Os Quatro Portais – Mestizo
2 Capítulo 01 - Piloto
Notas iniciais
O gigantesco semicírculo cintilante pairava sobre o mais escuro céu daquela noite. Ravena segurava firmemente o corrimão borgonha que ficava menos de dois metros para a porta para adentrar seu quarto. O vento esvoaçava seus cabelos de forma que eles brincassem de ir e vir ao redor de seu rosto. Ela adorava essa sensação de sentir a aragem fresca sobre seu rosto à noite.
De cima da sacada ela poderia ver perfeitamente a pouca movimentação da Abanalla’s Street, quase que nula. A ruazinha estava sem movimento nem um, não exibia uma viva alma sequer. É claro pensou ela. Quem iria estar acordado em plena 23h31min da noite?
Após duas longas horas observando coisa nenhuma, ela decide finalmente entrar.
Antes de fechar a porta de madeira de seu quarto, Ravena deu uma ultima espiada para o céu e viu que o enorme quarto crescente foi tapado por um amotado de nuvens que rapidamente cobriram seu fulgor.
Ao adentrar seu humilde quarto vintage, ela ligou o abajur e ao menos tentou se deitar, mas ouviu alguns ruídos estranhos vindos do andar de baixo que a obrigou se levantar e olhar do que se tratava. Desceu as escadas quase que voando e constatou que deveria ter trago uma vela para lhe fazer companhia.
A negridão da noite predominava a cozinha por inteiro e o silêncio também, a não ser por alguns grilos irritantes que ficavam escondidos por qualquer lugar. O odor de bolo queimado da tarde de domingo ainda pairava. Ravena pisou no congelante assoalho e pressentiu que assim como uma vela, deveria ter vindo calçada também.
–Faça mais barulho e eu te enterro viva! – um ruído tão baixo quanto um murmúrio foi ouvido.
–Anna? – ela disse em alto e bom tom. Em seguida, algumas passadas rápidas tornaram-se lentas, quase que imperceptíveis. –Anna, você tá aí? –repetiu hesitante. Ela sentiu o vento adentrar por alguma janela aberta e alguns risinhos foram decifrados. Um homem e uma mulher, identificou Ravena.
–Shhh! – advertiu uma das vozes. Ravena sentiu-se apavorada e procurou imediatamente o interruptor, mas não encontrou nada em meio ao negrume. A cozinha ficou em silêncio novamente.
–Anna! – exclamou ela e em seguida um vaso quebrou.
–Olha o que você fez! – murmurou a voz masculina entre risos.
Aleluia! Deduziu ela em um pensamento gritante ao encontrar a tomada.
Ravena correu para o fogão e pegou uma frigideira imediatamente a levantando para cima como se fosse bater na cabeça de alguém. Com a visão extremamente apurada, ligou a lâmpada e segurou no cabo da panela com as duas mãos. Lentamente foi andando até perto da porta.
A voz feminina berrou de susto.
–Ravena! – gritou Emanoelle Cortese em um sobressalto levando a mão ao coração com dificuldades respiratórias. –Você quase me matou com uma… – ela ficou examinando que tipo de panela era aquela. –Você ia mesmo querer bater em alguém com uma frigideira? – perguntou ela em um tom irônico – como de costume – ainda com a respiração arfada.
–O que… O que você está fazendo aqui em Lacoste? – questionou Ravena intrigada pondo a mão no coração.
Emanoelle Cortese, ou simplesmente, Noelle, era a prima mais velha de Ravena e a mais nova entre dois irmãos, que mora ou morava em Londres.
–Meu querido tio resolveu me trazer para esse fim de mundo. – satirizou. Ela da uma voltinha esbanjando seu belo visual londrino. Seu cabelo parecia mais dourado que da ultima vez que se viram. Ela estava um pouco mais alta do que quando tinha seus quinze anos, porém seu corpo manequim permanecia e sua pele continuava tão clara como a neve mais pura do Everest.
