O som de uma garrafa se espatifando no chão. Em seguida o tilintar eterno de um molho de chaves que durava até que uma delas encontrasse a fechadura e a porta fosse aberta com um estrondo. E em seguida o barulho de um saco de batatas despencando no chão. Aquilo já havia se tornado rotina para Daniel há muito tempo. O garoto se levantou da cama, desceu as escadas para dar de cara com aquilo que ele via todas as manhãs; a única coisa que mudava era a roupa suja do homem caído no hall de entrada que ele raramente chamava de pai. Daniel tornou a subir as escadas (a verdade é que só fazia isso para ver se durante a queda o pai não havia perdido um dente ou quebrado algum dedo, porque aí teria que refrescar a bebedeira para que ele fosse procurar cuidados médicos) e começou a se arrumar para ir à escola já que tirando a bebedeira, seu pai aparentava estar bem. Daniel escovou os dentes, colocou uma calça jeans surrada e uma camiseta por cima do pijama e apanhou a mochila que estava caída atrás de uma cadeira num canto do quarto, lugar onde ela havia permanecido intacta desde a hora em que ele havia chegado da escola no dia anterior. Daniel estava pálido e havia emagrecido muito recentemente; suas costelas salientes e os cotovelos pontudos faziam com que muitas vezes seus professores e até mesmo as vizinhas o cobrisse de perguntas como “está se alimentando direto?” e “como está sua saúde?”. Daniel também nunca penteava os cabelos castanhos que já estavam ficando volumosos e se aproximando dos ombros. Desceu as escadas novamente e passou por cima do pai, sem se preocupar em ser discreto, já que o homem em coma roncava como um porco. Enquanto caminhava em direção à escola, Daniel processou em sua mente as aulas que teria naquele dia: matemática, com a professora Berenice a qual ele detestava tanto a professora quanto a matéria, depois mais duas de história com o professor Davi, um ótimo piadista, e por fim mais duas de literatura com a professora Sonia e então ele se lembrou de que haveria um teste sobre Hamlet e que não havia estudado nada, muito menos lido o livro; o único momento que havia escolhido para estudar n a noite passada não fora possível fazê-lo, pois algo ficou vagueando em sua mente o tempo inteiro, impedindo-o de se concentrar. Perto do anoitecer do dia anterior, enquanto voltava da loja de revistas em quadrinhos de seu amigo Gabriel, Daniel havia sido abordado por um homem estranho que lhe fez perguntas e um convite muito estranho. E novamente Daniel viu a cena claramente acontecendo de novo, pois naquele momento estava passando pela mesma rua onde o homem o havia encurralado.

– você é Daniel Ross não é? – o homem era alto e tinha um rosto sério; grandes entradas nos cabelos ruivos, uma enorme testa branca e uma barba que preenchia boa parte do rosto.

– quem é você?

– gostaria que viesse comigo. Aceita tomar um café?

– me desculpe, mas eu preciso ir pra casa logo – Daniel recuou.

– não minta Daniel. Vai pra casa fazer o que? Aproveitar que seu pai está enchendo a cara e tem a casa só pra você para ficar olhando mulheres nuas na internet?

Aquilo realmente assustou Daniel. Como aquele estranho podia saber sobre o vício de seu pai, o fato de que só os dois moravam naquela casa e, o que deixou ele mais apavorado, como sabia que Daniel gostava de passar tempo nesse tipo de site?

– olha eu não sei quem é você, mas meu pai é amigo do delegado então se acontecer alguma coisa comigo...

– quero falar sobre aquilo que você faz, mas que você não conta pra ninguém – interrompeu-o o homem.

– hã?

– conte-me sobre como conseguiu dinheiro para comprar essas revistas – o homem apontou para a sacola na mão de Daniel, abarrotada de revistas em quadrinhos – conte-me de onde esse dinheiro veio.

– como você...? eu... eu preciso ir

Daniel foi impedido quando seu braço foi segurado pelo homem. Os dedos enluvados apertaram-no com força.

– o que está fazendo? Você quer o quê? – a voz de Daniel falhou e suas pernas tremeram

– não tenha medo, eu só quero que você saiba que você é necessário em um lugar.

– me solta!

Daniel se livrou do homem e se afastou andando depressa. O homem ainda o encarou por alguns minutos enquanto o garoto se afastava, e Daniel não olhou pra trás em nenhum momento, e então tranquilamente ele caminhou de volta ao seu carro preto, assoviando.

Quando estava mais perto de casa, Daniel correu para dentro, fechou todas as janelas, trancou as portas e caiu na cama com Hamlet aberto na primeira página e procurou estudar. Ele tentou bravamente por alguns minutos, mas a voz grave do homem de terno azul escuro dançou em sua mente por horas e horas até que Daniel adormeceu babando na página 4.

