O relógio palpitava incessante tic tac tic tac. Seu pulso mecânico refletia nas paredes sujas da pequena casa de pedras bolorentas. O escuro ferido unicamente por uma pequena lamparina a óleo no centro da sala; era noite, uma noite de caçada, como todas as outras naquele lugar amaldiçoado. Do lado de fora das grandes janelas de ferro escuro, ouvia-se os gritos macabros das bestas inomináveis, vindos do fundo de suas gargantas guturais.

William se escondia no escuro, se agarrando como animal agonizante à lamparina cuja chama tremia, obscura. Suor de medo escorria por sua pele grosa, suja e oleosa. Sua barba levemente acinzentada raspava no vidro da lamparina, ele a sentia esfriar.

A pequena casa em que vivia com a família estava silenciosa.

O sussurro da noite e os grunhidos dos monstros inundavam o silêncio, perturbadores, como folhas sobre as águas escuras de um lago. Ao fundo, perdido no mar de grunhidos indecifráveis aos ouvidos humanos, ouvia-se, tênue e em notas agudas, um grito histérico de alguma pobre alma que ficou do lado de fora durante a noite. A cada um desses ápices de medo no oceano sombrio de grunhidos, o coração do velho William dava um salto: sua esposa e sua pequena filha ainda não haviam voltado para casa. “Há abrigos, temos amigos que as acolheriam, com certeza” ele dizia para si mesmo. Aquela não era a primeira vez que elas não voltavam para casa, por que daquela vez seria diferente? Mas, por algum motivo, mesmo sentindo um grande calor sob sua pele áspera de trabalhador fabril, ele tremia. A lanterna em suas mãos começava a piscar a medida que a noite entrava pelas frestas da casa, penetrando pelas portas e janelas como uma doença imunda.

A escuridão o circundava, envolvendo seus ouvidos como uma serpente sombria, sussurrando em seus ouvidos palavras de miséria e dor. “Elas estão mortas!” riam-se as sombras “Elas foram devoradas lentamente” a voz irônica fazia o homem se apertar contra si mesmo,.“Você terá de limpar o sangue delas pela manhã” a língua venenosa da umbra se agarrava aos ouvidos do homem como se quisesse sugar-lhe a alma. Ele se debatia no sofá mofado, tentando inutilmente se livrar daquela escuridão.

As criaturas do lado de fora se arrastavam, gemiam e se chocavam umas contras as outras e contra as paredes, produzindo sons indecifráveis aos ouvidos humanos. Alguma criatura próxima a janela de William produziu um gutural e sibilante rugido e o velho trabalhador e seus ouvidos cansados sentiram na vibração do ar um grito de uma voz familiar; desesperado, ele deixou a lamparina cair fazendo-a extinguir-se definitivamente.

Com um gemido de agonia, ele caiu sobre o metal cada vez mais frio da antiga fonte de iluminação. A escuridão, então, se infiltrou pelas brechas das portas e janelas, em um frenesi sombrio, quase vivo. As sombras envolveram a casa e dela se apodessaram, reclamando-a para seu reino sombrio. O relógio e suas engrenagens pararam por completo, anunciando a sombria noite eterna que se arrastaria naquele pesadelo dentro e fora da mente de William.

As sombras começaram a envolvê-lo, adentrando suas entranhas e remexendo-as, usando como portas seus olhos, ouvidos e desespero. Sua mente involuntariamente começou a vomitar cenas fúnebres e nefastas de sua esposa e filha sendo esmagadas, devoradas e trituradas por monstros que mudavam de forma toda vez que neles se concentrava, assumindo imagens impossíveis para a mente humana sonhar.

Tudo que ele via era sangue.

No chão, agarrado contra si mesmo, ele chorava e lamentava palavras como ‘socorro’, ‘alguém me ajude’, palavras sem sentido perdidas na escuridão que o abafava contra sua própria carne. Cambaleando, já meio tomado pela insanidade abafada que inundava o ar noturno de Yellohow, ele se agarrou a um pedaço de cano enferrujado que estava caído em algum canto perdido na sala, apenas esperando. Ele sentiu o metal frio contra sua mão vacilante, tremendo sob aquela ideia insana que agora ofuscava sua razão como uma gigante caldeira numa fábrica cinzenta.

Sua insana amostra de uma solução martelava incessantemente como uma máquina em um ritmo monótono e lúgubre, fazendo-o apertar os dedos contra o frio até que ficassem brancos. Ele ergueu o cano, sentia seu peso reconfortante contra as mãos calejadas de trabalho, sorriu docilmente. As sombras se agarraram a seu corpo, possuindo-o lentamente; ele já não mais via nada a sua frente além da porta de sua casa. Ele cambaleou, o verso vacilante de um condenado à morte, o peso do cano pendia para a direita a cada passo que o moribundo dava. “Preciso...Salvá-las” ele parecia balbucear, mas sua voz soava como as criaturas bestiais e as palavras eram cuspidas em baba suja e gosmenta. A escuridão dançava pelo aposento, já passando completamente pelos buracos na alma daquela casa e daquele homem. Ele girou a maçaneta lentamente, sentiu o vento frio da noite bater-lhe nos cabelos ensebados e avançou a passos cegos na direção da rua.

Pela manhã, havia muito sangue em sua porta.

Notas finais
Espero que tenham gostado :)
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.