–Acho que a surpresa não saiu como planejado. – Jared aparece por trás de Noelle com um meio sorriso amostrando sua covinha e uma bagagem de mãos.
Ravena correu para ir abraça-lo com um sorriso que faltava tocar no canto de seus olhos.
Jared Cortese foi para Londres a trabalho e ficou hospedado na casa da família de Noelle. Ele a convenceu de vir passar uns dias em Lacoste e ajudar Ravena a se distrair mais.
–Meu Deus, como assim? – ela ficou boquiaberta com a presença do pai ali, na sua frente. Ravena o observou de ponta cabeça. –Vocês são malucos ou o quê? Porque não avisam? – ela leva as mãos as bochechas abismada.
–Malucos? Eu diria loucos. – disse Noelle com um sorriso meia lua amostrando seus belos e alinhados dentes.
–Nós queríamos fazer uma surpresa e quando vocês acordassem amanhã dariam de cara conosco! E alias… o que você faz acordada a essa hora mocinha? – indagou Jared.
Droga gritou Ravena em pensamentos.
–Ravena? O que houve? – Anna cambaleava descendo as escadas segurando o corrimão fortemente, ainda bêbada de sono. –Jared? – ela questiona a si mesma com medo de ser uma visagem e em questão de segundos coça os olhos para ter certeza do que estava avistando.
–Anna! – ele corre em direção a ela e a abraça fortemente. Imediatamente a fita como se fosse a primeira vez que estavam se encarando, totalmente apaixonados.
–Essa casa não mudou nada, ew. – Noelle ironizou ignorando totalmente a cena dos “pombinhos apaixonados” e passou a vista por cada canto daquele local arcaico.
–Você também não. – Ravena revidou entre risinhos.
Ravena e Noelle vão para o quarto despejar algumas malas, já que ambas iam dormir no mesmo local. Anna e Jared ficaram conversando e rindo na cozinha lembrando-se dos velhos tempos.
–E então. – Noelle joga a ultima mala no chão com a respiração ofegante. –Como conseguiu sobreviver nesse fim de mundo com uma madrasta chata, totalmente presa e sem diversão? – ela a questiona tentando sentir o mesmo ar rico e chique de Londres –o que era quase impossível, Lacoste era a pior cidade para uma londrina fresca se hospedar. O calor, nem se fala!
–Anna não é chata. – retruca Ravena ainda preocupada onde uma garota acostumada com todo o glamour do mundo iria dormir. –Eu não tenho amigos, exceto por Peter e acredite que as baladas daqui já foram melhores.
–Tudo era melhor quando eu morava aqui, viu? A partir de hoje eu vou animar essa sua vida chata. – Noelle continuava com seu velho hábito de abrir um sorriso malicioso após planejar um plano mirabolante.
Depois de uma longa conversa dentro do quarto, Ravena pôde perceber que Noelle não havia mudado tanto, a amizade das duas apenas cresceu durante esses anos longe.
***
Era manhã de segunda feira, o sol reluzia sobre a face de Ravena por culpa das cortinas fechadas e isso a deixava enfurecida. Imediatamente ela fica ereta e com apenas um pulo abaixa as cortinas e percebe a escuridão penetrando por cada canto de seu quarto de novo. O colchão de médio porte esbarrado ao assoalho estava vazio, provavelmente Noelle já estava tomando seu café junto a Anna e Jared.
O relógio de parede marcava exatos 05h32min. É hora de banhar, preguiçasussurrou em sua mente.
Ao adentrar o toalete, percebeu que não dormira nem um pouco bem. Suas costas estavam tensas, sua cabeça estava explodindo e seus olhos ardiam como se estivessem queimando. Ficou encarando-se diante do regular espelho vitoriano de sua bisavó. Era belo e tinha o mesmo tom âmbar de seus olhos.
–É só mais um dia normal. – diz para seu reflexo. Sem demora, inclina a cabeça e ao despejar água, ela sente como se todas as impurezas estivessem saído ao escorrer de seu rosto.
