Os Trinta Colares de Pedra
8 Novos Companheiros
O time da Raimon o encarava, alguns de cabeça baixa. O que eles estavam fazendo ali? Só tinha uma explicação possível.
Após um longo minuto olhando para eles, envergonhado e sem saber o que dizer, Mitsuyoshi finalmente perguntou o que achava:
— Contou para eles? — perguntou baixinho, olhando com o canto dos olhos para Tsurugi, que estava ali pertinho, ao lado de Tenma.
Tsurugi acenou com a cabeça, confirmando.
— São meus amigos e não podia mais esconder — Tsurugi explicou. — A situação envolve todos nós.
— Devia ter nos contado — Tenma disse.
— Falamos coisas terríveis de você — Kurama contou, de cabeça baixa, relembrando. — Por causa dos seus colegas.
— Se Tsurugi não tivesse dito… — Hayami tomou a palavra.
— Teria continuado assim — Hamano completou.
— Sentimos muito pelo que dizemos... ou pensamos — Amagi se fez ouvir.
— Tínhamos culpado você pelo incêndio da escola — Kariya confessou, coçando a cabeça e olhando para o lado.
— Não pensamos direito — Kurumada disse.
Mitsuyoshi ficou ouvindo e os olhando de boca aberta enquanto se desculpavam. Lembrava-se dos olhares ofensivos e recriminantes de antes, quando saiu da Raimon. Mas não via mais nenhum desses olhares ali. Estavam todos com cara de criança que fez arte e pedindo desculpas à mãe. Mitsuyoshi não conseguiu evitar um sorriso divertido e sincero.
Depois de todos falarem, Tenma deu um passo à frente.
— Vamos te ajudar a procurar os outros colares. Todos eles. — ele disse, determinado.
— Ah? — Mitsuyoshi surpreendeu-se com a vontade de ajudar dele, o novo capitão da Raimon mostrava otimismo e vontade. Mas, de qualquer forma, a Raimon continuava sendo inimiga da Mannouzaka, sua escola. E Mitsuyoshi já tinha se decidido. — Não vou mais procurar os colares, desisti — revelou, para a surpresa de todos. — Coisas ruins aconteceram e podem acontecer mais. Esses colares só trazem problemas.
— Vamos ajudar — Tenma insistiu. Atrás dele, sons de motivação eram ouvidas. — São três dias, não é?
Mitsuyoshi suspirou, cansado.
— Dois e meio, agora. É impossível — Mitsuyoshi rebateu, incerto, apesar de querer muito aceitar a ajuda dos outros. O que Isozaki pensaria disso? Não que precisasse do consentimento dele, mas ainda era seu capitão.
— Que nada. Nós conseguimos, se fizermos juntos — Nishiki soltou uma gargalhada descontraída. — Nosso time não tem medo de desafios.
— Nishiki tem razão — Tenma falou. — Juntos nós podemos. E então? — Tenma estendeu a mão para Mitsuyoshi, esperando uma resposta.
Mitsuyoshi hesitou, queria aceitar, mas tinha muitos motivos para não fazê-lo. Seu time com certeza o culparia de traição. Olhou para os outros jogadores da Raimon, que o fitavam, ansiosos por sua decisão. Não soube o por que, mas aceitou o aperto de mão que Tenma lhe oferecera. Tenma abriu um grande sorriso, enquanto Mitsuyoshi ainda se encontrava um tanto retraído. Poucos segundos depois, o time inteiro se jogou em cima deles dois em um grande e apertado abraço contendo sorrisos, gemidos e gargalhadas sonoras. Mitsuyoshi gemeu em meio a tanta gente, mas se sentiu seguro. Percebeu um calor que nunca antes sentira na Mannouzaka.
Quando se separaram, Mitsuyoshi estava tonto e constrangido pela ação inesperada. Levou a mão à cabeça para se restabelecer. Se perguntou se a Raimon era sempre assim, unida.
— Agora… — Tenma tirou seu colar do pescoço e o estendeu à Mitsuyoshi. Tsurugi, Shindou, Kariya, Kirino, Kageyama, Sangoku e Aoi fizeram o mesmo. Mitsuyoshi fitou os colares por uns segundos, algumas horas atrás teria feito qualquer coisa para tê-los, mas agora…
— Esperem um pouco — disse antes de entrar na sua casa e bater a porta da varanda. Tenma e os outros se entreolharam, curiosos.
