Os Reis - A ascensão ao Trono
1 1.Distância.
Notas iniciais
Distância. sf 1. Espaço entre duas coisas ou pessoas, ou entre duas épocas; 2. intervalo.
...
O clima frio da região possibilitou uma névoa densa naquela manhã, ela esperava ansiosamente por aquela deixa há muito tempo, iria cavalgar e nunca mais voltar. Saiu de seu quarto trajando uma calça de equitação marrom clara, uma blusa branca com manga, um casaco de equitação verde com o brasão da família e uma bota sem salto preta para despistar os servos da casa. Desceu as escadas e ignorou a empregada dizendo sabe sei lá o que sobre seus pais, adentrou, depois de andar por vários corredores e sair pelos fundos, no estabulo, deu bom dia para sua égua e fez carinho em sua crina, a mesma respondeu com um relincho amigável, estendeu um pano em suas costas e selou-a. Pegou uma bolsa de suprimentos preparada e escondida há muitos dias no meio da palha e feno que emundava o chão.
Indecência poderia ser seu nome, porém sua mãe preferiu Tenten, pois: ”Significa celestial, céu, pouco a pouco”, e disso a menina não tinha nada, não possuía paciência divina e tão pouco era singela igual ao céu, Tenten era tudo ou nada, sem meios termos. A égua branca de pura raça relinchou, Tenten sorriu, ambas queriam sair daquele local.
O vento batendo em seu rosto, seu cabelo solto assim como gostava, a égua corria mais e mais adentrando a floresta que ficava aos arredores de sua residência. A névoa estava gelada, a garota nem saberá o quanto o tempo tinha passado se não tivesse sentido o trote de sua égua diminuir depois da quinta vez que subiu após uma curta pausa e ver o sol virar lua por duas vezes seguidas. Quando o sol alcançou o meio do céu pela terceira vez Tenten sentiu mais frio que o de costume e avistou uma floresta diferente, tomada pelo branco da neve. Adentrou sem remediar à floresta branca, nunca andou por aquelas terras e nunca tinha passado do limite de suas próprias terras, estava animada um tanto eufórica, sua mente buzinava mil pensamentos de uma vez, e sua visão só via branco se misturando com as cores pálidas dos animais que ali habitavam, sentiu seu corpo amolecer e sua égua diminuir a velocidade, sua vista ficou preta e logo, não via nada.
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Aquela manhã estava esplendorosa. A pouca geada da noite passada acumulada na grama já começava a derreter, reparou que seu cavalo preto estava mordiscando algumas gramíneas que já haviam perdido a fina camada gelada, sentado no solo úmido e gélido, olhou para o céu, ele admiti para si mesmo que o Sol brilha com facilidade, porém seu brilho e calor às vezes não faziam o efeito que gostaria naquelas terras cobertas pelo branco do inverno sem fim.
Começou a pensar em como era além daquelas fronteiras e como seriam as pessoas, os animais... Nas terras do menino não havia nenhuma diversidade, coelhos e alces e os únicos cavalos que já vira estava no estabulo de sua residência e todos brancos, albinos para se misturar com a relva. Como um súbito, sua atenção foi voltada para a inquietação do cavalo, suas orelhas mexiam atrás de um som que os ouvidos humanos não poderiam escutar, o cavalo branco se apresou em começar um trote rápido para a floresta. Quando o cavalo já estava adentrando aquela aglomeração de arvoredos ele puxou todo o ar que tinha nos pulmões para uma tentativa desesperançada de parar seu cavalo.
— BLACK PARE. – o dono gritou e subitamente o cavalo parou. – Não achei que fosse obedecer realmente. – Falou o dono quando chegou ao seu lado, estranhou e olhou para onde o cavalo estava olhando. – Outro cavalo? Será que fugiu do estabulo Black? Já o viu antes? – O cavalo relinchou em resposta. – Pois, se você não viu quem dera eu! Espere, o que é aquilo que ele carrega?
O menino arregalou os olhos quando finalmente percebeu o que realmente estava vendo a sua frente. Um cavalo com a cor dos troncos marrons escuros como os da Erythrina falcata ou até mesmo de uma Erythina crista-galli, não que já tivesse visto uma dessas pessoalmente somente em gravuras em noites mais escuras e frias que as de costume que era mais fácil de escapulir de seus aposentos e entrar escondido nos lugares. Ele se aproximou do cavalo e pode distinguir a pele do cavalo com o volume de um corpo sem consciência recostado nas costas do cavalo. Rapidamente se pôs ao lado do cavalo diferente e tirou à pessoa do cavalo, uma menina. Ele checou seus batimentos cardíacos e suspirou de alívio quando constatou que ela ainda estava viva. Bateu em seu rosto levemente e após não obter resposta a pegou no colo e colocou o corpo inconsciente da menina em seu cavalo branco. Conduziu os cavalos para seu lar.
...
