Os Sobreviventes
12 O Fim
Notas iniciais
O ar sumiu. Minhas pernas fraquejaram. Eu já não sentia mais o meu corpo. Minha mãe continuou avançando em minha direção. Estava a pelo menos 20 metros. Ela continuou a avançar. Ela não iria me morder. Eu era seu filho, ela se lembraria disso. Não iria me morder. Não iria me morder. 5 metros.
— Mamãe? — Falei.
Um tiro atingiu-a na cabeça fazendo com que seu sangue espirasse em mim. Caí. Algo me pegou pelo braço, e minhas pernas começaram a andar. Eu não via nada. Só ficava vendo minha mãe.
Dei-me conta de que já estava correndo. Pelo menos uns mil mortos-vivos estavam atrás da gente. O barulho do tiro atraiu provavelmente metade dos zumbis da cidade.
Entramos no prédio velozmente. Trancando a porta. Começamos a subir para o segundo andar. Trancamos a porta do segundo andar. Um morto-vivo correu na minha direção. Acertei-o com o facão no pescoço decepando-o. Continuamos correndo. Terceiro andar. Entramos e nos deparamos com 3 mortos-vivos. Acertei um no meio da testa e Nick atirou nos outros dois. Eu já estava ficando sem fôlego.
Entramos no quarto andar. Nenhum morto-vivo. Encontramos o resto do grupo lá. Olhei para todos ainda com os olhos encharcados.
— Tem algum zumbi aqui? — Perguntou Nick.
— Não! — Respondeu Clarice. — Já demos a geral nesse andar.
— Onde fica o banheiro? — Perguntei.
— Dobrando ali à direita. — Respondeu Annie. — Está tudo bem, Matt?
Comecei a andar naquela direção. Dobrei onde ele havia falado e encontrei o banheiro. Abri a porta, e entrei. Liguei uma torneira, e por incrível que pareça tinha água. Lavei meu rosto. Comecei a vasculhar todo o banheiro. Nada que eu procurava tinha ali.
Saí do banheiro. Vi Carol e chamei-a.
— Carol, preciso de um favor.
— Fala.
— Me empreste seu canivete. Entrou um pedaço de pau em meu dedo. Quero tirar.
Ela tirou o canivete da cintura e me entregou.
— Bom proveito.
Voltei para o banheiro, e tranquei a porta. Peguei firmemente o canivete e o segurei sobre meu pulso esquerdo. Depois que eu perdi minha mãe, não existia mais motivos para continuar seguindo em frente. Comecei a chorar novamente. Chorava feito uma criança. Meu nariz escorria. Sentei-me no chão. Comecei a pressionar o canivete contra meu pulso. Estava tão absorto em meus pensamentos que não percebi a porta sendo derrubada.
— O que você está fazendo? —Gritou Annie me abraçando por trás e me tomando o canivete. Ela jogou o canivete pra trás e pediu que os outros saíssem.
Não falou nada por um bom tempo. Ficou somente ali me abraçando e mexendo no meu cabelo.
— Vai ficar tudo bem se ficarmos juntos, lembra? — Perguntou ela.
Não respondi fiquei olhando fixo para o chão.
— Por que você estava fazendo isso agora? Depois de termos chegado tão longe?
— Minha mãe estava transformada... Está vendo esse sangue? — Apontei para minha camisa. — É dela.
Ela colocou as duas mãos sobre a boca.
— Ai meu Deus! Eu sinto muito... Eu sinto muito mesmo!
— Nunca vamos chegar ao Abrigo! — Falei. — Eu sei, você também sabe disso... não sabe?
Ela me olhou, e fez que sim com a cabeça.
— Mas não irei desistir! —Falou ela. — Não depois de tudo que passei.
Ficamos ali em silêncio.
— Prometa que não vai tentar suicídio, de novo. — Exigiu ela.
— Por quê? — Perguntei.
Ela me avaliou por um momento, e disse:
— Na nossa vida existe um momento em que agente pensa: "Te procure minha vida inteira". E, quando eu te beijei, foi o meu momento pra pensar isso de você! Eu... eu quero ficar com você! Sei que parece loucura, e talvez seja, mas... eu te amo!
Meu coração estava acelerado. Ela acabara de dizer que me amava. Eu também sentia algo profundo por ela. Não sabia dizer se era amor, mas se não fosse era algo bem perto disso.
— Fale alguma coisa. — Disse ela.
Encostei meus lábios nos doces lábios dela, selando o melhor beijo da minha vida e sussurrei:
— Se ficarmos juntos tudo dará certo.