Um minuto depois Mitsuyoshi voltou com sua bolsa de pano.
— Se vamos mesmo fazer isso... — começou a dizer, tirando alguma coisa da bolsa. — Vamos precisar do poder dos colares — Mitsuyoshi levou à Amagi a mão que segurava o colar. — Desculpa, fui eu que peguei de você, hoje de manhã.
Amagi pegou o colar, surpreso, e o olhou por algum tempo, em seguida, colocou-o em volta da cabeça.
— Tudo bem — Amagi riu, agora já sabia o por que do sumiço do colar e não se importava.
— Os jogadores das outras escolas estão com o restante dos colares — lembrou Tsurugi.
— E não são todos que vão dar de bom grado — Mitsuyoshi completou. — Pode ser perigoso, eles vão…
— Usar os colares para nos atacar — deduziu Tenma.
— Isso — Mitsuyoshi confirmou.
— Então vamos atacá-los de volta — Tsurugi disse.
…
Em volta da casa de Mitsuyoshi havia um grande quintal gramado e, no centro dele, um imenso carvalho que sombreava uma mesa redonda de pedra. Sentaram-se em volta dela, enquanto os outros ficaram de pé, observando de cima. Mitsuyoshi colocou na mesa o velho pergaminho, que dizia quem era a pessoa que possuía a pedra e qual era o elemento. Todos olhavam curiosos para o papel. E Tenma gostou muito de ver seu nome ali.
— Os colares estão espalhados em todas as escolas — Shindou observou. — Vamos ter que ir em grupos, senão vamos perder tempo.
— E precisamos conciliar os elementos — Tsurugi acrescentou.
— Como assim? — Kageyama perguntou.
— Por exemplo, não podemos mandar Kirino, que tem a pedra de fogo, contra esses dois jogadores do Colégio Kaiou — apontou para um ponto do pergaminho -, que tem as pedras de água e água fervente. Água apaga o fogo.
— Sim, sim — Aoi entrou na conversa. — Eu li em um livro que falava da fraqueza dos elementos. Nos quatro elementos principais, o elemento fogo é mais forte que o ar, mas fraco contra a água; o elemento terra é mais forte que a água, mas fraco contra o ar; o elemento ar é mais forte que a terra, mas fraco contra a fogo e o elemento água é mais forte que o fogo, mas fraco contra a terra — ela disse. — E tem uma frase legal: “A terra absorve a água que apaga o fogo que consome o ar que corrói a terra”.
— Mas e os outros elementos? — perguntou Kirino. — Tem fraquezas?
— Os outros são chamados subelementos — Aoi continuou. — São a junção de dois ou três dos seis elementos principais, contando com luz e trevas. Como: ar + água= gelo, luz + terra= cristal.
— Legal — Tenma exclamou.
— E quando um desses dois elementos possui resistência e o outro possui fraqueza, a fraqueza predomina por que desequilibra a união — Aoi disse.
— Não entendi — Kariya fungou.
— Como o elemento lava, que é terra + fogo. O elemento seria mais fraco do que a água por causa do fogo — Aoi explicou.
— Podemos dividir os grupos agora — Shindou falou.
Enquanto Tenma, Tsurugi, Shindou, Aoi e Mitsuyoshi começaram a formar os grupos para buscar os colares, o resto da equipe foi jogar futebol no grande quintal da casa. Tenma disse que Fey e Taiyou ajudariam, o que contariam treze colares no lado deles.
— O treinador Endou vai viajar amanhã cedo — disse Shindou. — Vou passar na casa dele para pegar o colar. Outra pessoa pode usá-lo?
— Não — respondeu Mitsuyoshi, sabia por que tinha testado com a pedra de Amagi. — Só as pessoas que as pedras escolhem podem controlá-las.
— Então temos treze colares, mas só doze controladores — Shindou concluiu.
Demoraram para formar os grupos. Shindou era muito minucioso. via todos os detalhes. Aoi aconselhava bastante sobre os elementos. Tenma juntava nos grupos aqueles não tinham colares e Tsurugi ficava vendo os problemas que surgiam em certas junções. Mitsuyoshi ficava até com pouco a dizer, eles pensavam em tudo.
— Mitsuyoshi, o que seu poder faz? — Aoi perguntou, curiosa, quando leu ‘cores e brilhos’.
