Não conseguimos dormir nem por um minuto sequer. Os mortos-vivos do lado de fora não nos permitiram isso. Ficamos somente ali, calados em silêncio. Britany, levantou-se.

— Pessoal, — começou — eu sei que é tarde da noite, e talvez isso seja uma vantagem pra agente. Sei que parece loucura, mas... Temos que sair daqui... Agora!

Todos ali odiavam a ideia de ter que sair dali, para servir de alvo para os morto-vivos. Mas estávamos a muito tempo sem comer ou beber água. Para falar a verdade nem comemos ou bebemos qualquer coisa desde que tudo isso começara.

— Britany tem razão — disse.

Todos me olharam.

— Agente precisa de comida e água — falou Annie. — E, não vamos conseguir nada se ficarmos aqui, parados!

— Quer saber... — falou Samantha. — Vocês estão com toda a razão, desculpe-me mas esqueci de um detalhe... Tem água em uma pequena sala à direita, indo pra lá. — Apontou ela para um corredor a nossa frente.

Comecei a levantar-me e Annie também levantou-se.

— Vou buscar água. — Dissemos juntos.

Todos fizeram que sim com a cabeça.

— E quando voltarmos iremos dar o fora daqui. — disse Samantha. — Por isso, tratem de levantar suas bundas sujas do chão e procurem por uma saída alternativa.

Eu e Annie começamos a andar em direção do corredor, mal iluminado.

— E, então... — começou Annie, com seu rosto perfeito me fitando. — Como você está levando tudo isso? Eu simplesmente estou tentando não começar a gritar e enlouquecer, mas... — lágrimas brotaram de seus olhos. — É... tão difícil!

Peguei sua mão, com as minhas duas mãos. E, sussurrei no ouvido dela.

— Se ficarmos juntos dará tudo certo.

Suas lágrimas se cessaram. E, ela olhou com aqueles olhos castanho claros. Passei minha mão por trás de sua cabeça e aproximei-me de sua boca selando um beijo perfeito. Descolamos nossa boca.

— Acho... Acho que temos que levar essa água. — Disse ela.

— Olha... — falei. — Sei que parece bizarro, mas...Eu estou realmente afim de você. Nunca tinha te observado na escola, mas você é tão...

— Claro que não me observou na escola... Você fazia parte dos populares. — Rebateu, só que não violentamente, e sim como se ela também sentisse algo por mim.

— Mas... mas... eu gosto realmente de você! — falei.

— Gosta tanto que transou com outra garota...

Como ela sabia? Carol havia contado? Ela prometera que não contaria nada. Mas... O que aconteceu com Carol, foi simplesmente, por que eu precisava sentir algo.

— Como você sabe sobre isso? Ela...

— Não! Ela não me contou... Todos escutamos os gemidos de prazer de vocês naquela sala.

— Me desculpe... Eu só... precisava sentir algo!

Ela me olhou bem no fundo dos meus olhos como se estivesse vendo a minha alma.

— Entendo como se sente... — Outra lágrima caiu de seus olhos. — Eu também precisava sentir algo...

Ela tirou sua pulseira do pulso mostrando uma parte da pele rasgada.

— Meu Deus! — Meu coração palpitou. — Por que você se cortou?

Ela começou a chorar. Abracei-a.

— Não chore! Não chore! — sussurrei, com meus braços em volta de seu corpo. — Prometa que não fará isso jamais? Me prometa.

Ela olhou em meus olhos e beijou-me.

— Eu prometo! — sussurrou.

Ela desvencilhou-se e foi até o bebedouro. Pegou um copo de plástico, e encheu-o. Bebeu tudo. Colocou mais e bebeu novamente. Colocou novamente e bebeu-o por completo. Eu fiz o mesmo. Minha barriga roncava, e foi doloroso quando a água desceu por minha garganta, seca como rocha, meu estômago deu uma terrível dor, por causa da fome. Enchi alguns copos de água, e levamos para o resto do grupo que estava todo reunido, com excessão da Britany.

— Alguma ideia? — perguntei, entregando-lhes os copos de água.

Britany vinha correndo quase sem fôlego dando gritinhos. Nos colocamos de pé imediatamente — porém sem as facas, já que haviam ficado no carro — todos tensos.

— BOAS NOTÍCIAS! — Gritou ela. — ADVINHA ONDE AGENTE, ESTÁ?

— Em um lugar, que quando se grita é a mesma coisa de dizer: Estou aqui esperando para ser devorada? — Falou Carol com arrogância.

— HA! HA! — Respondeu Britany. — Olhem para a parede à dua esquerda. — Todos olhamos, parecia normal, uma parede pintada de branca, com um porta retrato de tamanho grande fincado na parede com a imagem de um carro.