* * *
Estávamos ouvindo ruídos do andar acima do nosso. O quinto andar. Mortos-vivos sem dúvida.
— Temos que subir logo. — Falou Samantha impaciente.
— Concordo com você! — Exclamou Clarice.
Ficamos nos olhando por algum tempo, num longo silêncio.
— Vamos descansar mais alguns minutos, daí agente vai pro próximo andar.
— Não! — Falou Samantha. — Precisamos ir agora, se quisermos chegar ao último andar até à noite.
Pensei um pouco sobre o assunto. Poderíamos descansar um pouco, nossos músculos. Mas, estávamos muito empolgados com a ideia de chegarmos ao Abrigo, e encontrar pessoas que não tentassem nos devorar.
— Tudo bem! — Falei. — Todos de acordo em subirmos agora?
— Sim! — Exclamou Britany excitada, já pondo-se de pé.
Nick fez sinal afirmativo com a cabeça, e com isso estava decidido: iríamos subir! Começamos a caminhar em direção a escada. Subimos, até a entrada da porta. Daniel, pegou a maçaneta e abriu-a. Nada. Parecia que todos os mortos-vivos estavam trancados nos escritórios. Ouvimos o barulho de algo sendo arrombado, e percebemos que os mortos-vivos que estavam na rua, agora subiam para o quarto andar. Fechamos a porta e começamos a correr desesperadamente para o quinto andar.
Entramos no quinto andar e fechamos a porta atrás da gente. Britany apoiava-se em Annie. Aceleramos, o passo em direção ao sexto andar. Ouvi um grito e olhei para trás. Britany havia caído e agora um morto-vivo estava sobre ela. Annie também estava caída mas já estava se colocando de pés para ajudar Britany.
Mas no entanto, não foi rápida o suficiente. Os dentes do morto-vivo atravessaram a carne do pescoço de Britany, fazendo todos entrarem em pânico. Annie enfiou a faca na nuca do morto-vivo que caiu sobre Britany sem vida.
— Britany... — Falou Annie colocando as mãos sobre o ferimento no pescoço de Britany. — Vai... ficar... tudo bem! — Ela já chorava.
Fui para seu lado. Olhei nos olhos de Britany. Ela se debatia, tremendo, pela perda de sangue. Uma lágrima desceu de meus olhos. Que droga!
— Você vai para um lugar melhor agora! — Falei. Eu não acredito em Deus, mas Britany acreditava.
Ela parou de se tremer e seus olhos agora estavam abertos focando o nada. Ela morrera.
Peguei o braço de Annie e a levantei.
— Vamos! — falei. — Não podemos fazer mais nada!
Annie olhou Britany por mais um minuto. Ajoelhou-se e beijou-a na testa. Ouvimos outro barulho. Os mortos-vivos estavam subindo o prédio. Em poucos minutos, estaríamos fodidos.
Voltamos a correr. Agora em direção ao sétimo andar. Abrimos a porta do sétimo andar, e uns 4 mortos-vivos vieram em nossa direção. Samantha atirou sua faca e atingiu um dos mortos-vivos na cabeça, matando-lhe instantaneamente. Nick atirou em outros dois e o outro quem matou foi Annie, enfiando-lhe a faca na testa.
Continuamos nosso trajeto. Nick segurava uma sacola com o material que tínhamos pego na loja. Oitavo andar. Fechamos a porta como havíamos feito nos andares anteriores. Esse andar parecia vazio. Caí no chão. Precisava descansar. Meu corpo não aguentaria correr por nem mais um minuto sequer.
— Preciso descansar um pouco! — sussurrei, empapado de suor.
Os outros, com excessão de Nick, sentaram-se no chão. Ficamos ali parados ouvindo somente nossa respiração e nossos batimentos do coração.
— Temos que continuar! — Falou Samantha.
Levantamo-nos com dificuldade, e ouvimos outro som de algo se quebrando. Eles estavam mais próximos agora.
— Vamo dar o fora daqui! — Falou Daniel.
Corremos. Nono andar. Faltava agora, somente 2 andares, e chegaríamos ao topo do prédio. Nesse andar não havia nenhum sinal de vida. Bom pra nós. Continuamos nossa longa subida. Décimo andar. Nesse, sim havia muitos mortos-vivos. Ouvi alguns gritos, porém tive que continuar matando os que me atacavam. Algo me puxou pelo braço. Um morto-vivo. Dei-lhe um murro na cara, e ele cambaleou para trás. Outro veio por trás de mim, e acertei-lhe o facão no rosto, matando-o. Virei-me para trás e matei o que acabara de me pegar pelo braço. Olhei para todos os lados. parecia que todos os mortos-vivos, estavam mortos. Olhei para o lado e vi Samantha, com uma terrível marca de mordida no braço.
