Os Sem Nome
11 Invisíveis
Tóquio, Japão, 1980
— Então ainda tem mais garotos pra vir…
— Acho que muito mais.
Keisuke estava em pé e Yoshiko sentada em um banco na área externa da mansão, no caminho entre o prédio principal e o prédio onde estavam os órfãos. O silêncio tomou conta da conversa, como se nenhum deles quisesse prosseguir. Até que Keisuke resolveu continuar a fala.
— Também deve vir depois um preparador físico especial para lidar com eles.
— Hum.
— O que as outras empregadas falam? É estranho isso tudo, não é?
Yoshiko estava olhando para ele, mas desviou o rosto e o olhar logo na primeira pergunta. Ela deu um longo suspiro.
— Ninguém fala nada. Tem coisas que dá para entender no silêncio e nos olhares. É melhor não falar, que nem quando era com aquilo há alguns anos — ela voltou o olhar para ele, de soslaio — Nós também não devíamos estar falando, ainda mais aqui.
— Calma, eu estou de olho no movimento.
Ela olhou para os lados, como se estivesse também se certificando que não havia ninguém vido, e falou, com um tom mais próximo de um sussurro, mas ainda firme:
— Numa dessas, o Tokumaru descobriu o nosso caso. Não sei nem o motivo dele não ter ido dar com a língua pro patrão. Talvez porque a menina gosta de mim, ou porque o senhor Kido parou com aquelas gracinhas. Seja o que for, se ele ver isso aqui, ele não vai pensar duas vezes de falar disso, da nossa relação, e sei lá mais o que ele pode saber. Aí é rua, pra mim e pra você.
— Ele não falou da nossa relação porque ninguém tem nada a ver com isso.
Yoshiko encarou ele.
— Ah, sim, então vai lá e fala. Vê no que dá.
— Você acha que ele teria ciúmes?
— Eu acho que todo risco é pouco quando estamos falando de alguém que fazia aquilo e que agora faz isso — diz ela apontando para o “alojamento” dos órfãos — E é melhor eu voltar porque já deu o tempo da minha pausa.
Keisuke observa ela se levantar e seguir o caminho do alojamento.
— Te vejo hoje à noite?
Ela para, mas demora um pouco para se virar para ele e responder:
— Não sei. Acho melhor não.
Keisuke assente com a cabeça, e se vira em direção à limusine que dirigiria em breve, apertando o punho direito, dentro do bolso da calça.
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— Akabane.
Já fazia 7 anos que aquela voz não representava mais o mesmo perigo, mas Yoshiko sempre paralisava ao ouvi-la. No entanto, por mais que seu coração palpitasse e contemplasse a possibilidade de fugir, ela não podia ignorar um chamado do seu patrão.
— Senhor Kido? — ela se virou em direção a ele e imediatamente fez uma reverência ao perceber quem era.
Talvez se sua vida familiar não fosse tão complicada.
— Como os meninos têm ficado? — Assim que ele terminou de falar, Yoshiko assentiu com a cabeça e fez uma pausa antes de responder.
Talvez se a influência da família Kido no Japão não deixasse a sensação de que a vida fora dali seria muito mais difícil do que já foi antes.
— Eles estão sendo tratados conforme as ordens. As coisas estão dentro do esperado por enquanto.
Talvez se ela tivesse um pouco mais de coragem.
— Ótimo. Ainda virão mais crianças, então precisamos garantir que o espaço seja suficiente.
Talvez se as colegas não insistissem que, apesar de tudo, poucos trabalhos ofereceriam pagamento e condições similares às deste emprego.
— Sim, senhor.
Talvez se as coisas não tivessem melhorado nos últimos anos.
— Tem outra coisa. Vocês que estão cuidando mais diretamente deles vão receber treinamento para certos cuidados de enfermagem. Outras empregadas também serão treinadas depois.
Talvez se ela não depositasse uma certa esperança no futuro.
— Sim, senhor.
Talvez ela já tivesse se acostumado com isso tudo.
— E não se esqueça, não é para minha neta saber de nada disso. Sei que a Saori tem ficado incomodada e intrigada com tudo.
