Os Retalhadores de Taurus

5 — Um duro golpe


— Um duro golpe

Nas semanas seguintes ao resgate de sua tropa, a Resistência de Sirius progrediu avassaladoramente na direção de seus objetivos. Conquistou territórios, destruiu inimigos poderosos, angariou centenas de novos aliados. Tantos guerreiros se juntaram a eles que, para abrigar todos, Hirihito foi obrigado a abrir outros polos pelos terrenos que seus soldados conseguiram. Comovidos pela nobreza da causa deles, vários dos retalhadores que lutavam pelo regime tirânico começaram a se render. O mundo começava a sentir esperança novamente.

Aconteceu precisamente o que Shiino previu: Mitsu se transformou num símbolo. Seu rosto inspirava fé, dias de sol depois de uma dura tempestade. Hirihito sabia que ele era o responsável pelas mudanças que estava presenciando e que jamais viu algo assim. Em apenas um dia, aquele garoto fez o que, ao longo de anos, ele sonhou fazer. Não se entristeceu, é claro. Quando o conheceu, Mitsu não tinha nem dez anos de idade. Já carregava no olhar aquela chama de quem faria coisas grandes na vida. Infelizmente demorou para ver isso e, por sua culpa, o mundo se viu privado daquele necessário talento, daquela brilhante personalidade. Que bom que ele me desobedeceu, pensava.

Do alto de um monte verdejante, entre belas e frutíferas árvores, Mitsu contemplava sorridente a tranquila vitória de seus aliados, a quem chamava de amigos antes, durante e após as batalhas. À sua direita, sua irmã segurava-se em seu braço e apreciava a vista orgulhosa, à sua esquerda, Aname lhe falava sobre a inteligência das táticas e dos treinamentos armados por Hirihito. Poucos metros atrás, Shiino refletia solitário sobre quão próximos estavam de esmagar a tirania que os oprimia.

Deitado com as mãos atrás da cabeça, Daichi contava as aves que avistava no céu azul. Era um fissurado confesso por aves, especialmente por águias. Desde criança. A liberdade desfrutada por elas o fascinava. Há muito tempo não via uma por ali, parecia que o medo atingira elas assim como aos homens e que só agora se sentiram à vontade para retornar. Graças ao Mitsu, pensou, olhando-o rapidamente. Quis agradecer em nome delas, mas o viu tão feliz com a irmã e com a garota que amava que resolveu deixar pra outra hora.

Muito embora fosse um guerreiro corajoso e inspirador, Mitsu não levava muito jeito com as mulheres. Aname sabia que o sentimento que nutria por ele era recíproco e que teria que tomar a iniciativa se quisesse que ficassem juntos. Sem se importar com a presença de Lila, preparou-se para falar, mas duas belas garotas, fãs dele, chegaram correndo e interromperam.

— Eu quero um autógrafo! — Pediu a mais velha, cedendo uma caneta e uma camisa que levava no ombro. Mitsu assinou, a garota o abraçou e foi embora. Só Lila reparou no quanto aquilo irritou Aname.

— Também quero um autógrafo! — A mais nova, em vez de camisa, ofereceu a contracapa da agenda. Mitsu autografou. Ao invés de ir embora ou de agradecer normalmente, a garota pulou nele e lhe deu um beijo demorado na bochecha.

Aname perdeu a paciência pela qual a conheciam e a empurrou para longe dele.

— Dá um tempo pra gente, por favor! — Bradou enfurecida, mostrando os punhos. A garota fugiu amedrontada. Sob os olhares assustados de seus companheiros, Aname respirou fundo, ajeitou a camiseta, os cabelos e se aprontou para falar.

— Posso ter um momento a sós com o senhor Harumi? — Dessa vez, quem interrompeu foi Hirihito. "Harumi" era o sobrenome de Lila e Mitsu.

O rapaz olhou para Aname, sentia que ela queria lhe dizer algo.

— Vai lá. — Disse-lhe ela. — Depois nós nos falamos!

Mesmo louco para saber o que Aname tinha para lhe falar, Mitsu foi com Hirihito. Olhou para trás antes de entrar na floresta e seus olhos esbarraram nos dela. "Eu te amo", ela sussurrou. Ele leu os lábios dela, entendeu cada palavra e, rubro de vergonha, abaixou a cabeça e continuou a trilha com seu chefe. Os dois andaram vários minutos em silêncio pelas estradas do monte, aquilo deu tempo a ele para pensar na declaração de amor que acabou de receber, com a qual tanto sonhou. Absorveu uma pequena parcela dela e ficou mais calmo. Em certo ponto da caminhada andou sorrindo.