— Não... — falei, correndo em sua direção.
Que merda! Primeiro perdi Denny, meu melhor amigo, agora vou perder Samantha. Eu havia prometido para Denny que não deixaria isso acontecer. Apesar de eu e Samantha termos brigado muito ultimamente, ela era a pessoa — depois de Annie, claro — que eu mais confiava.
— Você tem que continuar! — Falou Samantha. — Tem que conseguir viver...
Passe meus braços por o seu corpo e abracei-a. Ela estava calma.
— Tudo bem... — Sussurrei e seu ouvido.
— Eu não me tornarei um deles. — Falou ela, séria.
— Como? — Perguntei.
Se você é mordido obviamente você se tornará um deles, independentemente de sua escolha.
— Não seja bobo. — Falou ela. Acenando a cabeça para trás de mim.
Olhei naquela direção e vi uma janela. Suicídio. Ela jamais seria capaz de tornar-se uma zumbi. Ela iria cometer suicídio. Era a única forma, de não ficar vagando pela terra sem alma.
Minhas lágrimas continuaram a descer. Primeiro Denny, depois minhã mãe, depois Britany, e agora Samantha. Minha vida havia virado um inferno de pertubações.
Ela me olhou e disse com firmeza:
— Vá!
Abracei-a pela última vez e virei as costas rumo ao décimo primeiro andar.
Entramos. Um morto-vivo completamente ensanguentado virou-se na nossa direção e Carol atacou-o. Acertou-lhe em cheio no olho. Ele caiu. Continuamos correndo em direção ao teto do colégio. Onde estávamos havia o corredor principal, e dois corredores secundários. Um de cada lado. Aceleramos correndo pelo corredor principal. Um morto-vivo apareceu por um dos corredores secundários, e acabou derrubando Nick. Paramos imediatamente. A arma de Nick, estava caída no chão. Voltamos correndo para ajudar Nick, mas outro morto-vivo apareceu do outro corredor secundário e pulou sobre Nick, mordendo-lhe a face. Clarice gritou e jogou-se sobre os mortos-vivos. Nick tremia, igual a Britany.
Clarice caiu, juntamente com os outros mortos-vivos. Annie lançou sua faca. Mas, de nada adiantou. Acertou as costas do morto vivo. Levantei o facão e atingi a cabeça de um dos mortos-vivos. Clarice gritou. Daniel acertou o outro.
Clarice chorava feito uma criança. Aproximou-se de Nick, que agora estava com a cara completamente desfigurada. Havia parado de tremer. Havia morrido. Ela ficou chorando com a cabeça junto aos peitos deles.
— Desculpe-me Daniel. — Sussurrou Clarice pegando o revólver de Nick e colocando-o na boca.
Daniel mal teve tempo de gritar "não" e a bala atravessou a cabeça de Clarice. Daniel começou a gritar juntos aos corpos de Nick e Clarice. Pegou a arma, e colocou no quadril. Limpou as lágrimas.
— Ela estava infectada. — Falou Daniel. — Olhe a perna dela.
Realmente havia uma ferida ali, que sangrava. Provavelmente um dos zumbis que acabaram de nos atacar. Daniel apesar do que acabara de acontecer, não chorou mais do que dois minutos. Ficou tão sério quanto Samantha, após a morte de Denny.
— Vamos! — Falou ele levantando-se. — Temos que continuar...
Eu e Annie nos entreolhamos e seguimos o caminho. Após alguns minutos estávamos no teto do prédio. Trancamos a porta atrás da gente. Comecei a vasculhar o lugar em busca de mortos-vivos e de qualquer coisa que impedisse os outros mortos-vivos de subirem até aqui. Achei uma escada. Peguei-a e a coloquei contra a porta. Já era no mínimo meio-dia.
— Vamos esperar anoitecer. — Falou Filipe. — Aí nós, usamos alguns fogos de artifício para que eles tenham nossa localização.
— Isso mesmo! — Falou Carol.
Meu estômago doía de fome, e sede. Sentei-me no chão, à sombra de uma pequena tenda; ao lado de Annie.
— Oi. — Falei, chegando próximo de Annie.
Ela parecia estar chorando.
— Oi. — Falou ela me olhando com os olhos avermelhados.
— Tudo bem? — Perguntei.