E, portanto começou seu hábito matinal. Ao terminar o banho demorado colocou a primeira roupa que não tivesse manga nem algo que a deixasse com calor, afinal, é Verão!
–Vamos, Ravena! As panquecas irão esfriar. –Anna berrava do andar de baixo. Lá estavam Jared quase que jogado na poltrona, lendo seu jornal matinal acompanhado de panquecas e Noelle estava na mesa da frente sendo forçada a tomar o suco amargo de abacaxi Anna fizera.
–Já estou descendo. – ela mentiu. Ainda encarava seu corpo magro refletido no enorme espelho. Tombava a cabeça de um lado para outro, abria e fechava os braços. Deu um breve sorriso abafado. Todas as manhãs, em seus sete anos, sua mãe subia as escadas e ia ajuda-la a se vestir. Pedia carinhosamente para abrir os braços e ajustar alguns pontos no uniforme.
–Agora espero que todas vocês me ouçam. – Jared exige atenção e sendo assim, Ravena desce rapidamente as escadas e pega um pouco da calda caramelada para acompanhar as panquecas. –Amanhã vamos ter o Bazar Anual de Lacoste e todas vocês – ele olha fixamente para Noelle que em seguida revira os olhos. –Estarão presentes, por isso não marquem nada e se já estiver algo para fazer, adiem! – explicou para todas as três moças.
–Ainda fazem isso aqui? – caçoou Noelle cuspindo as palavras. –Eu até esqueci como é toda essa baboseira.
–É um evento que reúne toda a família. – Jared começou com a típica “descrição perfeita”. Ele ama Lacoste, isso é fato. Todos os eventos, organizações, sempre tenta participar de tudo. –Nós vamos para o velho Casarão da família Valentin e vendemos artesanato, junto às outras famílias que podem comercializar, por exemplo, roupas.
–Parece ser interessante. – Noelle fala com sarcasmo.
–Vamos, vamos. Não posso me atrasar para meu primeiro dia! – Ravena cantarolou limpando os cantos da boca poucos sujos de panqueca.
–E… – Jared deu as ultimas goladas no café fresco que não estava tão amargo quanto o suco de abacaxi. –Vamos! – disse ele por fim, dando um triste adeus a seu jornal.
Durante todo o percurso corrido não deram se quer uma palavra, exceto pelo típico “bom dia, dormiu bem?”.
–Então, eu venho te buscar certo? – pergunta Jared.
–Não. Hoje talvez eu fique no Tophel com Peter e os outros, qualquer coisa eu ligo pro senhor. – disse ela por fim. Em seguida, o carro da família Cortese desapareceu em meio a tantos outros.
Tophel é um local onde os alunos da Lacoste High School costumam ficar antes ou após as aulas. Foi fundado alguns anos depois da escola, em 1998. É um ótimo local para estudar, espairecer e conhecer alunos novos. Outras atividades interessantes que o Tophel exibe, é uma pista de boliche, tênis de mesa e outros jogos.
É agora pensou ela por alguns segundos antes de se virar e ver a infinita quantidade de alunos. Ravena suspirou e fechou os olhos, era só mais um dia de aula qualquer… O que poderia acontecer de diferente?
A frente da Lacoste High School não mudara quase nada: O prédio não muito alto cercava toda quadra, na frente o portão era vermelho cheio de grades e era analisando quem entrava e quem saía com toda cautela pelo senhor Jackson, não muito velho, aparentava ter seus quarenta e cinco anos. Os diversos alunos ali presentes preenchiam o gramado verde-musgo que cintilava ao toque solar, as poucas árvores perderam suas folhagens devido ao outono rigoroso, o aroma de flores frescas era imprescindível para quem estudava ali há tanto tempo.
–E aí está ela! – Peter Howard fez Ravena pular de susto.