Talvez, talvez. Mas a verdade, ela sabia, é que provavelmente nunca deixaria aquele lugar. Não era por qualquer sentimento de nostalgia ou apreço por aquela casa. Era como uma força que ela não entendia. Que dizia que dentro era melhor do que fora. Mesmo que não fizesse sentido.
— Sim, senhor. A senhorita não foi informada de nada.
— Ótimo — Yoshiko fez mais uma reverência ao perceber que a conversa tinha se encerrado, e Mitsumasa, quase da mesma forma repentina que apareceu, foi embora. Desde que ele havia aparecido com a “neta”, sobre a qual todos ali tinham certeza que havia mais do que foi informado, o trato com as empregadas, especialmente as de quem ele era mais “próximo”, passou a ser mais frio e distante.
Quando os garotos começaram a chegar, Yoshiko se perguntou por que foi colocada para “cuidar” deles. Havia um sigilo ligado a tudo relacionado aos órfãos, e uma das preocupações é que Saori não poderia saber de nada. A casa inteira, no entanto, sabia como a menina era quando queria alguma coisa. E é claro que ela iria querer descobrir o que estava acontecendo.
Logo Yoshiko entendeu. Se Mitsumasa colocasse a empregada que mais convivia com a menina, ele criava uma situação em que, se Saori descobrisse algo, Yoshiko seria a primeira suspeita. E sem sua potencial “fonte” mais próxima, a menina provavelmente não conseguiria descobrir muita coisa.
Mitsumasa se empenhar tanto em esconder tudo da neta que ele tanto mimava e protegia fazia Yoshiko suspeitar ainda mais que havia muito mais coelhos nesse mato.
Tinha outra coisa que a incomodava… uma que ela sequer ousava perguntar para outras empregadas. Até por já ter ido algumas vezes ao quarto do Kido, Yoshiko já havia visto muitos quadros de antepassados dos Kido. Ela se perguntava se a semelhança entre crianças da linhagem de Mitsumasa e certos órfãos naquela casa eram coisa de sua cabeça.
Não. Nem ele seria tão cruel assim. Como explicar o tratamento dado à Saori, caso fosse? Não, não. Ela estava imaginando.
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Nem mesmo os funcionários estavam acostumados à forma como aqueles órfãos eram tratados. Apesar do espaço onde eles estavam ser grande, a quantidade crescente de crianças fazia com que parecesse um alojamento militar. Não havia camas, apenas colchões, e nem exatamente quartos. Os espaços eram separados de forma improvisada. Os banheiros também eram improvisados e coletivos, mas pelo menos eram grandes, como banheiros mais comerciais.
Não era nojento e nem insalubre, até porque a limpeza era uma das funções das empregadas deslocadas para essa “operação”, mas era abaixo das condições oferecidas nos alojamentos de funcionários. Era como se houvesse um certo desprezo por esses meninos, embora suas necessidades estivessem plenamente garantidas.
A chegada dos meninos alterou a rotina da mansão em outros pontos. Por exemplo, os cavalos que ficavam nos estábulos da mansão tiveram que ser realocados em um haras externo. Apesar de Mitsumasa garantir que era temporário, sua neta ficou pouco satisfeita com mudança.
Ela também se perguntava se Saori também sentia o incômodo que Mitsumasa parecia ter com aqueles meninos. Como se houvesse algo não resolvido entre o seu patrão e esses garotos.
— Ei, moça — Yoshiko foi transportada para longe de seus pensamentos com a voz.
— Sim? Você é o Seiya, né?
— Isso, Seiya! Escuta… eu tô com fome. Será que tem alguma coisa pra comer?
— Huuum. Daqui a umas duas horas devem trazer um lanche para vocês. Mas, acho que não tem problema se você comer, mas fica entre a gente, ok? — apesar de ser proibido, Yoshiko levava algumas comidinhas escondidas para os meninos, porque ela não aguentava esse tipo de pedido. Ainda mais que, quando um deles fazia alguma bobagem, o Tokumaru de vez em quando punia todos deixando eles sem uma das refeições.
— Pode deixar, obrigado!!
Yoshiko achava Seiya um pouco parecido com Hideki em personalidade, e acreditava que os dois seriam bons amigos se pudessem se encontrar em outras condições. Talvez por isso Seiya fosse um dos meninos pelos quais ela tinha mais apreço. E, claro, todas as empregadas gostavam de Shun.
