Os Sobreviventes
6 Revelação
Notas iniciais
Eu sei que isso não justifica, mas eu tô dodói, então não pude postar antes.
De qualquer forma, aí está mais um capítulo, espero que gostem.
A noite passou rápido, depois da minha crise de choro, fechei os olhos e quando os abri, já era dia. Olhei em volta, confusa, como sempre ao acordar. Não reconheci onde estava, era uma caverna, não um casebre. Foi quando eu lembrei de tudo e quis morrer, Daniel se fora, Jake se fora, Heather se fora.
- bom dia – disse alguém.
Olhei para cima, um par de olhos castanhos e vivos me olhavam. Respirei fundo, Jamie sorriu para mim, estava com a cabeça pendurada para olhar para mim, o resto do corpo estava na cama.
- dormiu bem? – perguntou – claro, mesmo depois daquele momento.
- sim – falei
Ele sorriu e sentou na cama, olhei para o teto da caverna. Fiquei sacudindo os pés e a cabeça, pensando em musicas que não ouvia á muito tempo, que saudades do Green Day.
- parece que alguém está com energia – disse Jamie – isso é bom, você pode me ajudar á cuidar do trigo, em breve colheremos.
Assenti, ele levantou e se espreguiçou. Sentei no colchonete, ainda estava com sono, mas tinha que levantar. Foi o que fiz, quase cai na primeira tentativa, mas Jamie segurou-me pelos pulsos.
- valeu – falei
Ele deu uma risada, franzi as sobrancelhas.
- parece que seu senso de equilíbrio não melhorou nada – comentou.
- hey! – protestei.
Dei-lhe um soco brincalhão, ele riu e se esquivou.
- você bate como uma menina – zombou
- claro, algo anormal – falei – sou um homem de meia idade com ulcera.
Ele riu, sorri e achatei o meu cabelo, arrumando a franja que eu mesma cortara.
- continua delicada – reparou
Dei de ombros, ele sorriu e pegou algumas roupas em cima da cama.
- eu vou tomar banho – falou
- banho, ótima ideia – falei.
Ele me avaliou com os olhos, fiquei parada, apenas por costume.
- eu vou te emprestar uma camisa minha – falou – vai servir até não conseguir outra coisa.
Ele pegou uma camisa de botões e mangas, peguei-a e ri.
- rindo do que? – perguntou
- você com fantasia de pinguim – ri – essa cena eu pagava para ver.
Ele revirou os olhos e me atirou uma toalha, respirei fundo e sorri para o chão.
- Melanie achou que eu ficaria bonito nisso aí e pediu para Peg “pegar” em uma loja qualquer – contou – com dezesseis anos. Fala sério, eu nunca usaria algo assim, tem ideia de como é quente aqui no verão?
Ri outra vez, ele sorriu.
- vamos, o banheiro é um pouco longe – chamou.
- vou me perder – falei
Ele negou com a cabeça e pegou minha mão, tentei o melhor que pude não olhar para nossas mãos juntas.
- não, não vai – falou – eu vou te levar.
Assenti, ele me conduziu pela mão até o corredor. Andamos por alguns minutos em silencio, já estava perdida aos cinco minutos de caminhada, mas Jamie me guiou direitinho. Tentei não pensar em nossas mãos colados, nem nos sorrisos que ele me lançava sempre que eu tropeçava, mas eu não tinha certeza se ele estava sendo simpático ou rindo de mim. Chegamos á uma outra caverna, já tinha certeza de que era a casa de banhos, mas Jamie fez questão de me explicar tudo, inclusive sobre uma parte que se eu caísse, não voltava mais.
- ok, já sei – falei – me arruma um sabonete que eu me viro.
Ele me atirou uma barra de sabão, cheirava razoavelmente bem, mas devia pinicar.
- espere aqui – mandou
- como quiser — ironizei
Ele revirou os olhos e foi tomar banho, sentei no chão e fiquei cantarolando e esperando o tempo passar até que ele voltou. Seus cabelos estavam molhados, as roupas limpas e cheirosas. Hora da confissão: gamei naquela criatura linda parada bem na minha frente.
- sua vez – falou
Sacudi a cabeça, encarava seu rosto como se estivesse em transe. Levantei e passei por ele no corredor, senti-a me horrível por não estar perfumada como ele, mas sabia que isso mudaria logo. Entrei na piscina de pedra , a água estava um pouco fria, mas estava calor, não me importei. Tirei as roupas que vestia e lavei-as com a barra de sabão, tive o cuidado de tirar do bolso do casaco militar (do meu avô, ficava grande em mim, mas tinha bolsos) meu canivete, minha faca de combate (também herança do meu avô), meu pen drive (ainda guardo o bom rock and roll, nunca desista da boa música) e um frasco de perfume que roubei da casa de uma senhora, tinha o cheio ótimo de amoras e pêssego, cítrico e doce, perfeito. Esfreguei o sabão no meu corpo, pinicava tanto que minha pele ficou vermelha em alguns pontos, trinquei os dentes, Jamie devia estar de brincadeira. Terminei o banho e me enxuguei com a toalha, estendi minhas roupas molhadas no meio das pedras. Peguei a camisa de Jamie e a vesti sem as mangas, usei-as como laços, algo que vi na TV um dia.