–Ai meu Deus, Peter. – ela não sabia se punha a mão no coração por espanto ou se o abraçava. Peter não mudara nada! Ele ainda continuava baixinho e suas maçãs faciais permaneciam esfumaçadas por um tom avermelhado que pairava sobre sua face clara. Sua sobrancelha longa e grossa delineava perfeitamente seus olhos redondamente azuis gelados e arregalados.
–Pelo visto você continua a mesma. – brincou Peter carinhosamente. –Vamos sair de baixo desse carvalho velho, ele me da arrepios. – confessou.
Ravena inclinou o rosto para cima abrindo a boca pela imensidão do carvalho que fazia uma enorme sombra. As milhares de ramificações estavam secas, a árvore estava completamente despida, suas folhas deveriam ter caído no decorrer do outono. Mas ainda a assustava.
–É feio. – zombou do inútil Carvalho.
–E sobre o acontecido… — Peter sentiu-se ressentido ao perguntar sobre o assunto, mas já era tarde para recuar. –Você está melhor?
–Claro! Nunca estive tão bem. – mentiu. Mentir, mentir e mentir. Era só isso que ela tem feito nos últimos meses.
Ao adentrar a escola, todos os olhares do infinito corredor voltaram-se para Ravena, alguns cochichavam a encarando, outros simplesmente a fitavam como se ela fosse a ladra mais procurada dos Estados Unidos. Era isso que eu temia pensou. Ela deu um sorriso cabisbaixo e um tanto envergonhado.
–Vamos logo. – puxou os braços de Peter com rapidez e sem destino, apenas querendo sair daquele constrangimento.
–Olha, é só por um tempo. Eles não vão fazer isso para sempre. – ele tentou acalma-la. Sim, era total verdade. Um dia eles iriam parar de encará-la como se tivesse roubado a joalheria, mas apenas um dia.
–Quer saber, eu vou para meu primeiro tempo. – queixou-se ajeitando as grandes madeixas de seu cabelo. –É a melhor coisa que eu faço. – disse por fim.
***
–Bem vindos a Lacoste High School! – cantarolou o roliço diretor Stevens. Todos os alunos vociferaram junto a ele, o que o deixou mais empolgado. –E com essa nova unidade, as responsabilidades aumentarão. – seu tom de voz alterou-se no momento em que começou a dar o típico sermão da manhã.
Ravena tombou a cabeça para baixa quase que caindo de sono.
–E para a alegria dos alunos… – ele deixou transparecer um sorriso bobo em seu rosto. –Depois de amanhã teremos nosso Luau de volta as aulas! – Stevens abriu os braços como se fosse abraçar alguém de felicidade.
–Ele é sempre sorridente assim? – uma voz doce soa a frente de Ravena e em seguida levanta a cabeça para ver quem falava com ela.
Ravena ficou inerte ali, paralisada com tamanha beleza da garota.
–Sempre. – disse ela num sorriso tolo.
–Prazer, sou Sierra. – a garota se virou por completo para dar um aperto de mãos em Ravena. –Sierra Backster. – corrigiu.
–Sou Ravena Cortese. – em seguida retribuiu o aperto.
Ao segurar a mão de Sierra para saudá-la algo estranho aconteceu. Os pelos de Ravena eriçaram-se e seu sorriso tolo desfez-se em questão de segundos, seu corpo foi tomado por uma sensação angustiante e um sabor bilioso brotou em sua cavidade bucal. Ela mordeu levemente os lábios que estavam secos e fixou os olhos em Sierra como se… Pudesse ver através de sua alma.
–Tudo bem? – questionou a garota preocupada a fitando com curiosidade.
–Tu-tudo. – gaguejou e imediatamente um frio percorreu sua espinha.
Deixando isso de lado, Ravena não pode deixar de notar a beleza excêntrica de Sierra, que possuía redondos olhos azuis penetrantes gelados como os de Peter, sua pele caucasiana contrastava com os pequenos raios de sol que atravessavam a janela e seu rosto de criança triangular dava um aspecto que combinava perfeitamente com seus curtos cabelos castanho-claros que batiam até seu pescoço. Era bela como a deusa Afrodite.
