.

Já bastava disso. Chegava de violência. não podia mais ficar sem fazer nada. Foi sua vez de fechar as mãos e foi nelas que reuniu a energia de seu colar. Sentiu o poder da pedra andar pelo seu corpo, preenchendo cada músculo com sua força. Mitsuyoshi sentiu a nova energia a se concentrar na mão direita. Cores e brilhos, riu ao entender seu elemento.

Isozaki ergueu uma sobrancelha, estranhando a reação.

Tão repentinamente quanto Mitsuyoshi levantou a mão e a abriu, uma chuva de mini explosões coloridas e brilhantes explodiu nos olhos despreparados dos três mannouzakas. Assustando, queimando, cegando momentaneamente. Era lindo, quente, pareciam fogos de artifício. Mas Mitsuyoshi não teve tempo para admirá-las, levantou como pode o garoto prateado e saíram dali, enquanto desnorteados, os mannouzadas tentavam se livrar das insistentes bombas de fogo coloridas.