Com as mãos dentro dos bolsos de seu longo sobretudo negro, Hirihito organizava em mente o que precisava dizer. Também se preparava, pois não seria fácil, não para alguém como ele, que camuflava as emoções por trás de uma expressão carrancuda e de uma postura firme.

— Lembra da última vez que caminhamos por aqui? — Perguntou, fitando o alto.

— Claro. — Confessou Mitsu. — Eu tinha nove anos. Quando começamos a andar, você me dava mais medo do que os soldados do governo... da metade do caminho em diante, fiquei mais tranquilo.

O velho capitão da Resistência gargalhou.

— Também fiquei mais tranquilo sobre você depois de andarmos um pouco, no começo eu te achei um tagarela chato. — Admitiu. Em seguida, foi direto ao ponto: — Você ficava gritando que ia "destruir a ditadura", era todo otimista, confiante, isso me dava nos nervos. Eu era só um velho amargo. Você não foi o primeiro que eu ouvi falar assim e todos os que eu vi falarem desse jeito acabaram mal. Por isso eu te julguei errado... acho que eu não queria ver esse seu otimismo acabar, como aconteceu comigo. Eu pensei que estava te protegendo e ajudando a Resistência, mas na verdade estava me protegendo. Fui egoísta, você tinha razão, eu estava nos prejudicando... e peço desculpas por isso. Errei sobre você.

Mitsu ouviu tudo atentamente e, no final, sorriu. Jamais pensou que o ouviria falar coisas como aquelas.

— Se parece com o Hirihito, se veste como o Hirihito mas não fala como o Hirihito! — Retrucou, olhando para a frente. — Não esquenta com essas coisas, o importante é que estamos perto de pegar aqueles miseráveis! — Exclamou, apontando com o dedo a direção da base do governo. — Mas se quiser mesmo me compensar pelos seus vacilos, deixa que eu luto com o rei... Aí você não será mais um velho amargo, será só velho!

Os dois caíram na gargalhada.

— Me orgulho de você, Mitsu. — Revelou. — De todos vocês. Tenho muita fé em vocês.

— Guarda esse discurso pra quando derrotarmos aqueles caras, senão vai ficar sem palavras na hora. — Recomendou o ouvinte.

Ambos sorriram e fizeram silêncio novamente. O experiente comandante enumerou em pensamentos as pessoas que adoraria apresentar a Mitsu, às quais adoraria dizer as palavras que disse a ele, mas nenhuma delas estava viva mais. Ao chegar na beira do monte, pôs paternalmente a mão no ombro do garoto. Podia até não ser prudente de sua parte, mas se importava de verdade com ele. Nunca é prudente se apegar a um retalhador. O problema com os sentimentos, no entanto, é que eles costumam vir sem você pedir.

Depois que o capitão se foi, Mitsu permaneceu ali, observando a paisagem, se preparando para dizer a Aname como se sentia. O que o acordou de seus devaneios foi o pedido desesperado de socorro de seus companheiros. Foi imediatamente para onde os deixou. Não encontrou-os lá. Ao olhar para o campo de batalhas lá em baixo, viu os três derrotados, caídos. O exército da Resistência, a volta deles, combatia bravamente um pelotão bastante numeroso. O líder desse novo pelotão sacou uma lança de energia azul clara e a ergueu para matar Lila.

Em um salto, o herói da Resistência entrou na frente da irmã e repeliu o oponente com um chute do qual, para se defender, o alvo teve que soltar a arma e usar os braços como escudo. E mesmo assim foi arremessado longe. Mitsu o reconheceu rapidamente. Chamava-se Inoku e chefiava a guarda pessoal do rei, não só estava presente no momento da execução de seus pais como a coordenou. Franziu o cenho, muito irritado. Seu adversário, em contrapartida, ajeitou a capa branca que vestia e exibiu um sorriso asqueroso.

— Finalmente chegou! A esperança do povo! — Zombou Inoku, a quinze metros de distância. Ao redor dos dois, várias lutas ocorriam, pessoas morriam. Espadas se chocavam. Prevendo que teria uma luta difícil, Inoku desprendeu a capa, retirou o cadarço que prendia seus lisos cabelos negros e ergueu a guarda.

Lila acordou.