–Você é veterana aqui? – perguntou.
–Sou sim. Estudo aqui faz quase três anos.
–Como é esse negocio de Lua… – Ravena a interrompeu.
–Luau! – exclamou feliz. –É muito legal. É à noite, a maioria das vezes é a lua cheia, com ritmo havaiano e é extremamente calmo. – explicou.
–Lua cheia? – indagou Sierra com os olhos arregalados.
–Senhorita Cortese e… –o diretor estava de braços cruzados e fazia uma careta.
–Backster. – completou a frase dele.
–Querem dar alguma opinião? Ou alguma dúvida? – perguntou o homem rechonchudo.
–Não, obrigada. – respondeu Ravena ironicamente fazendo com que Sierra risse.
Dez minutos de sermão do diretor Stevens e finalmente o primeiro tempo acabara e Ravena estava trocando os livros para o próximo horário.
–Você deveria ir ao Tophel conosco. – propôs Ravena sem ao menos perceber que Sierra é nova na escola e provavelmente não sabia nem onde era a enfermaria.
–Tophel? – ela questionou intrigada.
–É como se fosse uma subcategoria da escola. Lá nós jogamos, estudamos e conhecemos alunos novos. Você pode se enturmar, vai ser legal. – ela explica trocando o livro de Literatura pelo de Calculo.
–Hum. – Sierra analisa o que Ravena acabara de dizer.
***
Após a escola, vários alunos – como de costume — estavam a caminho do Tophel. Era como se parte de toda a escola se dividisse em três partes, aqueles que iam direto para casa, aqueles que simplesmente ficavam sentados em alguns bancos no gramado a frente da escola e aqueles que estavam indo para o Tophel.
–Então é aqui que vocês passam a maior parte da tarde? – questiona Sierra.
–Sim, você trouxe dinheiro? – Ravena percebeu que aquela pergunta não soou tão sutil quanto era para ter saído.
–Para quê? – ela a responde com outra pergunta.
–Vamos almoçar! – ela puxa a garota.
Ao adentrarem o local, com os braços cruzados, Sierra ficou impressionada com a beleza do local.
–Nossa. – ela disse boquiaberta. –Nunca pensei que seria bonito assim.
–O quê? Você achou que veria um bando de adolescentes loucos, bêbados e mergulhados em êxtase? – Ravena questionou entre risos.
Sierra concordou com a cabeça.
–Tipo isso.
Em instantes uma legião de alunos adentrou o local, uns corriam para o boliche, outros iam para a cantina, alguns simplesmente sentavam-se nos bancos.
Após pegarem algum lanche, Sierra e Ravena se redirecionam para as cadeiras perto de outros alunos.
–E então. – Ravena puxou a cadeira e em seguida começou a mergulhar seu hambúrguer de ketchup e maionese caseira. –Está gostando da cidade? – ela pergunta dando uma mordida certeira no alimento.
–Ah, se eu estou gostando? – sua voz fica tremula em questão de segundos. –Sim. É um local de clima agradável e tem pessoas muito legais. – explica.
–Porque resolveu morar para essas bandas? – pergunta Ravena em excesso.
–Bem… – ela procura palavras em sua mente. –Meus pais viajaram para Washington e eu vim parar aqui em Lacoste. – completou. –E você? O que me conta? – pergunta.
–Eu moro aqui desde que me entendo por gente. – Ravena abre um sorriso tolo. –Na verdade eu nasci aqui. Mas quando eu fiz treze anos minha mãe me levou para morar com ela em Portland, depois ela faleceu e eu voltei para cá para morar com meu pai. – disse por fim.
–Ah. – Sierra ficou sem palavras ao escutar Ravena falando sobre a morte da mãe. –Meus pêsames. – disse tentando consolar a garota.
–Ah não. – ela riu e continuou. –Eu já aprendi a lidar com isso. Você me deixou curiosa com uma coisa. – confessou.
–O quê? – indagou Sierra com a boca cheia de coxinha de frango.
