Os Sete Pecados

10 Da ganância a inveja


Notas iniciais
Olá! Aqui é a Misaki ^^ Nesse capítulo alguns personagens vão fazer coisas meio estúpidas, então talvez você sinta raiva ou decepção. Boa leitura.

Domingo. Quatro horas da tarde. Estou no parque com uma sacola de petiscos caninos assim como prometido. Avisto Kentin e seu companheiro peludo correndo entre as árvores. Kentin lança a bolinha e Cookie passa por mim em disparada.

— Você veio mesmo, que bom – o moreno me cumprimenta com um caloroso beijo no rosto.

— Não tinha nada melhor pra fazer... – digo dando de ombros, mas o tom de brincadeira em minha voz parece não ser notado, pois o sorriso de Kentin mingua rapidamente – ora, estou brincando – dou um soquinho em seu braço e ele volta a rir. – Nossa! Que músculos em? Quase quebrei meus dedos.

— Mesmo? – Kentin pega minha mão, analisando com cuidado as falanges.

Mas ele vai levar tudo a sério? Chega a ser espantoso o zelo que ele tem sobre as coisas. Cookie larga a bolinha sobre os meus pés e late, xeretando a sacola com o focinho.

— Oi amiguinho. Isso é para você – dou um petisco para o cão que some com o pequeno bifezinho em uma bocada. O segundo ele já se permite degustar, talvez tenha percebido que ainda há muito mais na sacola.

— Quanto mimo! Estou começando a ficar com ciúme – Kentin faz bencinho.

— É verdade que eu não trouxe nada pra você, desculpe – coloco o cabelo para trás da orelha, sem jeito.

— Mas o meu petisco era você, lembra? – o forte moreno me prende contra o tronco de uma das árvores frondosas, eu acabo deixando o saco de papel cair e o pastor alemão faz a festa. – Ei! Não coma tudo de uma vez!

Ué? Perdi a atenção para um cachorro guloso.

Passamos o resto da tarde correndo e jogando bolinhas de um lado para o outro. Kentin compra sorvete e até me deixa dar uma lasquinha para Cookie, que faz uma careta por causa do gelado intenso. O céu começa a ficar coberto por nuvem escuras de chuva, alguns relâmpagos faíscam, então gotas grandes e numerosas de água fria começam a cair. Não há abrigo no parque, corremos para debaixo do toldo de uma lanchonete, mas a tempestade surgiu tão rápido que já estamos encharcados.

Esfrego a mão nos braços gelados pra tentar me aquecer, mas o vento castiga minha pele. Kentin se aproxima e me abraça, ele está inacreditavelmente quente. Fico em seus braços por alguns minutos, apenas o suficiente para sessar a tremedeira. A chuva diminui consideravelmente, foi apenas uma pancada repentina.

— Eu moro aqui perto, vamos até lá pra você tomar um banho – Kentin diz segurando minha mão, enquanto pega a coleira de Cookie.

Aceito e o sigo pelo quarteirão. Paramos em frente a uma lavanderia, subimos pela escada externa até o segundo andar.

— Bem vinda ao meu humilde lar – Kentin abre a porta, o lugar é ainda menor que uma quitinete. Do lado esquerdo fica a cozinha, do lado direito a suíte. E é isso. – Eu vou levar suas roupas pra secar enquanto você toma um banho.

Deixo minhas vestes no lado de fora. Quinze minutos depois saio enrolada numa toalha, com o cabelo levemente desgrenhado. Kentin está na frente do fogão, parece preparar alguma coisa.

— Chocolate quente? – ele me oferece uma caneca, ruborizando ao me ver. – Desculpe, acho que a secadora vai demorar mais alguns minutos.

— Não tem problema – aceito a bebida doce e quente. – Nossa, que delícia.

— É... – vejo o moreno se perder em minhas curvas. – Vou ligar a tevê.

