Os Sentinelas
3 Como Numa História do André Vianco
Notas iniciais
Diego encarou a garota e o doutor. Não sabia se estavam em silêncio por um minuto ou meia hora.
— Bom… E vocês não têm ideia do quê trouxe os tais Sentinelas?
— Isso nós sabemos — afirmou o médico. — O Sentinela original.
— Então não foram sempre Sentinelas?
— Não. Eles se multiplicaram com tempo. Se reproduziram de alguma forma. No princípio, era apenas um.
— O que vou perguntar agora pode parecer idiota, mas… Vocês já tentaram exorcizá-los? Quer dizer…
— Olha, entendo que você ache que isso possa funcionar, mas não creio que seja uma opção. Uma noite, eles arrancaram o velho padre de dentro da igreja. Se fossem demônios como conhecemos, eles não deviam ser capazes de entrar em solo sagrado ou resistir a todos aqueles penduricalhos de proteção, não é?
Diego deixou essa nova informação assentar. Antes de pensar em qualquer outra coisa, inquiriu:
— O que fizeram com ele?
— Arrancaram seus olhos, seus dentes e seus genitais. Depois, o deixaram sangrar até a morte pendurado numa árvore na praça da cidade.
— Já tentaram matar eles?
— Não exatamente. Olha, se ao atacarmos uns aos outros nós já desencadeamos reações tão violentas o que dirá de atacarmos eles? Preferimos não arriscar.
— Mas alguma coisa aconteceu, não é?
— Sim — interpelou-se Amanda. — Uma amiga minha, Bruna, armou uma tocaia um dia. Ela se aproveitou de um garoto que não queria mais continuar vivendo nesse inferno e o fez atrair a atenção dos Sentinelas.
“Na primeira noite sem luar, ela ficou de olho no garoto. Esperaram e esperaram, mas era quase como se eles soubessem de suas intenções. Talvez soubessem mesmo. Enfim, um Sentinela apareceu para punir o garoto…
“Então ela ateou fogo no quarto dele e os deixou queimar.”
— Funcionou?
— Se tivesse funcionado — tornou Rikta — teríamos queimado todos eles há muito tempo. Não, pelo contrário. O Sentinela a agarrou pelo pulso e entrou no fogo. Quando os gritos finalmente pararam, ele saiu sozinho de lá. E sumiu.
“Depois disso, ninguém mais quis se meter a louco.”
— Até agora — afirmou Diego peremptoriamente.
Rikta e Amanda deram de ombros.
— Olha, sua cabeça, sua sentença — disse ela.
— Vocês podem ter perdido as esperanças e resolvido sufocar a existência deles, mas o Rique e eu não vamos aceitar isso. Vamos dar um jeito de sair daqui. Volto a falar com vocês quando ele estiver se sentindo melhor. Quem eu procuro, o doutor ou a Amanda?
— Qualquer um de nós — ela disse, e sorriu. — Temos bastante tempo livre e não vamos sair da cidade no futuro próximo.
Depois da tão animadora conversa, Amanda levou Diego de volta para o hotel. Ele colocou Rique na cama, ela sorriu pra ele e entregou as chaves.
— Olha, você mesmo disse que não faz sentido manter o hotel funcionando se ninguém nunca vem aqui. Pode ficar com ele inteirinho para vocês. A parte ruim é que não tem serviço de quarto, vocês vão preparar tudo.
— Era um sonho de criança ser dono de um hotel, mesmo. — Diego deu de ombros. — Amanda? — ele disse quando ela começou a se afastar.
— Sim?
— Gostaria de conhecer meu hotel? Almoçar aqui, de repente?
Ela virou-se para ele, abriu um sorriso doce e respondeu:
— Não.
Diego não podia dizer que não esperava uma resposta dessas.
— Nada contra você em particular, Diego — ela continuou — é só que acho muito pouco apropriado. Se as condições fossem outras, eu diria sim. Mas dessa vez é não.
Então, ela foi embora.
Diego ficou no quarto, estático. Realmente não tinha sorte no amor. Rikta devia ter dado remédios realmente fortes para Henrique, que ainda estava dormindo. Tinha pouquíssimas opções do que fazer, então decidiu explorar o hotel. Quem sabe quais surpresas ele não poderia guardar?
Depois de quase uma hora perambulando por toda a sua extensão, Diego sabia: nada. O hotel era razoavelmente grande, ligeiramente decrépito, tinha três andares e muitos quartos. A maioria dos quartos eram senão iguais, ao menos parecidos. Mudavam algumas camas, um deles tinha uma mesa. O maior deles era luxuosamente iluminado e mobiliado com móveis de madeira de lei magnificamente bem trabalhados.
Na recepção ele encontrou um velho .38 escondido atrás do balcão. Surpreendeu-se um pouco, então lembrou que a cidade parara no tempo há quarenta anos, quando o porte de armas ainda era legalizado.