— Irmão... toma cuidado... — Aconselhou.

— Sim. Não se preocupe. — Respondeu. Sabia de duas coisas: que não podia subestimar Inoku e que, para mandá-lo ali, o rei estava desesperado. Como alguém que procurava ver sempre o lado bom de tudo, observou que aquilo queria dizer que estavam muito mais próximos de acabar com ele do que pensavam. Vencer aquela batalha seria o mesmo que salvar os caídos ali e dar um passo decisivo rumo à concretização de seus planos.

Os quinze metros que os afastavam foram percorridos pelos dois num piscar de olhos, seus punhos colidiram e geraram uma onda de impacto tão poderosa que abalou os montes próximos. Uma veloz e imprevisível troca de socos se inicia. Os lutadores em volta, abismados com o nível do combate que os dois faziam, paravam para vê-los. Ninguém acreditava que Mitsu se tornara forte o bastante para fazer frente a Inoku, Shiino, deitado semiconsciente entre os escombros, pensava estar vendo uma miragem. Nem eu, Daichi e Aname lutando juntos nos igualamos a ele, recordava-se, assombrado. Apoiou o queixo numa pedra para observá-los. Vamos lá, Mitsu, você consegue, torcia.

Em certo instante do confronto, Inoku desferiu um soco tão bruto contra Mitsu que, para se proteger, o rapaz teve que pôr os braços na frente. O golpe foi tão forte que mesmo assim Mitsu capengou dezenas de passos para trás. Ao se recompor, o jovem representante da Resistência de Sirius teve que usar as mãos para desviar alguns outros socos de Inoku, o pé para defender-se de uma canelada e foi forçado também a esquivar-se de uma pancada que o teria acertado no queixo. Revidou todos esses ataques com um chute alto contra a face do agente do governo, Inoku escudou-se dele atrás dos braços e se impulsionou para frente, lançando seu atacante para trás.

Guarda erguida, olho no olho, um rondava o outro quieto. Pareciam duas feras selvagens esperando uma brecha para fazer um movimento. Quem se arriscou a atacar primeiro foi Inoku, distribuindo uma sequência de jabs e diretos tão ágeis e fortes que já teriam matado qualquer outra pessoa ali naquela arena, qualquer outro que não fosse Mitsu, pois o garoto se mostrava ainda mais ágil, resistente e friamente desviava todos os golpes com as mãos. Aquela cena reacendeu os ânimos dos Guerreiros da Resistência. Todos gritaram em coro o nome de Mitsu e retornaram reavivados para os confrontos que realizavam individualmente. O jovem siriusiano manteve o foco.

Mitsu investiu com dois socos, Inoku esquivou-se de ambos, deslizou celeremente para a esquerda e o esmurrou nas costelas. Golpeado, Mitsu tombou para a direita e deu um pisão no peito do adversário quando este sinalizou que iria tentar acertá-lo de novo. Eles voltaram a se encarar. O herói da Resistência fintou com o ombro, o chefe da guarda do rei se assustou e abriu a guarda, então levou um chute no queixo e quase foi ao chão, retrocedeu com vários passos desajeitados. Voltou lá, jogou a mão contra a cara do jovem que se tornou órfão por sua culpa, o garoto se defendeu e revidou com uma mãozada idêntica mas também ineficiente. Inoku sorria, Mitsu encarava-o enraivecido.

— É impressionante, preciso admitir! — Inoku louvou seu inimigo. — Tão jovem e tão forte! Creio que percebeu que isso aqui não vai acabar nunca se continuarmos lutando assim, por que não elevamos o nível?

Inoku alçou as mãos e construiu para as duas uma lança enorme, em seguida desceu em sua pose de luta. Mitsu espalhou energia pelo corpo e se eletrificou inteiro. Reiniciando o conflito, o guarda mais importante do tirano levantou as mãos com as armas e girou, Mitsu se abaixou para esquivar e contra-atacou com uma hábil pernada giratória, tão hábil e potente que obrigou Inoku a guardar-se atrás das duas lanças materializadas.

Após proteger-se, o agente do governo fincou a ponta de uma das lâminas na terra, impulsionou-se para a frente usando ela e tentou matar Mitsu com um corte que fez a lança parecer uma guilhotina; Mitsu recuou, escapou da morte, mas Inoku atacou com vários cortes como aquele, forçou-o a recuar muitas outras vezes seguidas. O manteve na defensiva por inúmeros segundos. Cansado disso, e aproveitando-se de seus reflexos aprimorados, Mitsu teve a arriscada atitude de agarrar a lâmina pelo cabo para pará-lo, o parou e converteu o punho livre numa espada. Moveu-se para matar Inoku.