Sento na beirada da cama, observando os pingos de chuva, agora muito finos, deslizarem pelo vidro da janela. Kentin bagunça o próprio cabelo, frustrado.

— Não encontrei nada, está tudo em chuvisco, preciso consertar a antena.

— Podemos jogar algo – sugiro.

— Ah é... Tipo o que? – ele se senta ao meu lado, mas parece muito menos confiante do que no parque. Será o nervosismo clássico de ter uma garota em sua casa?

— Strip Poker que não, eu perderia em uma única bobeira – meu riso soa sensual – mas acho que isso tornaria a disputa muito interessante.

Kentin abre a gaveta do criado mudo e pega um baralho. Dou risada de seu entusiasmo. Jogamos sempre dando risada, mas com aquela tensão explicita nos olhos. Ganho as primeiras rodadas, Kentin já está só de cueca, então ele ganha. Vibra de felicidade, mas logo se encabula por demonstrar o contento com a situação.

Levanto-me para tirar a toalha, quando estou prestes a descobrir os seios, o moreno me detém.

— Você não precisa fazer isso...

Aproximo-me de seu ouvido e sussurro.

— Mas eu quero – despendo a toalha e deixo-a cair no chão.

O volume entre suas pernas logo se faz notar. Ele me olha de canto. Pego suas mãos, ainda quentes, mas soadas, e as deslizo por meu quadril. De primeira ele recua, mas sem muito esforço já me vejo jogada sobre a cama, com os músculos bem definidos me abraçando.

Kentin beija meus lábios com exagerado cuidado, é como se me fizessem cocegas com uma pena. Seus dedos contornam meu maxilar e descem seguindo a artéria de meu pescoço, alcançam o bico do meu seio, beliscando-o.

Reclamo com um ruído, ele arfa e abandona meus lábios, fazendo uma trilha de beijos até meu baixo ventre. Encara minha virilha recentemente depilada como se não soubesse o que fazer.

— Estou de bom humor hoje, então não precisa fazer – digo, puxando-o para cima novamente.

Ele apenas concorda com um movimento de cabeça, estende a mão para alcançar a carteira em cima da cabeceira e pega uma camisinha. Joga a cueca pra trás e veste o preservativo. Percebo que suas mãos estão tremulas, principalmente pelo fato de não conseguir acertar minha entrada. Ajudo guiando-o com as mãos, ele me penetra e eu aperto seus ombros.

Sua respiração forte parece com uma ventania, não achei que alguém com tão bom condicionamento físico fosse se exaurir tão rápido. Em cinco rápidas estocadas Kentin desaba sobre mim.

— Tudo bem? – pergunto preocupada.

— Ótimo... – ele responde, rolando para o lado.

Espera... Mas já? E eu?

Estou mais que decepcionada. O sonho de orgasmos múltiplos se desfez em estilhaços. Levanto-me e pego um copo de água.

— Kentin... Desculpe perguntar, mas... Você tem ejaculação precoce? – uma pergunta desnecessária, de acordo com os fatos.

— Não, eu... – ele se senta e cora mais do que eu acho humanamente possível – na verdade essa é minha primeira vez.

Cuspo o líquido gelado, lavando a parede da cozinha. Tusso algumas vezes e enxugo o queixo com as mãos.

— Claro...

Ele continua lá, com aqueles olhos úmidos, parecendo um cãozinho.

— Mas como? Por quê? – não consigo acreditar. – Aposto que há uma fila gigante de mulheres atrás de você.

Ele sorri tímido.

— Sim, mas... Elas não são muito interessantes e... As poucas que trouxe não queriam ficar aqui, queriam que eu as levasse para algum motel.

Algumas mulheres me fazem sentir vergonha.

— Sinto muito... Mas eu não sabia, então... Então agora...

— Foi ótimo, Diana. – ele sorri, segurando minhas mãos.

Para apenas um dos interessados, não?

