Os Super Agentes
3 Os Super Agentes
Aquela era a primeira vez que Daniel andava de helicóptero. Não bastasse o fato de que não era um helicóptero comum, mas sim um militar, ele estava sentado de frente para rostos que nunca havia visto na vida. Augustus e Amanda estavam sentados do lado dele e o silencio reinava, exceto pelo som do motor e das hélices. Daniel erguia a cabeça para tentar olhar para a imensidão azul na janela, mas era praticamente impossível já que estava sentado tão distante da mesma e com os cintos bem apertados em torno de seu corpo magro. Augustus dissera que seria uma viagem rápida, mas a primeira meia hora em que eles estavam ali já estava começando a parecer para Daniel uma eternidade. Amanda tentava fazer os jovens se introssarem, perguntando de onde vieram e como foram abordados pelos agentes que foram atrás deles, mas o silencio sempre acabava voltando a reinar, iniciado logo depois de uma tosse ou uma risada forçada. Aos poucos os passageiros sentiram o veículo descer no ar. Daniel sentia como se o helicóptero estivesse dando voltas em torno de alguma coisa. Aos poucos as nuvens brancas que estavam na janela foram substituídas por uma imensidão verde de árvores que pareciam ser de alguma selva amazônica e em seguida o helicóptero aterrissou suavemente numa plataforma onde alguns poucos homens armados aguardavam.
- muito bem – disse Augustus se livrando dos cintos de segurança – sejam bem vindos à Terceira Ilha.
- e antes que perguntem, ela leva esse nome porque ela tem o formato do número três. – completou Amanda ajudando um dos garotos com o cinto de segurança.
Daniel se livrou facilmente do cinto e seguiu Augustus para fora do helicóptero. Uma ventania forte e quente bagunçou ainda mais os seus cabelos e ele notou que estavam em uma clareira no meio da mata, e a plataforma onde haviam aterrissado se localizava no jardim de uma bela mansão branca que se destacava claramente da floresta tropical que se estendia por todos os lados. Daniel ouviu o som do mar depois que o motor do helicóptero silenciou e teve certeza de que a praia não ficava muito longe dos limites do pequeno muro que cercava a mansão.
- Augustus, até que enfim! – um homem idoso de jaleco branco surgiu pelo portal dos fundos da mansão e veio receber o casal de braços abertos – os treinadores estão aqui desde ontem e estão ansiosos para conhecer o nosso novo grupo!
- como tem passado Lizzard? – disse Augustus dando um abraço no velhinho.
Daniel notou que a mansão não era só bonita como tinha seu jardim equipado com belos arbustos podados em forma de anjos, assim como também tinha estátuas brancas de cupidos aqui e ali e uma enorme piscina cuja água parecia brilhar na mesma intensidade que o sol àquela hora da tarde.
- seja bem vindo garoto – disse o velho estendendo uma mão enrugada e trêmula para Daniel – tenho certeza de que irá gostar daqui! – e então exibiu um sorriso amarelo.
- oi – foi tudo o que Daniel conseguiu responder.
Os demais jovens que haviam viajado com ele continuavam calados e Daniel começou a duvidar se iria conseguir fazer alguma amizade naquele lugar. Enquanto atravessavam o gramado em direção à mansão, Daniel observou aqueles que seriam seus futuros “colegas”.
Um deles era um garoto ruivo com óculos de aro redondo, que mantinha as mãos juntas o tempo todo perto do peito e parecia ter um rosto cansado e desgastado demais para a pouca idade que devia ter. Logo atrás deste seguia um garoto alto e robusto, vestindo camiseta e calça tão apertadas que davam destaque aos seus músculos protuberantes; tinha cabelos negros e olhos puxados, devia ser asiático, mas Daniel não sabia dizer a nacionalidade exata. Atrás de Daniel seguia uma garota morena que parecia ser indiana, pois uma pequena joia brilhava em sua testa e seus cabelos negros estavam presos numa apertada trança que descia pelas suas costas, além de estar usando uma saia que fez Daniel se lembrar das velhas que frequentavam a igreja próxima de sua casa. O último integrante do grupo seguia bem ao lado de Amanda e parecia ser o mais suscetível a amizades; de certo modo, Daniel simpatizou com aquele garoto. Tinha cabelos castanhos com as pontas escapando por baixo do boné de skatista e usava aparelho, além de ter a mesma altura e ser tão magricelo quanto Daniel. Ele então se perguntou qual seria as coisas que eles conseguem fazer que ninguém mais consegue. O garoto que chamara a atenção de Daniel parecia ter feito amizade com Amanda em algum momento, pois eles pareciam estar tendo uma conversa agradável embora Daniel não conseguisse ouvir nada que estavam dizendo; e Daniel sentiu uma ponta de inveja de Amanda naquele momento.
Eles subiram pequenos degraus de mármore e então entraram na mansão pelo mesmo portal de onde Lizzard havia surgido. A mansão tinha cheiro de produtos de limpeza por dentro. Também suas paredes internas eram brancas e havia móveis vitorianos por toda parte, além de longos tapetes persas, pinturas clássicas nas paredes e lustres dourados maiores que os que Daniel havia visto no hotel 5 estrelas onde ele havia mostrado para Augustus e Amanda do que ele era capaz de fazer.
- que casarão hein – disse o garoto ao lado de Amanda.
- isso não é tudo. Esperam até verem aonde vocês irão treinar. Agora, que tal um lanche? – disse Augustus.