Arrumei os cabelos e fui até Jamie, ele sorriu ao me ver.
- está bonita – falou
- obrigada – falei – você também não está de se jogar fora.
Ele riu, sorri.
- vamos, comer e depois trabalhar – falou
- não me parece um bom programa – resmunguei – mas, vamos.
Ele revirou os olhos e seguiu pelos corredores escuros da caverna, fui seguindo-o sem pressa, apenas lembrando de como gostava de ficar com ele.
- deve estar se perguntando o que fazemos por aqui, certo? – falou
- sim – menti, estava pensando no quanto ele ficara lindo.
- trabalhamos, praticamos esportes quando queremos – falou – alguns ficam só por aí, de bobeira.
- você faz qual estilo? – perguntei
- trabalho de bobeira – falou – categoria nova.
- eu vou ser dessa aí – falei
Ele riu, chegamos á cozinha, humanos comiam e conversavam. Peguei pão e suco, Jamie me levou para a mesa de ontem. Sentamos e comemos em silencio, até Melanie aparecer.
- como foi a noite de vocês? – perguntou
- boa – disse Jamie, ele não deve ter detectado o duplo sentido na frase, pelo menos, não como eu – e a sua?
- boa – respondeu
Ergui uma sobrancelha, ela disfarçou.
- Bonnie vai fazer o que? – perguntou
Abri a boca para responder, mas Jamie o fez na minha frente.
- ela vai me ajudar com o trigo – falou – depois, vai comigo á caverna exterior.
- não – disse Melanie – eu já disse que não quero você na caverna exterior.
- caverna exterior? – perguntei
Jamie ignorou Melanie e olhou para mim, um sorriso maroto formava-se em seu rosto.
- recente descoberta, Mel não gosta de mim lá – respondeu – podemos subir algumas formações de rochas, usa-las como escadas, e varar nas montanhas, de lá, evitamos cair, é claro, depois, é só sentar e ver o deserto inteiro.
- parece uma boa – falei
- mas, vocês não vão – disse Melanie – detesto ser a chata aqui, mas é perigoso.
- não para mim – disse Jamie – eu sei me cuidar, não sou mais uma criança.
Melanie olhou para mim, seu olhar quase me fez me encolher.
- é perigoso, não quero vocês lá – falou.
Assenti, Jamie bufou, mas não discutiu. Terminamos de comer em silencio depois disso, Jamie nem mesmo falou com Melanie quando levantamos e voltamos para os corredores das cavernas.
- que clima – falei – vocês brigam sempre?
Ele negou com a cabeça, esperei.
- ela fica querendo me proteger, eu já disse que não sou mais criança – resmungou.
- vocês parecem o Dan e eu – falei – era a mesma coisa até eu matar minha primeira vitima.
Ele me olhou, sorri com inocência.
- está brincando, certo? – perguntou
Neguei com a cabeça e sorri como se não tivesse feito nada de errado, Jamie engoliu em seco.
- podemos continuar? – perguntei – estou com vontade de trabalhar.
Passei por ele, mas logo tive que parar, não sabia como chegar á lugar algum sem ele. Jamie me guiou até os campos de trigo, ele ainda parecia em choque com minha ingênua revelação, que mal á em matar algumas almas?
Eu sei, todo o mal do mundo, mas eram elas ou eu.
Mas, duvido que Jamie pensasse assim.
Estava tão perdida em devaneios que nem percebi que Jamie me estendia um regador, ele parecia paciente, mas eu sabia que só estava fingindo. Peguei o objeto de sua mão, ele mal me olhou ao começar á regar. Reguei a plantação, tinha que admitir, era bem raro trigo crescendo de forma saudável dentro de um sistema de cavernas, os espelhos eram uma ideia de gênio.
- uma boa, não são? – perguntou Jamie – ideia genial.
- com certeza — respondi
- foi o tio Geb – contou – ele descobriu tudo isso, é um gênio.
- como eu disse anteriormente – citei – já terminamos?
Ele olhou em volta, o pedaço que regávamos já estava úmido o suficiente.
- acho que sim – respondeu.
- e agora? – questionei – o que vamos fazer?
Ele deu de ombros e largou o regador, larguei o meu também.
- ficar de bobeira por ai – sugeriu
Sorri e suspirei, ele não reparou.
