Os Teus Acordes

20 Você está diferente


"Você está diferente."

Tanto Tomás, quanto Luiza, ouviram essa frase. Assim que chegou em casa, Luiza, completamente sorridente, cumprimentou o pai e andou – andou, não, saltitou — até a cozinha para fazer seu achocolatado. Tomás chegou em casa, também saltitando, mas um pouco mais contido, e volitou até seu quarto, mal sentia seus pés de tanta felicidade. A noite foi linda! Mais do que linda: mágica. A boca dos dois se completaram em um beijo que, para eles, poderia durar a eternidade que fosse, jamais enjoariam. Mas não durou.

Silvia logo notou que Tomás estava diferente. Souza não ficou atrás. Para Souza, Luiza tinha ido passear com as amigas, enquanto para Silvia... Bom, Silvia não tinha tanto controle sobre Tomás para saber de sua agenda, só que repudiava novas relações durante a faculdade. Qualquer potencial perda de foco também significava uma potencial perda da futura carreira promissora de Tomás.

"É que hoje a noite está tão linda, pai!" Luiza respondeu, agitada, e derrubou pó de cacau sobre o balcão.

"Amo te ver feliz assim, formiguinha. O que vocês fizeram que te iluminou dessa forma? Ficaram conversando sobre garotos, foi?"

Luiza e Souza nunca foram de guardar segredos um do outro. Souza não conseguia esquecer do episódio do músico babaca batendo em sua porta, tocando sua companhia ou mesmo — ele não queria sequer lembrar disso — gritando por sua filha. Claro que é saudável manter segredos alguns segredos dos pais. Na idade de Luiza é normal conversar primeiro com as amigas do que com os parentes mais velhos. Mas mais saudável ainda era mantê-la afastada de músicos idiotas.

— Você está cantarolando, Tomás. Por mais irônico que isso seja, quase nunca te ouço cantarolar pela casa. — Silvia pontuou entre um gole e outro do chá que tomava, sentada elegantemente no sofá com um livro em seu colo.

Empurrou seus óculos de leitura para o nariz e continuou:

— Sabe, querido, eu cheguei mais cedo em casa hoje, não quis te incomodar.

Tomás arregalou os olhos quase que imperceptivelmente.

— Aconteceu algo no trabalho, mãe? — Perguntou, tateando o terreno.

"Conversando sobre garotos? Sim, foi isso. Marília está gostando de um colega de classe, mas não sei se é ideal que eu te conte isso, pai. Só estou feliz por ela mesmo." Luiza respondeu Souza e se voltou para o pó derrubado na bancada e para o seu copo de leite pedinte por chocolate.

Então, ela optou por mentir. Souza concluiu. Mesmo que tivesse consciência da adolescência e dos seus segredos, sentiu uma pontada de dor quando Luiza confirmou sua tese. Sua filha não poderia ser diferente das demais?

É claro que poderia ser verdade, só que provavelmente não era. Marília? Gostando de um garoto? Souza, com toda a sua experiência de vida, suspeitou da veracidade dessa afirmação.

— Não, meu filho. Muito pelo contrário. Hoje o dia correu tão bem que não houve necessidade de fazer horas extras. Então voltei cedo para casa, simples assim.

— Simples, tão simples, mas você nunca faz isso. — Tomás ponderou.

Silvia observou seu filho. Tinha olhos e ouvidos pela vizinhança e começou a suspeitar do romance ao saber que Tomás saiu correndo atrás de Luiza em uma manhã de muito sol. Talvez por isso tivesse voltado mais cedo para casa. Talvez por isso tivesse surpreendido Tomás com seu horário.

— Mas agora faço. — Retrucou e bebericou outro gole de chá.

"Formiguinha, não quero que me entenda mal, mas sei bem quando está mentindo."

— Tomás, estou preocupada.

"Você não mentia para mim. Entendo que esteja entrando em uma fase cheia de hormônios e garotos e..."

"Pai, por favor."

— Mãe, por favor.

— Estou preocupada, Tomás. — Silvia se levantou e segurou as mãos de Tomás. — Estou preocupada porque...

"... me preocupo com você, entende? Não quero que você sinta que não pode confiar em mim."

— Não quero que você sinta quaisquer coisas que possam te atrapalhar do seu foco.

"Também não quero que você, bom..."

— Se formar.

"... se machuque."

"Do que você está falando?" Luiza tampou o pote do achocolatado e se apoiou no balcão.

"Do que você está falando, pai?"

— Só estou querendo dizer que um romance a esta altura poderia...

"... te magoar, minha filha. Principalmente com alguém como aquele rapaz. Eu sei o que ele faz. Eu acesso a internet."

"Ele é músico. Ok. Qual o problema com isso?"

— Você não tem autoridade para mandar no que eu sinto, mãe. — Tomás a interrompeu e se desvencilhou das suas mãos.

— Poderia seriamente te atrapalhar, querido. Falta tão pouco. E então você poderá construir uma família, sustentá-la, viver um sonho. Com alguém normal, sabe, Tomás? Me contaram sobre a garota...

"Veja bem, formiguinha... O problema é que..."

— Alguém normal?! A Luiza jamais será "alguém normal". Ela é extraordinária! Aliás, e por que não posso viver um sonho agora?

"É porque não posso ouvir música, certo?" Luiza o interrompeu.

"Você é tão jovem, querida." Gesticulou e suspirou.

— Você é tão imaturo, querido.

Tanto Luiza quanto Tomás olharam incrédulos para seus pais. Luiza agarrou sua bebida, passou por seu pai olhando para o chão e foi para o quarto. Tomás se virou e caminhou a passos pesados até sua escrivaninha. Se sentou. Se esticou. E bufou. Não entendiam como seus pais poderiam querer controlar até mesmo suas vidas amorosas. Tomás acessou o perfil de Luiza nas redes sociais no mesmo momento em que Luiza acessou o seu. Se olharam, mesmo distantes. Olharam suas fotos passadas, seus pensamentos do passado, registrados em posts de suas linhas de tempo online e suspiraram. O dia seguinte seria um novo dia.