Os cinco jovens seguiram o casal por um largo corredor que levava até a grande sala de refeições, enquanto que Lizzard desapareceu subindo as escadas dizendo que iria verificar se os empregados haviam deixado todos os quartos bem arrumados para receber os “novatos”.
Só depois de sentir o cheiro da comida Daniel se lembrou de que não havia comido nada naquele dia ainda. Pela manhã ele havia sido apanhado por Augustus e Amanda no local combinado, uma praça velha e esquecida quase tomada pela floresta, e dali haviam seguido para o aeroporto onde mais quatro jovens os aguardavam, cada jovem sendo ladeado por um casal que haviam sido encarregados de recrutá-los. Então Augustus e Amanda assumiram a responsabilidade por cada jovem e embarcaram no helicóptero que os aguardava numa parte discreta do aeroporto, e cada casal fora dispensado. Foram quase três horas de viagem e àquela hora a fome começava a apertar, já que estavam perto da hora do almoço.
Uma longa mesa de vidro equipada com uma montanha de comida e um simpático garçom os aguardava na enorme sala de refeições. Daniel não acreditou que poderia comer tudo que estava ali. Há muito tempo não comia purê de batatas e frango assado. Os outros jovens também pareciam estar famintos e exibiram largos sorrisos quando viram a quantidade de coisas que poderiam degustar e logo assumiram seus lugares á mesa. A garota morena e o garoto asiático rapidamente começaram a se servir como se a comida fosse sair voando enquanto que o garoto de óculos redondos se sentou e ficou apenas assistindo. Daniel também começou a se servir, e percebeu que o garoto que só havia conservado com Amanda até àquela hora estava ao seu lado.
- olha só esse purê de batatas, nem minha avó conseguiria deixar amarelinho assim!
Daniel mostrou um sorrisinho enquanto afundava a colher pela terceira vez na superfície cremosa do purê.
- peguem leve, pessoal! – disse Augustus – os treinadores certamente irão querer ver suas habilidades ainda hoje e acho que se todos sobrecarregarem o estômago isso se tornará mais cansativo do que o habitual.
- vocês podiam conversar mais, sabe – disse Amanda, se servindo de uma pequeníssima quantidade de arroz.
O silencio pairou no ar por alguns instantes, sendo cortado pelo tilintar de talheres, até que o garoto do boné de skatista falou, depois de engolir uma boa quantidade de carne assada:
- eu me chamo Harry e eu quebro coisas. Com os dentes. Qualquer coisa. – o garoto colocou o garfo na boca e deu uma mordida; ouviu-se um leve estalo metálico e em seguida o garoto exibiu nas mãos os dois pedaços do objeto.
Todos na sala, em especial Daniel e Augustus, ficaram surpresos com a habilidade de Harry. Para Daniel era a primeira vez vendo alguém fazendo algo anormal como ele conseguia fazer, e ele se sentiu confortável de saber que não estava mais sozinho. Que não precisaria esconder de todos e apenas ter Brenda de plateia para contar de suas “aventuras” com seu “poder”.
- eu sou Alisha – disse a garota indiana – consigo ver coisas além do que os outros veem.
- você vê fantasmas? – interrompeu Harry, muito interessado.
- não! – respondeu Alisha chocada – eu tenho visão de águia. Meus olhos são como telescópios ou algo assim...
- muito bom. — disse Augustus, saboreando a comida – continuem.
- eu leio rápido. – disse uma voz tímida e rouca. Era o garoto dos óculos redondos. Estava encolhido na cadeira como um rato e seu prato ainda estava vazio – posso ler uma enciclopédia em questão de minutos. E me chamo Harvey. É o nome do meu pai e também do meu avô.
Daniel imaginou se a habilidade de Harvey o teria ajudado com Hamlet. Só depois ele percebeu que todos os olhares da mesa estavam voltados para ele. Os olhos de Harry sobre ele o incomodaram levemente.
- sou Daniel – disse. – consigo trazer coisas dos meus sonhos para a realidade.
- que legal! – disse Alisha.
- cara esse é o poder mais legal que eu já ví! – disse Harry dando um tapa na mesa.
Daniel sorriu timidamente para todos e voltou a encarar o prato. Em seguida todos olharam para o garoto asiático. Quando percebeu que era ele quem devia tomar a palavra, fechou ainda mais a cara.
- Sandeoul – disse seriamente. Em seguida apanhou uma das facas e a apertou na mão. A faca prateada começou a entortar para trás, mas em seguida ela ficou balançando no ar como se fosse uma meleca brilhante. E então pingaram pequenas gotas de prata sobre a mesa.
- você amolece coisas? – perguntou Harry.
Sandeoul o encarou com um olhar indiferente e voltou a comer. Amanda lançou um olhar para Augustus e então começou a falar para os cinco jovens sobre o que fariam naquela mansão, quanto tempo o treinamento duraria e para onde iriam depois dele. Daniel sentiu-se feliz ao perceber que aqueles aos quais se juntaria não eram tão estranhos quanto pareciam, com exceção de Sandeoul que parecia ser muito frio e mal humorado. Harry parecia esquisito, porém amigável e inofensivo. Alisha certamente ainda estava um pouco tímida, mas certamente com o tempo se abriria mais para as outras pessoas e Harry... Harry parecia ser de outro mundo. O casal e os cinco jovens comeram e beberam por um longo tempo até que Lizzard entrou na grande sala de jantar sorridente:
- aproveitem seus últimos momentos de folga crianças, seus treinadores estão ansiosos para começar o treinamento amanhã bem cedo!
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