- vem – chamou
Segui-o pelos corredores, cruzamos com alguns humanos, Jamie sempre cumprimentava todos, e eu sempre ficava toda sem graça, eles me olhavam de forma estranha, ainda deviam lembrar do comentário de Melanie ontem no jantar. Jamie e eu entramos em uma caverna menor, era onde guardavam os suprimentos. Ele sentou em uma caixa de madeira e remexeu em uma outra caixa, tirou de dentro um pacote de batatinhas fritas e jogou para mim.
- valeu – falei
- não á de que – respondeu – mas, me conta, como foi sua vida?
Olhei para o chão, ele esperou.
- qual parte você quer saber? – perguntei
- a partir do momento em que vocês foram para Boston – disse
- okay – respondi – assim que chegamos, Dan procurou fazer novos amigos, e conseguiu.
- sempre consegue – comentou Jamie
- exato. Bem, eu passei os dois primeiros anos da melhor forma possível. Fiz amigos, fui á escola, aprendi á andar de bicicleta – contei – aí, o meu pai morreu.
Ele assentiu, respirei fundo e encarei as paredes cavernosas.
- depois do enterro, a mamãe surtou – contei – ficava horas olhando a foto dele, tipo, uma louca mesmo. Ela demorou quase um ano, mas superou.
- sinto muito – falou
Dei de ombros.
- faz muito tempo – rodeei, odiava falar disso – e a sua vida?
Ele olhou para o chão, esperei.
- foi a mesma coisa, sem vocês, mas a mesma coisa – contou – escola, cachorro, parque. Tudo a mesma coisa.
- e quando as almas chegaram? – induzi
- eu fugi com a Mel – falou
Senti que não era toda a verdade, mas deixei essa passar.
- bom, um mês depois que conseguimos fugir da infestação de lacraias zumbis, a mamãe foi pega – contei – ela revelou nossa localização, Dan e eu estávamos em um galpão velho e abandonado. Escapar foi duro, foi quando eu matei meu primeiro buscador.
Ele me olhou, fugi de seu olhar.
- você tinha quantos anos? – perguntou
- 13 – respondi – e o Dan, 15.
Ele ficou outra vez em choque, respirei fundo.
- matou com 13 anos – repetiu – como conseguiu?
Dei de ombros.
- o Dan derrubou o cara, a faca estava á meu alcance, a traqueia dele quase me chamava – falei – foi assim.
Era mentira, o cara mataria a mim, Dan arrancou-o de cima de mim, eu peguei a faca e cortei a garganta do buscador. O sangue espirrou, molhou meu rosto, ele engasgou até o brilho deixar seu olhar. Sorri com a lembrança, Jamie me olhou.
- eu sinto muito – falou – por você ter tido que matar.
Sacudi a cabeça, ainda via o sangue nas minhas mãos.
- eu estou bem – falei – sempre estive em paz com isso.
- paz? – falou, estava alarmado – você matou, não pode ficar em paz.
- mas eu estou – falei – deixa isso para lá, eu pedi perdão.
Ele piscou, confuso.
- perdão? – repetiu
- é – respondi – passei uma semana chorando, mas passou.
Silencio, Jamie demorou um pouco para se recuperar.
- é difícil aceitar isso – comentou, sua voz saiu baixa e abalada – que aquela menina que eu conheci, virou...
Monstro, ele não chegou á falar, mas esse era o complemento chave. Engoli em seco, Jamie olhou para o chão.
- eu sei que é horrível – falei – me arrependo disso, mas não posso mudar o passado.
Mentira, eu nunca me arrependi, era mesmo uma louca assassina. Mas ele não precisava saber disso.
- desculpe por ter contado – falei
- tudo bem – falou – foi melhor saber.
Suspirei, ele levantou o olhar.
- esqueça isso – falei – eu não falo mais, é só não pensar.
Ele assentiu, fiquei aliviada.
- pois bem, como chegou no deserto? – perguntou
- andamos muito por aí – falei – eu soube que os buscadores não entravam no deserto, então, desviei nossa rota. Dan e eu devíamos estar em alguma floresta agora, mas eu insisti.
- foi uma boa sacada – falou – nós nos reencontramos.
Sorri, ele também.
- isso foi uma coisa realmente boa – comentei
- concordo – respondeu
Sorri mais ainda, Jamie suspirou.
- cansei de falar – disse – vamos andar por aí, você tem muito o que aprender.
Assenti, ele levantou e estendeu a mão á mim, aceitei e levantei. Eu tinha certeza de que esse assunto não estava morto, ele ficaria remoendo isso até me perguntar outra vez, Jamie é muito nobre para aceitar esse tipo de crime. Tentei não pensar nisso enquanto seguia no corredor com ele, mas nunca fugiria desse assunto. Estava apenas adiando o inevitável, cedo ou tarde, teria que confessar que não tinha matado apenas um.
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