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— Ahh, Yoshiko, eu não entendo. Esses meninos não param de chegar!
— Hideki… já falei pra você que é melhor não ficar indo atrás disso. Já causou problemas para a Hikari e esse é amigo desse — ela dizia enquanto apontava para cada um de seus próprios olhos, escuros — aquele roxo na sua cara foi coisa do Tokumaru, não foi?
— Mas tem como ignorar a situação? — ele se esquivou do último assunto.
— Você mora aqui desde que era bem pequeno. Já devia ter aprendido que o melhor nesta casa é não fazer perguntas.
— Eu não entendo como vocês são todas assim! A Hikari passa pano praquela garota toda hora, a minha mãe também finge que não é com ela, até a menina estrangeira é deslumbrada. Não é possível que vocês achem qualquer coisa que ocorre nessa casa normal.
— Escuta… ninguém acha essa casa normal. Mas, você sabe qual é o emprego que a sua mãe vai conseguir lá fora que vai sustentar você e ela? Nenhum. Por isso eu digo, Hideki, o melhor que você faz é não saber.
— Mas...
— Eu tenho certeza a sua mãe agradece todos os dias que aquela menina gosta minimamente de você, do Takeshi e da Hikari, porque o senhor Kido já está idoso, e um dia ele vai partir. E o futuro de todo mundo vai estar na mão dela. Agora, por favor, eu preciso descansar depois de um dia desses.
Yoshiko foi embora pensando se não tinha sido dura de mais com garoto. Mas ele não entendia. Talvez fosse novo demais para entender. Todos naquela mansão viviam para ser invisíveis. As mesas de chá não se põem sozinhas, as camas não se arrumam sozinhas, o chão não se limpa sozinho. Mesmo para se arrumar, os Kido contavam com ajuda de funcionários.
Mas, as visitas só viam as mesas postas, as camas prontas, o chão brilhando, e os Kido, impecáveis. Todas essas tarefas básicas que demandavam o pessoal da casa eram realizadas no silêncio, sem qualquer reconhecimento. O incômodo do Hideki era natural, mas ele não entendia que nesse ambiente o melhor era fazer tudo para não ser visto.
Ser vista era correr o risco de terminar o dia no quarto do patrão. Eram as mãos bobas dos convidados durante uma festa. Eram os comentários. Não, nesse trabalho o melhor a fazer é torcer para não existir qualquer reconhecimento. Apenas faça, quieto, finja que não viu nada e não se pergunte de muita coisa.
No fim das contas, eles eram empregados. E só isso. Ele também não entendia a diferença que a chegada de Saori representou na vida de todas as empregadas da mansão. O alívio que ela representava. Apesar do medo ainda existir, era inegável a mudança.
Além disso, Saori era mimada e era mandona, mas era diferente da maioria dos filhos das pessoas importantes que visitavam aquela mansão. O senhor Kido era influente o suficiente para que ninguém lhe questionasse o motivo de três filhos de empregadas frequentarem as festas da mansão como convidados, mas quem fazia o serviço de mesa sempre acabava ouvindo os comentários feitos entre cochichos.
Às vezes pensava se o maior problema dessa menina não era a superproteção dada pelo avô. Talvez ela fosse mais feliz crescendo em algum lugar distante, alheia a sua linhagem. Aquela menina também já parecia ter percebido que as conexões de seu avô renderiam mais pedidos descabidos de noivado que amizades. Ela era esperta, e não era só pela educação de elite. Ao menos, a menina da Inglaterra parecia saber suprir a busca de conexão que nenhum empregado tinha coragem de oferecer à Saori.
Mas, a chegada dos órfãos… não estava errado chamar aquilo de prisão, como Hideki dizia. Yoshiko sabia muito bem que o número de empregadas remanejadas para aquele alojamento não era apenas para limpar banheiros. Era para vigiar e reportar. Hideki devia desconfiar disso, e ele não conseguia segurar o incômodo, mas ser ouvido naquela casa poderia terminar mal.
Yoshiko sabia que aquela situação toda estava virando uma panela de pressão para todos os lados, e uma hora alguém ia explodir. Mas o que realmente aguardava aqueles órfãos era algo que ela jamais poderia imaginar.
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