Os Puros Ares de Sinnoh
5 5- Sonho e Desejo
Notas iniciais
Porra. Eu briguei tanto com meu pai pra poder sair de casa e fazer o que eu queria, e ia acabar morrer por querer bancar o machão? Não era possível um negócio daqueles. Me encostei em uma árvore. Meu pé começou a doer um pouco.
–Claro que a pele dos Carvanha não ia ser mole. –Resmunguei.
A adrenalina do momento deve ter feito com que eu não sentisse a dor, mas agora, era quase como quando a minha irmã chutou meu saco – aquilo realmente doeu -, e eu não conseguia andar. Pra melhorar, o veneno me deixou zonzo, então eu estava fodido. Mas eu não podia parar. A Blu estava pior que eu. Se eu não me apressasse, ela ia...
Pode me chamar do que quiser, mas àquela altura, eu já estaria com o rosto encharcado. Eu não suportava a ideia de perder outro Pokémon. Aquilo me deixou desesperado. Mas eu já estava muito zonzo. Caí no chão. Eu não sabia o que fazer. E se soubesse, não conseguiria. Flame estava machucado. Blu estava envenenada. E eu, machucado e envenenado. Era o fim da linha. Que coisa ridícula! Eu ia morrer por causa de um bastardo chamado Toxen. Minha visão foi ficando turva. O brilho das estrelas e do luar que me clareavam, pareciam se apagar.
Eu estava morto. Tive certeza de estar morto. Era como quando sonhei com minha falecida avó. Um lugar azul-celeste, com uma luz radiante nos iluminando. Eu, Blu e Flame. Era exatamente como no sonho. Ela estava lá. Uma senhorinha baixa, de cabelos loiros e curtos. Gordinha e sorrindo como sempre. Foi assim que a vi, quando me virei. Como no primeiro sonho, corri na direção dela, pelo chão macio e branco. Mas me lembrei do que aconteceu da última vez. Parei nesse mesmo instante.
–Eu quero tanto abraçar a senhora – Disse com os olhos marejados – Mas a senhora vai desaparecer de novo, não vai?
–Pode vim, meu Rei – disse ela com a voz cansada que ela sempre teve, com seu jeito sempre muito simples – A vó tá aqui, agora.
Ao ouvir a voz dela dizendo isso, fiquei tão aliviado que não consigo explicar. Eu corri em direção à Vózinha. Abracei ela e comecei a chorar em seu ombro.
–Bença, Vó.-Disse como todo dia de manhã, quando eu ia pra cozinha e ela preparava o café da manhã, e beijei sua bochecha.
–Como você cresceu, “meu fio”. Mas ainda tá magrinho. Sua mãe não anda te dando comida não?
Eu ri. Ela costumava me dizer isso sempre. Eu a apertava cada vez mais forte, com medo que desaparecesse. Eu sabia que não ia. Eu estava morto, como ela. Mas eu tinha medo. Era ela quem sempre me ajudava com meus problemas.
–Os ossos da Vó ainda doem, menino — disse ela, e eu soltei, com medo de machucá-la- A Vó vai preparar um leitinho e um doce, pra você, tá? –e abaixou, olhando pros Pokémon- Aposto que o Flame ainda gosta dos bolinhos que eu faço.
Flame ficou eufórico. Ele gostava dos bolinhos da Vó mais que tudo. Minha avó foi desaparecendo sorrindo pra mim. Eu não consegui abraçá-la. Não conseguia me mover. Fiquei desesperado quando ela disse:
–O leitinho da Vó sempre fez o meu Rei ficar bonzinho.
E desapareceu.
Eu acordei no momento em que a grande lua cheia se escondia e o sol rompia a noite com o clarão de sua aurora. Conforme a lua desaparecia, uma grande silhueta rosada desapareceu em minha frente. Eu estava deitado em frente a uma construção vermelha e branca. Blu e Flame estavam encostados em minha barriga. Do meu lado, um frasco pela metade, com Moomoo Milk, uma toalha que cobria algo e um pote tampado. Desembrulhei a toalha e um grande pão caseiro estava lá. Dentro do pote, doce de abóbora com cravo. O leite era quente, com cheiro de mel. Assim como a Vó sempre fez.
Levantei-me, secando as lágrimas e com cuidado para não acordar os meninos. Bati na porta, que não demorou um minuto para se abrir.
–Bom dia. Em que posso ajudar?- disse a enfermeira de cabelos rosados, com um Chansey ao seu lado.
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