O guarda do rei soltou a lança sobre a qual se apoiava, construiu uma faca para essa mão livre e moveu-se para matar o herói da Resistência. Um perfurou o outro, mas Mitsu atravessou o estômago de Inoku e Inoku atingiu o herói bem no coração.

— MITSU! — Aname, Lila, Daichi e Shiino gritaram por ele em uníssono. O fulgor que o rondava se apagou. Inoku removeu do peito de Mitsu a faca com a qual o apunhalou, recuou com um imenso salto para tirar o punho dele de dentro de seu estômago e, do topo de uma pilha de escombros, olhou-o desabar de joelhos e ir de cara no chão quase morto.

— Maldição...!! — Inoku praguejou ao notar o quanto sangrava. Arranjou uma ferida nada bonita. Na verdade, viu na hora que precisava estancar o sangramento o mais rápido possível se não quisesse morrer também. Era a primeira vez que se dava tão mal num combate. E contra um pirralho daqueles. Levou a mão ao machucado. Estava em estado de choque, não entendia como deixou aquilo acontecer.

— Mitsu! Não, não...! Por favor...!! — Aname gritava, em prantos. Infelizmente, como ele, estava caída de cara no chão, mal tinha forças para mover o rosto.

Inoku recusou-se a bater em retirada para se cuidar. Movido pelo ódio, por desejo de vingar-se, confeccionou um facão com o pouco de energia que ainda possuía, passeou ao lado do cadáver de Mitsu e andou até Aname, que com os olhos cerrados chorava desolada a perda do amor de sua vida. Sabia que o inimigo estava a sua frente para assassiná-la, a sombra dele pairou sobre ela, só não se importava. Morreu diante de seus olhos a última pessoa que amou de todo o coração. Nada mais importava.

O "braço direito" do tirano de Sirius ergueu bem alto o facão e olhou sério sua vítima.

— Chega de ser indulgente com vocês! — Declarou, austero. — Todos os quatro morrerão aqui, hoje. Considerem misericórdia... assim não verão que os esforços e as conquistas do seu querido Mitsu não valeram de nada!

Ante essa última frase que ele proferiu para Aname, Mitsu abriu os olhos.

Meus esforços... não valeram de nada? — Em pensamentos, repetiu para si mesmo o que o ouviu dizer. Uma forma de autorreflexão. — Então é assim que vai acabar? Depois de tudo o que conquistamos, ele simplesmente vai vencer e assassinar meus amigos e a garota que eu amo? Na minha frente. Como fez com meus pais. Não, não pode acabar assim... — Na sua memória choviam as lembranças das atrocidades cometidas por aqueles malditos. O dia que seus pais morreram. Sua irmã chorando. Quando olhou para o lado e viu não apenas Lila chorando, mas Aname também, e prestes a ser morta, recebeu forças de não sabia onde. Deu com as mãos na terra, tirou o rosto do piso e, ajoelhado, fitou o inimigo e pensou: — Merda! O cacete que vai acabar assim!

Foi enquanto Inoku se distraía com Aname que Mitsu se apropriou da faca que ele deixou para trás e correu até lá. Não vai acabar assim, dizia a si mesmo, correndo desengonçado por causa da dor e da falta de força. Não vai, reiterava, já a meio metro de distância de seu alvo. Posicionou a lâmina, depositou todas as forças na mão com a qual a empunhava, meteu-a nas costas do guarda do rei e só parou de empurrá-la quando atravessou todo o coração dele. Ambos desabaram de joelhos, Inoku, entretanto, morreu primeiro e caiu para a esquerda de Aname. Agora eu posso partir em paz, Mitsu falou consigo mesmo. Olhou nos olhos de Aname, que o encarava sem reação. Não, espera, ainda falta uma coisa, lembrou-se.

Em seu último gesto nesta vida, o Herói da Resistência sorriu e, de um jeito que Aname pudesse ler em seus lábios, sussurrou "eu te amo" a olhando, depois seu corpo caiu sem vida à direita dela. O brado de tristeza da garota foi tão alto, forte e carregado de dor que atraiu a atenção de todos na arena.

— MITSU! — Lila também bramia.

A Resistência perdia ali seu grande símbolo, sofria um duro golpe.