Os Teus Acordes

1 Mas e quem é Luiza, afinal?


Abrir os olhos pela manhã é sempre uma oportunidade, um recomeço. Bem, pelo menos é assim que Luiza pensa. Ela boceja e percorre seu olhar percorre o quarto: a escrivaninha, como Luiza gosta de dizer, abstratamente organizada, a pantufa jogada aos pés da cama e o quadro magnético pendurado na parede de uma cor rosa vívida bem na sua frente. Como ama aquelas fotos... Fotos de pássaros que tirou em caminhadas despropositais, fotos de ruas, carros, amigos. O mundo pelo seu olhar, ou melhor, lente.

Se espreguiça e senta na cama, diversos travesseiros macios espalhados por ali, o cabelo despenteado e a cara amassada de tanto dormir: mais um dia.

Sábados são ótimos dias, na verdade. São os dias em que vê suas amigas. Bom, todos os dias são os dias que vê suas amigas, praticamente. Mas tem um gostinho especial vê-las fora da escola.

Ela se levanta e vai até o armário: um dia de sol pede por um macacãozinho básico. O primeiro passo para fora da cama é sempre frio, todos sabem disso, embora nem todos prestem muita atenção. Com o tempo nos acostumamos, mas é uma pena. Luiza acredita que o primeiro contato com o chão gelado deveria sempre retrair os pequeninos dedos dos pés. Sentido, sentir.

O primeiro toque também tem seu valor. É claro, se for em um tecido gostoso de se tocar, como era o daquele macacão. Luiza esperava – torcia para — não o sujar de molho naquela tarde, aliás. Lilia, sua melhor amiga, ama batatinhas cheias de molho com a mesma intensidade que leva jeito para ser desastrada, ao contrário de Marília, sua outra melhor amiga. Certa vez Lilia mergulhou as batatinhas em sorvete — Luiza jamais seria capaz de esquecer tal feito — não satisfeita apenas com o superexperimento, quando Luiza riu ao ver uma Lilia se lambuzando com sorvete, batatas e um ou outro soluço por comer tão avidamente, a amiga gargalhou junto e só Deus sabe até onde voou baunilha naquele dia.

Talvez uma jaqueta a protege-se das peripécias gastronômicas de Lilia, pensando melhor. Uma de cor bem escura, que não tivesse problema em manchar. Falando em Lilia...

“E aí? Vamos acordar? ❤” O celular de Luiza vibrou.

“Hoje é dia de happy hour na lanchonete e mal posso esperar para ficar TRILOUCA de refri e batatinhas! Te vejo às quatro! Esteja pronta! ❤”

Luiza sorriu e mentalmente anotou: estar pronta às quatro. Ainda tinha três horas e pouquinho para procrastinar antes de se arrumar às pressas em quinze minutos. Pelo menos já havia escolhido a roupa.

A menina e seu pijama foram para a sala. Seu pai, Souza, estava sentado em uma poltrona e lia calmamente o jornal – os quadrinhos do gato gordo e amarelo pareciam mais engraçados nas segundas-feiras.

Ela chegou, estalou um beijo na sua testa e pegou o notebook cheio de adesivos imaculados dos seus cadernos da infância (sabe aqueles prometidos para serem usados no momento certo, e o momento certo nunca chega? É, para Luiza chegou). Voltou para o quarto, satisfatoriamente retornando ao lugar que há pouco esteve: sua cama.

Ligou o computador, digitou sua senha (adolescentes e seu complexo de “não posso permitir que leiam minhas mensagens!”) e foi ver o que havia de novo no fabuloso mundo virtual.

Espera... Realmente havia algo de novo. Aliás, algo não, alguém. Que música era aquela que Marília compartilhou? O cantor era uma graça, meu Deus! Cachinhos dourados e rebeldes insistiam em cobrir a vista do musicista e podiam até mesmo incomodarem o pobre menino, mas eram uma gracinha. Não tanto quanto a obra inteira, e ela não estava pensando precisamente na canção. Luiza e seu radinho estavam a postos, contudo, para avaliarem o que realmente importava: a música.

Suspirou serenamente. Aqueles momentos em que se sentava em frente ao computador e apreciava uma boa música eram, provavelmente, os seus favoritos da semana. Apertou o play e fechou os olhos. Pôs a mão sobre o rádio e atentamente se ateve às sensações. Cada onda de vibração fluía por todo seu corpo como uma pequena onda gelada tocando seus pés sobre a areia: suave, mas firme. Paciente e arrepiante. Refrescante em um dia quente.

Estava quase em paz. Nesses instantes, sempre lhe faltava pouquíssimo para alcançar a paz. Suspeitava que a falta era fruto do silêncio ensurdecedor de seus tímpanos. No corpo, música, no ouvido, nada.

Suspirou novamente, não de serenidade dessa vez, mas, sim, de saudade de algo que ainda não havia acontecido.

Apesar dos apesares concluiu que a música era realmente uma graça. Como Tomás, o músico. Mas e quem é Tomás, afinal?