Kentin desce até a lavanderia e volta com minhas roupas secas e quentinhas. Visto-me e vou embora sem me despedir. A chuva já parou, mas o céu ainda continua um pouco escuro, ainda que os raios de sol tentem rasgar o céu por entre as rachaduras das nuvens.

Assim que passo por uma viela, uma corrente de ar me acerta, trazendo consigo um dos panfletos da academia onde Nathaniel da aula. Sei que lá vou conseguir superar minhas frustrações de muitas formas. Já deve ser quase oito horas da noite, pois alguns garotos estão indo embora com suas luvas e toalhas jogadas sobre os ombros. Um dos meninos arregaça a boca num sorriso ao me ver e corre chamando pelo professor. Ele volta correndo e acena. Rio e aceno também. Nathaniel aparece enxugando o rosto, o peito descoberto, punhos e tornozelos enfaixados.

— Parece que cheguei tarde demais – digo fazendo bico.

— Oi Diana! Não mesmo. Só dispensei os garotos mais cedo hoje, terão prova na escola amanhã – Nathaniel explica. Acho tão inspiradora toda essa atitude dele. – Vem. Quer algo específico pra hoje?

— Qualquer coisa que me faça extravasar bastante – digo sacudindo os punhos. Nath me olha como se eu fosse uma pobre lebre indefessa – e que não necessariamente envolva golpes violentos.

— Certo... – o loiro lambe os lábios e sorri – tentador, mas talvez seja melhor descontar no Bob.

— Bob? – pergunto, me alongando.

Nathaniel aponta para o canto do galpão, onde há um boneco de silicone, daqueles que só tem a metade do corpo e são fixados em um pino bem grande. Vou até o boneco e faço um carinho em sua careca.

— Foi mal Bob.

Nath me ensina o jeito correto de fechar a mão e desferir um soco, de modo que não machuque o pulso ou os dedos. Pratico golpes de Boxe por uns trinta minutos, enquanto conversamos sobre os meninos que lutam ali. Cada um tem uma história particular, tristes ou engraçadas, mas todos com bons corações.

— São garotos de ouro – Nathaniel diz orgulhoso.

— Você é um excelente exemplo para eles – ressalto.

— Obrigado – ele cossa a nuca. – Bem... Eu vou pegar uma toalha pra você, parece não ter vindo preparada novamente.

Ergo os ombros. Vou para os chuveiros, deixo a roupa pendurada no lado de fora e ligo a ducha. Ouço passos ecoarem e o som de algo fofo sendo jogado no chão. Antes que eu possa tirar a água do rosto, mãos firmes começam a massagear meus ombros.

— Me pergunto o que está te deixando tão tensa? – Nathaniel pergunta, colando seu corpo ao meu. Posso sentir seu pau ereto roçar entre minhas nádegas. – Aposto que tem a ver com Castiel... Ou talvez todos eles – ele aperta minha clavícula.

Viro-me assustada.

Falar sobre outros caras quando está prestes a transar? Qual é o problema dele?!

— Não... Por que seria?

— Porque eu sei que todos eles te desejam – ele chupa meu pescoço, sinto que vou ter uma marca roxa amanhã – só não tenho certeza se todos eles já te possuíram.

— Ei! Eu... – tento protestar, mas o pugilista me prende contra a parede do box, e dessa vez sem nenhuma delicadeza.

Ele desliza o falo entre minhas coxas molhadas e entra com violência, me machucando devido à falta de lubrificação. Reclamo, mas ele me cala com um beijo irritadiço, mordiscando-me os lábios. Sinto-o ir cada vez mais fundo, assim como sinto meu orgasmo vindo à tona. Meu grito de prazer ecoa, mas o loiro de olhos âmbar ainda não parece satisfeito.

Nathaniel me faz encarar o registro d’água, cravando os dedos em meu quadril enquanto me fode com vigor.

— Para – digo, me sentindo mal – Para!

Ele não para. Então me solto de seu aperto e meto um soco bem em cima de seu nariz perfeito. Olha-me assustado, o sangue escorre por cima de sua boca, caindo em gotas no chão.

