Os Reis do Inferno
2 Os humanos estão acostumados a isso.
Chovia torrencialmente. O barulho dos raios assustava as crianças que tentavam dormir a noite, o que era parcialmente engraçado. Enquanto seus irmãos descansavam, Katherine observava o mundo pelo lugar de sempre – era tarde no país no qual se encontravam no momento, mas como estavam sempre se mudando, não fazia tanta diferença. A ruiva gostava de observar os humanos, ela achava que eram criaturinhas bem interessantes. Secretamente, Katherine acreditava que eles – talvez – tivessem uma salvação. Seus olhos eram pretos, quase totalmente, o que fazia todos se perguntar se esta era mesmo uma ruiva natural. Mas não perguntavam; a atração era maior e os humanos tolos não costumavam resistir.
Vincent estava encostado em sua pequena cama. Eles possuíam camas, mas não costumavam dormir – ficavam apenas deitados, relaxando, refletindo. O homem tinha cabelos brancos da cor da neve e os olhos penetrantes azuis e quase brancos. Quando os humanos – tolos – perguntavam, ele usava problemas genéticos como uma desculpa. Mas normalmente não falavam com ele: sentiam-se intimidados.
Sebastian era o mais velho, mas aparentava tudo menos isto. Seu cabelo era preto e longo, com os olhos vermelhos e um sorriso assassino e doce nos lábios. Ele guiava a irmã sempre que esta agia por instintos – sim, eles tinham instintos. Poucos, mas tinham – afinal ela era a mais nova e inexperiente de todos. Sempre tentava apoiar Vincent e sentia falta de época na qual o mundo era mais simples e ele e seu irmão saíam por este disseminando o ódio entre os tolos seres terrenos.
Katherine levantou-se e foi falar com o irmão mais velho, o que tomava as decisões.
– Irmão – Disse – Não está na hora de fazermos alguma coisa? O mundo está por um fio, não está na hora de escolhermos os dez?
– Hum – O moreno estreitou os olhos – Talvez. Mas precisamos puxar o gatilho antes.
– Como assim?
O mais velho não respondeu. Permitiu-se ficar em seus pensamentos, de como começar uma seqüência de eventos assustadores.
– Só precisamos de um – Disse o homem após certo tempo, despertando a irmã de seus pensamentos – Apenas um ser mais influente na sociedade atual. Como... Um presidente. O presidente mais influente no ano atual. Começar por ele é o melhor a se fazer.
– O que faremos?
– O que sempre fazemos: influenciá-lo, deixá-lo paranóico, achando que todos estão contra ele. Será fácil, ele é uma figura pública e figuras públicas são sempre influenciáveis – Sorriu – Pode acreditar em mim.
– O que farei? – Sorriu Katherine, tomada pela ansiedade e sede de sangue – Tenho que fazer algo, o que farei?
– O que você sempre faz, querida. O que você sempre faz.
A aproximação foi demorada, entediante, mas é isso o que eles faziam: planejavam lentamente. Katherine quase não ficava mais em casa, assim como Vincent, e Sebastian aproveitava seu tempo sozinho pensando em como seria quando o gatilho fosse puxado. E ele gostava muito da idéia.
Passaram-se alguns anos depois do inicio do plano e tudo começava a dar certo. O homem mais importante do mundo estava visivelmente alterado, tinha um caso com uma menina que aparentava ser bem mais jovem que ele e sua mulher estava por um fio de surtar. Então começou. Em uma noite, o homem puxou o gatilho da sua arma, matando sua esposa após uma longa discussão entre os dois. Ele não foi preso, é claro; os humanos fizeram o que estavam acostumados a fazer, acobertaram o que o homem importante fez. Depois desse dia, ele nunca mais foi o mesmo e começou a achar que todos sabiam o que ele havia feito – mas ninguém sabia, só quem o ajudou a encobertar o feito. Os eleitores começaram a achá-lo extremamente esquisito, e o homem tomado de amor pelo poder não queria deixar seu lugar. Logo ele seria descartado, escolheriam um novo presidente e ele não seria mais nada; até que descobrissem seu crime e ele fosse preso, saísse nas televisões das pessoas e visse seu poder indo pelo ralo abaixo, como o sangue em suas mãos naquele dia.
Katherine estava se divertindo com a fragilidade do amante – e começou a botar idéias em sua cabeça. E o amante as aceitava, afinal tinha ficado muito mais influenciável do que estava antes. Até que a menina deixou escapar dos lábios a palavra que havia esperado anos para deixar sair: bomba. Não a atômica, jamais, não poderiam matar todos os seres humanos – não haveria a diversão – mas apenas bomba. O mundo ficaria atordoado, perdido, e destruído. Ninguém esperaria.
Era madrugada quando as crianças acordaram com o barulho de aviões-caça rasgando o céu. Correram para a janela achando a situação muito divertida, chamando os pais. Logo estavam todos nas portas de suas casas, esperando uma explicação. A explicação não chegou, mas a explosão. A criança de oito anos disse “mamãe, o que é aquilo caindo do avião?” e a mãe tentou correr para salvar o pequeno – esforço em vão, é claro. Quando menos esperavam, as casas não existiam mais, nem os filhos, ou os maridos, ou até mesmo as próprias vidas.
O terror tomou conta do mundo – não houve tempo de reação. Muitos líderes morreram e ninguém sabia de onde tinha saído a situação, nem o motivo da mesma. O homem importante não se pronunciou sobre o ocorrido, apenas deixou casas, colégios e hospitais pegando fogo. Em menos de três meses, o caos estava instalado. Como diria o irmão mais velho: “os humanos são frágeis. Basta um pequeno empurrão na fileira de dominós.” Os seres humanos se afogavam no próprio sangue.
Os três irmãos assistiam a festa de assassinatos e davam boas vindas às almas novas. Mas a hora de enfrentar a verdade estava chegando: os escolhidos para repovoarem ou não o mundo.
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