Olhamos para ela com uma expressão que dizia "Tá! E, daí?". Ela nos olhos como se fossemos mulas. E, foi para a frente do retrato.

— Estamos numa Loja de Carros.

Agora nos olhávamos como se realmente fossemos mulas, e começamos a rir histericamente. Estávamos numa mina de ouro o tempo todo e não sabíamos. Paramos de rir.

— Só tem um probleminha, — disse Samantha, cortando nosso barato. — Eles não deixam gasolina nos carros.

— Isso é verdade. — Falou Denny.

— Teremos que sair. — falou Felipe. — Eu, me voluntario...

Olhei para ele e falei:

— Eu também vou!

Pelo menos duas pessoas estavam dispostas a morrerem.

— Tem uma saída, pela lateral do prédio. — falou Britany. — Vocês podem levar o vasilhame da água e colocarem gasolina. Eu já tinha pensado nisso. Quando vocês saírem entrarão em um beco, vão pela direita, e daqui a uma quadra tem um posto de gasolina. Não se preocupem. A maioria dos mortos-vivos estão pela frente do prédio, nem notarão vocês. Nós iremos lá pra cima e tentaremos chamar a atenção deles para a frente, certo? — Respirou profundamente, pois falou isso tudo de uma só vez em um minuto.

— Tudo bem! — falamos.

— Então vamos lá pra cima, tentar chamar a atenção deles!

Todos saíram correndo em direção ao térreo pelas escadas, e eu e Felipe ficamos sozinhos respirando profundamente e nos preparando para o que estava prestes a acontecer.

— Então... Vamos lá. — disse ele.

— Certo.

Fomos na direção da porta lateral do prédio. Abri-a vagarosamente, e olhei para fora, parecia limpa aquela região. Sem mortos-vivos. Felipe correu e pegou o vasilhame de água e derramou-o no chão. Ouvimos alguns gritos. Então os outros já estavam fazendo sua parte no trabalho.

Felipe veio com o galão de água vazio. Saímos no corredor andando encostado pela parede. Devia ser 6:00h da manhã pois o sol já despontava no horizonte.

Começamos a correr. As ruas pareciam vazias. Chegamos ao posto. Felipe colocou o galão no chão e começou a colocar gasolina.

Virou-se para mim e perguntou:

— E, então? Como foi?

— Como foi o que?

— Transar no fim do mundo.

Dei uma risada seca.

— Foi como qualquer outras.

— Legal...

— Sabe... — disse. — Ela disse que estava afim de você!

Ele me olhou agora surpreso. Terminou de encher o galão.

— Ela é bonita! Na verdade já me masturbei vendo os vídeos dela.

Ri, e peguei o galão pesado. Voltamos o mais rápido que podíamos com o galão pesado em mãos. Estávamos perto da entrada. Olhei para o lado e vi que um morto-vivo sem um dos braços corriam na nossa direção. Entramos e fechamos a porta. Sentei-me para recuperar o fôlego.

— Sucesso! — Falou Felipe.

Dei uma risada apesar da exaustão.

— Vocês conseguiram! — Gritou Britany.

— Acho que sim... Disse pondo-me de pés.

Começamos a andar em direção dos carros. Escolhemos o maior. Um Ford F-150 preto.

Todos entraram no carro, com excessão de mim e Denny. Denny foi encher o motor, e eu foi pra o portão. Denny terminou o serviço e Felipe deu a partida. Destravei o portão, e comecei a empurrá-lo para cima. Empurrei o suficiente para que o carro passasse. E, corri para dentro. Felipe mal esperou eu fechar a porta e já foi acelerando passando por cima de um morto-vivo que entrara na nossa frente.

— Abrigo... — gritou Samantha. — Aí vamos nós.

* * *

A saída da cidade foi mais fácil do que esperávamos, as ruas pareciam vazias, e estávamos agora em uma pista enorme em rumo ao Abrigo. À nossa esquerda via-se apenas matas altas, e a direita não era diferente. Aquela área parecia isolada do mundo.

— Tão bonito! — exclamou Britany, com seus olhos verdes.

Britany realmente era uma garota legal, e de atitude.

— Para o carro. — Falei. — Preciso mijar!

— Eu também! — Falaram todos ao mesmo tempo.

Felipe deu uma risada pelo retrovisor e disse:

— Pensei que nunca pediriam.

Descemos do carro e fomos em direção à mata, as garotas para um lado e os garotos pelo outro. Parei junto à um tronco e abri o zíper e o botão do short e comecei a mijar. Alívio instantâneo.

Felipe e Denny estavam ao meu lado também mijando. Terminei. Fechei o zíper e o botão, a tempo de ouvir gritos vindo do outro lado da floresta.