– Dan! – uma voz feminina cortou o devaneio de Daniel que, sem perceber, já havia feito todo o percurso e agora se encontrava parado no portão da escola.

– ah... bom dia Brenda.

– ei o que é que há? Você não parece bem...

– eu só não... não tive uma noite muito boa.

– você parece tenso.

– ainda mais com esse teste da Sonia...

– ah nem me fale! Eu sequer peguei naquele livro! Fiquei muito ocupada com o Lucas ontem à noite.

– como assim?

– digamos que ele dormiu lá em casa só que sem eu ter pedido aos meus pais – riu Brenda.

Daniel forçou um sorriso que Brenda não viu, pois estava ocupada procurando um espelho de maquiagem na bolsa. Os olhos de Daniel se arregalaram quando ele, depois de olhar para a pequena multidão de adolescentes que entrava pelo portão da escola, entediados e sonolentos, encontrou o homem da noite passada do outro lado da rua, olhando para ele por cima do teto do carro preto.

– Brenda...

– ei, cuidado! – Daniel havia segurado o braço da amiga, fazendo-a errar o batom no caminho do lábio superior, criando uma trilha ligando a boca à narina esquerda.

– aquele cara ali tá atrás de mim!

– que cara?

– aquele ali do carro preto!

– hum ele é bonitão hein... Quem é?

– ele sabe de mim!

– o quê? Mas você não disse que não estava acontecendo mais?

– aconteceu semana passada. Dessa vez voltei com dinheiro!

– e por que você não me emprestou seu verme?! Sabia que aquele vestido na loja da Stacy já não está mais na vitrine? Sabe o que isso significa? Que ele foi comprado e que eu nunca na minha vida vou colocar aquela belezinha no meu corpo e a culpa é toda sua por não ter me dado dinheiro!

– ele tá atrás de mim! Ele quer me levar pra algum lugar e... – Daniel estava trêmulo e o pânico começava a tomar conta de cada átomo de seu corpo.

– ei, vê se você se contém, está parecendo uma bicha!

– desculpe.

– olha só, vamos entrar tá legal, se na saída esse cara ainda estiver aí então eu vou falar com ele, beleza?

– tudo bem.

– agora respira e vamos pra aula porque eu não to afim de ser alvo da vaca da Berenice hoje, anda.

Rápida e calmamente, Daniel e Brenda adentraram o antigo prédio onde funcionava a única escola daquela pequena cidade. O homem do terno azul permaneceu ali, de braços cruzados. Dessa vez não estava sozinho. No banco do passageiro estava uma bela mulher de óculos escuros, olhando para a mesma direção que ele.

Daniel sobreviveu com louvor ás duas aulas de matemática, conseguiu dar algumas risadas das piadas do professor Davi e também se divertiu com os amigos durante o intervalo, coisas que o fizeram esquecer-se de seu perseguidor, mas foi durante o teste de Hamlet que ele começou a olhar freneticamente para a janela da sala. Para seu azar, ela não dava para a rua da frente, de modo que não sabia se o homem ainda estava lá fora.

Daniel olhou para o lado. Brenda, disfarçadamente, olhava para o celular e então rabiscava alguma coisa na prova. A de Daniel permanecia em branco. A professora Sonia, uma velha rechonchuda com óculos de bibliotecária o encarava de sua mesa; suas unhas em formado de garras tamborilavam a superfície de madeira velha. Daniel realmente iria se dar mal naquela prova.

– com licença professora Sonia – disse uma voz grave depois de duas batidinhas na porta e então metade de um homem de terno azul escuro apareceu por cima do trinco. Um fio de gelo percorreu a espinha de Daniel; suas mãos começaram a suar frio.

A professora Sonia ficou de pé e gingou até a porta da sala, olhando fixamente para os alunos com a cara mais assustadora que conseguiu fazer; usava aquela mesma cara quando ia ao refeitório também, mas aparentemente, aquele belo homem ruivo na porta de sua sala conseguiu adicionar um pouco de leveza a sua face carregada de rugas. Daniel começou a se remexer na cadeira, olhando para o relógio e para as janelas da sala. Quanto tempo levaria para andar até uma delas, pular e sair correndo sem que a professora Sonia notasse? E Brenda, estaria segura? O homem o havia visto conversando com ela... e se tentasse algo com sua amiga? Daniel olhou para ela e seus olhos se encontraram. Os dela expressava dúvida. Os dele, um pedido de ajuda.

O homem ruivo e a professora cochicharam alguma coisa e depois de um tempo ela virou-se para a turma:

– Daniel Ross! – sua voz rouca de fumante cortou o silencio e todas as cabeças se viraram para o rosto suado do garoto – este homem gostaria de lhe falar em particular.

