Os Quatro Livros De Alice
1 A garota que Sonha
Eu observava aquelas pálidas mãos fazerem seu trabalho com rapidez e eficiência. Fazer um chapéu era um processo mais difícil do que eu pensava, ainda mais bebendo chá ao mesmo tempo. Adorava passar a tarde na cabana do Chapeleiro, e ele provavelmente adorava minha companhia. Sempre perguntava por que fazer tantos chapéis, e sua resposta era a mesma: "A rainha, Helena, ela precisa de chapéis, e sou o único que consegue fazê-los".
O Chapeleiro adorava me contar histórias antigas, muito antes de Alice. Ele não era maluco, pelo menos não em meu país das maravilhas. Lá não havia mal. Não existia rainha de copas, e sim a rainha de paus, sempre alegre e espalhafatosa. Da janela podia se ver os gigantescos jardins do país das maravilhas, todos com flores nunca vistas antes, de cores impossivelmente belas, juntas de cogumelos de todos os tamanhos e tipos.- Foi então que eu percebi que algo me perseguia. Olhei para trás e vi a criatura. Alta e esguia, ela me olhou com seu rosto apavorante. Eu desembainhei minha espada e cravei-a no estômago da besta.- Ele afundou a agulha no chapéu, empolgado. Mas não pude ouvir o resto da história. Nesse mesmo instante senti-me sendo puxada como um imã para algo, algo muito distante: A realidade. Minha mãe me chamava, abrindo as cortinas sem delicadeza alguma. Após alguns minutos, eu já estava no carro, e passando-se mais minutos, estava na escola, morrendo de sono.- Tô podre. — Comentei, me espreguiçando. - Você nem faz nada, a menos que seja uma sonâmbula, e faça coisas dormindo. — Comentou Jhéssica, minha amiga.- É mais ou menos isso...- Abrimos os cadernos e esperamos a professora entrar na sala. O resto da aula foi uma sequência de gritos de alunos bagunceiros , berros de uma professora estressada e coisas do tipo. Foi na saída da escola que tudo começou a mudar. Enquanto via os postes passarem pela janela do carro, logo vi a figura distinta ao lado de um sinaleiro. O sinal ficou vermelho, o carro parou, e consegui a ver com perfeição.Era um homem alto, tão alto quando uma porta talvez. Usava trajes antiquados de cor cinza, e uma capa longa com um capuz que lhe cobria metade do rosto, também da mesma cor, no qual havia uma máscara prateada. Carregava um cetro reluzente no qual pendiam penduricalhos e enfeites. Ergueu o cetro e apontou para mim, sem mover qualquer outro músculo do corpo. Nesse exato momento, o carro patinou na pista. Só tive tempo de respirar depois da freada brusca que minha mãe teve que fazer. Não haviam carros próximos de nós, o que foi uma grande sorte. Olhei para o sinaleiro e o homem não estava mais lá.* * *Aquela noite havia sido diferente. Não haviam sonhos no país das maravilhas. Me via sentada em meio de dunas de areia. A areia era totalmente branca, e se movia como um tecido de um lado para o outro, como num mar cinzento. O céu era uma aquarela misturada de roxo e laranja, como num por-do-sol.As dunas revelavam e escondiam construções destruídas, templos, pirâmides, prédios, era um caos total!Á cerca de um metro, um corpo surgiu da areia, era o homem estranho de cinza. Ele girava seu cetro, aposto que estava sorrindo ironicamente por baixo da máscara.- Olá, querida Helena. — Sua voz era rouca e baixa como um sussurro, mas totalmente intensa, a ponto de parecer estar dentro de sua mente.- Quem é você? Onde estou?- Pode me chamar de... Realidade. — O homem encostou o seu cetro de prata na areia, e toda a confusão gerada pelas dunas parou. Tudo ficou silencioso de repente, e o chão se estendeu totalmente plano e imóvel. Uma poltrona vermelha surgiu da areia logo ao meu lado. — Sente-se;Eu não queria, mas meu corpo andou sozinho até a poltrona e se sentou.- Onde estou?- Em nenhum lugar, ora bolas. Muitos chamam de horizonte, infinito, ou simplesmente... — Ele fez uma pausa, gerando uma poltrona para si e sentando-se. — o nada.- O que quer comigo? — Eu queria acordar, e tentava me mover a todo custo, mas não conseguia.- Você é especial, Helena. Vou fazer um trato com você, adoro tratos. — Ele estalou os dedos, e o cenário mudou. Estávamos no meu país das maravilhas. — Você gosta desse lugar, não gosta?- Diga logo o que quer. — Me limitei a dizer, já com raiva do homem.- Preciso que encontre umas coisinhas pra mim. Se o fizer com sucesso, tudo isso será seu, e não precisará visitar o seu mundo apenas em sonhos.- Por que não pega essas coisinhas você mesmo?- Eu não posso transitar em seu mundo, não por enquanto. — Disse ele. — Ah, e mais uma coisa. Se não conseguir...Realidade deu uma risada sínica. Todos os jardins do meu país das maravilhas murcharam, as árvores pegavam fogo e lava era espirrada de grandes penhascos que se abriam no chão. O cenário mudou novamente, e estávamos na frente de minha casa, que agora também pegava fogo e caía aos pedaços. Conseguia ouvir meus pais gritando desesperados.- Se não conseguir, suas duas realidades acabarão. — Disse ele.- Eu não quero fazer um trato com você, quero acordar. — Eu disse, aumentando o tom de voz.- Helena, você não está em condições de recusar. Sabe o que posso fazer, não sabe? — Ele se levantou da poltrona, se aproximando e estendendo sua mão pálida com garras amareladas. — Aceita o trato? É pegar ou largar, ou melhor... Pegar ou morrer.
- Se eu fizer isso, tudo irá ficar bem, não vai? — Eu disse. Realidade fez que sim com a cabeça, dando mais uma risadinha idiota. — Então eu aceito.Mal eu sabia que o que estava fazendo ia comprometer não só a minha vida, mas a de muitas, muitas pessoas.
Notas finais
Reviews! *-*
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.
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