Pegou-o e descobriu que ainda tinha todas as balas. Se funcionava, só Deus sabia. Quando encontrou a despensa, descobriu-a mais que cheia. Estava transbordando de comida: enlatados, carnes, frutas, legumes e frios. Havia bebida o suficiente para encher uma piscina e nadar nela.
Seus olhos brilharam ao ver toda aquela fartura. A cidade estava parada há quarenta anos, imaginara que toda a comida ali estaria rançosa e estragada, mas não. Era tudo tão fresco quanto os ventos de primavera.
Sua mente disparou: por quê? Ninguém entrava na cidade, o hotel nem funcionava mais e, mesmo assim, alguém se preocupara em encher a despensa. Perguntaria a um de seus guias quando tivesse oportunidade.
Depois dessa descoberta, foi explorar a cozinha. Ela estava bem preparada para que Diego operasse milagres lá. O primeiro dia passou se arrastando de uma forma maçante para ele. Depois de explorar todo o hotel, sem nenhum bom motivo para sair de lá e um muito bom para ficar, não tinha mais nada para fazer. Então, sentado, esperou.
A noite veio e se foi. Quando levantou no dia seguinte, Diego descobriu que não estava mais rouco. Saiu de seu quarto e começou a ir em direção à cozinha, quando cruzou com Rikta na entrada. O doutor o olhou, com um ar sério, e começou a dizer:
— Ah, Diego, é bom te ver. Precisava avisar de algo: talvez vocês sejam importunados pelas pessoas que vão querer conversar, descobrir mais sobre vocês. Não se sintam obrigados a falar com eles se não quiserem.
Diego aquiesceu. Rikta começou a se retirar quando Henrique gritou o nome de seu amigo. O doutor parou onde estava.
— Já se recuperaram, então? Hmm… Rápido.
— Bem, sim… Doutor, poderia ficar aqui, por favor? Vou precisar falar tudo que o senhor me disse para o Rique e, se puder, eu aceito ajuda.
Rikta sorriu benevolente.
— Tudo bem. Eu fico.
Eles encontraram o homem que passara o dia posterior inteiro dormindo; Diego apresentou o doutor Rikta — Sigismundo Rikta — e eles tiveram uma rápida conversa sobre como não conversariam até que tivessem algo para comer.
— Meu pai adorava Freud como a um deus — disse Rikta quando Rique perguntou sobre o nome. — Sinceramente, eu odeio esse nome. Por isso sempre me apresento como “doutor Rikta”… Não que eu tenha me apresentado muito ultimamente.
Diego preparou-lhes ovos e bacon.
— À moda dos americanos, que tal?
Também deixou à disposição um bule de café, alguns pães, manteiga, uns bolinhos da despensa e uma torta de frango que encontrara. O mais assustador é que ela estava quente e macia.
— Bom, parece que você descobriu o presente de nossos captores. — Um sorriso amarelo surgiu no rosto de Sigismundo. — Oh. Parece que não falamos sobre isso ontem. Muito bem — disse quando percebeu os dois o encarando.
Diego pediu ao doutor que repetisse o relato para Henrique. E ele repetiu. Quando terminou, adicionou ainda mais algumas informações.
— E, por fim, o tal presente… Estamos presos há quarenta anos, certo? Mas nem por um dia passamos fome ou necessidade aqui. Os Sentinelas nos garantiram colheitas, chuva e comida. Víamos na televisão que a região passava por uma seca, mas aqui a água era abundante.
“Jamais faltou combustível para nossos carros, nem remédios para nossos doentes. Eles nos presenteiam com fartura, como se nos recompensassem pelo bom comportamento.
“E nos matam com violência para nos punir pelo mau comportamento, claro. Aliás, falando em nos matar, acho que tem mais um detalhe de suma importância que foi esquecido: as noites sem luar.
“Os Sentinelas nunca avisam quando vão chegar, mas nós sempre percebemos o sinal mais evidente: a escuridão. Quando os Sentinelas estão chegando, escurece rápido e cedo. E quando decidem ficar, o Sol só nasce 8h. Não existe Lua ou estrelas quando eles estão aqui.”
Ao fim do relato, já tinham terminado de comer há muito. Apenas bebericavam do café. Henrique recostou-se languidamente na cadeira, emitiu um longo suspiro e disse:
— Isso que o senhor falou é muito esclarecedor, muito preocupante… E também muito idiota. Ora, francamente… Sentinelas? Uma noite que dura até as 8h e some sem deixar rastros? Comida mágica? Uma cidade da qual não se pode fugir? Seres mágicos que existem de repente e ninguém mais sabe sobre? Por acaso parece que eu sou parte de alguma história de terror como… Como… Como numa história do André Vianco?
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