–Você está morando sozinha aqui? – insistiu Ravena em mais perguntas.
–Não e sim. – confessou. –Minha tia, Lorely Backster é dona de uma das pensões mais visitadas da que de Lacoste. A Pensão Fênix, então ela me ofereceu um cantinho. – informou ela dando uma ultima golada em seu refrigerante. –Ah! – ela se lembrou de algo. –Meu irmão está vindo para cá, então eu posso falar que verdadeiramente não moro sozinha.
–Seu irmão? – indagou Ravena limpando os cantos da boca.
–Sim, Caleb Backster.
***
Após várias horas de conversa ao lado de Sierra –insistindo em perguntar sobre sua vida, mesmo sabendo que ela não gostava muito de falar sobre seu passado – Ravena finalmente chegou em seu tão sonhado leito.
–Olha só quem chegou. – Noelle disse ao ver Ravena adentrando o quarto. –Quer dizer que você lembrou que tem casa? – ela estava jogada na cama da pior forma o possível e mexia sem parar no celular.
–É eu lembrei que tenho casa. – disse ela. –Estava ocupada essa tarde. – sua voz saiu em um tom vacilante.
–Ocupada é? Com o que? Ou melhor, com quem? – ela jogou o celular para o canto e começou a fitar Ravena com um olhar devasso, como se Ravena fosse uma prostituta de esquina.
–Opa, calma aí. – um sorriso brotou em seus lábios. –Uma amiga minha.
–Amiga? – questionou em um tom de desanimo.
–Sim, conheci uma garota novata hoje, ela é legal. – Ravena sentou na beirada da cama e tirou o tênis. –Sierra Backster. – acrescentou.
–Backster? – Noelle disse pouco alto dando um pulo da cama e seus olhos se arregalaram.
Três batidas na porta foram atentadas pelas duas garotas.
–Querida, podemos falar com você um segundo? – era Jared, com a voz mais tremula o possível.
–Claro. – ela disse desordenada e ainda focando no “podemos” da pergunta de seu pai, quem mais queria poder falar com Ravena? Talvez Anna?
Ao descer as escadas depressa acompanhando seu pai, Ravena ainda conservava os olhos esbugalhados, segurava o corrimão como se estivesse segurando a própria vida e seus batimentos cardíacos pulsavam cada vez mais rápidos. Algo irá acontecer pressentiu.
–E então? – indagou ela sentando-se no aveludado sofá de canto carmesim perto da acanhada mesa de vidro. –O que vocês querem me falar?
–Acalme-se. – interrompeu Jared todo tipo de pensamento desnorteado que Ravena poderia ter naquele instante.
Anna e Jared sentavam-se um perto do outra na ponta do sofá mantendo a postura rígida, assim como Ravena, com o olhar rígido.
–Ravena. – Anna deu inicio a conversação. –Faz três meses que Geórgia faleceu. Você está de bem com isso? – questionou.
–Olha, desculpe a grosseria, mas vocês tem que parar de me rodear com essa dúvida. É claro que eu não estou bem, poxa minha mãe morreu. – ela não queria chorar, o que ela realmente desejava era falar tudo o que estava entalado e esse seria o momento propicio. –Que adolescente normal fica bem após a morte da mãe? Eu acho que nem que se passassem dois ou três anos eu estaria cem por cento recuperada. – ela estava saturada de todas essas perguntas. Estava saturada de todos ficarem com pena e um dia após o outro fazerem a mesma pergunta boba “Você está bem?”, se parassem de fazer isso seria melhor, afinal, pra quê remexer uma ferida que ainda não cicatrizou?
–E é por isso que decidimos contratar uma psicóloga. – Jared esclareceu.
Os batimentos de Ravena agora saltitavam de seu peito. Ela queria gritar “Ei, eu não estou doente, eu não preciso de ajuda muito menos de uma psicóloga!”, mas ao invés disso, apenas murmurou:
–Certo. – e em seguida concordou com a cabeça.
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