Havia três mulheres naquele cômodo, uma era mais nova e estava deitada na cama aparentemente inconsciente, vestia um vestido de tecido leve e branco, outra de meia idade, possuía um vestido com manga longa rosa claro quase branco, tinha uma cauda média e possuía semicírculos minúsculos e alinhados várias vezes como estampa, porém a outra mulher presente era mais velha e possuía uma expressão ranzinza e vestia um vestido que terminava um pouco antes dos calcanhares e um avental branco com um leve babado nas extremidades.
— Certo, certo, ela esta acordando.
A mais nova piscou três ou quatro vezes seguidas antes de realmente abrir os olhos.
— Oh, querida ainda bem que acordou, esta se sentindo bem?
A menina mais nova pareceu confusa, como ela havia chegado naquele quarto e quem eram aquelas mulheres. Olhou o local o analisando com cuidado, os móveis bem distribuídos e as cortinas de tecido pesado não parecia familiar para menina, porém assim que colocou seus olhos sobre a mulher que estava sentada em uma cadeira ao lado da cama percebeu que seu rosto era familiar assim como alguns detalhes talhados na madeira cama. Eram brasões aquilo ou ela já estava chegando perto da cegueira. Parou seus pensamentos desenfreados e conseguiu perguntar por um fio de voz:
– Onde estou?
– Minhas maneiras minha senhora, esta na residência de inverno Hyuuga.
A mais velha resmungou.
— Não seja tão rude com a hospede Katharine, vá, tire o resto do dia de folga.
A mais velha se curvou em reverencia e saiu dos aposentos.
— Desculpe Katharine, ela não está acostumada a receber visitas. – Sorriu amável. – Esta longe de casa não é mesmo Lady Mitsashi.
— Como sabe meu nome?
— Acho que se você realmente queria que sua fuga fosse bem sucedida não deveria sair estampando o símbolo real pelas roupas e deveria se certificar que seu lindo rosto não seria reconhecido.
— Eu não estava fugindo e eu não sou tão reconhecível assim.
— Diga-me o que estava fazendo tão longe de casa então, tão desprotegida. Para uma boa conhecedora, algumas características são facilmente reconhecidas.
— Esta me dizendo que me conhece?
— Estou dizendo que conheço algumas pessoas de sua família e elas devem estar preocupadas. Vai me dizer seu nome? Que tal eu dizer o meu primeiro? Eu sou Maya, Hyuuga Maya.
A ficha da menina caiu, ela se escondeu um pouco entre as cobertas tentando esconder o próprio rosto, queria enterrar sua cabeça na terra de tamanha vergonha que estava sentindo. Como ela pode falar com uma rainha com tanto desdém? Respondeu timidamente tentando parecer mais solene desta vez.
— Tenten, Mitsashi Tenten. Mas não conte a ninguém isso. Por favor. Eles me tratam diferente quando sabem. Eu sou só uma pessoa.
— Eu sinto o mesmo, mas seja você mesma Tenten esqueça a etiqueta enquanto estamos só, mas quando não estivermos me chame somente de “A Hyuuga ou a rainha” — A menina lembraria daquelas palavras mais tempo do que gostaria. – Vou lhe contar uma coisa Tenten, pois eu sinto que posso confiar em você e sinto que nossos destinos estão de alguma forma entrelaçados em um futuro um pouco distante, às vezes o que precisamos é de outro caminho, outra solução, mesmo que essa outra não seja a mais obvia ou a mais correta.
— E se não houver outro caminho? E se no final eu ser aquilo que não quero ser? – A menina disse incerta pelo assunto da conversa.
— Sempre há outro caminho, mesmo que você não possa vê-lo. As pessoas nunca mudam, elas só redefinem o que importante para elas.
— Eu não estou entendendo muito bem.
— Um dia você vai entender... – Batidas na porta foram ouvidas. – Finja que esta dormindo.
Normalmente não atenderia uma ordem dessas, mas algo em sua cabeça gostaria de um tempo para processar as palavras ditas por Maya, deitou na cama e fechou os olhos abraçando o travesseiro de pluma de ganso. Sua cabeça trabalhava a mil enquanto seus ouvidos rebeldemente tentavam ouvir algo da conversa.
— Filho, que surpresa agradável.
— Ela acordou?
— Sim e já voltou a dormir. – A porta rangeu a ser aberta completamente. – Como pode ver.
— Sabe o nome?
— Bela Ferdinanda. Uma camponesa. Roubou a roupa e o cavalo de uma nobre de sua cidade. A pobrezinha queria uma vida melhor, mas me disse que estava muito arrependida de deixar seu velho pai e sua mãe doente para trás. Será que meu filho não poderia levar Bela para casa?
— Se ela assim desejar.
—Ficarei grata. Agora olhe a menina enquanto aviso seu pai e mobilizo alguns guardas para ir convosco.
A mulher já havia saído do quarto quando o garoto lhes chamou a atenção:
— Se for falar com papai, coloque sua coroa.