Daniel encarou o rosto sorridente do homem. Não parecia ameaçador. Daniel estava cercado de pessoas e tinha Brenda por perto, não havia o que temer. Se o homem tentasse alguma coisa, iria gritar; se o tentasse levar para fora da escola, recusaria, e se ele insistisse pediria socorro. Iria exigir que o homem lhe dissesse o que queria com ele ali mesmo, agora.

Lentamente, o garoto levantou-se de sua carteira e caminhou vacilante até a porta. Houve cochichos entre os alunos enquanto ele se dirigia até o homem do terno azul escuro. Daniel passou por ele e o homem fechou a porta atrás de si.

– olha não precisa ter medo de mim... estou aqui para ajudar.

– que diabos você quer? – perguntou Daniel, rispidamente.

– podemos ir até o refeitório? O que eu tenho a dizer aqui não pode ser ouvido por ninguém além de você.

Daniel olhou para os lados. O corredor estava deserto.

– pode dizer aqui mesmo.

O homem revirou os olhos:

– você pode me acompanhar e ficar sabendo de tudo e eu dou um jeito para que você tire um 10 nessa prova ou você pode voltar para dentro dessa sala, se sentar na frente daquela folha amarelada e tentar colocar tudo o que sabe sobre Hamlet nela, você escolhe. – o homem pareceu impaciente, mas havia uma leve dose de humor e paciência na sua fala.

Daniel se sentiu sem saída. Os punhos cerrados dos lados do corpo.

– tudo bem, vamos.

O homem seguiu Daniel até o refeitório, que não ficava muito longe e não houve conversa durante o trajeto. Passaram por alguns estudantes que olharam curiosos para eles; Daniel sempre em silencio e encarando o chão, o homem sorridente e acenando para todos.

Daniel entrou no refeitório limpando os dedos na camiseta depois de ter tocado na porta que parecia transpirar gordura e viu o lugar vazio, exceto por uma mulher de cabelos pretos e muito lisos sentada sozinha em uma das mesas bem no centro do refeitório, olhando carinhosamente para ele.

– Daniel eu quero que conheça Amanda – ela acenou sorridente – e eu sou Augustus.

– quem são vocês?

– por que não se senta querido? – Amanda tinha uma voz tão suave e melodiosa que fez Daniel se sentir levemente bem. Ele a obedeceu. Augustus sentou-se do lado dela. Estavam os dois de frente para o garoto. Amanda segurava em sua mão um objeto que parecia um celular, mas pelo chiado que fazia, parecia uma espécie de detector.

– estamos seguros? – perguntou Augustus.

– sim, não há ninguém por perto além de nós num raio de mais ou menos 20 metros. Podemos conversar em paz, mas mesmo assim mantenham o tom de voz baixo.

– muito bem. Daniel, preste atenção – Augustus juntou as mãos e assumiu uma postura séria. O garoto se sentiu sendo levado para outra dimensão – eu sei que está assustado por causa de ontem e também pelo fato de eu saber tanto sobre você. Na verdade, me desculpe pela abordagem de ontem, aquilo foi total falta de profissionalismo. Devia ter falado com você ainda na loja de revistas do seu amigo, mas enfim... estamos aqui porque precisamos de você.

Daniel engoliu em seco.

– e pra quê?

– queremos que entre para o nosso time, que tome um rumo diferente na sua vida.

– e que rumo seria esse? E de que time vocês estão falando? Sinto muito mas eu não sou muito fã de esportes e...

– somos assassinos profissionais – interrompeu Amanda.

– devagar – advertiu Augustus.

– o quê? – berrou Daniel.

– SHHH! Não é exatamente isso Daniel! Somos agentes do governo, somos muito bem pagos e nosso grupo é altamente secreto. Acontece que trabalhamos de uma maneira diferente dos demais grupos cuja existência também é desconhecida... nós temos pessoas como você inclusas nele.

– como eu?

– pessoas que conseguem fazer algo que as demais não podem – disse Melissa, segurando uma das mãos de Daniel. Augustus a lembraria de lavar bem as dela mais tarde.

– como sabem que eu... do meu.. sei lá... digamos poder?

– explicaremos isso em uma outra hora mas agora que você já sabe que eu não estou aqui para te machucar, quero que venha dar uma volta conosco para darmos mais detalhes. – disse Augustus se levantando. Daniel o encarou – você vem ou prefere voltar pra sua sala?

– mas e a minha prova?

– somos do governo garoto, relaxe! Deixe que eu cuido do Hamlet para você.

Melissa riu. E então Daniel seguiu aqueles dois estranhos até o luxuoso carro preto estacionado na rua da escola e que cheirava tão bem por dentro e desapareceu de vista com eles, sem antes rabiscar na tinta da bicicleta de Brenda com sua chave de casa: “eu estou bem, volto logo, -D”.