— Tudo... é só, que... Perdemos muitos hoje! — Ela tinha razão. Estávamos tão próximos de nosso objetivo, e acabamos perdendo metade do grupo. — No começo éramos eu, você, Britany, Filipe, Denny, Samantha, Carol, e o garotinho gordo... Hoje só quem sobrou, foi eu, você, Carol, Filipe, e Daniel.
Olhei para ela e dei-lhe um beijo na testa. Abracei-a.
— Nós vamos conseguir... Tá bom? — Sussurrei em seu ouvido.
Ela fez que sim com a cabeça. Eu estava aqui lembrando-me de quem eu costumava ser quando criança. Alegre, feliz, sorridente. Hoje nada disso me restara... nada a não ser meu amor por Annie. Agora eu tinha certeza absoluta de que a amava.
O céu estava nublado. Algumas gotas de chuva começaram a cair. E, foram engrossando, até tornar-se uma chuva calma. Saí debaixo da tenda e fui para a chuva me lavar. Tirei a camisa e fiquei sentindo a delícia que era poder sentir água no corpo. Abri a boca para ver se pelo menos molhava minha garganta. Esfreguei meus braços para limpar o sangue, dos mortos-vivos que estavam impregnando. Os outros não perderam tempo em me acompanhar. E, Carol tirou a roupa ficando somente de calcinha.
Ao anoitecer, pegamos os fogos de artifício e o isqueiro. A lua brilhava. A chuva já havia parado fazia horas. Acendi o primeiro fogo de artifício e ela saltou para a noite trazendo muitas cores. Acendemos outro. E, fizemos isso até que eles acabassem.
— E, agora? — Perguntou Filipe.
— Agora, é só esperar. — Respondeu Daniel.
Passaram-se um minuto e nada. Dois. Três. Quinze minutos.
— Eles não vão vir. — Falou Carol.
— Eles têm que vir. — Exclamou Annie.
Ouvimos algumas batidas na porta. Então, os mortos-vivos já haviam finalmente chegado até o décimo primeiro andar. Seria apenas questão de tempo até que eles finalmente subissem até aqui.
Escutamos um barulho mais forte, intenso e repetitivo. Um helicóptero. À distância, uma luz brilhou. Começamos a gritar, apesar de sabermos que nossa voz não alcançaria os ouvidos do piloto.
— Liguem a lanterna dos celulares de vocês. — Gritei.
Ligamos nossas lanternas. E, ficamos mirando para o céu enquanto pulávamos e gritávamos. Em 2 minutos o helicóptero vinha em nossa direção.
Parou sobre o prédio e uma escada desceu. Carol, foi a primeira a subir, depois Annie, eu, e quando Filipe colocou o pé no primeiro degrau a porta foi arrombada. Ele começou a subir ligeiramente. Porém Daniel, não pôde nem colocar o pé sobre o primeiro degrau que vários mortos-vivos o pegaram.
Desviamos o olhar.
Em 5 minutos chegamos ao Abrigo. Ao descermos, alguns guardas nos levaram para podermos passar pelo teste de infecção.
O médico pegou uma amostra de nosso sangue e misturou a um líquido branco. Falou:
— Se seu sangue coagular, teremos que matá-lo.
— O quê? — Perguntei.
— Se o seu sangue coagular, significa que você está infectado.
Ele agitou o líquido e meu sangue. Não coagulou. Nenhum dos outros estavam infectados também. Eles nos arranjaram roupas novas. E, um quarto.
Entrei no banheiro e tomei um banho descente. Demorei tanto no banho, que acho que aquilo purificou até minha alma. Depois saí para encontrar-me com Annie, no calçadão.
— Você vai ficar bem? — Perguntou ela segurando minha mão.
— Estou bem!
— Jura não tentar se cortar mais?
— Juro. — Algumas pessoas conversavam do outro lado da rua. O Abrigo era imenso. Era uma cidade inteira. Forcei minha vista, e pude ver meu pai do outro lado. A ira encheu-me por completo. Como ele poderia ter sobrevivido e minha mãe não?
— Tudo bem? — Perguntou Annie. Ele deve ter percebido que minha expressão mudara.
— Tudo. — Falei. Beijei-a na boca. — Te amo! — Sussurrei.
— Também te amo! — Falou ela.
Nos despedimos. Ela foi para seu quarto. Fiquei ali na rua olhando pra meu pai. Virei minhas costas.
— Eu te odeio! — Sussurrei para mim mesmo.
Entrei no meu quarto e deitei-me na cama rezando para acordar com o pescoço ainda no lugar.
FIM.
Fale com o autor