A mulher riu de seu esquecimento proposital e continuou andando. O garoto se sentou no lugar que sua mãe havia ocupado há poucos minutos e ficou olhando a menina que se mantinha com olhos fechados.
— Você é filho da rainha? – A menina abriu os olhos alguns segundos depois de começar a falar.
O menino ficou alguns momentos em silêncio processando o pânico da menina ter repentinamente acordado antes de responder, desviou o olhar antes que ela percebesse que estava olhando para ela.
— Sou, de certa forma.
— De certa forma?
— Algo complicado de se explicar. Tudo isso devido à guerra 75.
— Esta guerra não trouxe nada de bom para o meu reino também.
— Onde você mora?
— Onde os Mitsashi governam. – De certa forma, não era mentira. – Três dias de viagem ao norte com seu cavalo mais potente.
— Entendo. O governo dos Mitsashi sofre até hoje, sendo governado por um rei que não é rei.
— Um rei que não é rei? – A menina sentiu uma pontada de raiva e orgulho sendo pisados pelo mesmo pé.
— É... Bom... Aqui em minhas terras temos essa expressão “são terras governadas por um rei que não é rei”. – Suspirou. – Em outras palavras quando... – Bateram algumas vezes na porta e a mesma rangeu.
— Desculpe meu príncipe, mas recebi ordens para que partíssemos agora. – Um soldado falou ao adentrar o quarto sem permissão.
— Certo, vamos nos retirar para que Bela possa se vestir e da próxima vez bata na porta.
...
Para Neji era complicado entender porque a menina conseguiu roubar uma roupa com tanta facilidade e não usou essa mesma energia para roubar um carro, os nobres eram as poucas pessoas que possuíam carros e ele achava que se tudo fosse igual estava nos livros, roubar um carro seria fácil, mas nestes dias que passou levando a menina de volta para casa percebeu que carros não atravessam florestas como aquelas, eles seguem estradas que os levam a algum lugar então de certa forma a menina ao pegar aquele cavalo estava andando sem rumo e tentando, de uma forma falha, fugir de sua casa. Concluiu no primeiro dia que ela era bem esperta. No segundo tentou compreender como a menina conseguiu chegar tão longe em apenas três dias e como o silêncio da viagem não parecia incomodar tanto ela assim como o incomodava e no final daquele dia concluiu que deveria parar de pensar nela. Porém no terceiro dia viu que era quase impossível fazer isso por dois singelos motivos, o primeiro ela estava ao seu lado e constantemente o lembrava de sua presença quando ele ouvia seus suspiros e o segundo motivo era que ele simplesmente não queria parar de pensar nela por razões que ele mesmo não conhecia. Ela era diferente, não tentou agrada-lo e muito menos o tratou mal. Queria ser seu amigo, mas quando à tarde do quarto dia chegou e já se podia avistar a entrada do reino da garota ele concluiu que eles moravam muito longe e a distância jamais os permitiriam se encontrar com a frequência que seu coração gostaria, seja de cavalo ou pela estrada, eles nunca mais iam se ver.
A menina desceu de seu cavalo quando ficaram a cinco metros do grande muro de pedra, ele parou meio a contra gosto e desmontou de seu cavalo.
— Aqui já está bom. Posso seguir sozinha daqui.
— E o que me garante que não vai fugir desta vez?
— Eu não vou fugir. – Ela sorriu.
— Algo me diz que posso confiar em você.
— As pessoas costumam dizer isso. – Encolhe os ombros.
— Você vai ficar bem?
— Vou tentar, tente você também.
— Sim.
O som de passos apresados. Um vento forte e frio passou levantando terra e dando uma falsa ilusão que ela se movia por vontade própria. Segundos depois um homem com uma roupa de couro de vaca parrou ao lado da menina e pareceu surpreso quando a reconheceu.
— Ah menina! Ainda bem que te achei sabe quantos dias eu te procurei feito louco?
— Só você se deu a oportunidade de sentir minha falta. – A menina olhou o homem por cima do nariz.
O homem abaixou a cabeça ao ouvia a verdade da boca da menina. O homem era alto e robusto, dava a impressão que nenhuma lamina criada pelo homem poderia perfurar sua pele seca e peluda, ele coçou a barba preta sem jeito.
— Este deve ser seu pai. Certo?
Antes que o homem pudesse negar algo à menina sorriu abertamente.
— Sim. Pai este é... Como você disse que era mesmo seu nome?
— Eu não disse. Meu nome é Neji senhor, prazer em conhecê-lo e sua amada filha Bela.
O homem vez uma reverência.
— Minha filha Bela? – O homem pareceu confuso e ganhou um olhar da menina. – Bela você está de castigo até que o sol nasça verde ao sudoeste.
Neji riu e apertou a mão do homem e segurou pela primeira e última vez a mão da menina, deu-lhe um beijo nas costas de sua mão e outro em sua bochecha e partiu para o outro estremo da distância que os separariam.
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