— Desculpe-me Diana, eu não queria...

— Vá logo a um hospital – seco o corpo grosseiramente e me visto.

As ruas estão iluminadas pelas centenas de postes e letreiros coloridos de estabelecimentos. A temperatura parece ter baixado um pouco, meus braços se arrepiam com o frio e eu espirro. Como se eu já não tivesse o suficiente por hoje, ainda ficarei gripada.

Chego ao meu prédio e pego o elevador. Não cumprimento o síndico e nem a senhora simpática, por mais que sua sacola de compras cheia de ártigos suspeitos me chame atenção. Tiro o chaveiro do bolso e tento três vezes enfiar a maldita chave na fechadura, me irrito e arremesso ela para o fim do andar. E quando você acha que não poderia piorar, alguma força maior dá uma ajudinha.

A pequena peça de metal desliza pelo piso e cai no vão do elevador. Eu sento no chão, com as pernas abertas e esticadas, completamente derrotada. A porta do lado se abre em um rangido mínimo.

— Seria estupides minha perguntar se está tudo bem? – Castiel coloca a cabeça pra fora.

Olho para seu semblante indecifrável. Estava chateada com ele pela atitude idiota que vinha adotando desde a confraternização, mas eu já não tinha mais nada a perder. Sem conseguir me segurar mais, desabo em um choro copioso. O ruivo se agacha ao meu lado e puxa minha cabeça para seu colo.

Depois de desidratar por dez minutos, ligo para o chaveiro, mas já está tarde e ele diz que só poderá vir amanhã.

— Acho que vou ver se aquela senhora me arruma uma caixa de papelão – faço drama.

Castiel ri.

— Você pode passar a noite no meu apartamento e amanhã eu invento alguma desculpa para sua ausência na editora.

Castiel, o editor chefe, é um verdadeiro demônio que sente prazer em torturar as pobres almas escravizadas em uma sala de escritório. Mas Castiel, o vizinho galanteador, é o sonho de consumo, prazer e satisfação de qualquer mulher. E meu emocional, extremamente abalado no momento, apela por essa atenção.

Sigo-o para dentro, ele me arruma uma camisa branca grande o suficiente para parecer um camisolão, um par de chilenos felpudos no qual caberia mais um pé meu atrás, e um chá de flores frescas de camomila.

— Posso parcelar? – pergunto com um tom já mais humorado.

— Em até três vezes com acréscimo de vinte e cinco por cento – ele responde, colocando um filme na tevê.

— Mas isso é uma surtida! – rimos juntos.

O filme começa e ele se ajeita no sofá, puxando a coberta. No meio do longa-metragem meus olhos começam a pesar, Castiel cobre meus braços e diz alguma coisa, mas acabo não entendendo.

De manhã cedo acordo de um pesadelo com meus pais, procuro o celular para enviar uma mensagem, mas então lembro que o deixei em casa. Levanto e deixo a cafeteira passando o café enquanto desço para comprar alguns pãezinhos.

— Bom dia – Castiel está de pé quando volto.

— Bom dia. Espero que goste de croissants – coloco a sacola no balcão e me sirvo do café fresquinho.

— Que tipo de francês eu seria se não gostasse? – ele pega uma das massas molhadas e se senta no banco alto.

— Você não parece francês, talvez tenha uma etiqueta ai escrito “made in China”.

— Então preciso tirar as calças para você comprovar.

Quase me afogo com o café. O ruivo se diverte. Depois de mais algumas peças ele vai trabalhar e eu fico esperando pelo chaveiro. O homem chega duas da tarde para pegar o modelo da chave e volta uma hora depois com duas cópias.

— Lar doce lar – abro as janelas para ventilar um pouco e coloco o celular para carregar.

A ganancia e a inveja são boas professoras... Só não sei se sou uma boa aluna.

Notas finais
Fiz capa para todos os capítulos, se quiser dar uma olhadinha... Beijos :* Até o/