Os Raios de Sol nos Cabelos Dela
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Espero que curtam ^^
Abro os olhos, e logo os fecho. Faço uma súplica para que eu não esteja realmente aqui. Eu não quero estar aqui. Desejo com fervor, mas não me adianta em nada quando os abro novamente. Taciturno, espano as cinzas do rosto, engulo o soluço que ameaça escapar e levanto-me.
O sentimento de desespero quase me afoga.
Eu não quero estar aqui, suplico novamente.
O mundo está em guerra. Ele sempre esteve. O passado é cercado de guerras mundiais, civis, morte. Porém está não vai acabar até que reste apenas vestígios do que um dia foi algo. Esta cidade está em pó. E eu tenho que sair daqui antes que tentem triturarem-na ainda mais.
Esse é outro dos vários dias em que acordo em um ninho de destroços, desejando que não estivesse aqui, que não estivesse em lugar algum. A guerra está aqui desde que nasci, e isso já faz dezessete anos. Ouvi dizer que antes da Terceira Guerra Mundial, a Guerra Que Nunca Acaba, o mundo já estava apodrecendo por dentro, as pessoas apenas se iludiam fingindo que não. E então eclodiu. Ninguém escapou. Mais de 50% da população foi aniquilada.
Estatística minha. Baseada em muita pesquisa e corpos encontrados pelo caminho.
A Rússia teve a bomba RDS-220, nomeada de Tsar-Bomba, roubada, vendida, e clonada. O pesadelo começou. Um bomba atômica inicialmente projetada para ter 100 Megatons, porém teve a potência reduzida para 58 Megatons, é lançada nos EUA. Por que uma bomba, não um míssil, ou uma bomba atômica mais potente ou uma bomba nuclear? Ninguém sabe. Nem quem já morreu, nem quem está vivo. Talvez fosse uma relembrança da Guerra Fria. Um aviso.
Juntando as poucas coisas que tenho em uma mochila mofada, sigo caminho, às vezes parando em meio aos destroços para procurar por comida e água. Minha garganta queima de sede e meu estômago se corrói de fome. Se não achar algo logo, não terei mais forças para caminhar.
O frio de Genebra atravessa meu casaco fino e perfura meus ossos como agulhas. Não me preocupo muito com a radiação, nem sei se há algum lugar que esteja livre dela atualmente. Ouvi dizer que aqui era lindo. Era. Entretanto não há tempo para procurar pela beleza corrompida, eu tenho que encontrar Amelia. Sei que ela está aqui. Resgato uma lata de algo que suponho que seja comestível e volto a andar. Agora tudo é questão de tempo até localiza-la.
O sol poente cega-me por um instante. Deixaria que queimasse minha retina se eu não precisasse dela para guiar-me até meu objetivo, que é bem mais importante do que minha autopiedade. Ele é a única coisa que continua viva, radiante, nesse mundo tomado por lamurias silenciosas e gritos mudos de desespero. Reina o silêncio. Mas o sol ainda brilha no horizonte. Os cabelos de Amelia são iguais a raios de sol. Os tons de laranja, amarelo e vermelho cruzam o céu em um espetáculo incandescente. É a visão mais esplêndida que eu já tive em toda a minha vida. É como nascer de novo, e eu poderia passar a minha vida aqui, hipnotizado, tentando captar toda essa beleza plácida. Mas logo se acaba. Esvaziando o que restara de vida neste mundo imundo. Obrigo-me a continuar o trajeto.
Escurece rápido, e eu quase não aguento meu próprio peso, contudo, logo posso enxergar um montinho trêmulo encolhido contra os destroços de uma casa. Meu coração acelera.
Nem a sujeira pode ofuscar os raios de sol.
Esquecendo o cansaço, eu corro. Amelia levanta os olhos vermelhos para mim.
— E-Erik — ela sussurra, os lábios rachados mal se mexendo.
Eu me ajoelho ao seu lado e a aninho em meu peito. A mancha de sangue em sua camisa me faz engolir em seco e abraça-la mais forte. Meus dedos ficam manchados de um carmim profundo. Amelia tem uma hemorragia, e me angustia saber que não posso fazer nada, que acabei de encontra-la e logo a perderei. Aperto os olhos com força para impedir que as lágrimas escorram. Amelia é tudo que eu tenho. É meu sol poente.
— Você voltou por mim, Erik — sua voz sai esganiçada e ela tosse, espirrando mais sangue em mim — Por mim — repete. Posso ver os castanhos dos seus olhos se iluminarem por trás dos cílios longos, como eu tanto gosto.
Amelia é linda até a última sarda.
— Seremos felizes juntos, na floresta, onde os pássaros cantam e as flores exalam...
Meus olhos lacrimejam ao pensar que ela nunca verá uma árvore sequer.
— Seremos, Amelia — digo baixinho, ninando-as em meus braços — Seremos felizes logo além do horizonte, na tão verde floresta, coberta por suas árvores. Colheremos frutas e flores. Você nunca mais será triste. Eu te juro, Amelia. É uma promessa.
Ela sorri para mim por alguns segundos, mas seus olhos logo perdem o brilho e sua cabeça pende em meu colo. Me agarro ao seu corpo quando seu peito para de se mover.
— Ficaremos juntos pela eternidade — murmuro, deixando que as lágrimas escorram desenfreadas pelo meu rosto.
Sei que estou pronto quando ouço o assobio da bomba.
— Pela eternidade, Amelia.
Notas finais
A Infinita Tristeza e os Botões de Rosa (one-shot):
https://fanfiction.com.br/historia/437772/A_Infinita_Tristeza_e_os_Botoes_de_Rosa/
O Paradoxo de Maia Rey (one-shot):
https://fanfiction.com.br/historia/500687/O_Paradoxo_de_Maia_Rey/
O Legado Elemental (longa - em andamento):
https://fanfiction.com.br/historia/443978/O_Legado_Elemental/
Abraços, obrigada por ler.
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