— Um pouco de fogo e luz — respondeu, incerto, lembrando do poder inútil. — E fogos de artifício, também.
— Fogo + luz= cores e brilhos — ela disse, anotando.
Quando estava quase anoitecendo, finalmente tinham terminado os grupos. Shindou disse que revelaria amanhã e que era para estarem ali às oito horas. O time da Raimon foi saindo, acenando e dizendo ‘Até amanhã’.
Antes de sair, Kurumada bateu nas costas de Mitsuyoshi, num cumprimento. Mitsuyoshi assustou-se, mas depois sorriu. Sangoku, ao passar, colocou a mão no seu ombro, sorrindo.
— Como sabiam onde eu morava? — Mitsuyoshi perguntou depois, para os que tinham ficado.
— Seu treinador sabia, pedimos para o Kido contatar ele. — Shindou respondeu.
— O treinador…? — Mitsuyoshi suspirou. Claro que sim, precisou colocar seu endereço no papel para entrar no time. Voltou seu olhar para Tsurugi, carrancudo. — Eu não disse para você não contar para ninguém?
Tsurugi deu de ombros.
— Disse, mas não ia conseguir segurar por muito tempo.
— Ainda bem que ele contou — Tenma falou. — Queríamos muito saber a origem dos colares. Mas… por que seus colegas estavam te procurando? — lembrou, recordando-se de Gamaishi e Oosawada.
— Isozaki colocou o time todo atrás de mim — Mitsuyoshi confessou, olhando para o lado. — Não sei por quê.
— Acha que ele sabe dos colares? — Shindou perguntou.
— Talvez... talvez desconfie, ele também tem um colar. — respondeu.
— Então temos uma nova missão — Tenma exclamou. — Não podemos deixar seu time te achar.
— Missão impossível — Mitsuyoshi rebateu.
— Nada é impossível — Tenma interveio.
Mitsuyoshi sorriu, era difícil discutir com Tenma.
— Aoi vai mesmo junto? — Mitsuyoshi ainda estava incerto sobre isso.
— Sim — Tenma disse. — Hoje o Kariya machucou a perna por causa de uma árvore que caiu, se não fosse Aoi e o colar da cura, ainda estaria ferido.
— O que é isso? — Aoi se aproximou e pegou a mão de Mitsuyoshi, vendo o roxo que ainda estava ali.
Mitsuyoshi abafou um gemido, ainda doía, tinha evitado usar a mão direita desde ontem. Aoi envolveu suas mãos em volta do pulso do garoto e fechou os olhos. Um brilho verde apareceu. Quando Aoi soltou a mão de Mitsuyoshi, o hematoma de antes havia sumido e, com ele, a dor do ferimento.
— Obrigado — só conseguiu dizer.
Aoi sorriu com olhos grandes.
— Vamos precisar dela — Tsurugi disse.
— Tem razão — Mitsuyoshi concordou, depois se virou de frente para eles. — Preciso agradecer vocês… por me ajudarem.
— É o que amigos fazem — Tenma disse.
— Amigos? — Olhou em volta. Tsurugi, Shindou, Aoi… e todos eles, estavam sorrindo. Mal se conheciam, mas já o consideravam um companheiro. — Mesmo com tudo o que fiz?
— Você se arrependeu — Tsurugi disse. — É o que importa. Eu também fui seed, mas esse tempo acabou.
— O importante é o presente — Tenma continuou. — E o passado… deixa pra lá.
Mitsuyoshi colocou as braços atrás da cabeça com um riso agradável. De certa forma, já tinha se acostumado com eles. Os conduziu até o portão.
Quando eles foram embora, Mitsuyoshi sentiu como que um peso saísse de seus ombros. O problema não era mais só seu, era isso que chamavam de dividir a responsabilidade? Foi a primeira vez que sentiu como se tivesse um time de verdade, era assim que companheiros deviam ser: uma equipe. Comparou-os à Mannouzaka, eram em todos os aspectos diferentes.
Naquela noite dormiu bem, ciente que na manhã seguinte eles voltariam para começar a busca. Antes de todos saírem, Tenma havia dito, brincando:
— Amanhã vamos à luta — como se estivessem para travar uma batalha.
Sabiam que muitos dos portadores dos colares não os iriam querer entregar. Segundo o que Shindou disse: ‘Primeiro vamos pedir, depois, lutar.
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